Política Internacional

Retrato de Luís Lavoura

Vi ontem na televisão, com estes olhos que a terra há de comer, o ministro da Defesa francês afirmar, sem se rir, que a intervenção da França no Mali era também em autodefesa, em defesa dos países vizinhos, porque, segundo afirmou, o Mali não fica assim tão longe da França.

Este inacreditável argumento fez-me lembrar quando, na década de 1980, Reagan financiava uma guerra por procuração contra a Nicarágua, explicando aos americanos que da Nicarágua ao Texas são apenas 2000 quilómetros, pelo que urgia desde já eliminar esse inimigo antes que ele pudesse invadir o Texas.

É tão triste ver a França fazer figuras que julgávamos reservadas aos EUA.

Retrato de Luís Lavoura

Em 2001 os Estados Unidos da América (EUA) invadiram o Afeganistão para derrubar o regime fundamentalista islâmico que dominava esse país. Os EUA não tinham nada que se estar a imiscuir nos assuntos internos do Afeganistão mas podiam, pelo menos, argumentar em defesa da sua atuação com o ataque terrorista de que tinham sido alvo em setembro desse ano.

Agora a França, sem qualquer razão para alegar em sua defesa, resolveu imiscuir-se nos assuntos internos do Mali, enviando uma importante força militar para combater a insurgência islâmica no nordeste desse país - a qual insurgência nenhum mal tinha feito à França, nem se presumia que pudesse vir a fazer.

Eu estou em total desacordo com esta ação militar francesa. Nenhum país tem nada que ver com o regime político noutro país qualquer, nem deve através da força militar condicionar a evolução política de outro país. A ação militar francesa é tão condenável como a invasão do Afeganistão pela União Soviética em 1981, ou do Iraque pelos EUA em 2003.

(Tal como se esperaria, a eleição de François Hollande para presidente da França nada trouxe de novo à política desse país. É apenas vinho velho numa nova garrafa.)

Retrato de Igor Caldeira

Tornou-se moda, em Portugal, dizer-se que sem crise financeira mundial, Portugal não estaria na presente situação. Mentes fracas precisam de fracas desculpas, e a União Europeia, o capitalismo, a globalização e os mercados são bodes expiatórios perfeitos. Quem precisa de atalhos cognitivos para justificar uma desgraça encontra neles o objecto perfeito, como em outros séculos outros atribuíam terramotos a castigos divinos. 

 

Eu, que não acredito em deuses e acho que os bodes têm melhor serventia no reino animal que na análise política, prefiro olhar para a acção humana. No caso da presente crise financeira portuguesa, em particular, podemos dizer que esta crise era evitável? 

Não creio; a única coisa que acho é que a crise mundial apenas estugou o passo de uma desgraça que qualquer pessoa com dois dedos de testa já poderia prever há dez anos atrás (portanto, de fora ficam os militantes e dirigentes de todos os partidos portugueses, lamento dizer, e aqui está um estrutural problema do nosso país: a absoluta cretinice de quem decide por nós). 

 

A crise em que nos encontramos, tendo em conta a trajectória seguida nas últimas décadas (e particularmente na última década, desde 2000/2001) era apenas uma questão de "quando", não uma questão de "se" iria acontecer. 

E para provar isso apresento um caso hipotético relativamente simples (tremendamente complexo para qualquer apoiante da CGTP- IN, mas também presumo que nenhum lerá este blogue). 

 

No mundo Z, os países pedem empréstimos, mas não pagam juros (fora, portanto, com o malvado lucro e o capitalismo financeiro mundial). 
Neste mundo, o país Y tem, no ano X, um PIB de 100, uma despesa anual de  40, cobrando em impostos 37 e tendo uma dívida pública de 60. O país Y não pode privatizar nada nem obter receitas extraordinárias para cobrir o excesso de gastos: tudo o que gastar ou vem de impostos, ou vai para dívida.

Este país ainda, ano após ano, tem constantemente um crescimento económico de 1% e um déficit de 3% do PIB. 

