Religião

Textos e vídeos sobre religião.
Retrato de Luís Lavoura

O papa veio a Portugal como peregrino. Não em visita de Estado.

Não está mal que o Presidente da República tenha ido recebê-lo. Ele é católico. E o Presidente da República encontra-se com chefes de Estado, mesmo quando eles não estão em visita de Estado (ainda recentemente jantou com a rainha da Suécia, que esteve a título privado em Portugal).

Agora, o que já não se compreende nem se aceita é que tanto o primeiro-ministro como o presidente da Assembleia da República tenham ido receber o papa. Para quê? O que tinham a dizer-lhe? São eles católicos, que precisassem da bênção papal? Que se saiba, não são. E, mesmo que fossem, não tinham direito a mais bênçãos que todos os outros católicos que estiveram em Fátima.

Não havia necessidade e não lhes fica bem. É hipocrisia política.

Retrato de Luís Lavoura

Foi um disparate o governo ter decretado tolerância de ponto para hoje, 12 de maio, devido à visita papal.

O argumento da tradição - de que governos anteriores também decretaram tolerâncias de ponto por ocasião de anteriores visitas papais - não colhe. A tradição tem que ser jusificada a cada momento: ou ela faz sentido, aqui e agora, ou não faz. E, se não fizer, ela deve ser abandonada (pelo menos nesta ocasião). Não se mantem um mau hábito apenas por ele ser habitual.

Ponto um: nem o dia 12 de maio nem o dia 13 de maio têm qualquer especial relevância para a religião católica. Nenhum católico é obrigado a guardar esses dias.

Ponto dois: nenhum católico é obrigado a ver o papa ao vivo sempre que tenha ocasião para tal.

Ponto três: uma peregrinação a Fátima tem o mesmo valor em qualquer dia do ano. Há peregrinos a ir a Fátima (e a Santiago de Compostela, e a todos os outros santuários católicos) em todos os dias do ano.

Portanto, não há qualquer sustentação na fé católica para se defender que um católico português seja suposto aproveitar o dia de hoje para ir a Fátima ver o papa.

Ademais, e isto é muito importante, amanhã é sábado. Qualquer católico português que queira mesmo aproveitar esta ocasião para ir a Fátima, pode fazê-lo esta noite: mete-se no arro depois do trabalho, faz a viagem durante a noite, e vê o papa na missa que ele amanhã de manhã celebrará.

Não somente não há qualquer obrigação de um funcionário público português católico ir ver o papa em Fátima como, se o quisesse fazer, poderia fazê-lo sem necessitar da tolerância de ponto: o papa estará em Fátima amanhã de manhã, que é sábado.

Em suma, foi um disparate. Não tem nada a ver com laicismo, tem a ver com não haver necessidade.

Retrato de Luís Lavoura

O Supremo Tribunal russo decretou ontem a proibição das Testemunhas de Jeová na Rússia, incluindo o confisco de todos os bens dessa comunidade religiosa a favor do Estado russo.

É claro que, à primeira vista, esta decisão constitui uma grosseira violação do princípio da liberdade religiosa.

Porém, esse princípio é um bocado ambíguo, porque é preciso primeiro definir o que é uma religião. Constituindo qualquer religião um conjunto de crenças irracionais, é preciso definir que conjuntos de crenças irracionais se admite serem religiões, e que conjuntos de crenças irracionais não passam disso mesmo - crenças irracionais.

No caso vertente, as Testemunhas de Jeová têm algumas crenças irracionais deveras desagradáveis, como a proibição de transfusões de sangue e o desrespeito da autoridade do Estado, que as tornam passíveis de não poderem requerer a proteção que é devida às religiões.

Uma coisa é ter crenças irracionais inofensivas, como por exemplo não comer carne de porco, outra coisa é ter crenças que, além de irracionais, podem ser deletérias para a saúde ou para a estabilidade do Estado.

Retrato de Luís Lavoura

Ontem ouvi na rádio a seguinte história, da boca de uma pessoa que considero fidedigna. No estado norte-indiano de Haryana, uma rapariga foi violada. O caso foi para tribunal. Os anciãos da aldeia de onde o violador era originário fizeram pressão para que o violador não fosse condenado. Propuseram o seguinte arranjo: o violador aceitaria casar com a rapariga e, em troca, a acusação seria abandonada. Tendo em conta que a rapariga violada dificilmente poderia no futuro arranjar marido, os seus pais aceitaram o "negócio". Fez-se o casamento e a rapariga foi, como é costume na Índia, viver no seio da família do marido. Lá, fizeram-lhe a vida negra: maus tratos físicos e psicológicos e exigências de que a rapariga pressionasse a sua família no sentido de ressarcir a família do violador pelas despesas que esta tinha tido em tribunal. A história arratou-se durante anos e terminou há pouco tempo com o suicídio da rapariga.

