Política Internacional

Retrato de Luís Lavoura

Os Estados Unidos, que tanto gostam de promover a paz no Médio Oriente, especificamente promovendo contínuas conferências de paz entre Israel e os palestinianos, têm atualmente uma oportunidade de ouro para promover essa paz, desta vez fazendo acabar a guerra na Síria - a qual já causou muito mais vítimas do que todos os maus-tratos mútuos entre Israel e os palestinianos.

Não haverá de ser difícil. Os fautores da guerra estão identificados: a Arábia Saudita, os Emiratos Árabes Unidos, e o Qatar, que apoiam os rebeldes sírios (e estrangeiros que ao lado deles combatem) com dinheiro, armas e combatentes. Sobre todos esses países os EUA dispõem de fortes formas de pressão, dado que a segurança deles todos depende, em última instância, dos EUA. Com algumas ameaças simples os EUA poderão convencer esses três países a deixarem de apoiar os rebeldes.

Uma vez eliminado o apoio aos rebeldes, o exército sírio dará (Inshallah) cabo deles e a paz e a estabilidade voltarão à Síria, com amplos ganhos para todos. Porque um ditador como Assad pode ser muito mau, mas uma desordem inter-étnica como aquela que atualmente se verifica no Iraque é muito pior. E é para aí que a Síria caminha (ou já lá se encontra).

Retrato de Luís Lavoura

Uma coisa que desde o princípio me impressionou nas imagens sobre o alegado ataque com gás venenoso na Síria é a forma arrumadinha como nos são mostrados muitos corpos de pessoas pretensamente mortas por esse gás. Vemos dezenas de corpos alinhados em filas, salas apinhadas de corpos. Eu pergunto: pretende-se que as pessoas estavam todas juntas naquela sala e morreram todas naquela posição disciplinada? Ou aquilo que vemos é apenas uma montagem de corpos previamente encontrados alhures? E, se assim é, quem nos garante que essa montagem é fidedigna?

Outra coisa que me levanta suspeitas é que já li relatos sobre o holocausto nazi, nos quais se relata que os mortos por envenenamento com gás não ficam com um aspeto nada limpo nem perfeito: sob a ação do envenenamento, as pessoas a morrer soltam frequentemente as fezes e urina, ficando bastante sujas. É claro que o gás utilizado pelos nazis não era sarin, pelo que os sintomas serão eventualmente diferentes. Mas os corpos que nos mostram da Síria estão tão limpos que faz confusão...

Retrato de Luís Lavoura

É dificilmente crível que em países democráticos os chefes dos executivos (isto é, os presidentes ou primeiros-ministros) possam enviar tropas para fora do seu território para participarem em missões reais (isto é, sem ser em exercícios militares), sem terem antes que ter autorização parlamentar para esse efeito. Mas é isso que o presidente dos EUA tem repetidamente feito e que o presidente francês agora se prepara para fazer. O que mostra que a democracia ainda tem muito para andar nesses países e que as constituições deles talvez devessem ser alteradas.

Já agora, este é o tipo de coisas que se pode fazer num país com forças armadas profissionais mas que é bastante mais difícil de fazer num país (democrático) em que toda a população presta serviço militar. Essa é uma das desvantagens de forças armadas profissionais: elas prestam-se muito mais a guerras feitas contra a vontade da população.

Entretanto, louvo a dirigente partidária Marine Le Pen por ser uma das que claramente afirma que a guerra que o presidente Hollande quer fazer não é uma guerra dos franceses, é uma guerra contra a qual os franceses estão, é uma guerra com que ela não concorda.

Retrato de Luís Lavoura

A União Europeia, especialmente a Alemanha, anda a fazer um chinfrim porque descobriu que os serviços secretos americanos espiaram e escutaram os seus principais dirigentes.

Eu não vejo qual o motivo do escândalo. É evidente que os EUA são um país distinto e com interesses distintos dos da União Europeia. É portanto normal que se espiem mutuamente, com o objetivo de alcançarem vantagem nas negociações mútuas. Por que raio não haveriam os serviços secretos americanos de espiar os dirigentes da União Europeia?

