Política Portuguesa

Todos os posts que tenham de alguma forma a ver com política em Portugal.
Retrato de João Mendes

 

Também publicado no Cousas Liberaes.)

 

O modelo de desenvolvimento económico em Portugal tem assentado primordialmente no investimento público infra-estrutural e em subsídios de ordem vária, como forma de fomentar o investimento privado, bem como na mão-de-obra barata. O Estado mantém uma panóplia de participações (incluindo ‘golden shares’) em empresas de sectores considerados estratégicos, bem como algumas empresas públicas, como por exemplo a TAP ou a CGD. A CGD, por sua vez, detém participações um pouco por todo o lado.

 

O discurso político tem-se virado muito, também, para o fomento das pequenas e médias empresas, apresentadas como motor do crescimento económico. O Estado cria programas de apoio às PMEs, para estas começarem a exportar os seus produtos e a formar os colaboradores da empresa. O ‘choque tecnológico’ do actual Governo tem levado também à subsidiação das energias renováveis e ao investimento público na investigação científica.

 

Este modelo de desenvolvimento económico tem de ser alterado. Dez anos de empobrecimento relativo mostraram claramente as falhas de um modelo de desenvolvimento em que as empresas sobrevivem não por serem bem sucedidas junto dos consumidores finais, mas sim porque conseguiram este ou aquele subsídio estatal. Não se encontra em Portugal uma cultura de inovação e de risco, mas sim a emigração em massa das pessoas da minha geração.

 

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E porque não devem elas emigrar? O que as deve prender a um país em que, procurando o primeiro emprego, são confrontadas com empresas que pretendem pessoal altamente qualificado a quem depois oferecem o salário mínimo? O que as deve prender a um país em que o seu primeiro emprego será num ‘call centre’, com falsos recibos verdes, porque é demasiado caro e arriscado contratá-los com um contrato de trabalho/despedir indivíduos que se pretenda despedir?

 

Quem fala dos jovens que emigram, fala também de potenciais investidores estrangeiros. Olham para Portugal e vêem um país em que o sistema fiscal é excessivamente complexo, o sistema de justiça é excessivamente lento, as leis laborais são excessivamente rígidas, e há uma quantidade excessiva de burocracia. É certo que tem havido alguns progressos no campo da burocracia (o ‘licenciamento zero’ é uma boa ideia, por exemplo), mas sempre que se fala de alterações de vulto noutras áreas, cai o Carmo e a Trindade e fica tudo na mesma.

 

Portugal precisa de alterar o seu modelo de desenvolvimento económico. Temos de formar, ou atrair, gestores profissionais, que procurem atrair os melhores para as empresas que gerem através de melhores condições de trabalho e salários mais elevados. Quem deve decidir sobre o valor das empresas são os consumidores, através das suas escolhas, e não o Estado, através de subsídios. Desta forma, as empresas teriam de competir umas com as outras por clientela, o que fomentaria a eficiência no mercado.

 

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O Estado deve intervir como regulador, destruindo cartéis e promovendo a concorrência, regulando convenientemente monopólios, mantendo um sistema de justiça funcional e garantindo uma educação de qualidade a todos. As ‘golden shares’ têm de acabar, substituídas por uma diminuição das barreiras à entrada nesses mercados e melhor regulação dos mesmos. As nossas entidades reguladoras independentes têm de ser levadas a sério, e ter os poderes e meios necessários para garantir que as regras do jogo são cumpridas.

 

As associações de empresas e os sindicatos têm de levar a sério as suas funções, e começar a promover programas de formação de qualidade, independentemente da intervenção do Estado. Aliás, as próprias empresas, individualmente consideradas, terão de passar a ver a formação como um investimento, não como um simples custo. São as empresas que estão em melhores condições para, a cada momento, saber quais as competências deveriam ser desenvolvidas, pelo que são também estas que estão nas melhores condições para contratar cursos de formação que respondam as essas necessidades.

 

Os programas de privatização vieram por ser financeiramente incomportável para o Estado manter tantas empresas ‘em carteira’ e, no início dos anos 90, também devido aos esforços da União Europeia nesse sentido, no âmbito da criação do Mercado Único. Infelizmente, talvez por nunca serem verdadeiramente enquadrados na criação de um novo modelo de desenvolvimento, as nossas privatizações foram feitas sem verdadeiros planos para salvaguardar o bom funcionamento dos mercados pós-privatização. Privatizações futuras devem sempre ter este ponto em atenção, em vez de se criarem as agora tristemente famosas ‘golden shares’.

