...as de Pedro Braz Teixeira: "Não concordo com a ideia de o BCE [Banco Central Europeu] comprar dívida soberana no mercado [secundário] por duas razões. Em primeiro lugar, porque isso não ajuda directamente os Estados, porque quem recebe os fundos é quem já tinha comprado a dívida. Em segundo lugar, porque esta compra é um risco elevadíssimo para o balanço do BCE. É preciso recordar que o BCE só tem dez mil milhões de euros de capitais próprios e é altamente provável que já tenha perdido muito mais do que isso nas compras de dívida soberana que já realizou até agora. Por outras palavras, o BCE já deve estar falido e ficaria ainda em piores lençóis ao comprar mais dívida soberana.
[...] Em última instância, o próprio BCE pode emitir moeda para ajudar os Estados [...] com a contrapartida, neste momento moderada, de uma aceleração da inflação, que é actualmente o menor dos problemas que a zona do euro enfrenta.
A intervenção do BCE que defendo é este emprestar directamente aos Estados em dificuldades, a taxas próximas da sua taxa de referência (actualmente em 1%), para realizar duas funções. Em primeiro lugar, para substituir todo o financiamento de curto prazo, que é actualmente realizado a taxas absurdamente elevadas, em torno dos 5%, contribuindo assim de forma imediata e significativa para reduzir a factura com juros, ajudando a reduzir o défice orçamental. Esta redução drástica dos juros traria uma ajuda preciosa à sustentabilidade das contas públicas, devendo reduzir também, por isso, as taxas de juro de longo prazo. Em segundo lugar, o BCE deveria emprestar directamente aos Estados para estes comprarem a sua própria dívida pública, nos casos em que a sua taxa de juro de longo prazo atinja níveis perigosos, acima de, digamos, 7%. A diferença – radical – é que estas taxas de juro correspondem a preços da dívida pública que chegam a ser 50% inferiores ao seu valor nominal e que isso constitui uma poupança extraordinária para os Estados que o fizessem. No limite, se os Estados pudessem comprar toda a sua dívida pública a metade do seu valor, isso significaria ficar com metade da dívida pública original. A diferença – essencial – é que, para o BCE, comprar dívida pública que se pode desvalorizar é um risco brutal, enquanto os Estados comprarem a sua própria dívida a preços de saldo significa reduzir a sua dívida pública, o que é excelente em termos da sustentabilidade das contas públicas. Seja qual for o tipo de intervenção do BCE, esta é absolutamente imprescindível para evitar o colapso do euro no curto prazo.
Mas a Alemanha poderia também assumir que lhe é politicamente intolerável (pelo horror que alemães têm à inflação) criar mecanismos essenciais à sobrevivência do euro e decidir, em alternativa, negociar o fim organizado do euro. Poderia inclusive decidir sair (eventualmente acompanhada dos outros países fortes) do euro, o que seria o tipo de fim do euro que menos custos traria para os países mais fracos, como Portugal.
A actual posição alemã não é a defesa firme do euro, nem o fim negociado do euro, mas um meio-termo onde não há qualquer virtude. O pior é que este meio-termo acarreta um risco muito elevado de gerar o pior dos cenários: o fim caótico do euro."