Saúde

Toda a comunidade liberal concorda que o direito à vida é o direito com primazia, é a liberdade individual fundamental sem a qual as outras perdem todo o sentido.

Toda a discussão sobre a IVG deveria prender-se em primeiro lugar sobre este ponto: Quando é que um ser humano ganha o direito à vida?

Se concordássemos que era às 5 semanas, a discussão que existe na comunidade liberal não faria sentido. Afinal de contas a única justificação que exisistiria para a IVG às 10 semanas seria a salvação de outra vida. Todos os outros argumentos seriam secundários, já que o direito à vida seria o mais importante e prevaleceria, independentemente do comprimento da lista de argumentos a favor.

Mas não. Não existe acordo quanto à atribuição do direito à vida. Desde a IC que entende que este direito é adquirido no momento da concepção até a outros extrmos que entendem que será no momento do parto existe muito cinzento e muito desacordo.

Cada um terá uma opinião de quando é que um ser humano ganhará esse direito. Mas cada um deveria ter uma posição sobre de que lado da barreira das 10 semanas está. Esta posição deveria ser a mais importante e a mais central.

A minha posição é clara. Entendo que, com 10 semanas, existe um projecto de vida que ainda não se concretizou e que ainda não adquiriu o direito à vida. Esta é uma posição muito pensada. Como tal, entendo que o direito da mulher de dispôr da sua vida, e logo do seu corpo, se sobrepõe a outros que estão em cima da mesa* e logo votarei SIM.

Notícia fresca, a comissão que estuda o financiamento do Serviço Nacional de Saúde vai propor um novo imposto direccionado apenas para a saúde, segundo o Relatório Intercalar de Progresso apresentado aos ministros da Saúde e Finanças. A par disto, as taxas que já são pagas por cirurgia, internamento ou as moderadoras, devem ser sempre actualizadas acima da inflação.

Ou seja, como o modelo actual não pode ser alterado (desejo principal da comissão de peritos), vão ter que ser implementados certos remédios para aguentar o doente por mais alguns anos, ficando por saber se o povo aguentará ainda mais contribuições para o monstro.

Ponto interessante é também a proposta para ser criado um seguro público, de contribuição voluntária, em troca de cobertura adicional. Assim das duas uma: ou actualmente o SNS não presta todos os serviços que deveria ou vai passar a tratar melhor quem quiser (e puder) pagar ainda mais.

O que pensarão disto todos os contribuintes que pagam ao fim do mês a sua segurança social e raramente utilizam o SNS, principalmente por falta de resposta deste?

Também para quê só mais um imposto, venham mais cinco que o pessoal cá se vai safando.

P.S.: Mas nem tudo são más notícias, pois o mesmo relatório reforça a necessidade de serem eliminados todos os subsistemas de saúde, como a ADSE, SAMS ou a PT-ACS.

Retrato de Filipe Melo Sousa

Queria abrir um tema de discussão: será possível um mercado globalizado incluir também a prestação de serviços de saúde? Até que ponto poderá um cidadão português deslocar-se para um país vizinho com uma estrutura salarial mais barata e contratar uma intervenção cirúrgica com a mesma comodidade que o faria numa clínica privada portuguesa? A principal vantagem, como se deixa facilmente adivinhar é a possibilidade de um cidadão da classe média poder ter acesso a uma operação estética que não estaria ao alcance da sua bolsa num hospital privado de Lisboa. Acrescentemos a vantagem de passar uns dias de férias numa cidade do Mediterrâneo.

