Religião

Textos e vídeos sobre religião.
Retrato de Luís Lavoura

Lamentavelmente o fundamentalismo religioso está hoje a tornar-se cada vez mais frequente nas mais diversas religiões. Cada vez mais as pessoas se separam por linhas de clivagem religiosas, ao contrário do que aconteceria há uns 50 ou 100 anos atrás. Veja-se aqui um exemplo tirado do moderno Israel - um país onde as pessoas que não são religiosas, ou que não são etnicamente tão puras quanto os fundamentalistas exigem, não se podem casar (ou então, têm que ir casar-se ao estrangeiro) porque o Estado está totalmente empossado pela sua religião oficial.

Retrato de Luís Lavoura

O papa Bento 16 virá em breve em visita a Portugal. Eu não sou religioso mas acho muito bem que ele venha e que os católicos (não o país em geral!) lhe proporcionem a melhor receção possível.

Sou um liberal e acho que os gostos e opções das pessoas, incluindo os gostos e as opções religiosas, devem preferencialmente, se não mesmo exclusivamente, ser pagos pelas próprias pessoas. Nesta linha de pensamento, acho revoltante que algumas câmaras municipais se estejam a preparar para gastar o seu escasso dinheiro - e a generalidade das câmaras municipais está já hoje brutalmente endividada! - em apoios à visita papal.

Eu digo: quando o bispo Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus, vem a Portugal, quem paga a receção são os fieis dessa igreja, e eu acho muito bem e nada tenho contra. E também acho muito bem que os católicos paguem a receção ao papa, a edificação dos altares onde ele irá rezar missa, a segurança dos ajuntamentos de população e tutti quanti. Mas não acho bem que o Estado contribua. As opções religiosas da população devem ser livres, o que implica que devam ser financiadas pela própria população. O Estado não deve gastar o seu dinheiro para meter uma religião - qualquer que ela seja - pela goela dos portugueses abaixo.

Retrato de Miguel Duarte

Sou um participante no esquema de microcrédito do kiva.org, um site que me permite emprestar pequenos montantes de dinheiro a negócios espalhados pelo mundo. Acredito que emprestar dinheiro para pequenos negócios é uma forma muito mais salutar de ajudar o próximo que a caridade, permitindo a quem o recebe tornar-se independente e, no meu caso específico dado que apenas empresto a mulheres, contribuir para uma maior igualdade.

Recentemente no blogue do kiva foi publicado um pequeno artigo sobre o impacto da religião na pobreza, por um membro da equipa que está em viagem pela Indonésia (uma das muitas regiões onde opera). Segundo o mesmo, na Indonésia, existe uma aldeia essencialmente cristã que parece muito menos pobre que as aldeias circundantes. Aparentemente a razão de tal acontecer, é que as aldeias circundantes, sendo Hindus, gastam uma proporção muito maior dos seus rendimentos em templos, oferendas e festas religiosas.

A pergunta colocada pelo autor do artigo é para mim muito relevante:

one must question whether the money spent on daily offerings and ceremonies would be better spent on food, education or housing needs

Curiosamente, o mesmo poderia aplicar-se em Portugal ao famoso dízimo de muitas igrejas evangélicas, que certamente apenas contribui para fazer mais pobre quem já é pobre. No fundo, este tipo de acções é apenas mais um facto que torna mais pobre quem já é pobre, tornando-os ainda mais dependentes da caridade religiosa em vez dos seus próprios recursos.

Retrato de Igor Caldeira

O Vaticano atacou o filme Avatar por apresentar a natureza não como uma criação, mas como uma entidade divinizada.
Há pobreza, guerras, violência, fome, terramotos.
Mas o Vaticano não encontra melhor para fazer do que atacar filmes.

Retrato de Igor Caldeira

Na Suíça os cidadãos demonstraram que sentem na pele um extremismo particularmente virulento.

Se o nazismo nos tivesse ensinado alguma coisa, os europeus não andariam a fazer ao fundamentalismo muçulmano o mesmo que Chamberlain e Daladier fizeram com os nazis.

"Um apaziguador é aquele que alimenta o crocodilo na esperança de ser o último a ser comido."
Churchill

Quando as mulheres forem chamadas de puta na rua por andarem de cabeça descoberta, a homossexualidade for criminalizada, o ateísmo proibido - aí que é que os pseudo-tolerantes vão fazer?

