Saúde

Retrato de Luís Lavoura

Não convem falar demasiado sobre o caso específico do sr Manuel Machado, (ex-)treinador da equipa profissional de futebol do clube Nacional da Madeira, porque esse caso encontra-se encoberto por grande segredo e pouco de certo se sabe sobre ele. Mas o que se sabe parece poder resumir-se assim: o senhor foi fazer uma operação à barriga numa clínica privada no Porto, a operação correu mal e o senhor acabou internado, entre a vida e morte, num hospital público no Funchal.

Em Portugal, a existência de um Serviço Nacional de Saúde aberto e gratuitamente disponível a todos favorece uma forma de parasitismo social, no qual as pessoas se dão à liberdade de fazer disparates e depois quem paga as favas é o cidadão contribuinte. Os parasitas, para além dos próprios cidadãos, são também os sistemas de saúde privados, nomeadamente os hospitais privados. Esses hospitais oferecem maravilhosas condições de conforto aos seus clientes mas, infelizmente, por vezes, condições muito inferiores, do ponto de vista da segurança clínica, às dos hospitais públicos. O caso do sr Machado é paradigmático: as pessoas escolhem ser servidas num hospital privado mas depois, quando a merda acontece, a "batata quente" é passada para o hospital público. O contribuinte é deixado para pagar a merda que aconteceu no hospital privado.

No meu entender, a liberdade deve ser acompanhada de responsabilidade. As pessoas devem ser livres de recorrer a hospitais privados. Mas devem saber que, se nesses hospitais ocorrer merda, não haverá um hospital público para resolver, à custa dos contribuintes, o problema.

P.S. A mãe de uma conhecida minha morreu há uns anos no parto, por o ter feito num hospital privado. A merda aconteceu e o hospital privado não tinha meios para a limpar. Quando a levaram para a maternidade estatal já era demasiado tarde. Morreu na ambulância.

Retrato de João Cardiga

O João Mendes aborda no artigo abaixo o tema das escolhas individuais e sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde.

Eu julgo que ambas não devem estar ligadas mas não é isso que me motiva este artigo. Antes quero especular sobre qual dos dois estilos de vida é que têm maior custo para a sociedade. Este é um exercício meramente especulativo mas pretendo que sirva para abordar este tema de uma forma um pouco diferente do normal. A questão é:

- Será o estilo de vida saudável o que implica uma maior custo para a sociedade ou um estilo menos saudável?

A resposta que vem à cabeça é que obviamente é quem tem o estilo de vida menos saudável que implica o maior custo à sociedade, mas será mesmo?

Então vejamos o meu caso, em que o meu estilo de vida menos saudável se prende com Tabaco e beber uma pouco de alcool. Se é verdade que a minha probabilidade de contrair um cancro é muito maior, e daí implicar mais custos para a sociedade também verficamos que eu por fumar e beber alcool também:

a) vivo menos 10 anos em média que uma pessoa saudável;
b) pago muito mais impostos que uma pessoa que vive um estilo de vida saudável (que por exemplo não fuma nem bebe alcool);

O que é que isto implica? Bem que o meu estilo de vida garante ao estado menos 10 anos de pagamento de reforma, mais receita fiscal, um melhor rácio de população activa vs população inactiva e muito provavelmente o mesmo custo de saude que uma pessoa com estilo de vida saudável pois não tem de cuidar de mim numa altura em que existe um maior desenvolvimento de doenças como Alzheimer, Parkinson, etc...

Por isso e se estamos a falar de sustentabilidade financeira de sistema nacional de saude eu diria que o estilo de vida menos saudável é bem melhor para a sociedade do que o estilo de vida não saudável, financeiramente falando.

E como sou solidário com estes temas escrevi este artigo a fumar um cigarro e a beber uma cerveja...

Retrato de João Mendes

The Onion faz um resumo (satírico) brilhante do que tem sido o debate sobre a reforma do sistema de saúde nos Estados Unidos.

Retrato de João Mendes

(Nota Prévia: Ler sobre este tema aqui.)