Então vamos rumar a uma clínica privada na Tunísia, que foi o primeiro link que me apareceu através do google após pesquisar o termo “tourisme médical”: chama-se Estetika Tour, e é a clínica mais procurada pela comunidade internacional abastada que reside em Tunis. Uma grande fatia da clientela é composta por mulheres francesas de classe média que procuram uma intervenção cirúrgica a metade do preço do seu país. O site divulga uma reportagem de cerca de uma hora, emitida no canal 5 francês. A reportagem abre-se com a jovem Céline que quer reduzir e corrigir a forma do seu nariz. 3.000 € em vez dos 6.000 € que lhe custaria a operação em França. Para além disso a agência de Turismo vendeu-lhe um package de 5 noites num hotel de luxo, assim como o voo, e os dias necessários de internamento pós-operatório. Link da reportagem: http://www.estetikatour.com/france_5_tourisme_medical_l.php

A reportagem inclui os argumentos do director da clínica Estetika Tour (garanto que não recebo royalties lol), assim como o contraditório exercido por um cirurgião francês. A filmagem ao médico francês é feita enquanto este tem as “mãos na massa”, a falar de uma maneira bem descontraída e descomplexada, num estilo mediterrânico que nos é familiar. Ele não põe em causa a qualidade dos cuidados de saúde prestados na Tunísia, mas relativiza as diferenças de preço. E sobretudo coloca ênfase nas eventuais dificuldades do pós-operatório à distância: “um acidente nos EUA é muito bem pago. Em França razoavelmente pago. Na Tunísia nem por isso.. sei lá quanto pagam”. Para além disso em caso de insatisfação irresolúvel ou de lesões para o paciente, ter-se-á de accionar judicialmente a clínica no estrangeiro segundo leis diferentes, com dificuldades de interpretação legal acrescidas.

Bem, o que aconteceu recentemente foi a proibição desta prática no território francês. Poucos meses depois desta reportagem ter ido para o ar, o governo francês proíbe a 6 de Julho de 2005 qualquer operador turístico de vender este tipo de pacotes. “O turismo de saúde é com certeza uma tendência sedutora, devido ao preço e qualidade oferecidos, mas não estaria isento de riscos visto a ausência das garantias prestadas por estas agências.”, argumenta assim a direcção geral de saúde francesa. Mas na verdade trata-se de bem mais que isso. Não está em causa a responsabilidade civil das agências. Pois a lei francesa proíbe inclusive a divulgação destas clínicas por parte das agências, o que evidencia uma nítida cedência aos interesses da classe médica francesa, usando como pretexto a saúde pública.

Já o caso não é o mesmo quando se procura destinos exóticos com “medicinas alternativas”. A reportagem inclui uma entrevista a uma clínica que presta cuidados de saúde cujos métodos não são claros. O “médico” afirma que “se criarmos um equilíbrio no corpo, ele ganhará uma aptidão para curar o cancro sozinho”. Evidentemente nestes casos cada pessoa dará a credibilidade que achar necessária a estes estabelecimentos. Mas como evitar que alguém se faça burlar no estrangeiro? Não deveria o governo francês aconselhar estabelecimentos de referência, ou mesmo estabelecer protocolos de cooperação com o seu sistema nacional de saúde, em vez de fechar a porta aos seus colegas estrangeiros?

http://en.wikipedia.org/wiki/Health_tourism
http://fr.wikipedia.org/wiki/Tourisme_m%C3%A9dical

Retrato de Miguel Duarte

Abaixo transcrevo texto publicado no euvotosim.org por Vítor Almada, um docente universitário na área da Biologia.

Antes de enveredarmos por argumentos éticos, científicos ou políticos, há um aspecto que me parece central em todo o debate. A interrupção voluntária da gravidez, faz-se com toda a segurança e legalidade na grande maioria dos países da União. Para mim, isto quer dizer uma coisa muito simples: penalizar a I.V.G. em Portugal, quando basta ir à fronteira para o fazer, só vem causar discriminações: as mulheres que o quiserem fazer irão a Espanha. Só serão penalizadas as que, por falta de recursos, falta de informação, medo do escândalo ou da família, se arriscarem ao aborto clandestino em Portugal. Portanto, estaremos a discriminar as mulheres mais pobres, mais jovens e dependentes que se arriscam a passar pelas maiores humilhações e a praticar abortos sem segurança, nem dignidade. Proibir a I.V.G. num país, quando se pode fazer ao lado, não é uma decisão moral: é uma decisão discriminatória que só vem agravar as injustiças sociais e a desigualdade e menosprezo pelas mulheres dos sectores mais frágeis. Quem tanto fala em favor da dignidade humana, deverá começar por pensar na dignidade das mulheres. Se estamos todos na Europa, é da mais elementar justiça que as decisões que dão maior liberdade em alguns estados membros sejam aplicáveis a todos os cidadãos, a não ser que todos os cidadãos europeus as considerem erradas.

