Legislativas

Retrato de Luís Lavoura

Defendi, já há muitos anos - salvo erro em 2008 - que o caminho certo, de facto o único caminho político viável para Portugal, era o do Bloco Central: um governo PS-PSD. Infelizmente, nessa época o PS tinha Sócrates e o PSD tinha-lhe ódio, pelo que aquilo que eu defendia revelou-se inviável.

Mas a minha ideia continua válida. Devido à radicalização da esquerda portuguesa - PCP e BE - a única forma de sustentar de forma estável um governo é um Bloco Central. Como se torna claro após os resultados da eleição de ontem.

Retrato de Igor Caldeira

Nothing new, many things yet to decide: Portuguese national elections 2011

 

As in the rest of Europe, the party in government suffered a considerable defeat, the opposition won. In Portugal’s case (the exact opposite of Greece’s) the party in power at the time of the financial crisis was the socialist, and so the conservatives won.

 

Let us take an overview of what happened.

PSD - went from 29,1% in 2009 to 38,6%. A smaller score than Barroso’s in 2002 but the times have changed - namely, CDS, has a lot more votes than in the previous decades. PSD more or less openly presented an economically very radical program (which I have my doubts the voters actually know) and so the result is all in all a very good one.

PS - dropped from 36,5% to 28%. The worst result since the all time low of 1987, when they had 22%. Despite what many socialists think, PS could have had a much higher score, should the Prime Minister José Sócrates had avoided presenting himself to elections. More than PS, citizens were tired of this man.

CDS - the right-wing conservatives consolidated their position as the third party, going from 10,4% to 11,7%. CDS is no longer regarded as a right-wing populist group and has managed to play, at several times, an important role. The voters have certainly given a prize to the party - though 2% less than what the polls indicated just a few days ago...

CDU - the communist and green alliance kept their 7,9% of the votes, and got one more MP. They resisted very well to the debacle of the Left, but they did not gain anything from popular discontent. They have no role to play in national politics (since they refuse to make any agreements with PS) and so they keep their congregation - and that is it.

BE - the Left Block, which despite of its history and its name was in the past actually more moderate than CDU, played a dangerous game and was punished for it. Since its founding, slightly more than a decade ago, they have managed to grow consistently, catching left-wing votes from PS and some electorate that, not necessarily being left-winged in economics, was progressive on moral issues. They grew fighting for abortion and gay rights, for example. With the crisis, BE decided to enter into competition with CDU. The result was the loss of half of the votes, from 10 to 5%, and half of the MP’s.


 

What will this change? Well, in my opinion (which is not necessarily the dominant one) as we say in Portugal, the flies will change but the sh... will be the same. The main thing everybody has to understand is that the most responsible parties (responsible because they created the problems that we now face, and responsible because they are the only ones who are ready to meet the challenges ahead of us) have little space for maneuver. As some political commentators pointed out during the electoral night, Portugal needs to have at least PS and PSD, and also CDS in the ideal solution, all working together to figure out how to implement the Troika’s (EC, ECB, IMF) plan. That is the only real government program for the coming years. Who will implement it, and the exact details, are, precisely, details.

 

Unfortunately - and this is probably the only thing in which the two Left parties (CDU and BE) were right to the point - this was not discussed during the elections. These were bitter elections between the two main parties. A lot of personal accusations. Even episodes of small violence, especially when José Sócrates, the Prime Minister, was around. And so the most important will only be known now.

 

Does any of this have any relevance for liberals across Europe? Well, let me start by saying that my political movement, MLS, has recently done an analysis of the electoral programs of the four parties that a liberal voter may feel attracted to (BE, PS, PSD and CDS)#. Many people asked us who should they vote for. Many of us (me included) did not know either. We had a working group dedicated to it  and our results and our voting recommendation anticipated in some way the results of the elections.

