Comunicação Social

Retrato de Luís Lavoura

A Benfica TV serve para que os foras-de-jogo cometidos pelos jogadores do Benfica não possam ser denunciados (ou, pelo menos, não possam ser facilmente demonstrados).
Foi isso que (mais uma vez) se viu no jogo de ontem, no qual o jogador do Benfica Marković marcou um golo tecnicamente muito bonito - coisa que delicia o requintado paladar dos aficionados portugueses - mas (presumivelmente) em posição de fora-de-jogo. Mas, como o jogo só foi transmitido pela Benfica TV, e a essa televisão não interessa deslindar tais foras-de-jogo, não se pode demonstrar facilmente que tenha existido.

Retrato de Luís Lavoura

Estou totalmente de acordo com o ministro Miguel Poiares Maduro: é inadmissível que, com a tecnologia atualmente disponível, com a televisão digital terrestre, Portugal continue a ser o único país da Europa desenvolvida na qual uma percentagem significativa da população apenas disponha de quatro canais de televisão, e que todos os restantes tenham que pagar para ter mais do que isso.

É necessário que o Estado quebre esta inaceitável condição de não-disponibilização à população do avanço tecnológico já hoje existente, utilizando a arma de que dispõe - a televisão pública.

O setor privado não pode continuar a, confortavelmente, extrair rendas de uma tecnologia obsoletamente cara - a televisão por cabo - evitando que a população usufrua da tecnologia moderna e barata - a televisão por espetro eletromagnético digital.

Retrato de Luís Lavoura

O novo porta-voz do governo, Pedro Lomba, pretende passar a realizar conferências de imprensa regulares com jornalistas. O formato dessas conferências, recentemente oficialmente apresentado por Lomba, incluirá uma parte final que consistirá numa conversa informal entre Lomba e os jornalistas, na qual este lhes poderá transmitir informações e opiniões off the record, isto é: o porta-voz governamental utilizará os jornalistas como confidentes, ficando estes expressamente proibidos de divulgar, de qualquer forma, a informação nestas ocasiões recebida.

Eu pergunto: que jornalistas dignos da sua carteira profissional, e na plena aplicação da sua deontologia profissional, aceitarão participar em tal fantochada?

A obrigação de um jornalista é obter, de forma direta ou indireta, por vias direitas ou travessas, informação, e divulgar essa informação. Não é tarefa de um jornalista servir de confidente cúmplice a um governante (nem a qualquer outra fonte informativa). Um jornalista que aceite fazê-lo já não é jornalista, ele vendeu-se à sua fonte de informação. Um tal jornalista já não serve os seus leitores (ou espetadores, ou ouvintes), serve a sua fonte informativa e é cúmplice dela.

Espero e desejo que as conversas informais de Lomba fiquem rapidamente vazias de auditório. Espero que nenhum jornalista vá aceitar servir dessa forma de capacho ao governante. Mas espero sentado.

Retrato de Luís Lavoura

Tem havido muita conversa sobre a decisão do governo grego de encerrar a empresa estatal de rádio e televisão (ERT). Muita dessa conversa não dá o devido destaque ao facto de que esse encerramento pretende ser apenas temporário, de forma nenhuma definitivo. Também não está em causa o continuado pagamento, pelos cidadãos gregos, de uma taxa destinada a financiar o serviço estatal de rádio e televisão - eles terão que continuar a pagar tal taxa. Portanto, este encerramento temporário em pouco alterará o estado de coisas para os gregos em geral. A grande diferença será para os trabalhadores da ERT, muitos dos quais perderão o emprego; e, possivelmente, para os credores da ERT, alguns dos quais poderão vir a ficar com as dívidas incobráveis. Mas, em termos de serviço estatal de rádio e televisão, e do seu pagamento pelos cidadãos, tudo permanecerá na mesma. Não há razão para tanta conversa, portanto.

 

(Há uns anos, o governo suíço também declarou a falência da sua companhia aérea de bandeira, a Swissair. Em menos de um mês, todos os bens dessa empresa, e a maior parte dos seus trabalhadores, foram transferidos para uma nova companhia aérea de bandeira, a atual Swiss. Quem ficou a arder, creio, foram os credores da antiga Swissair. Tudo não passou, ao fim e ao cabo, de uma manobra semelhante à que muitos "patos-bravos" portugueses costuma(va)m fazer - declarar falida a empresa antiga e criar uma nova empresa sem quaisquer dívidas. Provavelmente o governo grego mais não tenciona fazer do que a mesma esperteza.)

Retrato de Luís Lavoura

Os três canais portugueses de televisão em sinal aberto têm todos eles o seu noticiário da noite a começar às 20 horas. Os noticiários duram em todos os três canais uma hora e têm as mesmas caraterísticas de info-entretenimento.

Não há ao menos um dos canais que opte por colocar o seu noticiário meia hora mais tarde ou mais cedo, quanto mais optar por um horário completamente diferente.

Quem não puder estar a ver televisão às 20 horas, ou não puder ficar em frente ao televisor a hora inteira, fica sem notícias.

Retrato de Luís Lavoura

Não deixa de ser impressionante o poder que as empresas mediáticas dos EUA têm de vender "casos" para todo o mundo.

