Saúde

Retrato de Luís Lavoura

A sociedade moderna tende a, ideologicamente, evoluir na direção liberal, pela razão simples de que cada vez as pessoas são mais diversas, isto é, têm interesses, formações e desejos díspares. Numa sociedade em que as pessoas são, visivelmente, cada vez mais diferentes, a liberdade de cada um ser como é é não apenas a melhor como, de facto, a única solução.

Isto passa-se, em particular, no setor da saúde. No passado a grande maioria das pessoas sofria de males de saúde tristemente uniformes, como fossem doenças infecciosas ou acidentes profissionais (no caso das mulheres, problemas no parto). Hoje em dia estes males estão em grande medida afastados e os padecimentos de saúde são muito mais diversos e pessoais. As formas de tratamento disponíveis para esses males também são cada vez mais diversas - e de eficácia por vezes contestável. Num tal contexto, torna-se imprescindível uma política de saúde mais liberal, isto é, orientada pela liberdade de cada cidadão tratar ou não tratar o mal de saúde de que considera padecer, e de realizar o tipo de tratamento que pessoalmente prefere.

Consideremos por exemplo o problema da ejaculação precoce, que foi recentemente objeto de uma campanha publicitária por parte da Sociedade Portuguesa de Andrologia. Trata-se claramente de um problema de saúde, aliás ao que parece bastante frequente, que afeta o bem-estar de quem com ele convive. Muitas pessoas que sofrem desse problema estarão talvez resignadas e não especialmente motivadas para o tratar; outras pessoas, pelo contrário, desejarão ardentemente tratar esse mal. Não conheço os métodos de tratamento disponíveis mas suponho que terão eficácias variáveis, por vezes questionáveis, e que serão tão diversos quanto a psicanálise, a ingestão de drogas, a acupunctura ou a terapia de grupo. Num tal contexto é difícil prescrever qual deverá ser a posição do Serviço Nacional de Saúde (SNS). Deverá o SNS pagar os tratamentos para um problema de saúde que dificilmente se pode argumentar que seja fatal para quem dele sofre? E que tipo de tratamentos deverá pagar?

Torna-se portanto necessário, em minha opinião, liberalizar os cuidados de saúde - incluindo a venda de medicamentos - permitindo que as diversas unidades de saúde e os diversos terapeutas ofereçam, para uma diversidade crescente de problemas de saúde, as suas variadas soluções, e estimulando as pessoas a poupar dinheiro para resolver os problemas de saúde que possam vir a enfrentar ou de que possam considerar sofrer. Os próprios hospitais públicos (isto é, pertencentes ao Estado) devem passar a ter um setor comercial, que possa vender ao público tratamentos para uma diversidade de males que, não sendo considerados fatais ou impeditivos de uma vida produtiva, não se justifica serem tratados a expensas dos impostos de todos nós. A liberalização inclui também, necessariamente, a eliminação de constrangimentos "éticos", por exemplo nos tratamentos de medicina da reprodução, os quais devem passar a estar disponíveis, mediante pagamento, a quem quer que a eles queira recorrer.

Numa situação de pessoas cada vez mais diversas que sofrem de males de saúde cada vez mais diversos, muitos deles de relevância pessoal e questionável, parece-me este o único caminho possível a seguir. Os hospitais públicos têm que passar a ter um setor comercial, da mesma forma que as universidades públicas também o têm ou devem ter. É este o caminho natural, de facto o único caminho logicamente possível, numa sociedade do século 21.

Retrato de Luís Lavoura

Num post anterior relatei a triste história de uma pessoa que sofreu um acidente que conduziu a paragem respiratória e cardíaca. Retomo essa história para relatar as consequências.