Isto é apenas uma história nada atípica de coisas que se passam com mulheres na Índia. Coisas que estão bem documentadas e são amplamente discutidas na Índia. Mas que parece não chegarem aos ouvidos dos europeus, ou não lhes interessarem. Para os europeus, apenas os maus-tratos de que as mulheres são alvo em países de cultura muçulmana interessam. Para muitos europeus o islamismo é horrível porque nos países muçulmanos as mulheres são vítimas de maus-tratos. Mas nenhum europeu diz o mesmo da Índia. Os tratos frequentemente bem piores de que as mulheres são alvo nos países de cultura indiana não interessam aos europeus.

Retrato de Luís Lavoura

Hoje causou sensação a notícia de um padre assassinado em França na sua própria igreja.

Mas o assassinato de padres não é inédito. Em 1980 o arcebispo de San Salvador foi abatido com um tiro na cabeça enquanto rezava missa, numa igreja cheia. Dez anos mais tarde, no mesmo país, seis padres jesuítas foram abatidos nas suas camas durante a noite.

Os assassinos de padres nem sempre são maldosos extremistas muçulmanos influenciados por um fanatismo qualquer. Nos esemplos acima, foram pessoas bem instaladas numa sociedade muito católica.

Retrato de Luís Lavoura

A propósito do recente cartaz do Bloco de Esquerda que tanta celeuma causou, dei por mim a pensar: como é que Deus é pai de Jesus?

Num sentido mais simples, é sabido que Deus é "pai", no sentido de criador, de todos nós. Ele é o nosso pai celestial. Muito bem. Mas parece que, para Jesus, ele era pai em mais algum sentido. De facto, Jesus era o filho de Deus. "O", e não apenas "um". Jesus era Deus filho. Portanto, Deus era mesmo pai de Jesus, num sentido bem real. E a mãe de Jesus era Maria. Logo, Deus era pai, não era mãe. Mas isto quererá dizer que Deus produz espermatozoides, com os qual fecundou um óvulo de Maria? E, se Jesus é filho de Deus, e Deus pai o ama como seu filho, quer isto dizer que Deus tem genes, que transmite à sua descendência, à sua prole, neste caso a Jesus?

Tudo isto é muito misterioso para mim. Eu bem sei que os mistérios estão no cerne da religião cristã. Mas este mistério é mesmo por demais. Então Deus é um espírito incorpóreo e sem sexo, ou é um ser bem masculino, dotado de espermatozoides que pode usar para fecundar mulheres?

Retrato de Luís Lavoura

Aqui:

"As caricaturas do Charlie [...] no caso do uso e abuso de Maomé são uma provocação a toda uma religião, como se todos os crentes dessa religião merecessem ser ofendidos pelos abusos de uns quantos."

"As caricaturas limitam-se a recorrer a uma imagem por ser a mais óbvia, pouco [lhes] importando que para fazer passar uma mensagem de crítica ao extremismo, seja implícita uma segunda imagem óbvia de provocação a todos os muçulmanos."

"As famosas caricaturas são inegavelmente uma manifestação da liberdade de expressão, mas isso não significa que façam sentido, que sejam bem feitas ou que mereçam ser emolduradas."

Retrato de Luís Lavoura

Mais uma vez, o papa exibiu sabedoria nas suas palavras.

A liberdade de expressão é um "direito humano fundamental", tal como a liberdade de religião, disse ele. Porém, a liberdade de expressão deve ser exercida "sem ofender", acrescentou. Disse ainda que "não devemos provocar, não devemos insultar a fé de outras pessoas, não devemos brincar com a fé", pois que "todas as religiões têm a sua dignidade".

É isso mesmo.

(Notícia retirada da agência noticiosa RT, reproduzindo a agência da Santa Sé.)

Retrato de Luís Lavoura

Choca-me ver partidos alegadamente de esquerda, nomeadamente o PCP e o BE, a proporem pressurosamente a reposição de dois feriados católicos, um dos quais - o Corpo de Deus - reconhecidamente insignificante e irrelevante a não ser para os católicos mais empenhados.

No meu entender, partidos verdadeiramente de esquerda dever-se-iam empenhar na laicização do Estado (a qual, aliás, deve acompanhar a progressivamente maior indiferença da população em relação à religião), passando pela supressão progressiva dos feriados religiosos. No mínimo, deveriam calar-se sobre o assunto e esperar que fosse a Igreja a lutar pela reposição dos feriados.

Mas enfim, o clima pré-eleitoral que progressivamente se instala elimina toda a coerência. Agora, aquilo em que os partidos parecem estar unicamente interessados é em oferecer prendas à população.

É pena.

Retrato de Luís Lavoura

Em frente à principal igreja protestante da cidade suíça de Neuchâtel encontra-se a estátua do Reformador (iniciador do protestantismo) Guillaume Farel, que viveu no século 16. A estátua, erigida no final do século 19, mostra um homem de pé, braços ao alto brandindo um livro (presumivelmente a Bíblia) aberto. Na base da estátua, uma frase de Farel: "A palavra de Deus está viva, eficaz, e é tão cortante como um cutelo de dois gumes".

Ao ler aquilo, pensei que a estátua e a frase se aplicariam perfeitamente como lema do atual Estado Islâmico (o livro seria nesse caso o Corão, evidentemente). Não deixa de ser curiosa esta identidade de pontos de vista entre um Reformador do Século 16 e os atuais islamitas radicais.