BE’s program was awfully bad. PSD had the best program in economic subjects. CDS could be interesting for those liberal voters interested in voting strategically, to provide a good coalition party. PS did not have a very bad program, having a slightly better score than CDS, essentially due to their clearly pro-European stances (the only one doing that, for PSD gave little importance to Europe, preferring the links with the Portuguese-speaking world and the United States) and their positions on individual freedoms.  

Though I am sure that many think that the victory of the two EPP (PSD and CDS) parties are a sign of hope for Portugal, I’m much less enthusiastic. First of all, and as we have seen with Greece, austerity measures are but a small part of the solution. The market’s good will is actually more important. And, above all, the economy has to grow. PSD and CDS were in government only six years ago, and they left the economy as bad as they received it, and the budget deficit twice as big. So will they change their past incompetence? Let us see. I believe more in the IMF than in Portuguese parties, I must admit.  

 

As I said previously, while the most important (the Troika’s rescue plan) is already decided but yet to be unveiled, all the rest followed more or less the present European trends, with governments in general losing the elections. What we now have to see is how PSD and CDS will implement the necessary changes, and how deep will PS’s (necessary) cooperation with the conservative government be. Without such cooperation the task will be impossible.

 

Igor Caldeira

Individual Member of LYMEC

International Officer of Movimento Liberal Social

 

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Sorry, but only in Portuguese - but if you want to take a look at it, check http://www.liberal-social.org/analise-programas-eleitorais-legislativas-2011.

Retrato de Igor Caldeira

Eu pensava que, uma vez no poder, a Direita ia começar por atacar o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Parecia-me óbvio, tratando-se de uma lei aprovada no parlamento e em relação à qual, estou certo, a maioria dos portugueses está contra (o que em nada diminui a sua legitimidade, dado que eu, antes de ser um democrata, sou liberal).


Parecia óbvio, também, por que me pareceria descabido a Direita atacar uma questão tão dolorosa que acabou com uma vitória tão esmagadora de um dos lados. Enfim, politicamente não seria propriamente brilhante desenterrar este cadáver, passe a expressão tétrica. Há coisas bem mais relevantes e politicamente bem mais lucrativas do que atacar o aborto.

 

Hélas, começo a achar que Passos Coelho não só não é tão liberal quanto gosta de se fazer, como é tão inapto quanto muitos nos queriam fazer crer. Ou o senhor é louco ou tem conselheiros políticos loucos. Ou estúpidos. Ou seja o que for. 

 

Porque seja como for, eu que vacilava entre o PS e o PSD, acabei de decidir o meu voto. Gastei demasiado tempo dos meus últimos anos a lutar por esta causa para permitir que agora um chanfrado qualquer venha impôr este retrocesso (e outros, está visto, bem mais fáceis de atingir) gigantesco ao país.

 

Não, não é desta que teremos um Primeiro Ministro liberal.

 

O líder do PSD, Pedro Passos Coelho, quer rever a lei do aborto e admite um novo referendo sobre a matéria.

Retrato de Igor Caldeira
‎Partido político nem pensar. Nunca!... Não aceitarei nenhum cargo partidário ou governativo

Fernando Nobre, SIC Notícias, 1 de Março de 2011

 

GARANTO-VOS, EXCLUÍ A MINHA PARTICIPAÇÃO POLÍTICA, NEM COMO INDEPENDENTE, NO ÂMBITO DOS PARTIDOS EXISTENTES.

Fernando Nobre, em nota do Facebook, 20 de Fevereiro de 2011

 

 

Eu desconfio sempre de quem fala mal dos partidos políticos. Fico sempre com a impressão que, se lhes abrissem as portas, essas pessoas conseguiriam ultrapassar muitos dos apparatchik que por lá andam.
Claro, isto é apenas instinto pessoal. E não é todos os dias que podemos ver a confirmação de um instinto.
 

Fernando Nobre conseguiu em um mês fazer uma mudança de 180º na sua posição relativamente aos partidos políticos. Veja-se a desfaçatez: não só aceita um lugar de cabeça de lista no principal círculo eleitoral, como até se posiciona já como futuro Presidente da Assembleia da República. Assim mais ou menos como se Salazar se candidatasse a Secretário Geral do PCP, ou como se Jerónimo de Sousa se preparasse para liderar o CDS.

