Aqui há uns meses escrevi um post neste blogue dizendo que provavelmente seria necessário cortar nos salários dos funcionários públicos. A minha motivação era evitar despedimentos e realizar, pelo contrário, uma "retirada estratégica", ordenada, dos gastos do Estado, com diminuição maior nos salários mais elevados e redução menor (ou nula) nos salários mais baixos.
Que eu saiba, o meu post foi a primeira vez em que alguém falou publicamente da necessidade de cortar nos salários públicos.
Infelizmente tive razão antes do tempo (já estou habituado, diga-se de passagem). Atualmente já se fala publicamente da necessidade de cortar nos salários dos funcionários públicos, embora ainda ninguém com responsabilidades políticas tenha ousado dizer isso. Infelizmente também, no entanto, agora já é tarde: a retirada ordenada, estratégica, que eu propus já será impossível, e qualquer retirada agora já só poderá ser desordenada, em debandada. Provavelmente será necessário cortar às cegas: o mais fácil será o Estado decidir não pagar este ano subsídios de férias nem de Natal. Esses cortes irão afetar de forma igual os baixos e os altos salários - de facto, em termos reais, penalizarão mais os mais pobres do que os mais ricos.
É preciso salientar que o ataque especulativo de que Portugal está a ser alvo tem consequências bem concretas, na medida em que o Estado português está dependente de arranjar quem lhe empreste dinheiro. Se ninguém emprestar dinheiro ao Estado português, este não terá como pagar os salários. Ou seja, estamos a falar de uma necessidade concreta do Estado português. Ao contrário daquilo que sugerem alguns esquerdistas impenitentes, como Paulo Pedroso e João Galamba, isto não é uma questão política - é uma questão de o Estado português andar a mendigar esmolas e de arranjar ou não arranjar quem lhas dê. Se ninguém lhas der, morre de fome.
Entretanto, devido às malfadadas "conquistas de Abril", tudo aquilo que seria necessário ou conveniente fazer é hoje em dia proibido por lei, por vezes constitucionalmente proibido. É proibido por lei baixar salários, é proibido por lei despedir funcionários públicos, é proibido por lei deixar de pagar subsídios de férias e de Natal, é proibido por lei fazer despedimentos individuais sem que isso acarrete um longo e incerto processo judicial. Isto significa que é necessário que, muito rapidamente, o PSD e o PS se entendam e modifiquem as leis, decisivamente, radicalmente, eliminando delas essas "conquistas de Abril". Isto terá que ser feito muito rapidamente, se ainda queremos ter hipóteses de fazer o que tem que ser feito de forma legal, e não através de uma mudança de regime - que eu, como democrata, não desejo.
Já perdi as esperanças em José Sócrates, que está cansado, velho e gasto e que, desde há três anos a esta parte, se mostra incapaz de bem governar o país. Infelizmente, a obcecada Manuela Ferreira Leite dificilmente alguma vez poderia ser melhor do que ele. Deposito agora, no entanto, esperanças em Pedro Passos Coelho, que me parece ter consciência clara da camisa de onze varas em que Portugal está metido.