Comunicação Social

Retrato de Luís Lavoura

O grupo de trabalho nomeado pelo governo para sugerir orientações para a política para o setor da comunicação social apresentou o seu relatório final. Creio que esse relatório deverá ser e de facto será, muito apropriadamente, imediatamente deitado para o lixo. (Mais uma delapidação de precioso dinheiro do Estado!)
O grupo de trabalho começou mal, com a má nomeação dos seus membros. É evidentemente errado formar um tal grupo de trabalho com pessoas com interesses profissionais, passados ou presentes, em empresas de comunicação social. Por exemplo Francisco Sarsfield Cabral, que foi (ou ainda é) diretor da Rádio Renascença, e José Manuel Fernandes, que esteve muitos anos à frente do jornal Público. É deveras evidente que essas pessoas têm contas a ajustar e interesses privados a defender, e não devem ser elas a (ajudar a) definir uma política governamental.
O grupo de trabalho defendeu, ridiculamente, retirar o mais possível da televisão pública conteúdos informativos e de debate político. A argumentação para defender tão estapafúrdia tese é que os jornalistas da televisão pública podem ser influenciados por eventuais orientações editoriais e políticas provindas do governo. Essa justificação é, sem dúvida, verdadeira. Há, porém, duas contestações:
(1) Será que a melhor forma de evitar uma informação potencialmente tendenciosa é eliminar de todo essa informação? Não me parece. A informação deve ser plural e deve ser o consumidor, isto é, o telespetador, a escolher qual a informação que prefere.
(2) Os jornalistas dos canais privados também podem ser influenciados por orientações políticas provindas dos patrões desses canais, e isso não é considerado motivo para restringir a informação nesses canais. Por que motivo hão-de as eventuais influências governamentais num canal televisivo ser consideradas mais perniciosas do que as influências de privados noutros canais?

Retrato de Luís Lavoura

Na última eleição presidencial as televisões cometeram um erro lamentável: já depois de terem levado a cabo uma extensa e redundante série de dez debates entre os cinco candidatos por elas cooptados, veio a descobrir-se que havia mais um candidato às eleições, o qual ficou privado da oportunidade de participar em qualquer debate.

 

Na próxima eleição legislativa as televisões, em cooperação entre si como anteriormente (de que nos vale termos três canais de televisão se eles cooperam em vez de concorrerem?), vão repetir o erro: vão promover uma extensa e redundante série de dez debates entre os cinco partidos atualmente representados na Assembleia da República, pondo de fora todos os restantes partidos candidatos às eleições.

 

Se o nosso sistema político está fechado e sem saídas, boa parte da culpa é da comunicação social, que insiste em cortar a voz a todos os pequenos partidos, ao mesmo tempo que amplifica desmedidamente a voz dos partidos que têm deputados eleitos.

Retrato de Luís Lavoura

Sete cidadãos dinamarqueses que viajavam num iate algures no mar Arábico foram tomados como refens por piratas somalis, que agora pedem um elevado resgate para os deixarem seguir viagem.

 

O governo dinamarquês reagiu pedindo aos mídia dinamarqueses que falem o menos possível - tendencialmente, nada - sobre o assunto, com o fim de não colocar em perigo as negociações com os piratas, ou até uma eventual tentativa de resgate dos refens pela força.

 

Curiosamente, quando foi do célebre caso das caricaturas de Maomé, o governo dinamarquês rejeitou fazer pedidos similares aos mídia (isto é, evitou pedir-lhes que não publicassem as caricaturas), antes defendeu tenazmente a liberdade de os mídia dinamarqueses publicarem o que muito bem lhes apeteça.

 

Eu a mim isto parece-me, vagamente, um sistema de dois pesos e duas medidas. Quando se trata de os mídia dinamarqueses publicarem umas caricaturas, o governo dinamarquês defende intransigentemente a liberdade e recusa-se a desaconselhar a publicação. Já quando se trata de os mídia dinamarqueses publicarem algumas notícias - ainda por cima, verdadeiras! - sobre um determinado caso, o governo apressa-se a pedir contenção aos mídia.

 

Para que fique claro, eu penso que a atual atitude do governo dinamarquês é compreensível e adequada - mas penso que atitude similar, de pedir aos mídia que não publicassem coisas ofensivas para uma religião, teria sido similarmente compreensível e adequada há uns anos atrás.