No discurso anti-partidos muitas vezes andam de braço dado a crítica das ideologias e a crítica do vazio moral. O que muitas vezes não se percebe é que, justamente, o esvaziamento ideológico é que produz o vazio moral.
Porque um político pode prometer tudo. Baixar os impostos, aumentar as receitas, criar empregos, diminuir o peso do Estado ao mesmo tempo que aumentando exponencialmente os seus gastos. Os cidadãos, está visto, acreditam em tudo (e por isso é que agora vamos ter cá pela segunda vez em trinta anos o FMI).

 

Mas também sabemos que a taxa de cumprimento das promessas eleitorais está, digamos, bom, de certa forma, abaixo do que seria desejável. É por isso que eu raramente olho a promessas quando vou votar. Eu olho para aquilo que me permite fazer um julgamento geral da pessoa (no caso de eleições presidenciais) ou do partido (em todas as outras). E para isso é preciso haver consistência, coerência; sim, adaptação, mas a adaptação às circunstâncias não tem de implicar uma descaracterização. Descaracterização. Eis a palavra!


Nos partidos, esse julgamento geral sobre o ethos, é dado pela ideologia. Pela ideologia e pela coerência no respeito de certos princípios e valores. Eu posso não gostar do CDS, mas sei que não devo votar neles porque são de um conservadorismo aberrante, e que são coerentes nesse conservadorismo. Eu posso não gostar do PCP porque levariam o país à ruína caso chegassem ao poder - mas só sei isso porque em oitenta anos de existência a única mudança que deve ter havido deverá ter sido algures nos anos 20 ou 30 do século XX, quando repudiaram Trotsky.

 

Nas pessoas, o ethos é o carácter. O carácter de Fernando Nobre estava intimamente ligado à ideia da participação cívica metapartidária. Aliás, mesmo, a uma certa negação dos partidos, mais recentemente. Ao mudar radicalmente de opinião, Nobre ficou descaracterizado.

 

Quer dizer, mostrou que não tem carácter. E eu não voto em tipos sem carácter.

Retrato de Luís Lavoura

Diz a constitucionalista Isabel Moreira:

Boa ideia seria aproveitar uma revisão constitucional para introduzir mecanismos simples que permitem que o Governo governe, ainda que minoritário. Se a oposição apresentar uma moção de censura e a votar, tem de assumir funções governativas, o memo acontecendo no caso de chumbo de leis fundamentais como a Lei do Orçamento.

Isabel Moreira partilha da preocupação, já manifestada por outro estudiosos do sistema político português, por exemplo Marina Costa Lobo, com a instabilidade da governação em Portugal, nomeadamente a instabilidade de governos minoritários, e com a consequente difícil governabilidade do país.

Infelizmente, eu não creio, ao contrário das duas pessoas acima referidas, que esse problema, bem real, possa ser resolvido recorrendo a esse truque das "moções de censura construtivas" - isto é, moções de censura que necessariamente dão lugar à formação de novo governo por parte de quem as aprove.

Imaginemos que, no presente, PSD, CDS, BE e PCP resolviam, todos eles, votar contra o Orçamento de Estado, de tal forma que este não era aprovado. De acordo com o mecanismo da moção de censura construtiva, o governo imediatamente cairia e os partidos da oposição seriam obrigados a formar um outro governo. Acontece, porém, que CDS e PSD não fazem sozinhos a maioria, nem se conseguem entender politicamente com BE e PCP. Pelo que, a formação de um governo alternativo seria de facto impossível.

A moção de censura construtiva é um mecanismo útil num sistema político normal, como aqueles que existem na generalidade dos países europeus. Num sistema político normal, há um grande partido da direita (partido conservador), um grande partido da esquerda (partido socialista), e depois há um ou mais partidos pequenos, ao centro (partidos liberais, ecologistas, regionais, dos agricultores, etc), os quais tanto se podem aliar com o partido conservador como com o socialista. Num tal sistema político, diversas alianças e coligações são em geral possíveis, ou baseadas no partido conservador, ou baseadas no partido socialista.