Um outro argumento profundamente irracional que tenho ouvido é que legalizar a I.V.G., levaria as mulheres a usar o aborto como contraceptivo. Nenhuma mulher que esteja psicologicamente bem, se sentirá feliz por fazer um aborto. Será sempre uma decisão de risco, cara, embaraçosa e estou certo de que muitas mulheres o farão com profunda tristeza, mesmo quando decidem que é a solução mais certa. Imaginar que as mulheres fariam abortos de ânimo leve para não ter mais filhos, é um dos argumentos mais estranhos que ouvi até agora, que me parece reflectir um profundo desconhecimento das realidades que levam as pessoas a fazer abortos, argumento muitas vezes dito por homens e pessoas que têm recursos para ir abortar a Espanha! As amigas que conheci e que se viram na necessidade de fazer abortos, todas invariavelmente o fizeram com mágoa, após uma decisão penosa e reflectida, quando entenderam que era a melhor solução.

Certamente muitas mulheres engravidam levianamente. Certamente muitas têm filhos quando não têm idade, saúde, equilíbrio psicológico para ter uma criança. Nesta sociedade de exclusão em que vivemos, o número de adolescentes que engravidam, o número de seropositivas, de toxicodependentes, de prostitutas que engravidam sem o desejarem, são realidades que só desconhece quem não tem qualquer contacto com a vida das zonas de pobreza e exclusão. É bem verdade que nesses casos, a falta de educação, a perda da dignidade pessoal, a degradação que a exclusão vai cavando, leva muitas mulheres a ser descuidadas com o risco de engravidar.

Familiares e amigos que são professores em escolas dos bairros mais degradados socialmente, têm-me mostrado, sem margem para dúvidas, quanto sofrimento se poderia ter evitado, se se ajudasse muitas mulheres que não desejam ter filhos a não engravidar ou, quando é tarde de mais, a evitar que a gravidez vá por diante. Porque é precisamente nestes meios dominados pela exclusão e pela degradação da dignidade humana, que nascem mais crianças rejeitadas, maltratadas pelos familiares ou simplesmente abandonadas.

Claro que todos concordamos: o essencial é combater a exclusão e evitar que existam mulheres que engravidam por descuido. Mas todos sabemos que os fenómenos sociais que causam estas situações têm raízes profundas. E até se mudar a sociedade? O que é melhor: é ajudar uma mulher que após um descuido tem consciência de que não tem condições para ter um filho, ou ser dogmático e empurrar para a vida uma criança não desejada, que pode ser a ruína da vida da mãe e ainda mais dela própria?

Que fique claro: quem vota sim, não acha o aborto algo banal, que se faz como quem bebe um copo de água. Todos desejamos certamente uma sociedade justa, onde todos tenham acesso à cultura, aos bens necessários para uma vida digna e mentalidades esclarecidas. Todos desejamos que não seja necessário fazer abortos, porque todas as mulheres tiveram os meios, o discernimento, as oportunidades, para praticar o sexo sem riscos e na maior dignidade. Mas o problema não é o de um mundo ideal que nada tem, infelizmente, a ver com o nosso. Até lá, enquanto há filhos não desejados, enquanto há pessoas sem o mínimo de condições para exercer a maternidade como uma decisão consciente, assumida como um acto de felicidade, temos que não penalizar as mulheres que depois de um descuido têm a consciência de que não estão em condições de ser mães. E nesse ponto, é a minha convicção sincera que são as mulheres as únicas a ter direito à decisão e não os homens. Os homens têm certamente muito a fazer, como pais, como companheiros. Mas quantas vezes abandonam as crianças aos cuidados das mães? Mais uma vez, não pensemos num mundo ideal, onde todos nos ajudamos. Pensemos na realidade tão frequente das relações fortuitas, quando não forçadas, pensemos na impunidade da deserção paterna, pensemos ainda que cada mulher é a única dona do seu corpo e portanto, a única pessoa com direito a decidir.