 

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Não devemos ter medo da globalização. Eu sei que compito neste momento num mercado cada vez mais global e, no mínimo, num mercado europeu. Como eu, todos nós nos encontramos neste momento a competir neste mercado, e isso significa mais oportunidades para cada um de nós. Devemos preparar-nos para o mundo global em que vivemos, e o Estado deve ter essa componente em atenção nas suas políticas educativas e económicas.

 

Também as empresas não podem ter medo da globalização, e encará-la, sim, como uma oportunidade expansão para novos mercados. Os portugueses não são piores que os outros por definição, como o provam as histórias de sucesso internacional que vão aparecendo nos meios de comunicação social. O que os portugueses precisam é que o Estado português descubra isto mesmo, e acabe com a sua política actual de subsidiação em massa, levando a cabo as célebres reformas estruturais de que muito se fala mas que, infelizmente, pouco se concretizam, e deixar de penalizar a nossa economia com constantes défices e um nível excessivo de dívida.

 

O empobrecimento relativo de Portugal não é uma fatalidade. Portugal pode passar a ter uma economia competitiva e assente na qualidade, e não apenas na mão-de-obra barata. Para que isto aconteça, tem de haver uma mudança de paradigma nas políticas de desenvolvimento económico levadas a cabo pelo nosso Estado. Esta mudança é possível, viável, desejável e, espero, concretizável em tempo útil.

Retrato de João Mendes

 

(Também publicado no Cousas Liberaes.)
 
As Presidenciais

Não tinha candidato que apoiasse nestas eleições presidenciais. Não concordo politicamente com Aníbal Cavaco Silva e não considero que a sua Presidência tenha sido particularmente inspiradora. Pior, o ridículo "Caso das Escutas", bem como ambas as conferências de imprensa, só serviram para deitar por terra qualquer possibilidade que houvesse de apoiar a sua recandidatura. 
 
Manuel Alegre
 
Infelizmente, Manuel Alegre decidiu avançar de novo, desta vez com o apoio do BE. O PS, ao fim de algum tempo, e claramente a contra-gosto para muita gente dentro do próprio PS, lá o apoiou oficialmente. Com isto, acabou por não surgir de dentro do PS um candidato sério. O facto do PS apoiar oficialmente Manuel Alegre, depois de não o ter feito nas eleições anteriores, é para mim um insulto do PS ao país. Um partido como o PS, com aspirações governativas, ao decidir apoiar um candidato numa eleição presidencial, deve apoiar um candidato que percebe minimamente, pelo menos, aquilo que faz um Presidente da República, e que tem um mínimo de preparação para a função. Manuel Alegre não tinha, claramente, estas características.
 
Primeiro, Manuel Alegre esteve décadas no Parlamento e nada de relevo lá fez. Nada. Zero. Não se conhece uma única iniciativa a que se tenha verdadeiramente associado, e fica-se com a impressão de que nada fez nessas várias décadas enquanto deputado.
 
Segundo, não se sabe o que defende, verdadeiramente, Manuel Alegre. Falar de defesa do "Estado Social" e da "democracia", numa campanha que parecia saída dos tempos do PREC, não significa nada. Principalmente quando se fala da solvência financeira do dito "Estado Social" e Manuel Alegre parecia mais que feliz em manter todas as políticas que resultaram no quadro actual de crise financeira do Estado. Claro que, no meio disto tudo, o candidato Manuel Alegre se recusou a explicar o que faria ao Orçamento do Estado para 2011 se fosse Presidente. 
 
Isto, aliás, é consentâneo com a actuação de Manuel Alegre enquanto deputado. Os seus ataques contra o Governo, marca da sua "independência", eram sempre inconsequentes. Não ia a votações cruciais. Aproximava-se do Bloco de Esquerda, mas disso só saiu um apoio do Bloco de Esquerda à sua segunda candidatura à Presidência. (E no fim de tudo, tão independente era Manuel Alegre em relação ao PS, que aceitou o apoio do PS nestas eleições, mesmo pelo meio de críticas a todo o tipo de políticas seguidas precisamente pelo partido que o apoiou...!)
 
Em 2006, Manuel Alegre apresentou-se como independente, com um discurso anti-partidos que foi claramente eficaz na altura. Poucos se pareciam lembrar da ligação íntima de Manuel Alegre ao PS, e este conseguiu ter mais votos que o candidato oficial do PS, Mário Soares. Em êxtase, Manuel Alegre decidiu candidatar-se de novo este ano. Com o apoio do BE. E do PS. Interessantemente, sem o discurso anti-partidos da sua última campanha. Curiosidades.
 