Acontece que o sistema político português não é normal, em diversos sentidos. É anormal no sentido de não haver em Portugal partidos de centro, liberais ou ecologistas por exemplo. Mas é também anormal, e isto é que é crucial neste ponto, pela grande força em Portugal de dois partidos comunistas, o PCP e o BE, os quais têm muito poder eleitoral mas com os quais ninguém se consegue coligar.

É este o problema crucial do sistema político em Portugal. Temos em Portugal dois partidos comunistas que, embora disponham (em conjunto) de cerca de 15% dos deputados eleitos, não podem fazer parte do governo. Esses 15% de deputados constituem um peso morto no nosso sistema político, dificultando terrivelmente a formação de qualquer governo, pois que as maiorias possíveis são assim muito escassas.

A moção de censura construtiva proposta por Marina Costa Lobo e por Isabel Moreira dificilmente pode trazer qualquer melhoria à governabilidade de Portugal. Essa governabilidade não melhorará substancialmente enquanto a sociedade portuguesa não se tornar mais matura e não adoptar um sistema político normal por padrões europeus. Isso implica deixar de votar em partidos comunistas (por sua natureza revolucionários e anti-sistema) e passar a votar em um ou mais futuros partidos centristas, flexíveis e pragmáticos - liberais, ecologistas, regionais, e tutti quanti.

Retrato de artur baptista

Sendo que vários colegas já analisaram em pormenor estas eleições, em que as opiniões são mais ou menos unanimes, gostaria mais de olhar para a floresta que para as árvores.
Fotografia Aérea 1 - Partidos sem ideologia estão votados ao fracasso eleitoral. O PSD teve mais votos que merecia, já que não apresentou aos eleitores qualquer conjunto de propostas alternativas. Apostou na ideia (aliás dita pelo Passos Coelho) quando saiu da Comissão Politica Nacional "em Portugal não se ganham eleições, perdem-se". Para mim esta votação só foi conseguida pelo seu apoio autárquico (aliás a génese do Partido) e é pena, porque devia ter sido muito mais expressiva a derrota para refundar pessoas e programa.
Fotografia Aérea 2 - Os pequenos Partidos sem ideologia morreram quando não apresentaram uma cara conhecida nos cartazes. A soma de 60 ou 70 medidas avulsas não fazem um programa politico. Não tem capacidade para mobilizar já que não tem nada que motive os jovens a lutar por ideais. As medidas avulsas de "imolação" publica do tipo do MMS ou tentar convencer o eleitorado que está em dificuldade de emprego e dinheiro não chega.
Fotografia Aérea 3 - Voltámos a confirmar que não é com comícios grandiosos e grandes manifestações de rua que se ganham votos. Já era verdade em 1975! A população portuguesa está mais culta, mais informada. Aliás o Ministro Augusto Santos Silva e o PS sabem bem disso.
Fotografia Aérea 4 - Portugal vai ser notificada pela UE de "défice excessivo". Os ratings dos principais bancos portugueses desceu. Estas eleições claramente não vão ser o fim da história!

Retrato de Igor Caldeira

Entre os cinco principais partidos, o resultado pareceria evidente: o PS perdeu para todos. Todos. Mas também é verdade, e isso não pode ser esquecido, que há três meses atrás o PS tinha tido menos de um milhão de votos e uma percentagem de 26,5%. Nesses três meses recuperou para 36,5% e para mais de dois milhões. Não é obra pequena. Haverá algum mérito próprio nisto, mas houve claramente demérito também de dois dos seus oponentes. Já lá vamos.

Os dois grandes vencedores são os dois "extremos". O CDS aumenta entre Legislativas 175 mil votos, 3,2% e o grupo parlamentar cresce 75%, de 12 para 21. O BE aumenta 190 mil votos, sobe 3,5% e aumenta a sua representação em 100%, passando de 8 para 16 deputados. É obra para ambos os casos. O CDS conseguiu polarizar todo o descontentamento à Direita e o BE afirmou-se como o maior partido à Esquerda do PS.