Desde criança que me chocou profundamente o papel que os homens podem, ou podiam ter sobre as mulheres na geração dos filhos. Dizia-se, nesse tempo (nunca li o que estava na lei) que, se durante o parto houvesse uma escolha obrigatória entre salvar a mãe ou a criança, o pai deveria decidir. Repito, não sei se isto era exactamente assim, mas pouco importa, era o que se dizia. Sempre ouvi esta história com horror. Sou profundamente respeitador da vida humana e por exemplo a pena de morte, é algo que não posso aceitar. Mas se há que escolher entre uma vida adulta, consciente, que pensa e sabe e uma outra vida que começa, ainda inconsciente, parece-me monstruoso pôr ambas no mesmo plano. Só a mulher poderia decidir e se não o pudesse fazer por estar inconsciente, deveria ser ela, o ser adulto, que se teria que tentar salvar antes de tudo. Acredito que esta memória da infância que ainda está tão viva, não é alheia à minha convicção peremptória: só a mulher pode ter o direito a decidir quando quer e pode ser mãe.

Uma outra reflexão que gostava de deixar neste texto, tem que ver com a falsa oposição entre crentes e não crentes que alguns sectores tendem a apresentar como base para a disputa entre o sim e o não. Seria uma enorme distorção da realidade apresentar o debate como um debate entre católicos e não católicos. É certo que a hierarquia formal da Igreja se empenhou no não. Mas também muita gente na hierarquia da Igreja pactuou com o salazarismo e não foi isso que impediu muitos e muitos católicos de se lhe oporem, por razões de consciência. Quantos de nós, católicos e não católicos, nos encontrámos ombro a ombro, na luta pela democracia, contra a guerra e em favor da paz. Também hoje muitos católicos estão na primeira linha dos que denunciam a exclusão social, os submundos onde as pessoas são privadas de toda a dignidade, reduzidas a lutar pela sobrevivência na maior abjecção e indiferença. Católicos e não católicos, estaremos certamente do mesmo lado da trincheira por um mundo mais justo, por um mundo com paz, onde os seres humanos tenham verdadeiramente a dignidade que todos lhes concedemos em teoria e negamos na prática. Por tudo isso, é quase um crime querer transformar este referendo numa disputa entre católicos e não católicos. Certamente que haverá católicos que pensam o mesmo que eu: que desejariam que não fosse necessário fazer abortos, mas que sabem bem que em muitos casos,esta opção é, apesar de tudo, a menos geradora de injustiça.

A falsidade desta oposição entre católicos e não católicos é evidente quando consideramos o caso da Espanha. País profundamente católico, tem uma política muito diferente da nossa e optou por garantir que as mulheres podem interromper a gravidez com todas as condições de dignidade e segurança.

A este propósito, vale a pena dizer aos mais jovens que as pessoas com mais de 50 anos, como eu, sempre conviveram com o aborto em Portugal. Gente de todas as classes sociais, católicos e não católicos, sempre o fizeram sem que a questão se tornasse um pomo de discórdia social. Trata-se apenas de passar a fazer legalmente, em instituições qualificadas, o que dantes se fazia recorrendo a pessoas sem formação médica e tantas vezes com riscos reais para a vida e a integridade das mulheres.

Um último argumento que merece comentários por parte de um biólogo como eu, tem que ver com a ideia, difundida recentemente da reprodução como dimanando de uma lei da Natureza.

A Natureza não pode ser fundamento para qualquer moral ou regra de direito. Não há direito Natural. Como animais, os nossos antepassados, assassinaram, foram canibais, praticaram genocídios e o infanticídio ou a morte de idosos e deficientes foi praticada por numerosas culturas. Será por isso legítimo fazê-lo hoje? O absurdo da pergunta é evidente. Só quis mostrar que a Natureza não nos traz ensinamentos morais, nem maus nem bons. Somos nós, sujeitos conscientes e responsáveis, que teremos que definir o que é bem e mal.

