Saúde

Retrato de Miguel Duarte

Bem, não sei se era realmente esse o objectivo escondido de Bush, quando começou a defender, em vez da educação sexual a sério, promover-se a abstinência nas escolas americanas.

No entanto, a coisa de facto funcionou. As gravidezes entre adolescentes aumentaram em 3% de 2005 para 2006 (aproximadamente mais 20.000 bébés), bem como as doenças sexualmente transmissíveis. Ah, e o uso do preservativo (claro) diminuiu.

Some key sexually transmitted disease rates have been rising, including syphilis, gonorrhea and chlamydia. The rising teen pregnancy rate is part of the same phenomenon, said Dr. Carol Hogue, an Emory University professor of maternal and child health.

"It's not rocket science," she said.

Escusado será dizer, que um outro problema, para os conservadores, é que obviamente, o número de mães solteiras aumentou, em parte, devido a esta questão.

Caros conservadores, a natureza humana é o que é, não aquilo que queremos que seja (sinto-me um conservador ao afirmar isto). Nós bem que podemos querer negar os impulsos sexuais aos jovens, mas a realidade, é que eles vão existir e fazem parte da nossa natureza animal. Pregar a abstinência e manter os jovens na ignorância no que toca a contraceptivos, além de moralmente dúbio, simplesmente vai resultar em mais doenças e mais gravidezes.

O grande desafio de um sistema de saúde é combinar eficiência com universalidade.

Quando nos preocupamos em universalidade geralmente pensamos num serviço nacional de saúde totalmente indiferenciado, que é sem dúvida o sistema mais humanitário; não fosse o carácter de ineficiência que o assombra.

Do lado da eficiência (note-se que não é eficácia) temos o “pagar do bolso” e o seguro. Contudo estes sistemas carecem do carácter de universalidade que é considerado essencial por qualquer pessoa de bom senso.
Mas não tem de ser assim.

A função do estado deve ser garantir que todos tenham acesso a seguro.
Desta forma, deverá existir um seguro de saúde social (patamar mínimo/preço mínimo) que servirá também de fasquia para todos os outros. Contudo, este seguro não deverá ser impedimento de existirem seguros por privados.

Cada empresa deverá dar seguros a todos os trabalhadores, por blocos de 1 ano. Desta forma, mesmo que o trabalhador se despeça ou fique sem emprego, terá acesso ao seguro de saúde durante o período de um ano. Note-se que as seguradoras tendem a oferecer melhores condições a seguros feitos em bloco, pois o segurado ganha posição negocial perante a seguradora.
Os seguros dos trabalhadores deverão ser extendidos aos progenitores (quando reformados ou desempregados) e eventualmente a todos os familiares directos.

Todos os trabalhadores a recibo verde, deverão ter o seguro como condição de inscrição.
O mesmo se aplica a todos os desportos e actividades escolares. No caso das escolas, poderá a ser a escola a responsável por oferecer seguros de saúde sempre que os alunos não o tenham.
Em todos estes casos os cidadãos poderão optar pelo seguro de saúde sócial ou por um dos privados.

Naturalmente, todos aqueles que não tiverem capacidades para pagar o seguro de saúde, este deverá ser suportado pela segurança social ou pelo orçamento de estado. Mas tendo em consideração que a maioria da população ou está empregada ou é familiar de quem esteja, a fatia da população a recorrer ao seguro através da segurança social ou orçamento de estado seria reduzida.

Circula pelas farmácias um pequeno folheto patrocinado pela Apifarma em prol dos medicamentos de escolha livre. O folheto apela ao uso responsável e à auto-medicação, contrariando o pensamento dominante de que a auto-medicação é, por si mesma, uma coisa má. Por entre vários conselhos técnicos, e sem esquecer a recomendação de vistar os profissionais de saúde sempre que necessário, o folheto mostra as vantagens da auto-medicação responsável:

"a si, permite-lhe resolver problemas passageiros de saúde, de forma mais rápida e económica, poupando-lhe o tepo de espera de uma consulta médica e o respectivo encargo financeiro;
- à sociedade permite desanuviar, em termos financeiros e de funcionalidade, o Serviço Nacional de Saúde (SNS), libertando recursos que podem ser aplicados em outras situações de carência e necessidade."