Cara Dra. Ana Jorge,

Por favor proteja a saúde dos portugueses e cumpra a sua obrigação enquanto titular de cargo público e envie ao Ministério Público a informação que possua sobre os indivíduos que, deliberadamente, infectam outros com gripe A.

Torne claro que este tipo de comportamento não é apenas anti-social, mas é também passível de constituir um crime, crime esse punível com pena até 5 anos de prisão (quando negligente) ou até 8 anos de prisão (quando doloso).

Torne claro que o Ministério da Saúde e os Serviços de Saúde em Portugal não pactuarão com este tipo de comportamentos, porque a saúde pública é um bem a preservar.

Já basta que a pandemia se espalhe por si. Já basta que seja difícil de combater. A pandemia não precisa de ajudas, particularmente deliberadas, de pessoas infectadas, e a pedagogia não basta quando um conjunto de pessoas decide subverter os esforços que estão a ser feitos para combater e conter a pandemia.

A liberdade individual de cada um acaba quando começa a liberdade do próximo. Vivemos numa sociedade de indivíduos livres, mas, ao exercer a sua liberdade, os indíviduos devem ser responsabilizados pelas suas acções, em particular aquelas que sejam danosas a outros.

É sua responsibilidade zelar pela saúde pública, e é responsabilidade geral do Estado garantir a segurança de todos os indivíduos.

Como titular de cargo público, tem o dever de enviar informações sobre estes casos ao Ministério Público.

Dra Ana Jorge, a pedagogia simpática não é suficiente num caso como este. Cumpra, sim, a sua obrigação.

Com os melhores cumprimentos,

João Mendes

Retrato de João Mendes

Li no Guardian uma notícia que, de facto, não me surpreendeu minimamente. Um relatório dos Centers for Disease Control veio de novo mostrar fortes correlações entre políticas de educação sexual que se focam exclusivamente na abstinência (leia-se: as políticas dos anos Bush, das quais Sarah Palin e a filha se tornaram figuras de cartaz) com um aumento do número de adolescentes grávidas e com um aumento da incidência de doenças sexualmente transmissíveis. Claro que, como se lê no final do artigo, ainda há gente (ultra-religiosa, por sinal) que continua com grande fé nessas magníficas políticas. Mas para todos os outros, o que este relatório diz não é, de facto, nada de novo.

Retrato de Luís Lavoura

A sociedade moderna tende a, ideologicamente, evoluir na direção liberal, pela razão simples de que cada vez as pessoas são mais diversas, isto é, têm interesses, formações e desejos díspares. Numa sociedade em que as pessoas são, visivelmente, cada vez mais diferentes, a liberdade de cada um ser como é é não apenas a melhor como, de facto, a única solução.

Isto passa-se, em particular, no setor da saúde. No passado a grande maioria das pessoas sofria de males de saúde tristemente uniformes, como fossem doenças infecciosas ou acidentes profissionais (no caso das mulheres, problemas no parto). Hoje em dia estes males estão em grande medida afastados e os padecimentos de saúde são muito mais diversos e pessoais. As formas de tratamento disponíveis para esses males também são cada vez mais diversas - e de eficácia por vezes contestável. Num tal contexto, torna-se imprescindível uma política de saúde mais liberal, isto é, orientada pela liberdade de cada cidadão tratar ou não tratar o mal de saúde de que considera padecer, e de realizar o tipo de tratamento que pessoalmente prefere.

Consideremos por exemplo o problema da ejaculação precoce, que foi recentemente objeto de uma campanha publicitária por parte da Sociedade Portuguesa de Andrologia. Trata-se claramente de um problema de saúde, aliás ao que parece bastante frequente, que afeta o bem-estar de quem com ele convive. Muitas pessoas que sofrem desse problema estarão talvez resignadas e não especialmente motivadas para o tratar; outras pessoas, pelo contrário, desejarão ardentemente tratar esse mal. Não conheço os métodos de tratamento disponíveis mas suponho que terão eficácias variáveis, por vezes questionáveis, e que serão tão diversos quanto a psicanálise, a ingestão de drogas, a acupunctura ou a terapia de grupo. Num tal contexto é difícil prescrever qual deverá ser a posição do Serviço Nacional de Saúde (SNS). Deverá o SNS pagar os tratamentos para um problema de saúde que dificilmente se pode argumentar que seja fatal para quem dele sofre? E que tipo de tratamentos deverá pagar?

