Energia

A visão liberal relativamente ao tema da Energia e soluções energéticas para o futuro.
Retrato de Luís Lavoura

Como seria de esperar, o aumento do preço do petróleo acima dos 100 dólares por barril já está a ter repercussões na eliminação do fraco crescimento económico pós-crise. Os EUA e o Reino Unido estão a recair na depressão, e, temo bem, a Europa não tardará a seguir-lhes o caminho.

O jogo atual é este: se a economia cresce o preço do petróleo aumenta e trava-lhe o crescimento. Com a escassez de petróleo, os tempos de crescimento sustentado acabaram, de vez, para as economias ocidentais.

E, sem crescimento (*), nenhum Estado poderá, alguma vez, pagar os balúrdios que deve aos mercados financeiros.

 

(*) Ou inflação.

Retrato de Luís Lavoura

O ministro da Economia disse que o governo tenciona criar um sistema de preços subsidiados para a energia - eletricidade e gás - consumida pelas famílias mais pobres.

Espero que o ministro se lembre que grande parte das famílias mais pobres em Portugal vive nas aldeias e não consome gás natural - consome gás propano e butano engarrafado, que é bem mais caro do que o gás natural - a começar pelo facto de que paga IVA a 23% e não a 6% como o gás natural paga. Se quer ajudar os consumidores de gás mais pobres, o ministro não se deve fixar apenas nos consumidores de gás natural.

Retrato de Luís Lavoura

Confesso que não percebo os múltiplos comentários críticos e/ou jocosos a que tem levado a decisão da ministra do Ambiente de subir a temperatura dos termostatos dos ares condicionados do ministério durante o Verão.

A ministra atuou bem, aliás atuou de acordo com sugestões que repetidamente são feitas neste sentido por todos aqueles que se preocupam com a poupança de energia. (No Japão faz-se o mesmo.)
O ministério que a ministra tutela tem múltiplos edifícios, muitos deles fora de Lisboa, e milhares de funcionários. A ministra pode e deve ordenar que se subam as temperaturas dos termostatos. Mas tem o direito e o dever de explicar aos funcionários por que motivos o faz, e tem o direito de lhes sugerir (não ordenar!) que, para suportarem a temperatura mais alta, aligeirem o seu vestuário. (No Japão faz-se o mesmo.)

Portanto a ministra agiu corretamente, e oxalá todos os outros departamentos do Estado lhe seguissem o exemplo, moderando o consumo de energia em ares condionados inúteis e sugerindo aos funcionários que utilizassem no trabalho um vestuário mais de acordo com a estação do ano.

Retrato de Luís Lavoura

A Agência Internacional de Energia advertiu, em Junho, que, a menos que os países da OPEP consigam aumentar a produção - coisa que parece muito difícil, a menos que a guerra civil na Líbia termine -, na segunda metade deste ano se gerará um défice substacial na produção mundial de petróleo, isto é, a produção será inferior em aproximadamente 1,5% ao consumo.

Isto quer dizer que nos devemos preparar para aumentos substanciais do preço dos carburantes ao longo dos próximos meses.

(Fonte: o blogue de Jeff Rubin.)

Retrato de Luís Lavoura

Como em Portugal continua a haver maluquinhos que gostariam de cá construir uma central nuclear - a qual só estaria pronta daqui a uma dezena de anos, dado o enorme tempo que um desses projetos leva invariavelmente a concluir - vale a pena transcrever o resumo de um artigo - escrito por um cientista - que hoje mesmo apareceu e cujo título este post copia:

Historic data from many countries demonstrate that on average no more than 50-70% of the uranium in a deposit could be mined. An analysis of more recent data from Canada and Australia leads to a mining model with an average deposit extraction lifetime of 10+- 2 years. This simple model provides an accurate description of the extractable amount of uranium for the recent mining operations.
Using this model for all larger existing and planned uranium mines up to 2030, a global uranium mining peak of at most 58 +- 4 ktons around the year 2015 is obtained. Thereafter we predict that uranium mine production will decline to at most 54 +- 5 ktons by 2025 and, with the decline steepening, to at most 41 +- 5 ktons around 2030. This amount will not be sufficient to fuel the existing and planned nuclear power plants during the next 10-20 years. In fact, we find that it will be difficult to avoid supply shortages even under a slow 1%/year worldwide nuclear energy phase-out scenario up to 2025. We thus suggest that a worldwide nuclear energy phase-out is in order.
If such a slow global phase-out is not voluntarily effected, the end of the present cheap uranium supply situation will be unavoidable. The result will be that some countries will simply be unable to afford sufficient uranium fuel at that point, which implies involuntary and perhaps chaotic nuclear phase-outs in those countries involving brownouts, blackouts, and worse.

O artigo completo, cujo autor é Michael Dittmar, um físico de partículas experimental que trabalha na experiência CMS no CERN, pode ser obtido em

http://xxx.lanl.gov/pdf/1106.3617

Retrato de Luís Lavoura

A edição do The Economist desta semana exibe-se (na sua capa) pesarosa por, logo quando a economia mundial estava a começar a recuperar tão bem, o preço do petróleo subir sem parar.