Crescimento 1%, Déficit 3%









  PIB Despesa Receita Dívida Despesa%PIB Receita%PIB Dívida % PIB Deficit % PIB
Ano X 100,00 40,00 37,00 60,00 40 37 60 3,00
Ano X+1 101,00 41,20 38,17 63,00 41 38 62 3,00
Ano X+2 102,01 44,26 41,20 66,03 43 40 65 3,00
Ano X+3 103,03 47,35 44,26 69,09 46 43 67 3,00
Ano X+4 104,06 50,47 47,35 72,18 49 46 69 3,00
Ano X+5 105,10 53,63 50,47 75,30 51 48 72 3,00
Ano X+6 106,15 56,81 53,63 78,46 54 51 74 3,00
Ano X+7 107,21 60,03 56,81 81,64 56 53 76 3,00
Ano X+8 108,29 63,28 60,03 84,86 58 55 78 3,00
Ano X+9 109,37 66,56 63,28 88,11 61 58 81 3,00
Ano X+10 110,46 69,87 66,56 91,39 63 60 83 3,00
Ano X+11 111,57 73,22 69,87 94,70 66 63 85 3,00
Ano X+12 112,68 76,60 73,22 98,05 68 65 87 3,00
Ano X+13 113,81 80,01 76,60 101,43 70 67 89 3,00
Ano X+14 114,95 83,46 80,01 104,84 73 70 91 3,00
Ano X+15 116,10 86,94 83,46 108,29 75 72 93 3,00
Ano X+16 117,26 90,46 86,94 111,77 77 74 95 3,00
Ano X+17 118,43 94,01 90,46 115,29 79 76 97 3,00
Ano X+18 119,61 97,60 94,01 118,84 82 79 99 3,00
Ano X+19 120,81 101,23 97,60 122,43 84 81 101 3,00
Ano X+20 122,02 104,89 101,23 126,06 86 83 103 3,00
Ano X+21 123,24 108,58 104,89 129,72 88 85 105 3,00
Ano X+22 124,47 112,32 108,58 133,41 90 87 107 3,00
Ano X+23 125,72 116,09 112,32 137,15 92 89 109 3,00
Ano X+24 126,97 119,90 116,09 140,92 94 91 111 3,00
Ano X+25 128,24 123,75 119,90 144,73 96 93 113 3,00
Ano X+26 129,53 127,63 123,75 148,58 99 96 115 3,00
Ano X+27 130,82 131,56 127,63 152,46 101 98 117 3,00
                 

Os números, não os escolhi ao acaso, apesar dos xizes, ípsilones e zês: são valores aproximados da situação portuguesa no início do século XXI. 

Ora, que vemos nós?

Que, mesmo sem as malvadas finanças internacionais, este país estava condenado ao sobreendividamento. Em 6 anos a metade do rendimento dos cidadãos seria taxado. Em 19 anos a dívida atingiria os 100% do PIB. E em 27 anos o comunismo seria atingido, com a totalidade da riqueza nacional detida pelo Estado. 

 

Ora, a última vez que em Portugal houve um orçamento superavitário foi em 1973. Não houve nenhum governo, provisório, improvisado ou permanente, com o PCP, o PS, o PSD ou o CDS, que tenha tido finanças públicas equilibradas. Como nenhum partido português alguma vez pôs em causa o modelo de défice permanente, só podemos concluir que esta situação dificilmente seria evitável. 

Dificilmente? Mas então podia acontecer ter défices e ainda assim não falir? Sim. Com taxas de crescimento económico da ordem dos 5 a 7,5%  (que, manifestamente, não temos nem temos tido nas últimas décadas). De facto, neste país Y, com uma taxa de crescimento económico permanente superior a 5% a dívida pública até diminuiria (embora, por questões que não vale a pena referir, a despesa continuaria aumentar - algo que também tem de ter o seu limite, porque no mundo real há limites para o crescimento económico quando o Estado taxa uma proporção demasiado elevada da riqueza nacional). 
 

Em resumo: deixemo-nos de merdas, deixemos de culpar a UE, Wall Street, a Alemanha, a Merkel, os Illuminati ou o Pato Donald. A culpa de estarmos nesta situação é nossa, só nossa e de mais ninguém.

Retrato de Luís Lavoura

Entretanto, foi recebida na semana passada sem surpresa, mas quase não foi focada em Portugal, a notícia da morte (de causa não divulgada) do ditador da Etiópia, o primeiro-ministro Meles Zenawi.

Trata-se de uma personalidade de quem não convem falar muito no "Ocidente", de quem era um grande favorito apesar de ter sido um ditador genuíno. (Tal como por exemplo o seu vizinho do Ruanda, o sr. Paul Kagame.) Ao "Ocidente" só convem falar dos outros ditadores, aqueles de quem não se gosta, como por exemplo o sírio sr. Assad.

Enfim, morreu mais um ditador apoiado pelo "Ocidente". Que a terra lhe seja leve, mas que a memória não o olvide.

Retrato de Luís Lavoura

O presidente da Comissão Europeia, Furão Burroso, é tão ridículo e inútil que não sei se deva rir, se chorar.

Ontem deu-lhe para perorar que a União Europeia não aceita receber lições de democracia de ninguém, isto é, de nenhum dos seus parceiros no G20. Eu acho muito bem que a União Europeia não receba lições de democracia - mas então, também não as dê aos outros!

Em vez de se armar ao pingarelho e se pôr a dar lições de superioridade democrática aos outros países, o sr Burroso deveria enxergar-se, perceber a sua crescente irrelevância, e manter-se calado para evitar ser ridículo.

