Fiscalidade

Retrato de Luís Lavoura

Uma notícia interessante sobre um benefício fiscal:

 

http://jornal.publico.pt/noticia/01-09-2010/camara-de-matosinhos-isenta-jp-sa-couto-de-pagar-imi-durante-5-anos-20120729.htm

 

"O executivo da Câmara de Matosinhos [...] aprovou ontem benefícios fiscais para a JP Sá Couto [... A] empresa sediada em Perafita está isenta do pagamento do IMI (Imposto Municipal sobre Imóveis) durante cinco anos e tem direito a uma redução de 50 por cento do valor de IMT (Imposto Municipal sobre Transmissões Onerosas de Imóveis) neste período. Estes benefícios mereceram aprovação dos vereadores do PS e do PSD, mas também votos contra dos eleitos pela Associação Narciso Miranda Matosinhos Sempre."

 

Esta última associação questiona, em minha opinião muito corretamente, "por que razão [se] toma uma medida excepcional, beneficiando apenas uma empresa e obrigando todas as outras [...] a cumprir as suas obrigações, pagando a taxa máxima de IMI e IMT".

 

A Associação Narciso Miranda Matosinhos Sempre (curioso nome...) tem em minha opinião muita razão. O Estado não deve, em geral, beneficiar certas empresas. O Estado deve, antes, beneficiar todo o clima empresarial. O Estado tem a obrigação, até constitucional, de tratar todos os cidadãos de forma igual. Da mesma forma, deve tratar todas as empresas de igual forma. Da mesma forma que o Estado deve promover concursos públicos transparentes, em que todas as empresas podem concorrer por igual e sem favorecimentos, também o Estado não deve beneficiar, fiscalmente ou de qualquer outra maneira, qualquer empresa.

Retrato de Luís Lavoura

Ao falar do IVA, algumas pessoas afirmam que a taxa reduzida de IVA se aplica a "bens de primeira necessidade", enquanto que a taxa máxima se aplica a "produtos de luxo". Esta é, no entanto, uma simplificação muito grosseira. As taxas de IVA aplicam-se por categorias de bens ou serviços e não de acordo com uma classificação como sendo "de luxo" ou "de primeira necessidade". Assim, um restaurante de luxo paga exatamente tanto IVA (taxa média) como um restaurante onde se servem almoços rápidos. O queijo da Serra paga tanto IVA (taxa mínima) como o queijo flamengo. Tomates fora de época importados do Chile pagam tanto IVA (taxa mínima) como maçãs. Obras de construção civil necessárias para impedir que chova dentro de uma casa pagam tanto IVA (taxa máxima) como obras de alteração num automóvel para nele instalar ar condicionado.

 

O IVA é o imposto socialmente mais injusto, dizem alguns. Pois é... eu diria mesmo que ele é injusto de todas as formas possíveis.

Retrato de Luís Lavoura

Nos últimos tempos tenho reparado com alguma atenção na taxa de IVA que pago nos diversos produtos alimentares que compro. Descubro coisas interessantes, que tenho alguma dificuldade em explicar.

Como se sabe há três taxas de IVA, muito diferentes: a mínima (5%), a média (12%), e a máxima (20%). Teoricamente, todos os alimentos e bebidas são taxados à taxa mínima de IVA, mas na verdade não é assim.

Tanto quanto descortino, todos os produtos não processados são taxados à taxa mínima. Os produtos processados parecem-me em geral taxados à taxa média, mas há exceções. O pão e as massas alimentícias são taxados à taxa mínima, bem como todos os produtos láteos. Isto pareceria lógico, considerando que esses produtos são básicos na alimentação, mas na verdade não é nada lógico. O iogurte não é certamente um produto alimentar básico. Não se percebe por que motivos há-de a manteiga pagar menos IVA do que as margarinas. Algumas massas alimentícias são produtos altamente elaborados e até de luxo (massas com ovos, com espinafre, com quinoa, etc).

Depois há produtos processados taxados à taxa máxima, como por exemplo o chocolate. Enquanto que o vinho é taxado apenas à taxa média. Será que o vinho é um produto menos processado do que o chocolate? Não entendo.

Alguns produtos vegetarianos são também taxados à taxa máxima, não se percebe bem por quê, porque a sua taxa de processamento até é bastante reduzida. Em compensação a carne, em todas as suas variedades incluindo as processadas (enchidos, etc), é taxada à taxa mínima.

Em tudo isto parece-me haver uma atitude discriminatória da parte do Estado. O Estado utiliza a fiscalidade para discriminar entre cidadãos "normais" (os que comem certas coisas) e "anormais". O Estado utiliza o IVA para promover certos procutos alimentares - por exemplo, produtos láteos e carne - em detrimento de outros. Não me parece uma atitude correta e, certamente, não é nada liberal.

Também não entendo bem por que motivos concretos se há-de taxar mais os produtos processados. Pretende-se exatamente o quê, desencorajar o trabalho humano, a valorização dos produtos agrícolas? O processamento é em grande parte destinado a que certos produtos possam ser progressivamente consumidos ao longo do ano - é por isso que se transformam as frutas em compota, as uvas em vinho ou sumo pasteurizado, etc. Ou seja, o processamento é intrínseco ao consumo. Por que motivos se castiga o processamento com uma taxa de IVA superior?

