Comunicação Social

Retrato de Luís Lavoura

Já todos conhecemos o caso em que o deputado Ricardo Rodrigues, ao abruptamente pôr término a uma entrevista que uns jornalistas lhe estavam a fazer, aproveitou para surripiar os gravadores que esses jornalistas lhe tinham colocado à frente.

Esse caso levanta-me um conjunto de dúvidas, que me sugerem tratar-se, de alguma forma, de uma história mal contada:

(1) Por que motivo estavam os jornalistas a gravar a entrevista com gravadores e, simultâneamente, a filmá-la em vídeo? Se o vídeo capta o som para que eram necessários os gravadores? E, sendo a entrevista destinada apenas a uma revista, para que fim era necessário filmá-la? Para quê esta duplicação de meios de gravação, e para quê as imagens?

(2) Os jornalistas dificilmente terão deixado de reparar, no próprio local, que o deputado lhes estava a roubar os gravadores. Por que motivo não se levantaram e logo ali lhe exigiram a devolução do seu material?

(3) O roubo só foi publicamente divulgado alguns dias depois de ter ocorrido, na edição impressa da revista para a qual os jornalistas trabalhavam. Por quê? Tratando-se de um caso de tal gravidade, por que motivos os jornalistas não o denunciaram publicamente no próprio dia?

Estas três questões fazem-me vagamente suspeitar que tudo aquilo não passou de uma encenação com o fim de "vender papel". A minha suspeita será possivelmente completamente infundada. Mas seria bom ver estas três perguntas respondidas.

Retrato de Luís Lavoura

O programa Prós e Contras da RTP1, ontem, dedicado à visita papal a Portugal, foi excecional. Nele não houve Contras, apenas Prós. Tanto no palco  como na plateia só havia católicos militantes, entusiasmados com a visita da papa. A plateia estava até, de facto, cheia de padres ou seminaristas. Fora algumas pessoas bem nossas conhecidas da luta contra a liberdade, como Margarida Neto, Isabel Galriça Neto, Marcelo Rebelo de Sousa, e outras estrelas do nosso firmamento.

 

Isto na televisão pública, note-se bem, que ontem esteve transformada numa televisão confessional. Nas televisões privadas estavam à mesma hora a transmitir uma telenovela e um filme americano.

 

Privatizem aquilo, ou então declrem-lhe a falência e encerrem-na, que, para isto, não deve ser o Estado a pagar.

Retrato de Luís Lavoura

A partir do momento em que o jornal Sol desobedeceu a uma proibição judicial de publicar determinado material através do truque simples - amplamente utilizado nos meios judiciais portugueses - de evitar a receção da notificação por carta dessa proibição, e a partir do momento em que essa desobediência por parte do Sol recebeu amplo aplauso da parte de todos os jornalistas e de boa parte da opinião pública, as pessoas ficaram a saber que a única forma de impedirem que determinado material seja publicado sobre elas é roubarem esse material aos jornalistas através da "ação direta", a qual se encontra aliás tipificada no Código Civil para semelhantes efeitos.

Quando se aceita que a justiça estatal seja inoperante, a ação direta passa a ser a única forma de as pessoas fazerem valer os seus direitos.

Retrato de Luís Lavoura

Pedro Passos Coelho esteve muito bem ao defender, ontem, que o Estado deve privatizar a RTP, isto é, privatizar as estações de rádio e de televisão que ainda lhe pertencem.

Note-se que a RTP tem, nos últimos anos, dado lucro, sendo perfeitamente viável privatizá-la. No entanto, a privatização implicaria o levantamento das restrições que atualmente limitam a publicidade nos canais públicos. Como é evidente, isto não interessa nada às estações concorrentes. Ao manter a RTP privada o Estado está, implicitamente, a subsidiar as estações de rádio e televisão privadas, principalmente a SIC e a TVI, as quais, naturalmente, não estão nada interessadas em que a RTP concorra com elas em pé de igualdade na captação de receitas publicitárias - e que farão certamente pressão para que a privatização não ocorra.