O último "caso" é, como toda a gente sabe, o do tiroteio numa escola primária no Connecticut. Sem dúvida que a matança foi impressionante. Mas hoje mesmo aconteceram outras matanças, por exemplo a de dez jovens raparigas mortas pela explosão de uma mina no Afeganistão quando procuravam lenha. Não tenho dúvidas de que não veremos na televisão imagens dessas matanças, ou então só as veremos por pouco tempo, e só hoje. Não saberemos os nomes das vítimas nem veremos os seus parentes a chorar.

Qualquer acontecimento anómalo nos EUA é transformado pelas empresas mediáticas americanas num produto altamente transacionável, que é eficientemente exportado para boa parte do mundo, que avidamente o compra, consome e comenta. Acontecimentos anómalos noutros países dificilmente são exportados da mesma forma.

Retrato de Luís Lavoura

Não deixa de ser reveladora a forma como os órgãos de comunicação social reagiram às manifestações de há uma semana: atirando pela borda fora toda a objetividade que conviria manter, os mídia colocaram-se totalmente do lado dos manifestantes.

A título de exemplo, ontem no telejornal da TVI, em horário nobre, uma reportagem, totalmente desfasada no tempo, sobre as manifestações, era pura e simplesmente panegírica. Em música de fundo, a canção "Que força é essa" de Sérgio Godinho, uma música do tempo do PREC que já há décadas estava banida, a dar foros heróicos aos manifestantes. Note-se que as manifestações foram há oito dias, pelo que não se compreende o que fazia ali aquela reportagem, se não precisamente dar mais força e relevância às manifestações.

Parece-me claro que os meios empresariais, em particular os donos da TVI e aqueles que nela fazem publicidade aos seus produtos, estão do lado dos manifestantes.

Retrato de Luís Lavoura

Parece cada vez mais claro que a intenção primordial do Estado, ao privatizar (ou conceder a exploração de) um canal da televisão pública, não é a de aumentar a liberdade e a diversidade dos mídia, é apenas a de diminuir os gastos do próprio Estado.

Ou seja, a prioridade para o Estado é deixar de gastar dinheiro com a televisão, mesmo que isso traga prejuízos à população - como indubitavelmente trará, se o canal 2 da RTP fôr eliminado - em termos de menor diversidade, liberdade e riqueza nos conteúdos transmitidos.

Parece também evidente que, qualquer que seja o destino da televisão pública, os cidadãos continuarão a ser forçados a pagar uma contribuição para ela anexa à fatura da eletricidade. Ou seja, os cidadãos pagarão o mesmo mas receberão menos (ou nada), e de pior qualidade.

Retrato de Luís Lavoura

É de louvar o excelente trabalho que a RTP 2 está a desenvolver ao transmitir múltiplas competições dos Jogos Olímpicos, especialmente em modalidades que têm relativamente pouca expansão e reconhecimento público em Portugal, como por exemplo o badminton ou o ténis de mesa. Este é um verdadeiro trabalho de qualidade em prol dessas modalidades e da sua prática, que constitui serviço público na sua aceção mais nobre. De notar que, mesmo fora destes Jogos Olímpicos, a RTP 2 já é praticamente o único canal televisivo em sinal aberto que transmite modalidades para além do futebol.

Neste particular, mais uma vez se vê que é totalmente ridícula a ideia, que aparentemente é a do ministro Relvas, de privatizar a RTP 2 deixando a RTP 1 em propriedade do Estado. De facto, a RTP 2 foi transformada, pelo anterior governo PSD-CDS, em 2003, na estação de serviço público por excelência, pelo que é absurdo o atual governo PSD-CDS ir desfazer o (por sinal, pouco) que o anterior fez de bom. A estação que deve ser privatizada é a RTP 1, cuja programação já hoje segue praticamente os moldes comerciais das televisões privadas. Não se deve desfazer aquilo que está bem feito.

Retrato de Luís Lavoura

Afirma o Nuno Gouveia (em post que não admite comentários): "não gosto nada de pagar impostos para financiar programas como o Preço Certo ou o Verão Total [...]. No entanto, não defendo que esse tipo de programas devam ser (sic) proibidos. Defendo [...] que [...] esta RTP [...] seja privatizada. Assim, eu já não contribuiria para pagar o que não gosto."

Porem, o Nuno não tem razão. As televisões privadas são, involuntariamente, financiadas por todos nós através da publicidade. Através dela, contribuímos involuntariamente para pagar todo o telelixo que nos é servido. Não vejo grande diferença entre (1) o Estado forçar-me a pagar IVA sobre os produtos que compro e, com a receita desse IVA, financiar telelixo, e (2) a empresa que produz o produto que compro aumentar artificialmente o seu preço com o fim de pagar publicidade televisiva a outros produtos quaisquer que produz, pelo caminho financiando telelixo. Com efeito, em ambos os casos o meu dinheiro é-me extorquido para financiar coisas que eu não solicitei.

Com a vantagem, ainda assim, no caso do IVA, de que nesse caso eu sei quanto me extorquiram e para que fins me foi extorquido.