No lugar desse discurso, tivemos direito a uma campanha extremamente negativa, com ataques permanentes a Cavaco Silva (todos os dias surgia um novo ataque, a tudo o que era dito por Cavaco), e com o episódio absurdo da sugestão da paragem da campanha para o Presidente ir "salvar" o país da entrada do FMI e dos seus credores. De tal forma absorto estava Manuel Alegre nos seus ataques, que claramente se notava que ia ao sabor do vento. Por um lado, falava de políticas concretas que criticava (enquanto o Governo as propunha) e de que o Presidente não tinha intervindo o suficiente, por outro, acabou a dizer que o Presidente tem é de cooperar com o Governo. Andámos nisto, e no Caso das Acções, e no Caso das Permutas... Sobre a crise, pouco. Muito pouco. Cavaco Silva falou de pobreza, foi acusado de a explorar politicamente - e com isso, acabámos por não debater verdadeiramente esse flagelo social...
 
Aníbal Cavaco Silva
 
Cavaco Silva, entretanto, recusou-se sempre a prestar explicações relativamente aos Casos das Acções e das Permutas. É evidente que eram casos de insinuações, de puros levantamentos de suspeitas, em que nem sequer se percebia bem aquilo de que Cavaco Silva estava verdadeiramente a ser acusado. Já ouvi vários comentadores a dizer que este género de campanhas só ajuda a destruir a credibilidade das nossas instituições, e eu concordo. Mas continuo a considerar que Cavaco Silva geriu mal estas acusações, e que esteve mal ao referir-se a elas no seu discurso de reeleição. Ao referir as pessoas constantemente a documentação que nada explicava, Cavaco Silva apenas conseguiu aumentar o espectro de suspeitas que sobre si pairava. 
 
O Presidente agora reeleito tentou ainda falar do Mar, da criação de um Ministério do Mar, tentando explicar a sua ideia estratégica para o país - que parece ser a de que o país deve (continuar a) meter água. Decidiu ainda atacar a flexibilização laboral (tema de um futuro artigo neste coluna), e acabou a propor um imposto sobre os ricos para que não tivesse de haver cortes salariais para a Função Pública, num claro "piscar de olho" à Esquerda, enquanto esta procurava, vorazmente, caracterizar Cavaco Silva como um terrível "neo-liberal" (um disparate pegado - de liberal, Cavaco Silva tem muito pouco, e de "neo", ainda tem menos).
 
Fernando Nobre
 
Chegamos a Fernando Nobre. Tinha grandes esperanças para Fernando Nobre. É uma pessoa pela qual tenho bastante consideração, devido ao seu trabalho na AMI, que é uma boa amostra daquilo que a sociedade civil consegue fazer por si quando se organiza devidamente. Mas Fernando Nobre desiludiu-me.
 
Fernando Nobre fez uma campanha, não para Presidente, mas para a Assembleia da República e para Primeiro-Ministro. Aquilo que propunha nada se relacionava com os poderes, reais, do Presidente da República, que aliás ignorou ou parecia não conhecer verdadeiramente. Prometer planos estratégicos para daqui a um ano, além disso, não é suficiente. Se queria falar desses planos, devia tê-los apresentado agora. Acabaria por usar a candidatura à Presidência para apresentar uma espécie de programa de Governo, mas teria sido preferível ficar a falar de generalidades. (E muito preferível a falar de lhe darem tiros na cabeça, ou de ir à 2a. volta.)
 
O bom resultado de Fernando Nobre deve-se muito à sua verdadeira independência em relação aos partidos e ao seu trabalho na AMI. O tempo dirá se Nobre vai conseguir cristalizar esse apoio num projecto político consistente, ou se o deseja efectivamente fazer.
 
Francisco Lopes e Defensor de Moura
 
Francisco Lopes foi o candidato do PCP. Falou do programa do PCP, que agora se traduz numa espécie de conservadorismo económico (proteccionismo a que se juntam nacionalizações, mantendo-se, pelo que percebi, o pequeno comércio em mãos privadas). Faltou perguntarem-lhe se a sua candidatura "patriótica e de esquerda" era uma candidatura "nacionalista e socialista". A resposta seria, eventualmente, uma repetição da cassete. Mas poderia ser, eventualmente, mais engraçada.
 
Defensor de Moura existiu nesta campanha para dizer que era a favor da regionalização e fazer ataques a Cavaco Silva. Portanto, existiu para pouco mais que nada. Ficou em terceiro na câmara municipal a que presidiu antes de ser deputado na Assembleia da República, e ficou atrás dos votos nulos a nível nacional. Ficou em último. E mereceu, porque nada acrescentou de relevante à campanha.
 