Diálogo ecuménico?
Depois da fronteira polaca tiver sido cruzada, já não há nada a fazer. Melhor tratar do assunto antes que a Checoslováquia fique sem os Sudetas.

Retrato de Igor Caldeira

Consideremos um caso hipotético.

João, António, José, Maria e Luísa são uma sociedade. João considera-se uma pessoa tolerante, e apoiou sempre os esforços de Maria e Luísa para terem um maior peso na sociedade por considerar que as mulheres têm os mesmos direitos que os homens. Para além disso e mais recentemente apoiou também a igualdade de direitos cívicos de António, que é homossexual. José pertence a um clube violento, que em outras sociedades tem conseguido impôr leis e regimes opressores para todos, e em particular para pessoas como Maria, Luísa ou António.
As tensões que entre os cinco têm surgido devido às posições de José levaram a que Luísa propusesse que alguns direitos de José fossem limitados. Esta proposta está longe de ser tão opressora quanto as acções que os correlegionários de José levam a cabo noutras sociedades, mas ainda assim e pelo seu carácter claramente discriminatório é claramente problemática.

João confronta-se pois perante um problema:
- Se apoia a proposta, discrimina José
- Se vota contra a proposta, ameaça a liberdade de Maria e Luísa (o clube de José defende a inferioridade das mulheres), a vida de António (o clube de José mata homossexuais) e até põe em causa a sua própria situação, posto que em sociedades governadas pelo clube de José não há direito à liberdade de opinião.

Como deve João votar?

Os suíços preferiram discriminar José a ameaçar Maria, Luísa e António. E fizeram muito bem.

Retrato de Luís Lavoura

Na Suíça tivemos ontem um exemplo cabal de um referendo que não deveria ser permitido, por a proposta feita ir contra os valores básicos de uma constituição liberal.

Não é por acaso que na Alemanha os referendos são proibidos por lei. É que Hitler subiu ao poder por métodos eleitorais perfeitamente legais. Os referendos, com o seu cariz populista, abrem a porta, como ontem abriram na Suíça, à eliminação das liberdades e da igualdade de direitos que devem estar inscritas numa constituição liberal.

Como resultado do lamentável referendo de ontem na Suíça, a confederação vai ser obrigada a rever a sua lei de liberdade religiosa, incluindo nela uma restrição peculiar à religião islâmica - que os seus edifícios de culto sejam proibidos de conter umas torres designadas por "minaretes". Trata-se de uma estupidez, dado que na Suíça os minaretes não servem para nada, pois que não são autorizados ruidosos chamamentos dos crentes à oração. De facto, das 180 mesquitas atualmente existentes na Suíça, apenas quatro têm minaretes, e esses quatro minaretes não têm qualquer utilidade prática, são meramente decorativos ou simbólicos. A proibição da construção de minaretes, com a discriminação religiosa que isso implica (dado que os templos de outras confissões poderão conter torres à sua vontade), é pois completamente desnecessária. Temos pois uma ofensa totalmente gratuita e meramente simbólica à liberdade religiosa. Não é grave, mas é muito feio.

Há matérias que não podem ser submetidas ao voto popular. A liberdade religiosa é uma delas. E a igualdade contratutal para todos os cidadãos é outra. Espero que cá em Portugal não tenham o mau senso de admitir um referendo sobre o casamento de pessoas do mesmo sexo, que provavelmente levará ao mesmo lamentável resultado que o referendo suíço.

Retrato de Miguel Duarte

Assistimos a algo fantástico no nossa sociedade ocidental do século XXI. Após termos passados séculos a livrar-nos do poder excessivo da religião e da Igreja Católica (no caso português desde a nossa fundação), de termos sofrido sobre a inquisição, de muitas vidas terem morrido a lutar por conceitos como a laicidade, a democracia moderna e a liberdade de expressão, parece que nos preparamos por sucumbir perante o politicamente correcto no que toca à evolução filosófica “espiritual“ do ser humano.

Enquanto as várias religiões, organizações que se baseiam com raras excepções (ex: cientologia) em histórias e conceitos com milhares de anos, a necessitar em muito de ser alterados, dado estarem deslocados da evolução social que ocorreu, mantêm um direito irrestrito ao proselitismo, direito esse com que nos deparamos diariamente na comunicação social, nas nossas ruas, às nossas portas e nas nossas caixas do correio. O direito à não religião e tudo o que se lhe aplica, que deve incluir obviamente o direito ao proselitismo não religioso e o direito a apontar as falhas e incongruências da religião, encontra-se ameaçado sob o peso do politicamente correcto.