Por outras palavras, a Apifarma apelou à responsabilização individual e ao alívio do Estado para funções que os cidadãos podem tomar por si prórios.
Uma atitude muito saudável.

Retrato de Miguel Duarte

Quando vi este quadro, só me queria rir.

Nota: Temos um dos melhores rácios do mundo de médico/habitante!!!

Um estudo global e comparativo sobre o aborto da WHO e Guttmacher Institute que será publicado na próxima sexta feira, confirma o que muitos dos 40% que votaram «Não» no referendo deste ano, não percebem ou simplesmente não querem perceber: «A comprehensive global study of abortion has concluded that abortion rates are similar in countries where it is legal and those where it is not, suggesting that outlawing the procedure does little to deter women seeking it

The wealth of information that comes out of the study provides some striking lessons, the researchers said. In Uganda, where abortion is illegal and sex education programs focus only on abstinence, the estimated abortion rate was 54 per 1,000 women in 2003, more than twice the rate in the United States, 21 per 1,000 in that year. The lowest rate, 12 per 1,000, was in Western Europe, with legal abortion and widely available contraception.

E conclui ainda que:

The data also suggested that the best way to reduce abortion rates was not to make abortion illegal but to make contraception more widely available, said Sharon Camp, chief executive of the Guttmacher Institute.

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Retrato de Luís Lavoura

Vale muito a pena ler, na penúltima edição da revista The Economist, um longo artigo sobre a forma como a crescente facilidade e barateza da obtenção de informação genética sobre os indivíduos alterará, quando não invialibizará, o negócio dos seguros de saúde. (infelizmente, não consegui encontrar esse artigo online.) É que, cada vez mais, vão sendo descobertos genes que propiciam doenças muito vulgares, como a diabetes tipo 2 ou o cancro da mama, ou então doenças mais raras mas de tratamento muito caro, como a Alzheimer ou a Crohn. Crescentemente, de forma cada vez mais rápida e barata, os indivíduos poderão fazer análises genéticas a si mesmos e descobrir a sua propensão para diversas patologias. A longo prazo, os seguros de saúde, que se baseiam - como todos os seguros - na incerteza e na partilha de riscos desconhecidos, tornar-se-ão crescentemente uma forma inviável de assegurar a saúde das pessoas. O The Economist diz, claramente, que, num tal ambiente, só haverá duas opções: ou um Serviço Nacional de Saúde que assegura de foma igual e cega a saúde (ou um mínimo dela) a todos os cidadãos, ou Contas Poupança-Saúde individuais, nas quais cada cidadão se responsabiliza pela sua própria saúde.

Retrato de Luís Lavoura

O sistema liberal para as pensões de reforma são os Planos-Poupança Reforma - eventualmente conjugados com reformas de subsistência mínima garantidas pelo Estado.

O sistema liberal para a educação são os Planos-Poupança Educação - certamente conjugados com "vouchers" concedidos pelo Estado, uma vez que as crianças têm um direito positivo à educação.

O sistema liberal para a saúde só pode então ser as Contas-Poupança Saúde - necessariamente conjugadas com donativos do Estado que garantam um mínimo de cuidados de saúde a todos.

Cabe perguntar: porque é que tanta gente defende sistemas liberais para a educação e para o sistema de reformas, mas tão pouca gente defende sistemas totalmente análogos para a saúde?

A resposta, penso eu, é: há grupos de pressão poderosíssimos fortemente interessados em sistemas liberais para a educação e para as reformas, mas não os há interessados em sistemas liberais para a saúde.