No que toca à interrupção da gravidez, muitos animais comem os filhos quando as condições são adversas à reprodução ou a sobrevivência da mãe entra em conflito com a dos filhos. Muitos outros abandonam as crias em caso de fome ou de perigo, mesmo quando não têm qualquer hipótese de sobreviver. Outras espécies, como os coelhos, têm mecanismos para matar e reabsorver os embriões no próprio útero, quando a mãe está em stress. Portanto, o infanticídio, o aborto, o abandono, são frequentes na Natureza. Não será por isso que nós o faremos, mas estes exemplos servem para mostrar que não pode ser na Natureza que vamos procurar os fundamentos das nossas decisões morais, como pretendem alguns. Só a nossa consciência nos poderá servir de guia, na busca de um rumo moral.

Retrato de Luís Lavoura

O jornal Correio da Manhã (CM) titula hoje, em primeira página e letras garrafais, que o "aborto livre custará ao Estado vinte milhões de euros por ano".

As contas do CM são fáceis de reproduzir. Parte-se do número de abortos anualmente realizados em clínicas espanholas (85.000) e divide-se por quatro (a população espanhola é quatro vezes superior à portuguesa) para concluir que em Portugal se realizam 20.000 abortos por ano. Depois, multiplica-se esse número por 1.000 euros, o suposto custo de cada aborto atualmente realizado pelo Serviço Nacional de Saúde (SNS).

Há alguns pressupostos escondidos nestas contas. Não é de esperar que, se o aborto fôr despenalizado, a totalidade, ou sequer a maior parte, dos abortos venha a ser realizada a expensas do SNS; provavelmente a maior parte dos abortos será sempre realizada em clínicas, por indisponibilidade dos, ou dificuldades burocráticas levantadas nos, hospitais do SNS. E um aborto pode custar 1.000 euros quando é realizado às 20 semanas, a um feto mal-formado, como atualmente; o aborto que se pretende despenalizar, até às 10 semanas de gravidez, não necessitará em geral de ser cirúrgico e custará muito menos; aliás, nas clínicas privadas o preço de um aborto varia entre os 400 e os 500 euros, menos de metade do valor 1.000 euros utilizado pelo CM.

Seja como fôr, é claro que a questão do preço dos abortos para o SNS será - à falta de outros argumentos válidos - um dos principais cavalos-de-batalha da campanha do Não.

E é claro que, se este referendo fôr perdido, um dos principais responsáveis será Correia de Campos, o ministro da saúde do atual governo. Foi ele que, desastradamente, sugeriu que se prepara para determinar que se realizem abortos a pedido da mulher a expensas do SNS. Foi ele quem, com essa sugestão, legitimou a (errada) suposição de que o referendo não se destina apenas a despenalizar o aborto, mas também a determinar que todos nós paguemos, através dos nossos impostos, a realização de abortos clinicamente desnecessários.

Correia de Campos não tinha o direito de dizer os disparates que disse. A vocação dos hospitais do SNS é - como bem afirmou o diretor do Serviço de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital de Santa Maria, defensor do Sim, em afirmações ao jornal Público de hoje - curar doenças, e não realizar abortos. Nem há qualquer necessidade de que os hospitais do SNS realizem abortos - as clínicas privadas, já existentes ou a abrir, terão com toda a probabilidade uma capacidade excedentária para realizar todos os abortos que sejam pedidos. Nem faz sentido que o SNS vá gastar recursos a realizar abortos, quando não tem recursos para atender, por exemplo, às bem prementes e reais necessidades de saúde dentária dos portugueses. E, de qualquer forma, o objetivo do referendo é apenas permitir que os abortos se realizem legalmente - não é garantir que qualquer mulher que pretenda um aborto terá, gratuitamente, direito a ele.

Correia de Campos meteu a pata na poça. E, pelo seu disparate, podemos todos ir pagar no futuro: caso o referendo seja perdido, por prosseguir a pouca-vergonha terceiro-mundista em que nos encontramos; e, caso seja ganho, por termos que efetivamente pagar dos nossos impostos para a realização de abortos.