Em nome do politicamente correcto impede-se a sociedade de evoluir filosoficamente e de encontrar alternativas racionais às crenças no sobrenatural, algo extraordinário, pois surge numa sociedade em que mais do que nunca o conhecimento científico e a evolução filosófica oferecem alternativas racionais, com os pés assentes na terra à crença em um deus ou deuses.

É também de extraordinária gravidade que tal seja feito com base num conceito como a “ofensa”, algo extremamente vago e que nos pode rapidamente conduzir rapidamente a guerras civis religiosas por as próprias religiões se ofenderem facilmente umas às outras. É sempre bom lembrar que é considerada blasfémia (com direito à pena capital), numa das principais religiões mundiais, falar mal de Deus, dos seus profetas e até afirmar que Jesus é filho de Deus. Defendendo-se as religiões da ”ofensa”, tal significaria que qualquer religião poderia facilmente defender-se de toda e qualquer crítica, bastando para tal ”ofender-se” perante qualquer falha que lhe fosse apontada.

Ao nos curvarmos perante as religiões e as querermos defender da “ofensa” estamos por isso tão simplesmente a abrir novamente o caminho para a intolerância religiosa, uma característica inenerente às religiões monoteístas (se só existe um Deus e uma verdade, quem defende um outro Deus ou verdade está obviamente a ofender-me), e a consequente violência que daí surgirá, certamente muito superior a qualquer violência actual dos ofendidos, habituados ou a habituarem-se a viver numa sociedade plural e a defenderem-se com a caneta ou o teclado e não com as armas. Para sabermos isto não é necessário prevermos o futuro, basta olhar para a história da civilização ocidental.

A única forma de se manter a paz religiosa e a liberdade de religião e não religião é assegurar um direito irrestrito à liberdade de expressão. Quem se sente ofendido perante argumentos contra as suas crenças só tem que aprender a viver com isso e usar do seu direito, se assim entender, de contra atacar com argumentos mais fortes. O preço de uma sociedade livre é estamos sujeitos a qualquer momento a ver as nossas crenças (religiosas e ou não), ser colocadas em causa. Mais do que um custo tal é a grande vantagem de uma sociedade livre, pois são os choques intelectuais e debates fortes de ideias que fazem uma sociedade avançar.

Todos nós em diferentes fases da vida sentimos a necessidade de fazer certas perguntas:
O qué é ser Humano? De onde vimos? Para onde vamos depois da morte? Qual é o sentido da vida? Qual o meu papel no mundo?

Quando e se fizeres estas perguntas estás a fazer o que se chamou de “Re + Ligare”, o exercício de procura de uma ligação. Hoje chamamos a esta procura “Religião”.

Algumas pessoas praticam este exercício (religião) sozinhos, outros praticam-no em grupos, mas a experiência é sempre diferente de pessoa para pessoa.

Umas pessoas aceitam “verdades”, outras não, uns acreditam em seres mais ou menos cientes, mais ou menos potentes, mais ou menos presentes e outros não acreditam em nenhum tipo de ser superior. Uns acreditam em mitos enquanto outros procuram factos.

Mas nada há de errado quando cada um é livre de escolher a sua religião.

Infelizmente, a Liberdade Religiosa ainda não é uma realidade nem nos países ditos livres e democráticos. Há sempre alguém que tenta destruir a tua liberdade religiosa.

Há sempre alguém que te diz saber a verdade e que fará tudo para destruir a tua religião. Alguém que te chamará de ignorante, que te acusará de te terem feito uma lavagem ao cérebro, alguém que te dirá que só eles têm a verdade absoluta e que só eles te podem salvar.

Mas contra esses precisas de lutar. Quer te ameacem com o inferno, ou te façam julgamentos de valor, deves defender a tua liberdade religiosa a todo o custo.

A essas vozes carregadas de ódio deves ripostar e deves recusar, pois a tua religião é o que mais de profundo tens dentro de ti. Mais profundo que a liberdade de expressão, mais profundo que a tua liberdade de pensamento é a tua liberdade de sentires o significado do teu ser.

Lutares pela tua liberdade Religiosa é lutares por quem és.

Lutares pela tua Liberdade Religiosa é lutares pela Liberdade Religiosa de todos nós.

Dá-lhes Luta.