Retrato de Luís Lavoura

Os países "ocidentais" andam muito excitados com um massacre que ocorreu na cidade síria de Houla. Aparentemente esse massacre terá sido cometido por uma milícia pró-governamental e com o apoio ou cumplicidade do exército sírio.

Eu gostaria de lembrar que, há não tantos anos atrás, os países "ocidentais" também se sobre-excitaram com um massacre que ocorreu na localidade kosovar de Racak. Esse massacre foi repetidamente apresentado nos mídia "ocidentais" como obra do exército sérvio. Esse massacre serviu de justificação e motivação direta para uma guerra lançada pelo "Ocidente" contra a Sérvia. O resultado dessa guerra foi a transformação do Kosovo num protetorado do "Ocidente" - protetorado que tem sido tudo menos elogiado pelo que lá ocorre. Depois da guerra o massacre de Racak foi investigado e chegou-se à conclusão de que não tinha sido obra do exército sérvio.

É preciso que se saiba que os Estados, para avançar os seus interesses, mentem, e que contam nas suas mentiras, frequentemente, com o apoio deliberado de mídia servis.

Que ocorreu um massacre em Houla, tenho poucas dúvidas. Que ele tenha sido cometido pelas forças sírias, já tenho bastantes dúvidas.

Quero também fazer notar que está em curso na Síria uma guerra, na qual ambos os lados estão armados. Nos últimos dois dias o exército sírio foi alvo de fortes ataques das forças rebeldes e sofreu muitas baixas. Não é somente o regime sírio que está armado e que comete atrocidades.

Retrato de Luís Lavoura

O ministro dos Negócios Estrangeiros português, Paulo Portas, fez ontem ao Conselho de Segurança das Nações Unidas uma proposta que me parece muito perigosa.

Ele pediu que o Conselho de Segurança enviasse para a Guiné-Bissau uma força militar com o objetivo de rechaçar o recente golpe de Estado militar nesse país.

Ora, pergunto, qual o estatuto de uma tal força, e a justificação para a sua existência?

De facto, na Guiné-Bissau não há atualmente qualquer conflito militar que precise de ser intermediado ou parado. Não há violência (de monta) na Guiné-Bissau, ninguém é ferido ou morto, não há torturas nem outras violações dos direitos humanos. Então, como se justifica uma atuação que seria, para todos os efeitos, uma invasão da Guiné-Bissau?

Com que mandado iria uma força internacional para a Guiné-Bissau? Para fazer o quê? Para re-instalar no poder as pessoas que lá estavam? Mas por quê? Para impôr uma democracia à força? Mas tal coisa é possível?

Será que não foram aprendidas as lições das desastradas intervenções militares dos Estados Unidos na Somália, nos anos 90, e no Iraque e no Afeganistão, mais recentemente?

Ou será que Paulo Portas pretende prosseguir na Guiné-Bissau a "guerra à droga" de mau efeito?

A Guiné-Bissau é um país independente. Por pior que ela seja (des)governada, deve permanecer isso mesmo. Nada justifica a proposta de Paulo Portas.

Retrato de Luís Lavoura

O rei de Espanha foi apanhado a caçar elefantes no Botsuana.

Isto é problemático não só por ele ser rei de Espanha, como por ser presidente da secção espanhola do WWF, uma associação internacional para a conservação da natureza.

Sejamos claros: em termos de conservação da natureza, aquilo que o rei fez nada tem de mal, bem pelo contrário. A espécie "elefante" no sul da África está bem e recomenda-se, fruto de uma cuidadosa política conservacionista. A espécie tem tendência a aumentar em número, tanto que é necessário proceder a caçadas para evitar a sua multiplicação exagerada - que seria problemática, não só para as populações humanas, que correm o risco de ser atacadas por esses animais, como para a flora e restante fauna, dado que os elefantes consomem toneladas. As caçadas ao elefante são portanto um negócio benéfico, tanto para a natureza como para os países que dessa forma adquirem recursos com os quais financiar as suas políticas consevacionistas.

Já do ponto de vista da Espanha (e do seu ponto de vista pessoal), a escolha do rei é de bastante mau gosto. O rei é um homem idoso, que se deveria dedicar, em sua própria casa, a desportos mais ativos do que dar ao gatilho, evitanto viagens aventurosas a locais longínquos. E Espanha não está com orçamentos para andar a esbanjar em caçadas no Botsuana. Em tempos de austeridade, o rei deveria dar o exemplo ao seu povo, evitando férias dispendiosas no estrangeiro.

Talvez um cortezinho no orçamento que Espanha dedica à manutenção da sua casa real fosse adequado.