A privatização da RTP deveria também acarretar o compromisso de os políticos não andarem a mexericar nos negócios de compra e venda entre privados de estações de radiodifusão. Nenhum privado estará interessado em comprar uma estação de televisão se souber que a sua posterior venda poderá estar sujeita a escrutínio e a chicana política, do tipo daquela que o PSD ultimamente promoveu em torno da venda da TVI.

Pedro Passos Coelho faria, já agora, bem em olhar para lá do mar e ver que, na Madeira, ainda há um jornal que é propriedade do governo regional. Quando se privatizasse a RTP seria uma boa ideia obrigar o régulo da ilha a abandonar a propriedade (e o subsídio, sob a forma de compra obrigatória por parte de órgãos dependentes do governo regional) do seu jornal.

Retrato de Luís Lavoura

Andam para aí a acusar o primeiro-ministro de ter elaborado um complot com o fim de tomar o contrôle da comunicação social, especificamente de um canal de televisão. Esquecem-se do óbvio - que o governo já hoje controla um canal de televisão (*). E que, aparentemente, ninguém contesta esse contròle, ou se atreve a pedir aquilo que deveria ser óbvio - a privatização desse canal, o qual não tem razão nenhuma para permanecer nas mãos do Estado. E que, já agora, esse canal controlado pelo Estado até é aquele que tem as preferências dos portugueses, em particular aqueles cujos serviços noticiosos são mais apreciados pelos telespetadores. Que Estado peculiar é este que, não contente por controlar um canal de televisão, quererá controlar um segundo, e que, detendo o contròle de um canal, não o usa para fornecer um serviço noticioso tão grosseiramente manipulador que todos os telespetadores o rejeitem?

Eu gostaria que estes queixosos fossem ousados e que propusessem o essencial - que o Estado deixe de ter uma golden share na PT, que o Estado privatize o primeiro canal da RTP e, já agora, que o Estado privatize também a Caixa Geral de Depósitos, através da qual controla muitas mais empresas - em vez de se debruçarem apenas sobre detalhes acessórios. É que, quer-me parecer que os queixosos estão de facto de acordo com o atual governo no essencial - e que, se estivessem no lugar dele, levariam a cabo exatamente as mesmas políticas.

(*) Controla aliás dois mas o segundo não conta, porque apenas é visto por uma pequena minoria de portugueses.

Retrato de Miguel Duarte

Gostei do artigo que li no Delito de Opinião sobre a questão da desobediência civil, no contexto das revelações do SOL. Com destaque para a seguinte citação que penso resumir tudo:

A desobediência civil, como nos ensinaram Gandhi e Martin Luther King, pode ser um imperativo cívico.

Efectivamente, mesmo em democracia existem alturas em que o valor da verdade e a sua importância para a continuação da própria democracia é superior ao respeito estrito da lei. Lei que inclusivamente muitas vezes é criada precisamente para que a verdade inconveniente não venha ao de cima.

Mal estava a nossa democracia se uma simples lei fosse suficiente para calar os jornalistas relativamente a temas graves que implicam o Primeiro Ministro e outros membros do governo.

A manutenção da liberdade de expressão, mesmo em democracia, tem os seus custos. E as próprias democracias oferecem diversos graus de liberdade de expressão. Cabe-nos a nós como cidadãos, diáriamente, lutar para que não existam recuos na nossa liberdade. Caso tal não fosse feito, o resvalar para o autoritarismo não demoraria muito tempo.

Retrato de João Mendes

Vi o segundo programa do Gato Fedorento sobre as eleições.

A primeira parte do programa foi basicamente passada a acusar o Sócrates de ter acabado com o Jornal da Noite de sexta-feira (havia mais coisas, mas aquilo não tinha interesse nenhum), depois veio o Zé Diogo Quintela a fazer uma piada sem graça, o Miguel Góis a fazer uma piada sem graça, o Tiago Dores a gozar com o PTP (tipo "Tesourinho Deprimente"), num anúncio que tinha mais piada (indesejada) que o programa em si.

Depois os trinta segundos de publicidade ao MEO e a eles próprios.