Torna-se portanto necessário, em minha opinião, liberalizar os cuidados de saúde - incluindo a venda de medicamentos - permitindo que as diversas unidades de saúde e os diversos terapeutas ofereçam, para uma diversidade crescente de problemas de saúde, as suas variadas soluções, e estimulando as pessoas a poupar dinheiro para resolver os problemas de saúde que possam vir a enfrentar ou de que possam considerar sofrer. Os próprios hospitais públicos (isto é, pertencentes ao Estado) devem passar a ter um setor comercial, que possa vender ao público tratamentos para uma diversidade de males que, não sendo considerados fatais ou impeditivos de uma vida produtiva, não se justifica serem tratados a expensas dos impostos de todos nós. A liberalização inclui também, necessariamente, a eliminação de constrangimentos "éticos", por exemplo nos tratamentos de medicina da reprodução, os quais devem passar a estar disponíveis, mediante pagamento, a quem quer que a eles queira recorrer.

Numa situação de pessoas cada vez mais diversas que sofrem de males de saúde cada vez mais diversos, muitos deles de relevância pessoal e questionável, parece-me este o único caminho possível a seguir. Os hospitais públicos têm que passar a ter um setor comercial, da mesma forma que as universidades públicas também o têm ou devem ter. É este o caminho natural, de facto o único caminho logicamente possível, numa sociedade do século 21.

Retrato de Luís Lavoura

Num post anterior relatei a triste história de uma pessoa que sofreu um acidente que conduziu a paragem respiratória e cardíaca. Retomo essa história para relatar as consequências.

As atuais capacidades em matéria de cuidados de saúde são surpreendentes. Uma pessoa que esteve em paragem respiratória e cardíaca durante 15 minutos pode ser resssucitada e de facto é-o, aparentemente de forma rotineira e sem se olhar às consequências, no dia-a-dia. O lema dos médicos parece ser "Se se pode salvar uma vida humana, salva-se", porque é isso que Hipócrates, um grego que viveu há 2500 anos - quando as capacidades técnicas e as respetivas consequências eram totalmente diferentes - ordenou. O problema é que uma paragem respiratória e cardíaca de 15 minutos deixa consequências irreversíveis e dramáticas, que o pobre Hipócrates, quando emitiu o seu juízo, jamais poderia ter tido em mente.Sem oxigénio durante 15 minutos, o cérebro sofre lesões, fica queimado, fundido, em maior ou menor extensão, mas sempre de forma irreversível, uma vez que os neurónios mortos nunca são substituídos. Doravante a pessoa já não voltará jamais a ser uma pessoa, será um vegetal.

Foi isso que aconteceu a uma conhecida minha. Ela recuperou maravilhosamente depois do seu acidente e encontra-se agora num estado estável e de boa saúde, mas em coma vegetativo por ter partes do cérebro completamente queimadas. Recebe dois litros de oxigénio por hora, comida liquefeita enfiada diretamente no estômago, e necessita de cuidados de enfermagem continuados (24 horas por dia), pelo que passará o resto da sua vida numa clínica que dispõe de tais cuidados. Sem esperanças de recuperação, essa vida ainda poderá ser longa, dado que a pessoa ainda é relativamente jovem e tem, presumivelmente, o coração em bom estado - salvo se fôr vítima de uma qualquer infeção, poderá ainda ficar naquele triste estado por algumas dezenas de anos.