Retrato de Tiago Neves

“As economias ocidentais não agem de forma muito diferente do esquema de Madoff e os governos tornaram-se escravos dos mercados em que eles se tornaram dependentes. Alguns aspetos do sistema económico nos países industrializados assemelham-se a um gigantesco esquema Ponzi. A diferença é que esta versão é completamente legal.

Desde o aparecimento da banca comercial do sec. XIV em Itália, até aos atuais governos, o historiador britânico Niall Ferguson vê a invenção da dívida pública como "a maior revolução no mundo econômico", após a introdução do crédito pelos bancos e que serviu como base para a Ascensão do Dinheiro (também o nome da série televisiva do autor).

Sem incentivo para a responsabilidade, desde então, o Estado tem sido capaz de imprimir constantemente novos títulos, que ele usa para substituir os antigos. Dívidas não são pagas, mas "refinanciadas". Em outras palavras, eles são passados para as gerações futuras. Este truque seduz governos em tratar suas finanças com menos solenidade, e priva-as de qualquer incentivo para viver dentro de suas possibilidades.

Estes governos também forneceram como garantias: Bancos, poupanças e seguradoras, os principais compradores de títulos soberanos europeus, e não são obrigados a garantir o seu capital próprio (p. ex. território), ao contrário de empréstimos de particulares ou empresas. Os títulos têm sido tratados como "especialmente seguro" - pelo menos até agora. O Estado cria a ilusão da liberdade do risco para satisfazer sua autoindulgência.

Os governos têm invocando John Maynard Keynes, o grande economista britânico, para justificar o dinheiro emprestado que usam para estimular a economia, e ainda assim têm constantemente ignorando a consequência desagradável da equação: pagar a dívida.

Os políticos ficam todos muito felizes ao aderir a este padrão de comportamento, enquanto ao mesmo tempo, impiedosamente tiraram vantagem disso. A expansão serve principalmente um propósito: para justificar a existência de um governo.

Não é tanto uma questão de colocar um fim a especuladores ou penalizar as agências de rating. Escaramuças tais são apenas uma distração da responsabilidade que os políticos recorrem quando incorrem constantemente a novas dívidas para cobrir a dívida antiga. Mas é também da responsabilidade dos eleitores premiar tal comportamento, e dos bancos por consistentemente estarem dependentes do governo para socorrê-los sempre que desperdiçam dinheiro.”*

Quando em tempos idos as guerras externas justificavam a intervenção militar para reaver o dinheiro emprestado, que foram progressivamente substituídas pelo poder coercivo de deixar de emprestar aos Estados endividados, podemos estar de novo prestes a assistir a uma guerra convencional em que o país invasor visa assegurar pela via militar, o plano económico que já perdeu.

Falo de um virar de página no livro da História. Por coincidência, no dia em que é revelada a notícia do início de uma quimera com macacos rhesus - mistura de embriões produzindo apenas um animal que tem células provenientes dos diferentes embriões, com ADN diferente** -, termina a quimera que manteve juntos, desde os anos 70, a China e os USA (Chimerica - neologismo de Niall Ferguson). Com a retirada dos USA do Iraque e a redução de efetivos do Afeganistão, à que empregar o excedente de recursos militares. Em reação, assistimos ao intensificar da tensão no estreito de Ormuz, e hoje é publicada a notícia de que os USA redirecionam o seu interesse estratégico militar para a Ásia pelos desafios colocados por uma China em ascensão económica e militar***.
 

Fontes -

* Adaptado de http://www.spiegel.de/international/world/0,1518,806772-2,00.html

** http://www.publico.pt/Ci%C3%AAncias/nasceram-em-laboratorio-as-primeiras-quimeras-de-macacos--1527787
*** http://www.publico.pt/Mundo/barack-obama-quer-forcas-americanas-mais-ageis-e-de-atencoes-viradas-para-a-china-1527811

Retrato de Luís Lavoura

O Iraque dantes tinha Saddam Hussein, um ditador que, volta e meia, quando os xiitas ou os curdos se portavam mal (digamos assim), matava uns tantos deles para servir de exemplo. Roubava um bocado, como todos os ditadores (mas os democratas também roubam!), mas o país funcionava, era previsível, era progressivo enquanto os Estados ocidentais não o boicotavam, e tinha as vantagens de ser laico e respeitador dos direitos das mulheres.

Hoje, depois das aventuras e desventuras dos ianques, o Iraque tem um terrorismo a esmo - só ontem foram mais 78 iraquianos inocentes (xiitas) ceifados por bombas cegas. A democracia iraquiana não funciona, é dominada pelo facciosismo religioso, o Estado deixou de ser laico e as mulheres são reprimidas.

Tenho a impressão de que Saddam era preferível. Até mesmo para os xiitas comuns (que não para os seus líderes que agora se banqueteiam com o poder).