As atuais capacidades em matéria de cuidados de saúde são surpreendentes. Uma pessoa que esteve em paragem respiratória e cardíaca durante 15 minutos pode ser resssucitada e de facto é-o, aparentemente de forma rotineira e sem se olhar às consequências, no dia-a-dia. O lema dos médicos parece ser "Se se pode salvar uma vida humana, salva-se", porque é isso que Hipócrates, um grego que viveu há 2500 anos - quando as capacidades técnicas e as respetivas consequências eram totalmente diferentes - ordenou. O problema é que uma paragem respiratória e cardíaca de 15 minutos deixa consequências irreversíveis e dramáticas, que o pobre Hipócrates, quando emitiu o seu juízo, jamais poderia ter tido em mente.Sem oxigénio durante 15 minutos, o cérebro sofre lesões, fica queimado, fundido, em maior ou menor extensão, mas sempre de forma irreversível, uma vez que os neurónios mortos nunca são substituídos. Doravante a pessoa já não voltará jamais a ser uma pessoa, será um vegetal.

Foi isso que aconteceu a uma conhecida minha. Ela recuperou maravilhosamente depois do seu acidente e encontra-se agora num estado estável e de boa saúde, mas em coma vegetativo por ter partes do cérebro completamente queimadas. Recebe dois litros de oxigénio por hora, comida liquefeita enfiada diretamente no estômago, e necessita de cuidados de enfermagem continuados (24 horas por dia), pelo que passará o resto da sua vida numa clínica que dispõe de tais cuidados. Sem esperanças de recuperação, essa vida ainda poderá ser longa, dado que a pessoa ainda é relativamente jovem e tem, presumivelmente, o coração em bom estado - salvo se fôr vítima de uma qualquer infeção, poderá ainda ficar naquele triste estado por algumas dezenas de anos.

E quem paga? O Serviço Nacional de Saúde. Os familiares desta pessoa estão (felizmente, porque não é culpa deles que ela tenha sido ressuscitada!) quase totalmente desonerados - pagam as fraldas, e uma percentagem mínima dos restantes bens consumidos. Praticamente tudo é pago pelo Serviço Nacional de Saúde, que assim sustenta uma vida inútil e irrecuperável. Em Portugal não se coloca, sequer, a hipótese de deixar morrer a pessoa (para o que neste caso bastaria deixar de lhe fornecer oxigénio durante algumas horas, dado que as suas capacidades de respiração autónoma são insuficientes).

Os preconceitos éticos e os juramentos que os médicos fazem saem-nos muito caros. A nós todos, neste caso, mesmo àqueles que não partilham desses preconceitos nem fizeram tais juramentos.

Na sua maioria crianças e mulheres grávidas.
Mas o importante é que ninguém se alarme. Sabe-se lá o que é que poderia acontecer se as pessoas entrassem em pânico.

Segundo as autoridades de saúde existe um cenário provável de contaminação de 25% da população portuguesa com a Gripe A. Segundo as mesmas autoridades, a taxa de mortalidade desta gripe é muito baixa. Para ser mais preciso uma taxa de mortalidade de 0,4% dos infectados.

Ora bem. 25% de 10 000 000 são 2.500.000.
0.4% de 2.500.000 são 10 000 portugueses.

Neste caso os 10 000 não serão na sua maioria idosos, porque as gerações mais velhas tendem a ser mais resistentes à gripe A.

São as crianças e as pessoas com outras doenças que têm maiores probabilidades de falecer perante a infecção.
As crianças são também dos grupos de maior risco de contaminação, devido a hábitos que facilitam o contágio como por as mãos na boca e à proximidade que têm umas com as outras.

Fica então a minha pergunta?
Quantos milhares de crianças vão ter de morrer em Portugal para podermos entrar em pânico?
Talvez até cometer loucuras como não “vir do México com crianças e levá-las para a escola no dia seguinte”.

A maioria das empresas não tem qualquer tipo de prevenção. As escolas e creches não tomam as mínimas precauções. E muita gente continua a não lavar as mãos depois de ir à casa-de-banho.

Durante quanto tempo vamos continuar a fingir que as ameaças não existem e que as catástrofes não acontecem?

Retrato de Luís Lavoura

A história que vou contar a seguir é inteiramente verdadeira embora, por motivos de privacidade, eu não diga quem são os protagonistas.