Retrato de Luís Lavoura

Ontem num programa de comentário político na rádio Antena 1, falava a editora da secção de política, Maria Flor Pedroso, e logo a seguir tomou a palavra o comentador Carlos Magno, que disse que Maria Flor é que daria uma boa Presidente da República.

 

Eu estou 100% de acordo com Carlos Magno: é mesmo isso!!! Maria Flor Pedroso está a milhas em inteligência da maior parte dos políticos que entrevista, tem vastos conhecimentos da política portuguesa e, para ajudar, tem uma voz grave, masculina, que a torna mais respeitável. Daria, disso não tenho a menor dúvida, uma excelente Presidente da República. Daqui a cinco anos, haja quem a ice!

Retrato de Luís Lavoura

O telejornal da RTP 2 ontem desceu a um nível para mim inimaginável: convidou para comentar as notícias do dia o velho-do-Restelo, maledicente profissional Henrique Medina Carreira. Que, como é do seu jaez, aproveitou o seu tempo de antena para dizer que está tudo mal e a ir para pior, sem ter proposto qualquer medida ou feito qualquer sugestão para melhorar seja o que fôr. Terminando por cumprimentar a jornalista que o entrevistava (à qual teve a gentileza de se dirigir com um "ó filha") com a sugestão de que "você, que é jovem" jamais irá ter direito a uma pensão de reforma, dado que a Segurança Social estará, supostamente, falida muito antes de ela atingir a Terceira Idade. Depois deste cumprimento, a jornalista ainda teve (dever de ofício) que lhe retorquir com um "Senhor professor, foi um prazer tê-lo aqui hoje", em vez de o ter mandado àquela parte como ele merecia. Inacreditável. Lamentável.

 

De entre as muitas asneiras fora do contexto que debitou, Medina Carreira disse que em Portugal apenas 30% do PIB corresponde a exportações, enquanto que na República Checa 60% do PIB são exportações. Como se Portugal, um país periférico, tivesse obrigação de se comparar com a República Checa nesse domínio. Que eu saiba, no Japão a parte das exportações no PIB é apenas de 15% ou menos - e não é por isso que o Japão passa a ser menos desenvolvido do que Portugal ou a República Checa. Entretanto, hoje na SIC-Notícias ouvi Basílio Horta - que, esse sim, é um indivíduo de grande categoria - dizer que, enquanto que em Portugal 32% do PIB corresponde a exportações, em Espanha o número é de apenas 16% e na Grécia de 6%. Medina Carreira, claro, omitiu esses números - para ele só servem os números que possam ser utilizados para dizer mal de Portugal. Um profissional da maledicência, é o que ele é.

Retrato de Luís Lavoura

Tomei ontem conhecimento, pelo Telejornal, que nos boletins de voto das próximas eleições presidenciais haverá nove (9) candidatos. (Por curioso sinal, todos do sexo masculino.) Para além dos três muito falados candidatos apoiados por partidos, e dos dois não menos falados independentes, haverá ainda mais quatro candidatos independentes, cujo nome não recordo e de quem nunca ouvira anteriormente falar.

 

Isto deixa-me perplexo, irritado e furioso com o tendenciosismo dos mídia a filtrar informação. Há nove candidatos presidenciais mas, visíveis nos mídia, eles são apenas cinco. Os outros quatro candidatos estão completamente ausentes dos mídia, ninguém fala deles, ninguém diz ao que eles vêem, ninguém nos conta quando eles apresentaram as suas candidaturas, quantas assinaturas reuniram, que causas pretendem defender, enfim, nada. É isto o direito à informação, este boicote total, hermético, que os mídia estão a fazer a quatro dos candidatos (ou, talvez, candidatos a candidatos) às eleições presidenciais?

 

Isto mete-me nojo.

Retrato de Luís Lavoura

Já todos conhecemos o caso em que o deputado Ricardo Rodrigues, ao abruptamente pôr término a uma entrevista que uns jornalistas lhe estavam a fazer, aproveitou para surripiar os gravadores que esses jornalistas lhe tinham colocado à frente.

