Comunicação Social

Retrato de Luís Lavoura

Os três canais portugueses de televisão em sinal aberto têm todos eles o seu noticiário da noite a começar às 20 horas. Os noticiários duram em todos os três canais uma hora e têm as mesmas caraterísticas de info-entretenimento.

Não há ao menos um dos canais que opte por colocar o seu noticiário meia hora mais tarde ou mais cedo, quanto mais optar por um horário completamente diferente.

Quem não puder estar a ver televisão às 20 horas, ou não puder ficar em frente ao televisor a hora inteira, fica sem notícias.

Retrato de Luís Lavoura

Não deixa de ser impressionante o poder que as empresas mediáticas dos EUA têm de vender "casos" para todo o mundo.

O último "caso" é, como toda a gente sabe, o do tiroteio numa escola primária no Connecticut. Sem dúvida que a matança foi impressionante. Mas hoje mesmo aconteceram outras matanças, por exemplo a de dez jovens raparigas mortas pela explosão de uma mina no Afeganistão quando procuravam lenha. Não tenho dúvidas de que não veremos na televisão imagens dessas matanças, ou então só as veremos por pouco tempo, e só hoje. Não saberemos os nomes das vítimas nem veremos os seus parentes a chorar.

Qualquer acontecimento anómalo nos EUA é transformado pelas empresas mediáticas americanas num produto altamente transacionável, que é eficientemente exportado para boa parte do mundo, que avidamente o compra, consome e comenta. Acontecimentos anómalos noutros países dificilmente são exportados da mesma forma.

Retrato de Luís Lavoura

Não deixa de ser reveladora a forma como os órgãos de comunicação social reagiram às manifestações de há uma semana: atirando pela borda fora toda a objetividade que conviria manter, os mídia colocaram-se totalmente do lado dos manifestantes.

A título de exemplo, ontem no telejornal da TVI, em horário nobre, uma reportagem, totalmente desfasada no tempo, sobre as manifestações, era pura e simplesmente panegírica. Em música de fundo, a canção "Que força é essa" de Sérgio Godinho, uma música do tempo do PREC que já há décadas estava banida, a dar foros heróicos aos manifestantes. Note-se que as manifestações foram há oito dias, pelo que não se compreende o que fazia ali aquela reportagem, se não precisamente dar mais força e relevância às manifestações.

Parece-me claro que os meios empresariais, em particular os donos da TVI e aqueles que nela fazem publicidade aos seus produtos, estão do lado dos manifestantes.

Retrato de Luís Lavoura

Parece cada vez mais claro que a intenção primordial do Estado, ao privatizar (ou conceder a exploração de) um canal da televisão pública, não é a de aumentar a liberdade e a diversidade dos mídia, é apenas a de diminuir os gastos do próprio Estado.

Ou seja, a prioridade para o Estado é deixar de gastar dinheiro com a televisão, mesmo que isso traga prejuízos à população - como indubitavelmente trará, se o canal 2 da RTP fôr eliminado - em termos de menor diversidade, liberdade e riqueza nos conteúdos transmitidos.

Parece também evidente que, qualquer que seja o destino da televisão pública, os cidadãos continuarão a ser forçados a pagar uma contribuição para ela anexa à fatura da eletricidade. Ou seja, os cidadãos pagarão o mesmo mas receberão menos (ou nada), e de pior qualidade.

Retrato de Luís Lavoura

É de louvar o excelente trabalho que a RTP 2 está a desenvolver ao transmitir múltiplas competições dos Jogos Olímpicos, especialmente em modalidades que têm relativamente pouca expansão e reconhecimento público em Portugal, como por exemplo o badminton ou o ténis de mesa. Este é um verdadeiro trabalho de qualidade em prol dessas modalidades e da sua prática, que constitui serviço público na sua aceção mais nobre. De notar que, mesmo fora destes Jogos Olímpicos, a RTP 2 já é praticamente o único canal televisivo em sinal aberto que transmite modalidades para além do futebol.

Neste particular, mais uma vez se vê que é totalmente ridícula a ideia, que aparentemente é a do ministro Relvas, de privatizar a RTP 2 deixando a RTP 1 em propriedade do Estado. De facto, a RTP 2 foi transformada, pelo anterior governo PSD-CDS, em 2003, na estação de serviço público por excelência, pelo que é absurdo o atual governo PSD-CDS ir desfazer o (por sinal, pouco) que o anterior fez de bom. A estação que deve ser privatizada é a RTP 1, cuja programação já hoje segue praticamente os moldes comerciais das televisões privadas. Não se deve desfazer aquilo que está bem feito.

Retrato de Luís Lavoura

Afirma o Nuno Gouveia (em post que não admite comentários): "não gosto nada de pagar impostos para financiar programas como o Preço Certo ou o Verão Total [...]. No entanto, não defendo que esse tipo de programas devam ser (sic) proibidos. Defendo [...] que [...] esta RTP [...] seja privatizada. Assim, eu já não contribuiria para pagar o que não gosto."

Porem, o Nuno não tem razão. As televisões privadas são, involuntariamente, financiadas por todos nós através da publicidade. Através dela, contribuímos involuntariamente para pagar todo o telelixo que nos é servido. Não vejo grande diferença entre (1) o Estado forçar-me a pagar IVA sobre os produtos que compro e, com a receita desse IVA, financiar telelixo, e (2) a empresa que produz o produto que compro aumentar artificialmente o seu preço com o fim de pagar publicidade televisiva a outros produtos quaisquer que produz, pelo caminho financiando telelixo. Com efeito, em ambos os casos o meu dinheiro é-me extorquido para financiar coisas que eu não solicitei.