Retrato de Luís Lavoura

No contexto do próximo referendo sobre o aborto, diversas pessoas têm manifestado preocupação com a possibilidade de o aborto passar a fazer parte integrante do Serviço Nacional de Saúde, de o seu pagamento ser comparticipado pelo Estado, de a realização de abortos ir fazer aumentar as listas de espera nos hospitais do Estado, etc.

Convem desmistificar estes pontos.

Aquilo que nos será perguntado no próximo referendo NÃO É se o aborto é um direito da mulher (grávida), isto é, se toda a mulher grávida tem o direito de abortar.

Aquilo que nos será perguntado no próximo referendo É APENAS se os hospitais e clínicas têm o direito de oferecer serviços de aborto.

Ou seja, tratar-se-á de um direito (ou liberdade) dos hospitais e clínicas, não de um direito ou liberdade das mulheres.

Não está especificado na pergunta que nos será feita o saber se o Estado deverá garantir à mulher grávida a possibilidade de abortar. A mulher grávida poderá ter ou não essa possibilidade, consoante haja ou não um hospital nas proximidades que efetue abortos, consoante ela tenha ou não dinheiro para pagar a intervenção, e - eventualmente - consoante o Estado a apoie ou não nesses dois sentidos.

Se no referendo se obtiver a resposta "sim", então o aborto deverá obrigatoriamente ser liberalizado. Isso obrigará o Estado a permitir que os hospitais e clínicas situados em território português disponibilizem, se o desejarem, serviços de aborto. Mas NÃO obrigará o Estado a garantir a qualquer mulher grávida o acesso à realização de um aborto a preço comportável. Este último passo dependerá do governo que, a cada momento, esteja no poder, das suas orientações políticas em matéria de saúde e do seu financiamento. Mesmo sendo o aborto livre, qualquer governo terá o direito, sempre que o desejar, de proibir que sejam efetuados abortos nos hospitais do Estado, de não permitir o financiamento de abortos pelo Serviço Nacional de Saúde, ou de relegar os abortos para a prioridade mínima das intervenções cirúrgicas.

O aborto que se discutirá no próximo referendo não será um direito das mulheres. Será um direito dos hospitais.

Retrato de Miguel Duarte

Via Portugal Diário:

Uma mulher em estado vegetativo respondeu a ordens dos médicos e até imaginou que jogava ténis, segundo imagens recolhidas do seu cérebro e publicadas esta sexta-feira na revista científica norte-americana Science, noticia a agência Lusa.

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A mulher, cuja identidade não se dá a conhecer no artigo, tem 23 anos e sofreu lesões cerebrais graves como resultado de um acidente de viação, tendo ao fim de cinco meses sido determinado que se encontrava em estado vegetativo.

Com o objectivo de medir as suas reacções neurológicas e o seu grau de consciência, os cientistas do Conselho de Investigações Médicas da Universidade de Cambridge e do Departamento de Neurologia da Universidade de Liège (Bélgica) recorreram a imagens por ressonância magnética (MRI) funcional.

Para determinar as diferenças, um grupo de 34 voluntários foi igualmente ligado a estes aparelhos e submetidos aos mesmos testes.

Nesta experiência, os médicos pediram à paciente que imaginasse que estava a disputar uma partida de ténis e depois que percorresse todas as divisões da sua casa, começando pela porta de entrada.

Nos momentos em que lhe foi pedido para jogar ténis, a zona motriz do seu cérebro revelou um alto nível de actividade.

Em contrapartida, quando se lhe solicitou que percorresse a casa, essa actividade foi observada noutro sector do seu cérebro.

Mas o mais importante, segundo o artigo, é que «as suas reacções neurológicas foram totalmente iguais às observadas nos voluntários».

As respostas nas diversas zonas do cérebro da paciente em estado vegetativo «foram impossíveis de distinguir das observadas nos voluntários saudáveis», acrescentam os investigadores.

Muitas implicações éticas tem esta descoberta, além de ser aterradora. Não consigo imaginar o suplício que deve ser estar consciente, ouvir o que nos dizem, mas não poder falar, mexer-me ou ver...

