Comunicação Social

Retrato de Luís Lavoura

Andam para aí a acusar o primeiro-ministro de ter elaborado um complot com o fim de tomar o contrôle da comunicação social, especificamente de um canal de televisão. Esquecem-se do óbvio - que o governo já hoje controla um canal de televisão (*). E que, aparentemente, ninguém contesta esse contròle, ou se atreve a pedir aquilo que deveria ser óbvio - a privatização desse canal, o qual não tem razão nenhuma para permanecer nas mãos do Estado. E que, já agora, esse canal controlado pelo Estado até é aquele que tem as preferências dos portugueses, em particular aqueles cujos serviços noticiosos são mais apreciados pelos telespetadores. Que Estado peculiar é este que, não contente por controlar um canal de televisão, quererá controlar um segundo, e que, detendo o contròle de um canal, não o usa para fornecer um serviço noticioso tão grosseiramente manipulador que todos os telespetadores o rejeitem?

Eu gostaria que estes queixosos fossem ousados e que propusessem o essencial - que o Estado deixe de ter uma golden share na PT, que o Estado privatize o primeiro canal da RTP e, já agora, que o Estado privatize também a Caixa Geral de Depósitos, através da qual controla muitas mais empresas - em vez de se debruçarem apenas sobre detalhes acessórios. É que, quer-me parecer que os queixosos estão de facto de acordo com o atual governo no essencial - e que, se estivessem no lugar dele, levariam a cabo exatamente as mesmas políticas.

(*) Controla aliás dois mas o segundo não conta, porque apenas é visto por uma pequena minoria de portugueses.

Retrato de Miguel Duarte

Gostei do artigo que li no Delito de Opinião sobre a questão da desobediência civil, no contexto das revelações do SOL. Com destaque para a seguinte citação que penso resumir tudo:

A desobediência civil, como nos ensinaram Gandhi e Martin Luther King, pode ser um imperativo cívico.

Efectivamente, mesmo em democracia existem alturas em que o valor da verdade e a sua importância para a continuação da própria democracia é superior ao respeito estrito da lei. Lei que inclusivamente muitas vezes é criada precisamente para que a verdade inconveniente não venha ao de cima.

Mal estava a nossa democracia se uma simples lei fosse suficiente para calar os jornalistas relativamente a temas graves que implicam o Primeiro Ministro e outros membros do governo.

A manutenção da liberdade de expressão, mesmo em democracia, tem os seus custos. E as próprias democracias oferecem diversos graus de liberdade de expressão. Cabe-nos a nós como cidadãos, diáriamente, lutar para que não existam recuos na nossa liberdade. Caso tal não fosse feito, o resvalar para o autoritarismo não demoraria muito tempo.

Retrato de João Mendes

Vi o segundo programa do Gato Fedorento sobre as eleições.

A primeira parte do programa foi basicamente passada a acusar o Sócrates de ter acabado com o Jornal da Noite de sexta-feira (havia mais coisas, mas aquilo não tinha interesse nenhum), depois veio o Zé Diogo Quintela a fazer uma piada sem graça, o Miguel Góis a fazer uma piada sem graça, o Tiago Dores a gozar com o PTP (tipo "Tesourinho Deprimente"), num anúncio que tinha mais piada (indesejada) que o programa em si.

Depois os trinta segundos de publicidade ao MEO e a eles próprios.

Depois uma amena e desinteressante conversa com a Manuela Ferreira Leite, em que algumas piadas tinham graça, mas que se esfumava por puro desinteresse.

Nunca fui um fã acérrimo do GF, dado que vi os originais que os inspiraram, mas este segundo programa foi também uma miséria desinteressante. Não é preciso contabilizá-lo como donativo ao PSD, como o primeiro teria sido para o PS, mas é preciso pensar que eu só acabei de ver o programa para poder escrever esta crítica e não me acusarem de não ter visto... Senão, tinha mudado para tinta a secar...

Retrato de João Mendes

Vi o primeiro programa do Gato Fedorento sobre as eleições.

Não teve grande piada.