Com a vantagem, ainda assim, no caso do IVA, de que nesse caso eu sei quanto me extorquiram e para que fins me foi extorquido.

Retrato de Luís Lavoura

O grupo de trabalho nomeado pelo governo para sugerir orientações para a política para o setor da comunicação social apresentou o seu relatório final. Creio que esse relatório deverá ser e de facto será, muito apropriadamente, imediatamente deitado para o lixo. (Mais uma delapidação de precioso dinheiro do Estado!)
O grupo de trabalho começou mal, com a má nomeação dos seus membros. É evidentemente errado formar um tal grupo de trabalho com pessoas com interesses profissionais, passados ou presentes, em empresas de comunicação social. Por exemplo Francisco Sarsfield Cabral, que foi (ou ainda é) diretor da Rádio Renascença, e José Manuel Fernandes, que esteve muitos anos à frente do jornal Público. É deveras evidente que essas pessoas têm contas a ajustar e interesses privados a defender, e não devem ser elas a (ajudar a) definir uma política governamental.
O grupo de trabalho defendeu, ridiculamente, retirar o mais possível da televisão pública conteúdos informativos e de debate político. A argumentação para defender tão estapafúrdia tese é que os jornalistas da televisão pública podem ser influenciados por eventuais orientações editoriais e políticas provindas do governo. Essa justificação é, sem dúvida, verdadeira. Há, porém, duas contestações:
(1) Será que a melhor forma de evitar uma informação potencialmente tendenciosa é eliminar de todo essa informação? Não me parece. A informação deve ser plural e deve ser o consumidor, isto é, o telespetador, a escolher qual a informação que prefere.
(2) Os jornalistas dos canais privados também podem ser influenciados por orientações políticas provindas dos patrões desses canais, e isso não é considerado motivo para restringir a informação nesses canais. Por que motivo hão-de as eventuais influências governamentais num canal televisivo ser consideradas mais perniciosas do que as influências de privados noutros canais?

Retrato de Luís Lavoura

Na última eleição presidencial as televisões cometeram um erro lamentável: já depois de terem levado a cabo uma extensa e redundante série de dez debates entre os cinco candidatos por elas cooptados, veio a descobrir-se que havia mais um candidato às eleições, o qual ficou privado da oportunidade de participar em qualquer debate.

 

Na próxima eleição legislativa as televisões, em cooperação entre si como anteriormente (de que nos vale termos três canais de televisão se eles cooperam em vez de concorrerem?), vão repetir o erro: vão promover uma extensa e redundante série de dez debates entre os cinco partidos atualmente representados na Assembleia da República, pondo de fora todos os restantes partidos candidatos às eleições.

 

Se o nosso sistema político está fechado e sem saídas, boa parte da culpa é da comunicação social, que insiste em cortar a voz a todos os pequenos partidos, ao mesmo tempo que amplifica desmedidamente a voz dos partidos que têm deputados eleitos.

Retrato de Luís Lavoura

Sete cidadãos dinamarqueses que viajavam num iate algures no mar Arábico foram tomados como refens por piratas somalis, que agora pedem um elevado resgate para os deixarem seguir viagem.

 

O governo dinamarquês reagiu pedindo aos mídia dinamarqueses que falem o menos possível - tendencialmente, nada - sobre o assunto, com o fim de não colocar em perigo as negociações com os piratas, ou até uma eventual tentativa de resgate dos refens pela força.

 

Curiosamente, quando foi do célebre caso das caricaturas de Maomé, o governo dinamarquês rejeitou fazer pedidos similares aos mídia (isto é, evitou pedir-lhes que não publicassem as caricaturas), antes defendeu tenazmente a liberdade de os mídia dinamarqueses publicarem o que muito bem lhes apeteça.

 

Eu a mim isto parece-me, vagamente, um sistema de dois pesos e duas medidas. Quando se trata de os mídia dinamarqueses publicarem umas caricaturas, o governo dinamarquês defende intransigentemente a liberdade e recusa-se a desaconselhar a publicação. Já quando se trata de os mídia dinamarqueses publicarem algumas notícias - ainda por cima, verdadeiras! - sobre um determinado caso, o governo apressa-se a pedir contenção aos mídia.

 

Para que fique claro, eu penso que a atual atitude do governo dinamarquês é compreensível e adequada - mas penso que atitude similar, de pedir aos mídia que não publicassem coisas ofensivas para uma religião, teria sido similarmente compreensível e adequada há uns anos atrás.

Retrato de Luís Lavoura

Ontem num programa de comentário político na rádio Antena 1, falava a editora da secção de política, Maria Flor Pedroso, e logo a seguir tomou a palavra o comentador Carlos Magno, que disse que Maria Flor é que daria uma boa Presidente da República.

 

Eu estou 100% de acordo com Carlos Magno: é mesmo isso!!! Maria Flor Pedroso está a milhas em inteligência da maior parte dos políticos que entrevista, tem vastos conhecimentos da política portuguesa e, para ajudar, tem uma voz grave, masculina, que a torna mais respeitável. Daria, disso não tenho a menor dúvida, uma excelente Presidente da República. Daqui a cinco anos, haja quem a ice!