Uma conhecida minha estava a comer uma pêra ao lanche. Engasgou-se com um pedaço de pêra, não conseguia respirar. As pessoas que estavam ao pé dela tentaram ajudá-la, enfiaram-lhe os dedos pela garganta a tentar soltar o pedaço de pêra. Não tiveram sucesso. Ela entrou em paragem respiratória, depois em paragem cardíaca.

Entretanto tinham chamado o serviço de urgência. Chegou rapidamente e, quinze minutos depois de as paragens respiratória e cardíaca terem ocorrido, conseguiram ressuscitar a senhora e levaram-na para o hospital.

Isto aconteceu há dez dias atrás. Mas o cérebro não fica impunemente sem oxigénio durante quinze minutos. A pessoa sofreu lesões cerebrais irreversíveis. Está em coma desde esse acidente. As probabilidades de alguma vez sair desse coma e de voltar a ter, ao menos, uma vida relacional (falar, etc) estão, como uma médica disse, ao nível do milagre. A pessoa será um vegetal durante todo o resto da sua vida, a qual ainda poderá durar semanas, meses ou anos.

Contei isto agora à minha dentista. Ela questionou, se vale a pena fazer aquilo que o serviço de emergência fez. Eu, prudente, respondi "Cada um de nós fará o julgamento que quiser". Ela respondeu "É que nós, médicos, fazemos o Juramento de Hipócrates, de procurar sempre salvar a vida. Somos obrigados a agir assim".

Para além do natural desgaste psicológico para os familiares da acidentada, ela tem estado estes dez dias a cargo do Serviço Nacional de Saúde, e a "diária" não deve ser barata. Não sei quem pagará o resto da vida desta pessoa, mas suspeito que serão em boa parte os contribuintes.

Retrato de Luís Lavoura

Utiliza-se com demasiada frequência a expressão "saúde pública". Esse termo é, lamentavelmente, muitas vezes utilizado para designar problemas de saúde totalmente privados. Por exemplo, falando-se do cada vez maior número de casos de diabetes, dir-se-á que "a diabetes é um problema de saúde pública" - o que é falso, uma vez que a diabetes não é contagiosa e, portanto, ela é primariamente, se não mesmo totalmente, um problema apenas da pessoa que dela sofre.

Hoje ouvi um caso, mais raro, do fenómeno contrário - tratar um problema de saúde pública como se fosse um problema de saúde privada. Interrogada sobre se não deveriam ser interditadas viagens de pessoas a zonas onde atualmente se propaga a (impropriamente designada) "gripe suína", a ministra da saúde retorquiu que não, que não está no poder do governo interditar tais viagens, que o governo se limita a informar as pessoas dos riscos que correm ao viajar para essas zonas, e que as pessoas deverão livremente decidir se querem incorrer nesses riscos ou não.

Ora bem, a gripe é uma doença altamente contagiosa, e em alguns casos mortal. Quando uma pessoa decide correr o risco de ficar infetada com gripe não é, pois, só ela que está a correr esse risco - é toda a sociedade com quem essa pessoa, já infetada, virá a contactar. A gripe é, portanto, um problema de saúde pública - não é apenas um problema de saúde privada. Se alguns portugueses decidem viajar ao México, não são apenas eles que se estão a colocar em risco - eles poderão trazer a doença para Portugal e, uma vez cá, ela expandir-se-á para outras pessoas que nada tiveram a ver com essa decisão de viajar ao México. É dever do governo intervir, se conveniente, para impedir essa ameaça. É legítimo, num caso destes, proibir as pessoas de viajar para uma zona de infeção. Porque não é apenas a saúde dos viajantes que está em causa, é a saúde de muitas outras pessoas.

Retrato de Luís Lavoura

O governo decidiu que o Estado passará a pagar integralmente os medicamentos genéricos que sejam prescritos a pessoas muito pobres.

Trata-se de uma medida socialista que eu aplaudiria com ambas as mãos se soubesse que todos os medicamentos consumidos por essas pessoas são essenciais à sua saúde, entendida num sentido estrito.