Retrato de Luís Lavoura

Recebi ontem a minha conta de IMI (Imposto Municipal sobre Imóveis) a pagar. Verifiquei com espanto que os prédios urbanos pagam esta ano mais 3,75% de IMI do que no ano passado. Isto num ano em que a inflação oficial foi nula ou negativa, em que as rendas não foram autorizadas a subir, e em que o mercado imobiliário se encontra largamente paralisado e com preços estagnados.

Eu gostava de saber onde é que o poder político foi descobrir que houve uma valorização dos imóveis em 3,75% este ano.

É claro que isto é um aumento de impostos (não muito) encapotado, o que é legítimo. As Câmaras Municipais estão tão endividadas e com tanto deficit quanto o Estado central, pelo que desejam aumentar as suas receitas sacando mais aos munícipes. Mas, sugiro eu, haveria formas bem mais justas de efetuar um aumento do IMI, nomeadamente:

(1) Eliminando progressivamente as isenções de IMI, nomeadamente as isenções que beneficiam casas compradas recentemente. Não há qualquer razão social para que o Estado favoreça quem compra casa própria e lhe ofereça uma isenção de IMI por muitos (dez, creio eu) anos. Há também um conjunto de outras isenções ao IMI que não têm qualquer justificação social. No fundo, trata-se sempre de isenções fiscais que favorecem essencialmente a classe alta. O meu entendimento é que os impostos devem ser tendencialmente planos, o que implica a não existência de deduções nem de isenções fiscais.

(2) Tornando mais rápido o processo de reavaliação fiscal de imóveis mais velhos. Atualmente esses imóveis só são reavaliados quando mudam de proprietário. Penso que essa regra poderia ser alterada, obrigando à progressiva reavaliação fiscal dos imóveis mesmo quando o proprietário não se altera. Isso conduziria a um aumento do IMI sobre imóveis que hoje continuam a ser injustamente beneficiados por manterem um valor fiscal muito inferior ao valor real.

Retrato de Luís Lavoura

Carlos Santos argumenta aqui que o equilíbrio do Orçamento de Estado não deve passar por uma subida do IVA e que poderá antes ter de passar por uma diminuição dos salários dos funcionários públicos, pelo menos os de topo. E eu concordo plenamente.

Retrato de João Cardiga

Agora que já saiu a proposta de OE de 2010 alguém consegue responder à seguinte questão:

Qual o valor de:

(Receitas de impostos do Estado2010 + Receitas de impostos dos municipios2010 + Receitas da Segurança Social2010)/PIB2010

P.S. A proposta pode ser consultada aqui

Retrato de Luís Lavoura

Tenho a impressão de que, desde que se começou a falar de limitações ao sigilo bancário, a desconfiança nos bancos aumentou. Eu costumo pagar diversos serviços através de transferências bancárias. Nos últimos tempos já algumas pessoas me pediram para não lhes pagar por tal meio, pedindo-me que em vez disso lhes pague em notas de banco ou mediante cheque ao portador. As pessoas estão a optar por meios de pagamento que não deixem qualquer rasto no sistema bancário, no qual já não confiam.

Retrato de Luís Lavoura

É sempre agradável ver alguém a concordar connosco, sobretudo quando esse alguém é do lado de lá da barricada. Neste post Rui Pena Pires argumenta contra o IRC nos seguintes termos "numa lógica verdadeiramente de esquerda, não é o lucro mas a sua distribuição como rendimento, directo ou indirecto, que deve ser alvo de impostos crescentemente elevados. Resultados não distribuídos são indispensáveis ao investimento, devendo pois ser taxados com moderação. Sobretudo num país que tanto precisa de crescer."

Retrato de João Mendes

Este ofício, que diz que os lugares cativos em jogos de futebol estão isentos de IVA, ainda está em vigor? Pelo que vi dos preços lugares cativos em estádios de futebol, parece-me que sim, que está.

Diria que é inacreditável mas, neste momento, já nada me parece inacreditável. (E sim, vai para a categoria de humor. Humor negro, mas humor, sem qualquer dúvida.)

Retrato de artur baptista

O Fisco prepara-se para penalizar em sede de IRS as indemnizações de Gestores. Para além do aspecto meramente quantitativo que ainda não analisei, a ideia que passa para a opinião publica é que já se encontrou o culpado de todos os males do nosso País.
Vou ser sincero, nunca esperei que depois de 35 anos de Democracia, de integrações na União Europeia, de apostas em economias de mercado e desenvolvimento económico se chegasse a este conjunto de anormalidades.
É que este tipo de acção não tem qualquer tipo de utilidade, a não ser complicar ainda mais a vida a todos os que tem a responsabilidade de decidir e que são avaliados por isso por todos os stakeholders que nele confiam para aumentar os niveis de rendibilidade dos seus capitais, trabalho ou contas correntes.
Sendo certo que cada agente economico é diferente do outro, a maximização do lucro é para mim um valor importante e que faz com haja motivação para realizar algo que só mesmo os gestores podem fazer - assumir riscos. E risco significa assumir possibilidade estatisticas de erro e de grandes perdas para ele, para a empresa, para os colaboradores, para a Sociedade.
Crucificar na praça publica uma classe é no minimo redutor.
Trata-se isto da Esquerda Moderna e dos seus valores Fracturantes?