Os serviços secretos não servem apenas para espiar inimigos. Servem também para espiar (potenciais) aliados e amigos. Porque também os amigos têm, ou podem ter, (alguns) interesses divergentes dos nossos.

A União Europeia deve deixar de fazer queixinhas e tratar mas é de aumentar a eficácia dos seus serviços de (contra)espionagem.

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A revista The Economist - que reflete fielmente a orientação da política externa britânica - anda às voltas como uma barata tonta. Depois de, há dez anos, ter apoiado entusiasticamente a invasão do Iraque pelos EUA, que foi a grande responsável pelo aumento da influência do Irão nos países a seu ocidente, na edição desta semana, numa tentativa desesperada de convencer os EUA a intervirem militarmente na Síria, lança um alerta lancinante sobre essa influência e pede aos EUA que o parem. Omite, convenientemente, que ajudar os rebeldes sírios será ajudar o fanatismo islâmico sunita patrocinado pela Arábia Saudita, que é como quem diz, será fornecer facas a quem nos quer degolar.

É esta a política externa dos fautores da guerra, dos fabricantes de armamento: ora ajudam uns ora ajudam outros, ajudando sempre quem não deve ser ajudado. A esta política eu contraponho a necessidade de uma política externa liberal, não intervencionista e não agressiva, que respeite todos os governos legítimos de todos os países e com todos eles negoceie e comercie de forma pacífica, sem procurar derrubar nem sustentar nenhum governo pela força das armas.

Mas compreendo que, para países cujas exportações são, em grande parte, de armamento, e em que a indústria bélica é uma das principais - não somente pela sua produção propriamente dita como também pela investigação de ponta que permite financiar - essa seja uma política insustentável.

Retrato de Luís Lavoura

Parece que, apesar do maciço apoio financeiro que, com o beneplácito do "Ocidente", a Arábia Saudita e o Qatar - países a diversos títulos altamente louváveis, e que merecem toda a nossa solidariedade - fornecem aos rebeldes sírios, em particular aos seus ramos religiosamente mais fanáticos, estes estavam a perder a guerra. Nos últimos tempos fazem-se, sintomaticamente, ouvir repetidos apelos para que os EUA intervenham de forma mais "musculada" em apoio aos rebeldes, nomeadamente com alegações de massacres e da utilização de armas de destruição maciça - alegações similares a outras que foram feitas anteriormente em casos similares, por exemplo o célebre massacre de Raçak no Kosovo, e as célebres armas químicas móveis de Saddam Hussein, e que depois das respetivas intervenções militares foi rapidamente demonstrado não terem passado de grosseiras invenções. Mas, como os EUA estão hesitantes, ou fingem estar, Israel avançou - com a tolerância e a cobertura prontamente fornecidas por Barack Obama em pessoa - com bombardeamentos cirúrgicos sobre Damasco, para que as tropas do regime percam temporariamente o seu fulgor.

A guerra civil síria parece-se cada vez mais, aos meus olhos, com a mal-afamada guerra Irão-Iraque, que durante toda a década de 1980 fez cerca de um milhão de mortos, com o encorajamento e a benevolência das potências mundiais que, gentilmente, ora forneciam armas a um dos países ora ao outro, com o objetivo de que eles pudessem continuar a sangrar-se mutuamente sem no entanto jamais alcançarem a vitória final, desta forma assegurando um escoamento para a produção de armamento do "Ocidente" e assegurando a conveniente reciclagem dos petrodólares pelo sistema financeiro ocidental. Com a intervenção armada israelita trata-se acima de tudo, parece-me a mim, de assegurar o prolongamento de uma guerra que o regime parecia estar a ganhar, assegurando que tanto o Irão - apoiante do regime - como a Arábia Saudita - apoiante dos rebeldes - continuarão a entornar petrodólares para essa guerra e a assegurar com ela o escoamento de armas. Assim dure a guerra civil muitos anos, pensa o "Ocidente" esfregando as mãos de satisfação. Pois que, para eles, entre o atual regime sírio e os seus opositores, venha o Diabo e escolha.