Mas também abre novas esperanças para estes doentes, pois aparentemente, via a análise dos seus pensamentos, é possível estabelecer algum diálogo com os mesmos.

Na sexta-feira, o jornal das nove da Sic Notícias, tinha como convidado Manuel Pinto Coelho da Associação Portugal Livre de Drogas, supostamente para comentar a política de saúde do governo a propósito da introdução das salas de chuto.

Carlos Manuel Castro, no Tugir, comenta:

«Ao longo de alguns minutos, o entrevistado enumerou vários considerandos merecedores de pouca credibilidade, como por exemplo, a defesa da não diferenciação de drogas. Como se drogas leves e duras não requeressem abordagens distintas. Por outro lado, esqueceu-se de mencionar os novos consumos de drogas, principalmente nos mais jovens, fruto de novas realidades de convívio, diferentes daquelas que ainda hoje se perpetuam com a cocaína e heroína.
A entrevista, que devia centrar-se nas diversas medidas do Governo, acabou por se centrar na introdução das salas de injecção assistida, como se estas fossem a única medida do Governo.»

Que o presidente da Associação Portugal Livre de Drogas profira tais dislates, não me espanta assim tanto. Só pelo nome da associação se percebe a origem das suas ideias. Mas que se não entenda daqui um preconceito, ouvi e conheço as ideias por ele propaladas e considero-as facilmente desmontáveis. Se ao menos houvesse contraditório.

O que me espantou verdadeiramente foi o exercício balofo de exaltação de preconceitos que o Mário Crespo ali fez ao referir o Instituto da Droga e da Toxicodependência como não sendo contra nada... era só da Droga e da Toxicodependência (insinuando que não teria problemas em incentivar o consumo) e posteriormente ao ter dado o destaque que deu à tal resposta que dizia que "não há receitas" para evitar que o filho "se meta na droga", provinda de um texto do referido IDT. Estes dois pormenores até podem ser infelizes, mas o que eu questiono é a sua relevância para fins jornalísticos, pelo menos da qualidade a que o Mário Crespo nos habituou.

É aliás pena que aquando da presença do Ministro da saúde Correia de Campos para explicar justamente estas e outras medidas, Mário Crespo pouco o tenha questionado sobre as mesmíssimas "dúvidas" que ontem transpirou despudoradamente.

Se, pelos anos de carreira, provas dadas no jornalismo, ou qualquer outro motivo, Mário Crespo julga poder de vez em quando relaxar a isenção jornalística a que está obrigado (o que eu até toleraria), então que o faça quando tem em estúdio um "adversário", não um "aliado". Pode dar mais trabalho, mas pelo menos não corre o risco de manchar a sua boa reputação com a triste figura de sexta-feira à noite.

" Se a saúde é tendencialmente gratuita porque é que os médicos andam de Ferrari? "

Retrato de Miguel Duarte

Os defensores do direito à "morte com dignidade" nos Estados Unidos obtiveram ontem uma importante vitória, com o Supremo Tribunal a reconhecer a prevalência da lei do suicídio medicamente assistido do estado do Oregon sobre as tentativas da Administração Bush de impedir a distribuição de drogas aprovadas pelo Governo federal e utilizadas na realização de eutanásias. Fonte: Público

Para mais informações pode-se consultar a associação americana Death with Dignity National Center

Pessoalmente apreciei muito da justificação para a Eutanásia por parte desta organização:

A maior das liberdades humanas é viver e morrer, de acordo com os seus próprios desejos e crenças. O desejo mais comum de entre os doentes com doenças terminais é morrer ainda com alguma dignidade.

Como acompanhei de perto recentemente os últimos meses de vida de uma pessoa que faleceu com um cancro, consigo em grande medida compreender isto. Muito sinceramente, desconheço que decisão tomaria numa situação semelhante, mas gostava pelo menos de viver, sabendo, que se um dia algo semelhante me acontecer, tenho a possibilidade de acelerar um pouco o inevitável fim que a todos nos aguarda, morrendo em dignidade e poupando sofrimento a mim e aos que me acompanham. É simplesmente uma questão de liberdade.