José Manuel Coelho
 
Finalmente, falemos de José Manuel Coelho. Teve uma votação à volta de 4,5% dos votos a nível nacional (mesmo assim, teve menos votos que os votos em branco), numa candidatura marcada pelo tom satírico aperfeiçoado na Madeira (atenção aos 39,01% de votos que Coelho obteve na Madeira, que lhe deram o segundo lugar nessa região!). Pessoalmente, gostei da candidatura. Achei piada ao tom satírico que adoptou, com a distribuição de batatas em Gondomar (armazenadas em sacos azuis de Felgueiras) e oferta de submarino de plástico a Paulo Portas.

Não votei em José Manuel Coelho, mas conheço quem tenha votado. E o nível de votação de Coelho no Continente deve ser analisada com atenção, porque representa um claro voto contra o sistema, um claro voto de protesto. Foi o mérito desta candidatura, e é importante que se retirem as devidas ilações deste resultado.

 
A noite eleitoral 
 
Aníbal Cavaco Silva foi reeleito Presidente da República e falou da sua honra e de ser o Presidente de "todos os portugueses".
 
José Sócrates veio apelar à cooperação institucional.
 
Pedro Passos Coelho veio lembrar que a eleição para Presidente não é uma eleição para a Assembleia da República e não se relaciona com a eleição de um governo.
 
Paulo Portas veio dizer que os Portugueses tinham rejeitado o Governo.
 
Francisco Lopes e Jerónimo de Sousa praticamente clamaram vitória. 
 
Francisco Louçã atacou o PSD e o CDS-PP, que já "afiavam as facas" para chegar ao Governo, falando da maioria, Governo e Presidente que Sá Carneiro desejava. Ao mesmo tempo, apelava a que houvesse uma Esquerda forte... Eventualmente para ter uma maioria, um Governo e um Presidente.
 
A abstenção venceu a eleição (campanha para a reeleição de um Presidente, conjugada com esta campanha específica, conjugada com este leque de candidatos, não auguravam nada de bom para este número), e os votos nulos e brancos foram mais do que as votações em certos candidatos. Como disse Rui Rio, os votos de José Manuel Coelho são votos de protesto, e, no Continente, quase que devem ser acrescentados aos votos brancos e nulos nesse sentido.
 
Claramente, Cavaco Silva foi reeleito, mas não entusiasmou ninguém. Veremos como será a sua "magistratura activa". Esperemos que seja melhor que a anterior.
 
A confusão

Não podia acabar um artigo sobre estas eleições sem mencionar a confusão que houve relativamente aos cartões de cidadão. Sobre isso já foi emitido comunicado da CNE (http://www.cne.pt/index.cfm?sec=0201000000&NewsID=148). 
 
Para uma explicação do que aconteceu, poderá ler este artigo do Expresso.
 
É péssimo que isto tenha ocorrido, e tem que se apurar responsabilidades. É ainda necessário garantir que não se torna a repetir. Temos de garantir que todos conseguem, efectivamente, exercer o seu direito de voto. É o mínimo que se exige numa democracia representativa como a nossa.
Retrato de Luís Lavoura

O sentido do meu voto está decidido.

 

Para ele muito contribuem as más prestações de todos os outros candidatos (com exceção de Francisco Lopes), os quais, todos eles, me parecem estar já um tanto senis. Nesta campanha faz-se sentir, como nunca, o erro que é pedir (implicitamente) que o Presidente da República seja um cidadão de idade proveta. É para mim claro, no discurso dos candidatos, que Lopes e Coelho são os únicos que ainda estão no seu prazo de validade.

Retrato de Miguel Duarte

Um artigo interessante do Público.

Não compreendo esta aversão ao FMI. Neste momento pedir a ajuda do FMI seria claramente um bom negócio para Portugal, dado que os juros estão elevadíssimos e não existe qualquer sinal que venham a baixar nos próximos tempos. Pior, se a taxa de juro que Portugal paga não baixar nos próximos tempos, a situação só vai piorar e o risco de incumprimento aumentar ainda mais. Ou seja, sem FMI só por um milagre os juros da dívida vão baixar...

Retrato de Luís Lavoura

Parece que o governo está mesmo interessado em exportar um militante do PSD para o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem. Talvez porque esse militante incomode demasiado por cá ou, mais provavelmente, por critérios de partilha do bolo entre os dois partidos do centrão. Leia-se uma descrição da pouca-vergonha e do descaramento em

 

http://jugular.blogs.sapo.pt/2416684.html.

Retrato de Luís Lavoura

Nos últimos tempos tem-se falado muito de uma possível remodelação do governo e dos possíveis ministros a mudar.