A introdução foi razoável, o segmento em Espanha foi razoável, o segmento do Fuck you não teve interesse, o segmento das PMEs não teve piada e demorou demasiado tempo.

Depois veio um intervalo de 30 segundos para fazer publicidade ao MEO e aos Gato Fedorento.

Depois veio a "entrevista" a José Sócrates. Aquilo não foi uma entrevista. Aquilo foi um conjunto de mini-discursos de campanha intercalados com graçolas desinspiradas. Qual é o interesse disto? Os partidos terem mais tempo de antena para nos presentearem com grandes quantidades de nada? O Jon Stewart vai fazendo piadas com piada e perguntas engraçadas, mas as perguntas de RAP foram dignas de um velhinho de pantufas, e não de uma ave de rapina.

Os GF disseram que a SIC não os deixou fazer o melhor programa de sempre para fazer isto. Tendo em conta este primeiro programa, acho que os partidos deviam todos contabilizar o programa como donativo da SIC para a campanha.

Esperemos que os próximos sejam melhores...

Retrato de Miguel Duarte

Relativamente a esta polémica, perguntaram-me agora mesmo o que eu penso do assunto.

A minha experiência diz-me que é pouco provável que alguém no topo da hierarquia do PS tenha dito alguma coisa directamente à Media Capital para acabar com o programa.

Vejo duas possibilidades:

- Excesso de zelo por parte da Media Capital que entendeu que não queria prejudicar o processo eleitoral com mais polémica e sofrer mais acusações e achou por bem calar a Manuela Moura Guedes;

- Algum negócio para os próximos meses que envolve o Estado e que a Media Capital, por vontade própria ou derivado de algum comentário de alguém (propositado ou não), entendeu ser melhor ficar calada.

O problema é que efectivamente à mulher de César não basta ser séria, é preciso parecê-lo e toda esta situação parece ser muito pouco séria, num timing péssimo (antes das eleições). Por muito honestas e inocentes que fossem as intenções da Media Capital, tomou a decisão no momento errado.

Já não há muito para corrigir, e quem acabou efectivamente por ficar mais prejudicado foi o PS, mas, uma coisa parece-me que vão ter que fazer: passar o documentário que tinham preparado sobre o caso Freeport e solicitar à Manuela Moura Guedes para apresentar o mesmo. Eu se fosse o Partido Socialista estava neste momento a fazer uma chamadinha ao administrador da Media Capital a exigir que passem o documentário, em horário nobre. Quando pior for o documentário, melhor, pois mostraria que (em teoria pelo menos) afinal não querem calar ninguém.

No geral, este tipo de coisas só prova para mim uma coisa: a comunicação social está demasiado concentrada em Portugal e demasiado dependente do poder político, ou por ser controlada directamente por ele, ou por estar dependente dele nos seus negócios.

Retrato de João Mendes

Nos artigos online, considero que os meios de comunicação social deviam fazer um esforço (que seria mínimo) de colocar links para quaisquer documentos de que tratem e que se encontrem também online. Tanto me faz que seja no corpo do texto ou numa caixa separada colocada ao lado, ou ainda uma mistura de ambos. Seria extremamente útil para quem quisesse aprofundar a questão por si e ver com os seus próprios olhos aquilo de que se trata.

Pela minha parte, tento colocar links que permitam às pessoas seguir o meu raciocínio mas também formar as suas próprias ideias com base na informação que eu encontrei.

Retrato de João Cardiga

Eu tenho de admitir eu gosto da ERC. Afinal eu amo a liberdade de expressão, e julgu uma entidade que tem como fim:

"1. Cabe a uma entidade administrativa independente assegurar nos meios de comunicação social:

a) O direito à informação e a liberdade de imprensa;
b) A não concentração da titularidade dos meios de comunicação social;
c) A independência perante o poder político e o poder económico;
d) O respeito pelos direitos, liberdades e garantias pessoais;
e) O respeito pelas normas reguladoras das actividades de comunicação social;
f) A possibilidade de expressão e confronto das diversas correntes de opinião;
g) O exercício dos direitos de antena, de resposta e de réplica política. " (art. 39º da Constituição Portuguesa)