E chegamos pois ao PSD e à CDU. Guardando o melhor para o fim, vamos à CDU. Subiu - 14 mil votos. Aumentou a percentagem - 0,32%. Aumentou a representação - mais um deputado. Mas isso é suficiente? Com um governo tão reformista, que afrontou tantos poderes instalados, pode a CDU crescer tão pouco? Pode, porque o eleitorado da CDU resiste mal à bipolarização, estando sujeito às oscilações cíclicas dos grandes partidos. Quando ainda há não muito tempo as sondagens davam empate técnico entre o centro-esquerda e o centro-direita, a CDU começou a descer. O toque soou e os eleitores que vacilam entre os comunistas e PS concentraram-se nos socialistas. Vencendo (porque venceu) a CDU perdeu.
E temos enfim o PSD. Proeza: em Junho ganharam com uma confortável margem sobre um PS vergastado pela Esquerda, atacado pela Direita, apupado pelos sindicatos, enxovalhado na comunicação social. Pouco mais de uma dúzia de semanas depois, perderam. Tal como a CDU tiveram mais percentagem (0,39%), mais deputados (6) e mais votos (6 mil). E tal como com a CDU, muito mais se lhe pediria. Como é que tamanha vitoriosa derrota foi possível? Muito simples a meu ver. A minha conclusão vai em jeito de recomendação.

Caros amigos, companheiros sociais-democratas: aprendam, de uma vez por todas. Já tiveram a derrota de 2005; e somaram 2009. E em ambas recorreram à mesma estratégia. As golpalhadas, as inventonas, as mentiras (de perna curta, felizmente), não pegam, não colam, desgostam e são punidas. Em todos os casos - e principalmente quando alguém se propõe fazer uma Política de Verdade.

Não resisto apenas a dizer que qualquer hipótese de serem implementadas as reformas duras mas absolutamente necessárias de que sectores como a Segurança Social necessitam está irremediavelmente perdida para os próximos dois anos. Vão ser dois anos a marcar passo, os poderes corporativos como os professores vão ter um passeio de glória infinita e só poderemos aspirar a algo diferente quando, depois das Presidenciais, a Direita (com a conivência da sempre pouco estrategicamente inteligente Esquerda) já segura da sua vitória derrubar o governo PS.

Retrato de Miguel Duarte

Após os resultados "finais" (ainda faltam os resultados dos círculos no estrangeiro), tornou-se claro que apesar de ter perdido as eleições na velha guerra esquerda/direita, os partidos de direita oferecem mais opções de negociação ao Partido Socialista que os partidos de esquerda. Efectivamente, o Partido Socialista à direita tanto com o PSD como com o CDS-PP poderá negociar para obter uma maioria, sendo que com os partidos de esquerda só conseguirá uma maioria com os votos do PCP e do BE. Tal parece-me bastante positivo, dado que significa que o próximo governo será certamente um governo ainda mais de direita económica no que toca à economia. Já no que toca às liberdades individuais, PS + PCP + BE são suficientes para fazer aprovar o casamento entre pessoas do mesmo sexo, pelo que espera-se que esta seja uma medida aprovada nesta legislatura. A Eutanásia, devido às reticências do PCP, ficará contudo na prateleira por mais 4 anos.

Este é sem dúvida um resultado mais democrático, que se for aproveitado pelos vários partidos, permitindo ao PS governar em maioria relativa durante a legislatura completa, irá certamente contribuir para o amadurecimento da democracia portuguesa, obrigando a uma maior discussão e negociação das medidas propostas pelo partido do governo.

Tenho alguma pena contudo que PS e PSD ainda sejam neste momento suficientes para fazer alterações na constituição, pois considero que a participação de pelo menos um médio partido neste tipo de alterações era necessário.

