Desde que estou na blogosfera já fui apelidado de muitas coisas ("comunistas", "esquerdalha", "capitalista", "engenheiro social", etc...) pelo que provavelmente depois deste artigo deverei juntar de "bloquista".
Escrevo hoje para falar, e tentar desmitificar, duas das medidas mais polémicas do Bloco de Esquerda. E escrevo pois, na maioria dos casos as mesmas são apelidadas de "populistas", "extremistas" ou "radicais", matando assim uma discussão que pode ser muito proveitosa. Pior, julgo que é uma resposta dogmática para um tema científico. Ou seja os contra-argumentos para algo que deriva de anos de estudo cientifico são puros ataques subjectivos.
Dito isto passemos para as medidas:
1 - Proibição de despedimentos em empresas com lucro
Um dos pressupostos em que acenta a teoria económica mainstream é o da racionalidade dos agentes. Isto é o agente comporta-se de forma a maximizar o seu bem-estar analisando sempre os beneficios e custos de determinada acção*. Todas as conclusões desta teoria, como por exemplo a de os mercados serem a melhor forma de distribuição de bens escassos e serem geradores de progresso e bem-estar, são sustentados por este pressuposto. Obviamente, caso os agentes se comportem de forma irracional, é aberto a "caixa de Pandora", e a própria modelização da nossa sociedade** que fica em risco.
Dito isto passemos então para o contexto actual: o de crise de procura.
A maior motivação de um empresário é a maximização do lucro (pelo menos é o que se diz e se pressupõe). Uma das formas tipicas e comummente utilizadas em Portugal para se atingir este objectivo*** é através da diminuição do custo de trabalho, que muitas vezes é concretizada através do despedimento. Ora dado o contexto actual (o de crise económica) o empresário tem, não só a motivação, como a oportunidade e incentivo para agir dessa forma. Assim para mazimizar o seu lucro, o empresário despede parte dos seus colaboradores e consegue produzir o mesmo com menos trabalhadores (recorrendo muitas vezes a horas extra), ganhando uma vantagem competitiva em relação à concorrência.
Dir-me-ão: está a ser racional! Pois, mas o problema é que não está! A questão é que se todos os agentes agirem da mesma forma (e dado que são racionais irão agir) a verdade é que a sua vantagem competitiva será de muito curto prazo, ou mesmo nula. Com a agravante de que neste processo, e com estas acções se destroi procura o que fará diminuir o lucro de todos. Dito de outra forma, os agentes têm uma acção irracional!
Ora se no contexto normal isto seria mau, numa crise de procura seria um autêntico desastre à espera de acontecer (basta recordar 1929), acabando a sociedade toda por pagar os erros de um conjunto muito limitado de individuos.
E é neste contexto que esta medida aparece. Isto é, é uma forma de diminuir os incentivos existentes aos agentes se comportarem de forma irracional.
Dado esta realidade gostaria de dar a minha opinião sobre esta medida. Ao contrário do "mainstream" não concordo que se apelide a mesma de populista ou extremista. É uma solução ideologicamente certa para o BE. E é uma medida corajosa e que poderia ter trazido para o debate temas que urgem serem discutidos. Mas na minha opinião, e como é natural, é uma medida errada. Além da questão ideológica, é errada porque é aplicada por igual a todas as situações não resolvendo de todo o problema que visa combater. Se é verdade que existem empresas que têm lucros e que utilizarão os despedimentos de forma incorrecta, existirão outras cuja a sua viabilidade de médio prazo estará dependente de uma restruturação, pelo que a aplicação desta medida contém um risco elevado de aumentar o desemprego e agravar a crise.
No entanto, julgo que ao se debater esta medida existem importantes questões em aberto:
A) O que fazer para combater este problema?
B) Deverá uma empresa internalizar o custo social das suas decisões?
C) Para que serve o lucro?
D) O que é uma empresa?
2 - Nacionalização da Galp e da EDP
Existem mercados que pelas suas caracteristicas não pode existir concorrência, são normalmente apelidados de monopólios naturais. Este é um tema importante, principalmente em Portugal, onde julgo que os monopólios naturais são um pouco mais extensos do que noutros países.
Assim é importante, nos casos dos monopólios naturais, saber o que fazer. Tipicamente, e que seja do meu conhecimento, existem duas "soluções": ou são privados ou são do Estado.
Neste ponto partilho da opinião do Bloco: os monopólios naturais deverão ser do Estado****. Mas a minha partilha de opinião termina neste ponto, porque a Galp e a EDP contêm na sua actividade monopólios naturais e actividades concorrênciais. Assim julgo que a questão não se coloca em termos de quais empresas nacionalizar, mas sim quais actividades nacionalizar!
NOTAS:
* Esta teoria implica outros pressupostos (p.e. informação perfeita) que não julguei relevante para o tema em discussão.
** Se analisarmos o nosso passado recente, quase toda a produção politica é baseada nas conclusões da teoria económica mainstream.
*** Basta recordar o que tem sido dito pelos partidos de direita, em especial pela MFL.
**** Neste artigo que já é extenso não explico quais os meus argumentos para este ponto pois não é a objectivo principal do mesmo.