Tenho lido muitas opiniões segundo as quais os problemas de finanças públicas de alguns Estados membros da Zona Euro, como a Grécia e Portugal, não poderão deixar de levar ao fim do euro ou, pelo menos, ao abandono da utilização do euro por parte desses países.
Muitas dessas opiniões deixam-me suspeitoso por serem assinadas por autores ingleses ou norte-americanos. É sabido que o pessoal desses países nunca gostou do euro porque essa nova moeda colocou em risco a supremacia internacional do dólar americano e da libra esterlina. O pessoal desses países tem um desejo mais ou menos secreto de que a Zona Euro se desmembre. Eles estão portanto a expôr como inevitável aquilo que, de facto, mais desejam.
Eu gostaria que esses autores comparassem a situação da Grécia, ou de Portugal, com a situação do Estado americano da Califórnia. Esse Estado está ainda mais falido do que a Grécia. Com a importante diferença de que, enquanto os políticos gregos estão relativamente de acordo sobre o que fazer para acabar com a situação de falência do seu país, os políticos californianos andam há anos às voltas com a situação de falência do seu Estado sem conseguirem chegar a acordo sobre o que fazer.
Repare-se que, enquanto que a Grécia ou Portugal são economias marginais e relativamente pequenas dentro da Zona Euro, a Califórnia forma uma parte muito substancial da economia dos EUA. Portanto, os problemas financeiros do Estado e República da Califórnia são muito mais importantes, no contexto dos EUA, do que os problemas financeiros da Grécia e de Portugal o são no contexto da Zona Euro.
Há uma agravante no caso da Califórnia. Se o Estado da Califórnia fale, ele tem pouco sítio onde cortar as suas despesas. O Estado da Califórnia não fornece aos seus cidadãos serviços de saúde, nem serviços de educação básica, nem serviços de defesa militar. Não pode, portanto, cortar nesses serviços. O Estado da Grécia, pelo contrário, paga uma enorme variedade de serviços aos seus cidadãos, pelo que tem uma larga margem de discricionariedade na escolha de quais os serviços em que irá cortar as suas despesas. Enquanto que o Estado da Califórnia se vê automaticamente obrigado a cortar nas despesas da Universidade da Califórnia, que é uma das poucas coisas que ele paga, o Estado da Grécia pode perfeitamente decidir cortar apenas um pouco nas universidades mas mais nos gastos com a defesa ou com a saúde, por exemplo.
Ora, o certo é que ninguém diz que, por a Califórnia falir, isso porá em risco o dólar americano como moeda. Ninguém diz que a Califórnia poderá deixar de utilizar o dólar como sua moeda. É para todos evidente que, se a Califórnia não tem dinheiro para pagar aos seus funcionários, então terá que passar a pagar menos - mas que a moeda utilizada nos pagamentos continuará a ser o dólar americano. Ora, se isto é assim com a Califórnia, por que motivos não há-de também ser assim com a Grécia? Ou com Portugal? É para mim evidente que, se o Estado português está com dificuldades de tesouraria, terá que passar a pagar menos aos seus funcionários - e até poderá optar entre pagar menos aos soldados, ou aos médicos do SNS, ou aos professores universitáios, ou aos empregados das repartições. Mas nada disso implica que os pagamentos deixem de ser efetuados em euros. Da mesma forma que o Estado e República da Califórnia está a cortar nos salários dos professores da Universidade da Califórnia, mas continua a pagar-lhes em dólares.