 

Eu tenho uma sugestão simples e deveras minimalista: mudem a ministra da Saúde, voltem a pôr lá o Correia de Campos. E mudem a ministra da Educação, voltem a pôr lá a Maria de Lurdes Rodrigues. É que, está mais que provado que os dois ministros anteriores eram muitíssimo melhores do que as atuais.

 

(A remodelação poderia muito apropriadamente ser anunciada ao país no dia 24 de Dezembro pelo meio-dia, por forma a não dar azo a inúteis discussões.)

Retrato de Luís Lavoura

O sistema eleitoral português para a Assembleia da República sofre de um problema crónico: os erros no recenseamento eleitoral.

 

É bem sabido que o recenseamento eleitoral está cheio de erros, nomeadamente cidadãos já falecidos mas que ainda constam das listas, e cidadãos emigrados mas que ainda constam das listas do seu distrito de origem. Estes erros provocam correspondentes erros na atribuição do número de deputados a cada círculo (isto é, distrito) eleitoral.

 

Pior distorção ainda é a que ocorre com os círculos eleitorais da emigração, em que a um número reduzidíssimo de eleitores recenseados, e ainda muito mais reduzido de efetivos votantes, corresponde um número fixo de deputados.

 

Há um método bem simples, parece-me, de emendar estes erros sem introduzir outras distorções no sistema eleitoral. Basta, em cada eleição para a Assembleia da República, atribuir, a posteriori (isto é, a seguir às eleições), um número de deputados a cada círculo eleitoral correspondente ao número de eleitores desse círculo que efetivamente votou. Ou seja, após terem sido contabilizados todos os votos, contar-se-ia o número de votantes em cada distrito, e seria em função desse número que seria atribuído a esse distrito um certo número de deputados.

 

Ou seja, o número de deputados eleitos pelo círculo de, por exemplo, Vila Real, deixaria de depender do número de pessoas (vivas, falecidas ou emigradas) recenseadas nesse distrito, para passar a depender apenas do número de pessoas (recenseadas por esse círculo) que efetivamente votaram.

 

Trata-se de uma proposta simples e equitativa: assim como o número de deputados por partido é fixado em função do número de votantes nesse partido, também o número de deputados por distrito seria fixado em função do número de votantes desse distrito. O número total de deputados (230) não variaria, apenas a sua distribuição por distritos seria dependente do escrutínio eleitoral.

Retrato de Miguel Duarte

Acho irónico como os sindicatos por vezes parecem lutar para que aconteça aquilo que querem evitar.

Hoje com a greve geral estão a dar mais um contributo para que o FMI intervenha em Portugal e para que tudo aquilo que dizem não querer aconteça ainda em mais larga escala.

Para mim este tipo de acções contraditórias demonstra como o sindicalismo está desfasado da realidade económica que o rodeia.

Retrato de Miguel Duarte

No meu post anterior fui acusado por um "anónimo" de apontar como solução para a crise as medidas do costume.

Eu tenho uma certa curiosidade em saber que outras medidas se podem tomar, pois só vejo dois cenários e o primeiro parece-me apesar de tudo o melhor:

Cenário 1 - Portugal mentém-se no Euro e adopta medidas de restrição orçamental e de relançamento da competitividade que permitam equilibrar as contas públicas e contas nacionais. Assumimos como país, que o crescimento terá necessáriamente que ser feito com base nas exportações e que teremos que tornar o país novamente atraente para o investimento. Dado estarmos no Euro, o modelo de desenvolvimento terá necessáriamente que basear-se em sectores de valor acrescentado elevado em que a concorrência dos países de mão-de-obra barata não se faça sentir tanto. Durante os próximos anos assumimos igualmente que teremos que apertar o cinto, com estagnação salarial, impostos elevados e restrições ao crédito.

Cenário 2 - Portugal decide abandonar o Euro. Cria uma nova moeda, converte todos os depósitos e dívidas (mesmo as públicas) nessa nova moeda. "Desvaloriza" a moeda por forma a tornar o país novamente competitivo em termos de custos (salariais e não só), tenta competir com os países de mão-de-obra barata e com os países mais pobres da União Europeia. Assumimos que não temos condições ou ambições para ser um país rico durante as próximas décadas e que o futuro é sermos mesmo um país na cauda da Europa. Voltamos à política da desvalorização deslizante da moeda nacional que existia antes de aderirmos ao Euro e em que assentou a competitividade do país durante muitos anos. A inflação naturalmente passará a ser elevada, as taxas de juro também.

Existem outros cenários alternativos para sair da crise?