Na corrida dos pequenos partidos, lamento que nenhum tenha conseguido eleger um deputado, mas, noto dois aspectos positivos. Pela primeira vez um partido, o PCTP/MRPP, sem conseguir eleger deputados conseguiu financiamento público, o que lhe dará a oportunidade de ter sustentabilidade financeira durante os próximos anos e espera-se, voz adicional, roubando assim votos ao BE e PCP. É relevante também que os pequenos partidos conseguiram nestas eleições mais de 175.000 votos, mais 50.000 votos que em 2005, sendo que 5 partidos conseguiram mais que 0,25% da votação nacional, versus apenas 3 em 2005. Resultados que contudo significam a morte à nascença do MEP e MMS, que apesar do elevado investimento financeiro, do próprio bolso, em propaganda política, sem qualquer direito a receber financiamento público de volta, irão perder as energias daqui para a frente (será que o presidente do MMS irá cumprir a sua palavra e dissolver o partido?). O PND conseguiu apenas metade dos votos as eleições anteriores, sendo já notório nestes eleições a perda de energia deste partido, que quase não fez campanha (que se notasse em Lisboa, pelo menos). Relevante são também os péssimos resultados da coligação PH - MPT, que conseguiram em conjunto ter piores resultados que o PH sozinho nas eleições de 2005.

Apesar dos resultados do último parágrafo, desmotivadores para os novos partidos, parece-me que a necessidade de um partido liberal, centrista, com ideologia, continua a ser necessária e passível de ser bem sucedida, por ao contrário de partidos como o MEP, o MMS e o PND, um partido verdadeiramente liberal (economicamente, socialmente e europeísta) ir oferecer uma alternativa diferenciada face ao leque de partidos existentes. Algo que MEP e PND no seu conservadorismo social não conseguiram oferecer e o MMS no seu populismo bacoco também desiludiu.

Retrato de Miguel Duarte

A vitória nas eleições de 2009 pertenceu à abstenção, com quase 41% dos "votos", sendo que os votos em branco, com 1,64% também não são nada desprezáveis (já davam provavelmente para eleger um deputado em Lisboa) . Se os portugueses que se abstiveram ou votaram em branco tivessem votado noutras forças o parlamento teria hoje uma representação substancialmente diferente.

Contudo, muitos preferiram ficar em casa, mantendo (à hora em que escrevo este poste) os mesmos políticos do costume no parlamento.

O PS perdeu a maioria absoluta, é verdade, mas sem perspectivas de coligação, sendo que eventualmente, e isso seria positivo, se pode vir a dar a possibilidade de todos os partidos na oposição terem a capacidade para negociar com o PS por forma a dar-lhe maioria no parlamento.

Quanto ao PCP passou a ser a 5ª maior força política, o que não é de saudar, pois, cresceu, tal como o BE, passando a existir dois partidos fortes na esquerda radical. Claramente existem muitos portugueses a apostar em partidos de esquerda que ainda defendem medidas como nacionalizações de grandes empresas.

Relativamente aos pequenos partidos, à hora em que escrevo, com 50% das freguesias apuradas, no site oficial das legislativas, o PCTP/MRPP continuava a liderar entre os pequenos, atingindo quase 1% dos votos. Face ao crescimento dos partidos de esquerda radical, se calhar, ainda vamos ter alguma surpresa esta noite e ver Garcia Pereira a entrar no parlamento. Relativamente aos outros, a reduzida percentagem actual não augura nada de positivo.

Em 2º lugar figurava a Nova Democracia, com apenas sensivelmente 1/3 dos votos do PCTP/MRPP.

Quanto às recentes entradas no panorama político português, como o MEP, MMS, PPV e PTP tiveram todos resultados ridiculamente pequenos, mostrando que dinheiro em propaganda política não significa necessariamente votos (falando, claro, do MEP e MMS).

Esperemos agora umas horas pelos resultados das freguesias maiores (e urbanas), para ver se existe alguma diferença significativa em Lisboa e Porto que altere os meus comentários.