Depois uma amena e desinteressante conversa com a Manuela Ferreira Leite, em que algumas piadas tinham graça, mas que se esfumava por puro desinteresse.

Nunca fui um fã acérrimo do GF, dado que vi os originais que os inspiraram, mas este segundo programa foi também uma miséria desinteressante. Não é preciso contabilizá-lo como donativo ao PSD, como o primeiro teria sido para o PS, mas é preciso pensar que eu só acabei de ver o programa para poder escrever esta crítica e não me acusarem de não ter visto... Senão, tinha mudado para tinta a secar...

Retrato de João Mendes

Vi o primeiro programa do Gato Fedorento sobre as eleições.

Não teve grande piada.

A introdução foi razoável, o segmento em Espanha foi razoável, o segmento do Fuck you não teve interesse, o segmento das PMEs não teve piada e demorou demasiado tempo.

Depois veio um intervalo de 30 segundos para fazer publicidade ao MEO e aos Gato Fedorento.

Depois veio a "entrevista" a José Sócrates. Aquilo não foi uma entrevista. Aquilo foi um conjunto de mini-discursos de campanha intercalados com graçolas desinspiradas. Qual é o interesse disto? Os partidos terem mais tempo de antena para nos presentearem com grandes quantidades de nada? O Jon Stewart vai fazendo piadas com piada e perguntas engraçadas, mas as perguntas de RAP foram dignas de um velhinho de pantufas, e não de uma ave de rapina.

Os GF disseram que a SIC não os deixou fazer o melhor programa de sempre para fazer isto. Tendo em conta este primeiro programa, acho que os partidos deviam todos contabilizar o programa como donativo da SIC para a campanha.

Esperemos que os próximos sejam melhores...

Retrato de Miguel Duarte

Relativamente a esta polémica, perguntaram-me agora mesmo o que eu penso do assunto.

A minha experiência diz-me que é pouco provável que alguém no topo da hierarquia do PS tenha dito alguma coisa directamente à Media Capital para acabar com o programa.

Vejo duas possibilidades:

- Excesso de zelo por parte da Media Capital que entendeu que não queria prejudicar o processo eleitoral com mais polémica e sofrer mais acusações e achou por bem calar a Manuela Moura Guedes;

- Algum negócio para os próximos meses que envolve o Estado e que a Media Capital, por vontade própria ou derivado de algum comentário de alguém (propositado ou não), entendeu ser melhor ficar calada.

O problema é que efectivamente à mulher de César não basta ser séria, é preciso parecê-lo e toda esta situação parece ser muito pouco séria, num timing péssimo (antes das eleições). Por muito honestas e inocentes que fossem as intenções da Media Capital, tomou a decisão no momento errado.

Já não há muito para corrigir, e quem acabou efectivamente por ficar mais prejudicado foi o PS, mas, uma coisa parece-me que vão ter que fazer: passar o documentário que tinham preparado sobre o caso Freeport e solicitar à Manuela Moura Guedes para apresentar o mesmo. Eu se fosse o Partido Socialista estava neste momento a fazer uma chamadinha ao administrador da Media Capital a exigir que passem o documentário, em horário nobre. Quando pior for o documentário, melhor, pois mostraria que (em teoria pelo menos) afinal não querem calar ninguém.

No geral, este tipo de coisas só prova para mim uma coisa: a comunicação social está demasiado concentrada em Portugal e demasiado dependente do poder político, ou por ser controlada directamente por ele, ou por estar dependente dele nos seus negócios.

Retrato de João Mendes

Nos artigos online, considero que os meios de comunicação social deviam fazer um esforço (que seria mínimo) de colocar links para quaisquer documentos de que tratem e que se encontrem também online. Tanto me faz que seja no corpo do texto ou numa caixa separada colocada ao lado, ou ainda uma mistura de ambos. Seria extremamente útil para quem quisesse aprofundar a questão por si e ver com os seus próprios olhos aquilo de que se trata.

Pela minha parte, tento colocar links que permitam às pessoas seguir o meu raciocínio mas também formar as suas próprias ideias com base na informação que eu encontrei.