No caso da educação, temos o grupo de pressão das escolas e universidades privadas.

No caso das reformas, temos o grupo de pressão financeiro, o qual lucrará brutalmente se as grandes somas dos fundos de reforma puderem passar a ser geridas por privados numa perspetiva de longo prazo.

No caso da saúde, não existe tal grupo de pressão. As Contas-Poupança Saúde não serão muito lucrativas para as instituições financeiras, dado tratar-se de fundos que terão que permanecer, em grande parte, permanentemente à disposição dos seus proprietários, não podendo portanto ser investidos em lucrativas aplicações de longo-prazo ou especulativas. O grupo de pressão dos hospitais privados também encontra muito mais segurança em ter o Estado e/ou companhias seguradoras a financiar, de forma fiável, os seus investimentos, em vez de estarem sujeitos a rentabilizá-los num esquema puro de mercado - trata-se de um vulgar fenómeno de "rent-seeking".

Retrato de Luís Lavoura

Na avaliação dos diferentes sistemas de saúde é preciso considerar, para além da sua eficiência (rapidez no atendimento dos utentes), qualidade (satisfação dos utentes), liberdade (variedade de opções postas à disposição dos utentes), e ausência de desperdício (pequenos custos administrativos e burocráticos), também um outro fator crucial: o saber como esses sistemas conseguem resistir à tendência para a escalada nos custos da saúde.

Os custos da saúde sobem porque as tecnologias são cada vez melhores e mais requintadas, e porque todas as pessoas, desde que as tecnologias sejam (quase) gratuitas para elas, exigem sempre a utilização da melhor tecnologia disponível.

Necessariamente, para que um sistema de saúde resista à escalada dos custos, terá que haver alguma limitação à utilização desenfreada de cada vez mais e melhores tecnologias e de mais e melhores fármacos.

Essa limitação pode ser feita de forma burocrática e centralizada, através da intervenção negociada do Estado e/ou das companhias seguradoras, ou de forma livre, através da escolha voluntária dos utentes do sistema de saúde.

Só quando os utentes - agora tornados clientes - do sistema de saúde pagarem integralmente do seu bolso os cuidados que requerem ao sistema, é que eles limitarão, de forma deliberada e através de uma escolha livre, os seus gastos.

Num tal esquema, a garantia de um mínimo de cuidados de saúde aos mais pobres terá que ser feita através de donativos diretos, por parte do Estado, às suas Contas-Poupança Saúde. O Estado não paga diretamente os cuidados de saúde, nem garante a ninguém um seguro de saúde com certas especificações mínimas. Antes, o Estado doa diretamente, de forma transparente, uma certa quantia para a saúde dos mais desprovidos; mas essa quantia fica sob a administração direta e poder soberano de quem a recebe, e essa pessoa tem assim plena liberdade e responsabilidade para a utilizar de forma parcimoniosa.

Não se trata de um sistema perfeito. Mas trata-se, creio, do menor dos males.

(Todos nós gostaríamos de viver até aos 100 anos, se alguém nos pagasse as nossas reformas. Se soubermos que as nossas reformas terão que ser pagas do nosso próprio bolso, alguns preferirão morrer bem mais cedo.)

Retrato de Miguel Duarte

A BBC está a perguntar a quem quiser responder o que pensam do seu sistema de saúde. A maior parte das respostas têm sido de Americanos.

