Comunicação Social

Retrato de Luís Lavoura

A histeria mediática em torno do início da presidência de Donald Trump é tal que, a avaliar por alguns noticiários, parece que Portugal é parte dos EUA. Como se os assuntos internos desse país nos dissessem muito respeito. Por exemplo, hoje discute-se muito nos media a escolha que Trump fez para um novo juiz no Supremo Tribunal dos EUA. E eu pergunto: em que é que isso nos diz respeito? O que temos nós, portugueses, a ver com a Constituição dos EUA e com a forma como ela é, ou deixa de ser, aplicada no curioso sistema americano de common law?

Os media portugueses fariam bem em deixar de se alimentar de notícias made in USA e passarem a tratar prioritariamente do nosso país.

Retrato de Luís Lavoura

Quando eu vivi na Alemanha, durante a primeira Guerra do Golfo (1991), os mídia norte-americanos (CNN) transmitiam notícias bombásticas sobre os sucessos das tropas norte-americanas. A rádio alemã que eu escutava, pelo contrário, era de grande sobriedade e objetividade; limitava-se a informar, tipicamente, qualquer coisa como "sobre a guerra no Iraque não temos notícias a dar, uma vez que todas as informações de que dispomos são de fontes militares e portanto não são confirmadas".

A sobriedade e objetividade alemãs estão hoje de novo a servir de modelo à Europa, na forma como a Alemanha enfrenta os casos de violência e assassínio que nos últimos dias lá têm ocorrido. Sem especular prematuramente sobre a possibilidade de os ataques terem cariz terrorista, sem dar a esses ataques uma medida desproporcionada, sem falar de mais sobre ocorrências menores, e sem empolar esses ataques para fins políticos.

Estão de parabéns os jornalistas e os políticos alemães.

Retrato de Luís Lavoura

Houve um juiz do Supremo Tribunal norte-americano que, uma vez, na redação de um parecer sobre a liberdade de expressão, escreveu que um dos limites a essa liberdade existe quando alguém grita "Fogo!!!" num teatro apinhado de gente. A pessoa que faz esse falso alarme para um incêndio torna-se responsável pelos mortos e feridos que venham a resultar do pânico causado e da correria para as saídas do teatro.

O mesmo se aplica à notícia da TVI sobre a iminência da falência do BANIF. Ao publicar a notícia, a TVI tornou-se responsável pela corrida aos depósitos que se verificou nesse banco, com as consequências que dela advieram. A TVI pisou o risco dos limites à liberdade de informar.

Mas, é claro que isto não interessa nada num país como o nosso, onde há amplas liberdades democráticas (na velha expressão de Álvaro Cunhal) e a TVI e o Correio da Manhã dão as notícias, verdadeiras ou falsas, legítimas ou ilegítimas, que muito bem lhes apeteça, sem que jamais sejam punidos pela sua irresponsabilidade ou aleivosia..

Retrato de Luís Lavoura

Nestas eleições presidenciais, as três televisões generalistas (RTP, SIC e TVI), que em princípio deveriam concorrer entre si, decidiram coligar-se na organização de debates entre os candidatos. Entre alguns candidatos, aliás: entre os candidatos escolhidos por elas. De entre os dez candidatos, as televisões escolheram sete a quem deram o direito de debater cara-a-cara com cada um dos outros seis; três candidatos foram totalmente excluídos de debater com qualquer dos outros sete. Sete candidatos tiveram direito a tudo, os restantes três não tiveram direito a nada.

As televisões poderiam pelo menos ter tentado um simulacro de igualdade no tratamento; por exemplo, determinando que cada um dos dez candidatos teria direito a debater com cinco outros, determinados por sorteio. Mas nem esse simulacro tentaram: foi discriminação pura e desavergonhada.

Retrato de Luís Lavoura

Os partidos políticos descobriram que a lei que regulamenta o tratamento mediático das campanhas eleitorais vem de 1975 e está desatualizada. Essa lei impõe o tratamento igual, pelos media, das campanhas eleitorais de todas as candidaturas. Isso é irrealista e frustrante, pois obrigaria os media a dar a mesma atenção às campanhas eleitorais de (por exemplo) o PSD e o POUS. Mas a Comissão Nacional de Eleições exige (e com toda a razão, em meu entender: as leis são para ser cumpridas) que os media cumpram essa lei irrealista e frustrante. Os partidos parlamentares querem então mudar a lei, mas não se entendem sobre como o fazer.

Eu faço a seguinte singela proposta: eliminem a lei de 1975 e não façam nenhuma nova para a substituir. Deem aos media liberdade total sobre como reportar as diversas candidaturas. Não se preocupem com um problema que, no fundo, não existe. Não está demonstrado que haja necessidade de qualquer lei para regulamentar a forma como os media cobrem as campanhas eleitorais; enquanto não fôr evidente a necessidade de tal regulamentação, mais vale que ela não exista de todo.

Retrato de Luís Lavoura

Em Portugal os políticos e os jornalistas são amantes. Vivem em concubinato uns com os outros. Os políticos dependem dos jornalistas (que divulgam as suas posições) e os jornalistas dependem dos políticos (que lhes fornecem matéria para a escrita de artigos), pelo que se ajeitam uns aos outros. Têm os números de telemóveis uns dos outros, o que lhes permite a qualquer hora dar uma palavrinha ou enviar um SMS ao amante, quando dele necessitam.