Esse caso levanta-me um conjunto de dúvidas, que me sugerem tratar-se, de alguma forma, de uma história mal contada:

(1) Por que motivo estavam os jornalistas a gravar a entrevista com gravadores e, simultâneamente, a filmá-la em vídeo? Se o vídeo capta o som para que eram necessários os gravadores? E, sendo a entrevista destinada apenas a uma revista, para que fim era necessário filmá-la? Para quê esta duplicação de meios de gravação, e para quê as imagens?

(2) Os jornalistas dificilmente terão deixado de reparar, no próprio local, que o deputado lhes estava a roubar os gravadores. Por que motivo não se levantaram e logo ali lhe exigiram a devolução do seu material?

(3) O roubo só foi publicamente divulgado alguns dias depois de ter ocorrido, na edição impressa da revista para a qual os jornalistas trabalhavam. Por quê? Tratando-se de um caso de tal gravidade, por que motivos os jornalistas não o denunciaram publicamente no próprio dia?

Estas três questões fazem-me vagamente suspeitar que tudo aquilo não passou de uma encenação com o fim de "vender papel". A minha suspeita será possivelmente completamente infundada. Mas seria bom ver estas três perguntas respondidas.

Retrato de Luís Lavoura

O programa Prós e Contras da RTP1, ontem, dedicado à visita papal a Portugal, foi excecional. Nele não houve Contras, apenas Prós. Tanto no palco  como na plateia só havia católicos militantes, entusiasmados com a visita da papa. A plateia estava até, de facto, cheia de padres ou seminaristas. Fora algumas pessoas bem nossas conhecidas da luta contra a liberdade, como Margarida Neto, Isabel Galriça Neto, Marcelo Rebelo de Sousa, e outras estrelas do nosso firmamento.

 

Isto na televisão pública, note-se bem, que ontem esteve transformada numa televisão confessional. Nas televisões privadas estavam à mesma hora a transmitir uma telenovela e um filme americano.

 

Privatizem aquilo, ou então declrem-lhe a falência e encerrem-na, que, para isto, não deve ser o Estado a pagar.

Retrato de Luís Lavoura

A partir do momento em que o jornal Sol desobedeceu a uma proibição judicial de publicar determinado material através do truque simples - amplamente utilizado nos meios judiciais portugueses - de evitar a receção da notificação por carta dessa proibição, e a partir do momento em que essa desobediência por parte do Sol recebeu amplo aplauso da parte de todos os jornalistas e de boa parte da opinião pública, as pessoas ficaram a saber que a única forma de impedirem que determinado material seja publicado sobre elas é roubarem esse material aos jornalistas através da "ação direta", a qual se encontra aliás tipificada no Código Civil para semelhantes efeitos.

Quando se aceita que a justiça estatal seja inoperante, a ação direta passa a ser a única forma de as pessoas fazerem valer os seus direitos.

Retrato de Luís Lavoura

Pedro Passos Coelho esteve muito bem ao defender, ontem, que o Estado deve privatizar a RTP, isto é, privatizar as estações de rádio e de televisão que ainda lhe pertencem.

Note-se que a RTP tem, nos últimos anos, dado lucro, sendo perfeitamente viável privatizá-la. No entanto, a privatização implicaria o levantamento das restrições que atualmente limitam a publicidade nos canais públicos. Como é evidente, isto não interessa nada às estações concorrentes. Ao manter a RTP privada o Estado está, implicitamente, a subsidiar as estações de rádio e televisão privadas, principalmente a SIC e a TVI, as quais, naturalmente, não estão nada interessadas em que a RTP concorra com elas em pé de igualdade na captação de receitas publicitárias - e que farão certamente pressão para que a privatização não ocorra.

A privatização da RTP deveria também acarretar o compromisso de os políticos não andarem a mexericar nos negócios de compra e venda entre privados de estações de radiodifusão. Nenhum privado estará interessado em comprar uma estação de televisão se souber que a sua posterior venda poderá estar sujeita a escrutínio e a chicana política, do tipo daquela que o PSD ultimamente promoveu em torno da venda da TVI.

Pedro Passos Coelho faria, já agora, bem em olhar para lá do mar e ver que, na Madeira, ainda há um jornal que é propriedade do governo regional. Quando se privatizasse a RTP seria uma boa ideia obrigar o régulo da ilha a abandonar a propriedade (e o subsídio, sob a forma de compra obrigatória por parte de órgãos dependentes do governo regional) do seu jornal.