Eis alguns casos chocantes:

  • Um tipo (RJPierson, Effort), afirma que um seguro de saúde para uma família nos EUA custa à volta de 15.000 USD;
  • Pessoas com doenças crónicas que perdem o seguro de saúde por ficarem desempregadas e deixam de conseguir pagar as despesas necessárias. Após conseguirem recuperar um emprego as seguradores recusam-se a fazer seguros de saúde;
  • Indivíduos com rendimentos próximos dos 100.000 USD/ano que se vêem obrigados a vendar as suas casas para pagar tratamentos para cancros;
  • Pessoas que imigram para o Canadá e para a Europa para tratarem-se;
  • Enfermeiras que afirmam coisas como "I have worked in health care for 20 years; first, as a clinician in physical therapy, and now as a researcher. I have seen "Sicko" and yes, it really is that bad in this country. I have a good friend that is bankrupt in debt because although she has insurance, the insurance company has denied much of her care. I think almost everyone in America has a story like this, or knows someone who has had a similar experience."
  • "I am an American who is about to lose my insurance in a matter of days. Due to heavy restrictions on group insurance, the small company I work for can no longer cover me, and will have to reimburse me for individual insurance. I just got off the phone with a healthcare provider whose packages for individual insurance are too expensive for me to cover my wife let alone both of us. I will keep searching. I am not optimistic."
  • "As for the waiting lines in Canada, try asking anyone with an HMO how long they have waited for treatment. Some die on the way to the ER while having a heart attack simply because the HMO doesn't cover that ER, or the cancer patient who dies before their chemo claim is approved."
  • "I've worked for some 35 years. Currently health insurance (not care, just "insurance") would take over half of my monthly income. I do without, learning self-care & herbalism. A serious accident ($100,000+ bill is not unusual) would ruin me. If I ever get really, really ill, I plan to commit suicide early on."

Se tem vantagens? Claro, o sistema de saúde americano, para quem pode pagar e é saudável, é geralmente mais rápido que os sistemas de saúde "socialistas" e presta serviços de elevada qualidade usando as últimas ténicas. Como alguns americanos afirmaram, os ricos e famosos de outros países, quando estão doentes, é aos EUA que se vão curar.

Pessoalmente prefiro um sistema como o Holandês ou o Suíço, que usando seguros obrigatórios, via seguradoras privadas e apoio estatal quando o mercado falha, asseguram cobertura universal ao nível da saúde conjugada os benefícios de um sistema de saúde baseado no mercado.

Retrato de Miguel Duarte

Alguém diria que isto (o insecto):

Cochonilha, ácido carmínico ou carminas

é ingrediente disto (o iogurte Adagio Frutíssimo):

Iogurte Adagio

Pois, mas é, sob a denominação de "Corante Natural: Carminas", a Adagio/Lactogal coloca num iogurte um "corante vermelho que é um glicósido fenólico presente nos ovos e tecidos gordos da fêmea de uma cochonilha" e que ainda por cima é fonte de alergias (fonte).

E como descobri isto? A minha mulher é vegetariana e estava-se a queixar que lhe substituiriam no escritório os iogurtes e bebidas que tinham na máquina automática por outros de outra marca que estava cheia de "E's" nos ingredientes. Eu quis descansá-la e fui investigar o que eram as "Carminas". Acabei com nojo do produto, que ainda por cima apregoa no seu marketing o facto de ser "natural". O pior é que estas "Carminas" são usadas um pouco por todo o lado, desnecessariamente, pois existem corantes vegetais que as substituem perfeitamente (e, sinceramente, para quê corantes em iogurtes!).

Obviamente, longe de mim querer impedir que as pessoas comam insectos. Cada um pode comer o que desejar. A única questão é que as pessoas têm direito a ser informadas e o actual sistema é insuficiente. E não, não me estou a queixar como aprendiz-de-político, estou-me a queixar como consumidor.

Adoraria que em Portugal se adoptasse o sistema de semáforos que existe no Reino Unido:

e que se passasse a ter informações adicionais, como por exemplo se o produto é aceitável para vegetarianos (o que me evitaria comer insectos em iogurtes):

ou até ter mais produtos orgânicos:

Se lá fora conseguem ter estas coisas simples, tenho a certeza que por cá também é possível. E eu como consumidor agradeço, em vez de andar a fazer má publicidade aos iogurtes Adagio (e todos os outros produtos produzidos com ingredientes extraídos de corpos secos de insectos fêmeas).