Infelizmente, no entanto, isso é tudo menos certo.

Os médicos portugueses têm a mão muito leve a receitar medicamentos. Portugal, apesar de ser um país relativamente pobre, ocupa um lugar muito elevado na tabela do consumo de medicamentos per capita. Muitas pessoas tomam, de forma regular, quantidades industriais de drogas, com benefício duvidoso para a sua saúde.

O pagamento dos medicamentos por parte de quem os toma é uma forma, infelizmente muito leve no nosso país, de incutir nos médicos e nos doentes um sentido de moderação. Com esta medida do governo esse sentido de moderação perder-se-á, de todo, para algumas pessoas.

Por isso, só posso aplaudir, neste caso, com uma mão.

Retrato de Miguel Duarte

Muito interessante este artigo da New Scientist. A questão basicamente é: Neste momento já é possível, via testes genéticos aos pais, decidir se é necessário, via fertilização artificial e selecção dos embriões, evitar que futuras crianças nasçam com uma série de doenças genéticas (herdadas de um dos pais). Qual a ética de por questões "éticas" não estarmos já a fazê-lo? Porque razão estamos a trazer ao mundo crianças com deficiências e doenças que poderiam facilmente ser evitadas?

Retrato de Luís Lavoura

Em dois posts (aqui e aqui)), Pedro Arroja retoma, infelizmente com mais atualidade que nunca, uma proposta que ele pela primeira vez fez em Portugal: a conveniência de implantar um sistema de venda de órgãos humanos para transplante, em vez de nos apoiarmos apenas na generosidade da dádiva. (E quem diz órgãos diz outros tecidos, como sangue ou medula óssea, actrescento eu.)

Retrato de Luís Lavoura

A Ministra da Saúde admitiu hoje que a tutela está a ponderar fazer convites a estudantes portugueses de medicina, que se encontram no estrangeiro, para que regressem a Portugal, terminando aqui o curso nas faculdades nacionais.

Ficamos a saber que, para a Ministra da Saúde (ou para "a tutela"),

1) O melhor momento para aliciar médicos para virem para Portugal não é quando eles já estão formados e prontos a exercer, é quando eles ainda são estudantes e portanto não podem ainda tratar ninguém.

2) O critério para a escolha dos médicos que se pretende ter em Portugal é a sua nacionalidade e não a sua qualidade clínica.

Eu diria que deveria ser exatamente o contrário. Se a ministra pretende ir arrebanhar os estudantes das universidades estrangeiras para eles virem para Portugal, então deveria arrebanhar os melhores estudantes dessas universidades e não aqueles que têm nacionalidade portuguesa. Se a ministra pretende colmatar a falta de médicos (nalgumas especialidades e em algumas regiões) de Portugal, então deveria contratar médicos formados e de competência demonstrada (de qualquer nacionalidade), e não estudantes de medicina.

Retrato de Luís Lavoura

A DECO veio ontem denunciar que, em alguns centros de exames clínicos do país, os clientes que pretendem fazer os seus exames a expensas do Serviço Nacional de Saúde (SNS) vêem esses exames marcados para mais tarde do que se os pretenderem fazer a expensas de um seguro de saúde privado.

Eu não vejo nenhuma razão para espanto ou choque com esta prática. Se o SNS paga os serviços que tem o dever de pagar com mais atraso do que as seguradoras privadas, é normal que quem sofre com esses atrasos - os prestadores de serviços, isto é, neste caso, os centros de exames clínicos - se "vinguem" desses atrasos sobre os clientes. É normal que um prestador de serviços qualquer os preste mais rapidamente e de melhor vontade a quem paga na hora, do que a quem demora meses a fio a pagar.

O escandaoso seria, isso sim, o contrário: que pessoas que gastam o seu dinheiro, arduamente ganho, para terem um seguro de saúde privado, tivessem que ser preteridas em favor de, ou ver passar-lhes à frente na fila de espera, outras pessoas que nada pagam para ter acesso aos mesmos serviços.