E quem paga? O Serviço Nacional de Saúde. Os familiares desta pessoa estão (felizmente, porque não é culpa deles que ela tenha sido ressuscitada!) quase totalmente desonerados - pagam as fraldas, e uma percentagem mínima dos restantes bens consumidos. Praticamente tudo é pago pelo Serviço Nacional de Saúde, que assim sustenta uma vida inútil e irrecuperável. Em Portugal não se coloca, sequer, a hipótese de deixar morrer a pessoa (para o que neste caso bastaria deixar de lhe fornecer oxigénio durante algumas horas, dado que as suas capacidades de respiração autónoma são insuficientes).

Os preconceitos éticos e os juramentos que os médicos fazem saem-nos muito caros. A nós todos, neste caso, mesmo àqueles que não partilham desses preconceitos nem fizeram tais juramentos.

Na sua maioria crianças e mulheres grávidas.
Mas o importante é que ninguém se alarme. Sabe-se lá o que é que poderia acontecer se as pessoas entrassem em pânico.

Segundo as autoridades de saúde existe um cenário provável de contaminação de 25% da população portuguesa com a Gripe A. Segundo as mesmas autoridades, a taxa de mortalidade desta gripe é muito baixa. Para ser mais preciso uma taxa de mortalidade de 0,4% dos infectados.

Ora bem. 25% de 10 000 000 são 2.500.000.
0.4% de 2.500.000 são 10 000 portugueses.

Neste caso os 10 000 não serão na sua maioria idosos, porque as gerações mais velhas tendem a ser mais resistentes à gripe A.

São as crianças e as pessoas com outras doenças que têm maiores probabilidades de falecer perante a infecção.
As crianças são também dos grupos de maior risco de contaminação, devido a hábitos que facilitam o contágio como por as mãos na boca e à proximidade que têm umas com as outras.

Fica então a minha pergunta?
Quantos milhares de crianças vão ter de morrer em Portugal para podermos entrar em pânico?
Talvez até cometer loucuras como não “vir do México com crianças e levá-las para a escola no dia seguinte”.

A maioria das empresas não tem qualquer tipo de prevenção. As escolas e creches não tomam as mínimas precauções. E muita gente continua a não lavar as mãos depois de ir à casa-de-banho.

Durante quanto tempo vamos continuar a fingir que as ameaças não existem e que as catástrofes não acontecem?

Retrato de Luís Lavoura

A história que vou contar a seguir é inteiramente verdadeira embora, por motivos de privacidade, eu não diga quem são os protagonistas.

Uma conhecida minha estava a comer uma pêra ao lanche. Engasgou-se com um pedaço de pêra, não conseguia respirar. As pessoas que estavam ao pé dela tentaram ajudá-la, enfiaram-lhe os dedos pela garganta a tentar soltar o pedaço de pêra. Não tiveram sucesso. Ela entrou em paragem respiratória, depois em paragem cardíaca.

Entretanto tinham chamado o serviço de urgência. Chegou rapidamente e, quinze minutos depois de as paragens respiratória e cardíaca terem ocorrido, conseguiram ressuscitar a senhora e levaram-na para o hospital.

Isto aconteceu há dez dias atrás. Mas o cérebro não fica impunemente sem oxigénio durante quinze minutos. A pessoa sofreu lesões cerebrais irreversíveis. Está em coma desde esse acidente. As probabilidades de alguma vez sair desse coma e de voltar a ter, ao menos, uma vida relacional (falar, etc) estão, como uma médica disse, ao nível do milagre. A pessoa será um vegetal durante todo o resto da sua vida, a qual ainda poderá durar semanas, meses ou anos.

Contei isto agora à minha dentista. Ela questionou, se vale a pena fazer aquilo que o serviço de emergência fez. Eu, prudente, respondi "Cada um de nós fará o julgamento que quiser". Ela respondeu "É que nós, médicos, fazemos o Juramento de Hipócrates, de procurar sempre salvar a vida. Somos obrigados a agir assim".

Para além do natural desgaste psicológico para os familiares da acidentada, ela tem estado estes dez dias a cargo do Serviço Nacional de Saúde, e a "diária" não deve ser barata. Não sei quem pagará o resto da vida desta pessoa, mas suspeito que serão em boa parte os contribuintes.