É uma entidade importante. Ao fim e ao cabo é ela que assegura que liberdade de expressão seja algo com conteudo. No entanto, desde esta semana que passei a gostar ainda mais das pessoas da ERC. É que eu admiro pessoas com bastante imaginação e criatividade, e tenho de admitir que foi necessário muita criatividade e imaginação, para se passar dessas competências para uma directiva que afirma que:

"4. Quando não assegurem tal tratamento, os órgãos de comunicação social que possuam como colaboradores regulares, em espaços de opinião, na qualidade de comentadores, analistas, colunistas ou outra forma de colaboração equivalente, membros efectivos e suplentes das listas de candidatos aos actos eleitorais a realizar ainda no ano corrente – eleições Legislativas e Autárquicas – deverão suspender essa participação e colaboração desde a data de apresentação formal da lista da respectiva candidatura no Tribunal Constitucional até ao dia seguinte ao da realização do acto eleitoral."

Como se isto não bastasse, estas pessoas, verdadeiros poços de imaginação ainda conseguiram emitir uma comunicação, que explicando o seguinte:

"A ERC alerta desta forma os meios de comunicação social para o facto de ser "aplicável, nos períodos eleitorais, um princípio geral de igualdade de oportunidades de acção e propaganda das candidaturas durante as fases da pré-campanha e da campanha eleitoral, tal como consagrado na Constituição, na Lei e na jurisprudência dos tribunais", resultando, da aplicação deste princípio geral, que "durante os períodos eleitorais, não são invocáveis critérios que procurem «justificar» a presença de uma ou mais candidaturas, em detrimento de outras"."

Ou seja, não bastava que eles conseguissem ter a ideia peregina de defender a liberdade de expressão através da censura (que é o efeito prático do ponto 4) como ainda conseguem que esta medida seja aplicada em periodo de pré-campanha (a pré-campanha começa quando?)!!!

Já se começam a levantar vozes para o fim da ERC. Eu não concordo (afinal o orgão é necessário), mas julgo que ficavamos bem mais servidos se todos estes individuos se demitissem e enviassem o curriculum para as Produções Fictícias. O mundo criativo fica mais pobres...

Retrato de Luís Lavoura

Segundo notícia da Antena 1 esta manhã, um reputado cientista americano, parece de facto que um Prémio Nobel, passou por Ponta Delgada, onde se declarou surpreendido ao observar o furor que a nova variante da gripe está a atiçar na comunicação social portuguesa. Segundo ele, nos EUA já se concluiu que esta nova estirpe da gripe pouco pior é do que as estirpes vulgares, que a mortalidade por ela provocada é de facto muito baixa, ao contrário daquilo que inicialmente se temia, e já ninguém anda assustado por ela. A nova gripe não passa afinal de mais uma gripe.

A Antena 1 deu esta notícia entre uma sobre a expansão da gripe em Portugal e outra sobre a falta de vacinas para a gripe em Portugal. O pânico continua a ser atiçado, apesar das sensatas observações do americano. O Verão aproxima-se e há uma dramática falta de notícias para dar - nada melhor do que entreter e assustar a população com problemas virtuais.

Retrato de Miguel Duarte

Parece que temos nos Estados Unidos uma segunda morte provocada pelo H1N1, de uma doente crónica, tenho sido a primeira a de um bebé. Ou seja, o tipo de mortes que é habitual existirem numa gripe normalíssima. O número de infecções à volta do mundo continua baixíssimo (ex: nos EUA 403), o que na prática, e dada a sua baixa mortalidade até ao momento, torna esta gripe numa quase não notícia (no momento).

Cabeçalho da notícia: "Gripe A H1N1: Segunda morte registada nos Estados Unidos".

Se formos ao site da BBC, existem inclusivamente esclarecimentos como:

Leonel Lopez, Cameron County epidemiologist said the flu itself was "very benign" but had exacerbated her underlying medical problems.

Os cabeçalhos não podiam ser um pouquinho mais informativos e responsáveis?