 

Mas isto nada tem de surpreendente. De facto, este comportamento do preço do petróleo (o qual já estava a subir mesmo antes das recentes turbulências em países árabes) é totalmente previsível: o estado da economia mundial e o preço do petróleo encontram-se atualmente acoplados. Se a economia mundial começa a acelerar, logo a procura de petróleo aumenta para níveis insustentáveis, e o preço do petróleo aumenta até fazer a procura de petróleo e, com ela, o dinamismo económico, decrescerem.

 

Trata-se de uma aplicação prática da Lei da Oferta e da Procura, nada mais.

 

Há que compreender que a produção mundial de petróleo está nos limites - estamos no peak oil, o estado de produção máxima de petróleo a nível mundial, se é que (hipótese mais provável) não o ultrapassámos mesmo já. A partir daqui, qualquer crescimento económico que exija maior consumo de petróleo vai imediatamente esbarrar na finitude desse recurso. A única maneira de fazer o preço do petróleo baixar é, hoje em dia, diminuir o seu consumo. O que, numa economia viciada em transportes como a atual, implica diminuir a mobilidade de pessoas e bens.

 

É duro, mas inelutável.

Retrato de Luís Lavoura

Para quem se interessa por este tema. um artigo (em inglês) escrito por um cientista:

 

http://xxx.lanl.gov/abs/1101.4189

 

Qualquer pessoa pode extraí-lo em formato pdf ou ps, para o ler.

Retrato de Luís Lavoura

Enquanto em documentos oficiais e na linguagem dos políticos continua a não se admitir que possa haver qualquer problema com a disponibilidade futura de petróleo, os melhores políticos, em segredo, estão avisados, e vão encomendando estudos. Descobriu-se recentemente que um think-tank militar alemão estava a, em segredo, elaborar um estudo sobre, precisamente, os riscos para a segurança alemã decorrentes de a produção mundial de petróleo poder vir no futuro a declinar. Leia-se

 

http://www.spiegel.de/international/germany/0,1518,715138,00.html

 

O estudo, ainda na sua fase preliminar, identifica consequências prováveis de uma futura escassez petrolífera, e essas consequências são de mau presságio para a liberdade económica. O mercado livre de compra e venda de petróleo tenderá a ser substituído por acordos bilaterais de fornecimento entre alguns países produtores e alguns países consumidores. A previsível escassez de alguns bens essenciais, derivada em particular de dificuldades de transporte, tenderá a conduzir a um retorno da economia planificada, com o mercado livre a ser substituído por racionamentos impostos pelo governo, e com a alocação de bens escassos a atividades económicas consideradas prioritárias pelo Estado.

 

Além destes riscos para a liberdade económica, haverá também riscos para a liberdade política, na medida em que os países produtores de petróleo adquirirão maior poder, mesmo quando esses países tenham regimes políticos menos tolerantes. Por exemplo, a Europa passará a ter que ser mais amigável para com a Rússia, menos amigável para com Israel e mais para com os países árabes, o Irão passará a obter maior compreensão e amizade da parte de países desejosos de lhe comprar petróleo, etc.

 

É claro que algumas pessoas preferirão enfiar a cabeça na areia e continuar a negar, por uma questão de princípio, que possa haver limitações à disponibilidade futura de petróleo. Deveriam no entanto notar que, embora não se saiba exatamente quanto petróleo é produzido a nível mundial (os Estados dominam a maior parte da produção, e mantêm em segredo essa produção), as estimativas apontam para que a produção ande a oscilar em torno de um valor máximo desde há quatro anos para cá, ou seja, desde há quatro anos que a produção mundial de petróleo não cresce de forma continuada. Alguns especialistas (por exemplo, o iraniano Ali Bakhtiari) previam há poucos anos atrás que o pico na produção mundial de petróleo ocorreria já em 2008; parece que esses especialistas tinham razão, se tivermos em conta que esse pico não é de facto um máximo estável, e sim um período de flutuações da produção em torno de um valor máximo.

Retrato de Filipe Melo Sousa

Como era de se esperar, e era apenas uma questão de tempo, o Governo admite acabar com subsídios às renováveis. Isto não quer dizer porém que venhamos a ter um mercado energético liberalizado. Muita da factura é paga directamente pelo consumidor sem passar pelo orçamento de estado. O facto de se consumir electricidade coercivamente cara é no entando um imposto implícito. O consumidor de electricidade português é coagido a consumir todo o género de lixo energético que a EDP compra aos produtores. Apesar de tudo, uma óptima notícia, que dará aos "empresários" de energias renováveis um claro sinal de que não podem fazer da subsidio-dependência uma forma de negócio, em que basta utilizar a palavrinha-mágica "renovável" para que os organismos públicos paguem a diferença entre o prejuízo e o custo normal de produção.