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Na década de 1980 os EUA introduziram uma importante inovação política no campo das democracias: a manutenção em funções de um presidente (Ronald Reagan) em estado de semi-senilidade e totalmente desconhecedor daquilo que a sua administração andava a fazer.

Agora a Itália introduz mais uma, e revolucionária, inovação: a manutenção em funções de um primeiro-ministro e de um governo derrotados nas eleições, por os partidos vencedores das ditas eleições se mostrarem incapazes de dar apoio parlamentar a um qualquer novo governo.

Naturalmente, todas estas inovações políticas têm uma utilidade. No caso de Ronald Reagan, tornou-se possível que a administração andasse em roda livre a desenvolver operações ilegais sem que ninguém pudesse ser responsabilizado. No caso italiano, os partidos vencedores das eleições descartam-se da incómoda tarefa de governar em tempos de vacas magras.

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Há dois anos, o amigo ocidental deu uma generosa ajuda ao povo da Cirenaica na sua rebelião contra o poder de Kadhafi instalado em Trípoli. Mas parece que o povo da Cirenaica não está agora tão grato assim: a cidade de Benghazi é atualmente considerada demasiado perigosa para um europeu.
Além de que a Líbia, dantes um país seguro e confiável, se transformou num vespeiro de grupos (bem) armados e de livre tráfico de armas, com consequências gravosas para os países próximos, por exemplo o Mali.

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A socialista Ana Gomes aplaude enfaticamente a intervenção armada da França no Mali.

Ana Gomes não nos explica, porém, de todo, quatro coisas.

(1) Como tem ela a certeza de que os rebeldes que combatem o governo do Mali são islamitas associados à Al Qaeda? Sabe-se que boa parte das forças rebeldes são tuaregues que apenas lutam por motivos nacionalistas (querem ter um Estado próprio). E sabe-se que há também islamitas. Mas não parece certo que os islamitas tenham mais importância ou mais poder que os tuaregues. Pelo contrário, sabe-se que já entraram em conflito, os islamitas com os tuaregues. Nem parece certo que os islamitas estejam necessariamente afiliados com a Al Qaeda - há muitos islamitas neste mundo que querem um poder islâmico mas não praticam terrorismo internacional.

(2) Se se quer combater os islamitas, porque se combate também os tuaregues? Não seria muito mais lógico apoiar os tuaregues na sua luta pela independência, e ajudá-los a dominar os islamitas que com eles se aliaram oportunisticamente? Porque se pretende manter um Estado maliano unitário que não tem qualquer coerência interna, que junta árabes no norte com negros no sul, que junta nómadas no norte com sedentários no sul, que não passa de uma consequência do colonialismo?

(3) Por que é que é nosso dever ir ajudar os malianos supostamente oprimidos pelo poder islamita? Há muitos povos por este mundo fora oprimidos por forças tirânicas, mas nós não invadimos os países deles para os ir libertar. Por que deveremos atuar diferentemente no caso do Mali? Em que é que o poder islamita no Mali é mais perverso e mais opressor do que tantos outros regimes que há por esse mundo fora? Que temos nós que nos irmos imiscuir nos problemas de uma população estrangeira alegadamente oprimida? Se há um povo oprimido, compete a esse povo manifestar a vontade de se libertar do opressor e, eventualmente, fazê-lo - não nos compete a nós.

(4) Em que é que um Estado islamita no Mali nos prejudicaria e colocaria a nossa segurança em risco? O Mali fica a muitos milhares de quilómetros da Europa. É um país muito pobre. Em que é que nos poderia pôr em risco? Não há medidas a tomar, aqui na Europa, que podem, de forma muito mais barata, impedir eventuais ameaças terroristas?

Retrato de Luís Lavoura

Doi-me quando vejo cidadãos de países pacíficos, como a Noruega e o Japão, serem postos em perigo devido à ação de um país imperialista agressivo como a França.

Acho bem que os islamitas ataquem cidadáos franceses e de outros países da União Europeia, mas não de países pacíficos e que não apoiam a brutalidade francesa.