Como é normal entre amantes, de vez em quando cometem-se umas infidelidades, há umas zangas, uns amuos, uns arrufos. Nada de sério, pois, no fundo, todos sabem que têm conveniência em continuarem na mesma cama, ora um por cima e o outro por baixo, ora o contrário.

Vem isto a propósito de um SMS indelicado que alegadamente António Costa escreveu a um jornalista do Expresso. E que este se apressou a divulgar no seu jornal, para que todos saibamos que António Costa tem o número de telemóvel dele. E como se todos tivéssemos algo a ver com o concubinato que os une.

Em Portugal, devemos desconfiar tanto dos jornalistas como dos políticos, porque uns e outros são unha com carne. Estão na mesma cama e, na verdade, somos nós quem está por debaixo deles na cama.

Retrato de Luís Lavoura

Depois da vergonhosa interferência do governo na RTP que ocorreu nos últimos dias, tenho dificuldade em ver quem é que serão os lambe-botas que estarão disponíveis para ir para o Conselho de Administração dessa empresa, servir de paus-mandados à rédea curta.

E estou certo de que jamais, nos tempos mais próximos, a RTP tentará fazer frente, na sua programação, a um dos canais privados, especialmente à TVI. A partir de agora fica claro que a RTP só poderá programar coisas que não façam competição à TVI nem à SIC. Estas é que mandam no mercado da televisão, para a RTP só ficam as migalhas.

Retrato de Luís Lavoura

O presente charivari em torno da RTP ilustra um dos perigos da privatização parcial de serviços públicos: os privados começam a protestar para que o serviço que se mantem público não lhes faça concorrência supostamente desleal. Os privados não se importam de que continue a haver serviço público, desde que este se remeta a uma posição de inferioridade.

A história é simples: a RTP decidiu comprar os direitos de transmissão da Liga dos Campeões, oferecendo por esses direitos uma quantia muito superior à que a TVI oferecera. O que é perfeitamente normal: entre dois concorrentes, um oferece mais do que outro. A SIC até nem ofereceu nada.

Mas, como a RTP é pública e a TVI é privada, esta última resolveu protestar por a RTP oferecer muito mais do que ela. Como se fosse ilegítimo uma estação oferecer mais do que outra. Repito: a SIC até nem ofereceu nada.

Como a TVI protestou e o poder político atual é quem é, resolveu escutar o protesto e dar-lhe seguimento. Agora anda tudo à discussão para saber se é legítimo que a RTP, sendo pública, ofereça mais num leilão do que as estações privadas.

Ou seja: a TVI e a SIC concordam perfeitamente que exista RTP e que ela seja pública. Desde que não lhes faça concorrência ativa.

O liberalismo e a concorrência são coisas muito bonitas - desde que não ocorram no meu setor de atividade!

Retrato de Luís Lavoura

As notícias internacionais que nos são servidas nos telejornais são importadas de agências noticiosas norte-americanas. Como nos EUA há muitos judeus e Israel é um país muito querido dos EUA, a recente guerra de Israel contra Gaza foi muito importante para essas agências noticiosas. Por isso, diariamente essa guerra era-nos servida nos noticiários, e ficámos a saber que nela morreram aproximadamente 2000 pessoas.

Há uma guerra mais próxima de nós na qual até agora também já morreram 2000 pessoas - a guerra da Ucrânia contra a sua região separatista no Leste. É uma guerra a sério, tão a sério como a de Israel contra Gaza. Há artilharia e aviões a bombardear cidades, prédios destruídos, centenas de civis feridos e mortos, cidades sem eletricidade nem água. Tudo por obra do exército de um Estado civilizado - a Ucrânia - que ataca os civis maioritariamente desarmados de uma determinada zona. Tal e qual como no Médio Oriente.

Mas deste caso praticamente não se fala, porque o governo dos EUA não está particularmente interessado que se saiba as selvajarias que o exército do país seu amigo anda a fazer. Para as agências noticiosas norte-americanas e, portanto, para a televisão portuguesa, a guerra no Leste da Ucrânia não existe ou não interessa. Ali não se vêem os prédios destruídos, os civis em fuga (para a Rússia), os aviões e as explosões. A consciência pública ocidental tem apenas a vaga ideia de que no Leste da Ucrânia está a haver umas escaramuças ou uma guerra de guerrilha; não sabe que é uma guerra a sério, que já fez tantos mortos como a de Israel e Gaza.

E por isso ninguém faz nada para travar essa guerra, para convencer o Estado civilizado que não é legítimo atacar assim populações civis indefesas.

Retrato de Luís Lavoura

A Benfica TV serve para que os foras-de-jogo cometidos pelos jogadores do Benfica não possam ser denunciados (ou, pelo menos, não possam ser facilmente demonstrados).
Foi isso que (mais uma vez) se viu no jogo de ontem, no qual o jogador do Benfica Marković marcou um golo tecnicamente muito bonito - coisa que delicia o requintado paladar dos aficionados portugueses - mas (presumivelmente) em posição de fora-de-jogo. Mas, como o jogo só foi transmitido pela Benfica TV, e a essa televisão não interessa deslindar tais foras-de-jogo, não se pode demonstrar facilmente que tenha existido.