Retrato de João Cardiga

Talvez tenha alguma importância para a discussão descrever como uma pessoa como eu, ateia, vê estas temáticas. Talvez por ser um ateu num país historicamente católico eu divido esta temática numa espécie de santissima trindade, isto é, em religião, livro sagrado e Igreja.

E é importante distinguir estas três temáticas pois trato-as de maneira diferente.

A que para mim é mais pacifica é a religião. Para mim é um acto pessoal e enquanto não interferir na liberdade de outras pessoas não julgo criticável nem condenável. É estranho para mim, confesso, por exemplo ver pessoas acreditarem que uma divindade as quer a passar fome durante o dia e terem autênticos festins de comida à noite durante um periodo de tempo do ano para que no final possa ter algo melhor (a "salvação"), ou que recitando uns quantos versos de forma repetida se desculpa qualquer erro que se tenha cometido. E da mesma forma estranho que pessoas acreditem em algo que não têm qualquer prova de existência.
No entanto também reconheço que esta capacidade de ter fé traz bastantes benefícios e como tal não considero nem algo bom ou mau, mas apenas uma caracteristica do ser humano.

Quanto ao livro sagrado (e é valido para a biblia, o al corão, a torah, ou qualquer outro) não só não considero sagrado, como acho que é um mero livro. No caso concreto - a biblia - até acho que a melhor designação seria livros. E como livro é um mero objecto, é desprovido de qualquer maldade ou bondade e não representa nenhuma ameaça (bem a não ser que alguém num acto de furia decida mandar o mesmo à cabeça de outra pessoa). Como livro de leitura não acho minimamente interessante (já o tentei ler por diversas e de várias formas e o insucesso tem sido constante) embora já ache interessante as histórias lá contidas, da mesma forma que gosto da história dos deuses gregos ou de quaisquer outras divindades.
No entanto achei interessante a dessacralização deste livro por parte de quem é contra a opinião de Saramago. Quase todos argumentaram que o livro não é para ser lido de forma literal, o que é um enorme passo, embora coloque sérias duvidas acerca da fonte de sustentação da Igreja e da própria religião, pois se este livro deve ser alvo de interpretações, quais são as interpretações legitimas e quais as ilegitimas? E já agora gostava que me esclarecessem só mais uma coisa: se existiu uma quase unanimidade quanto à subjectividade do texto ainda ninguém disse nada sobre se o texto é ou não de inspiração divina? Adoraria que alguém da Igreja me respondesse a esta simples questão.

E por falar de Igreja, chegamos então à terceira vertente desta "santissima trindade". E se a nível pessoal as anteriores despertam a minha curiosidade, já esta é um tema bem diferente. E o que é a Igreja? Para mim é simplesmente um movimento politico do foro privado (bem embora apenas o seja privado à bem pouco tempo). E, se a memória não me falha, é talvez o movimento politico mais antigo existente na Europa. Desde que Constantino deu o monopólio à igreja católica que Igreja é sinonimo de poder. Todas as suas estruturas, todos o seu plano de acção gira à volta deste objectivo desde o seu início. Dada a nossa conjuntura actual até nos podemos iludir que isso é algo do passado, no entanto julgo que é mesmo isso, uma mera ilusão. A Igreja só existe enquanto fonte de poder, e o seu objectivo é transformar a sociedade para garantir o seu próprio sustento. E convém não esquecer que, como disse anteriormente, estamos a falar de uma estrutura milenar, pelo que de certeza que não desaparecerá num abrir e fechar de olhos nem sequer se modificará, por mais que alguns crentes assim o desejem. Quando os bispos dizem abertamente que os crentes deverão votar nos partidos que respeitam os valores cristãos, não é um mero episódio. É a Igreja na sua essência mais pura. E, desculpem os crente, como movimento politico e de poder, é uma organização altamente condenável. O raciocinio que defendem já promoveu muitas desgraças, a própria Igreja compactuou com enormes atrocidades ao longo da sua história (recente e mais antiga). Aliás a Igreja é um perfeito exemplo de um pensamento ideológico anti-liberal.
Poderão argumentar que a Igreja não é só isso, tem muito trabalho de solidariedade. Concordo com isso, só que essa acção não é a sua acção principal, mas sim acessória ao seu fim. Não é uma ajuda desinteressada, bem pelo contrário e até é semelhante à acção que muitas outras religiões fazem. Serve para criar ligações de confiança que aumentam a rede de apoio à sua causa e é em tudo identico ao que os movimentos radicais islamicos promovem no seu território.

E este ponto levanta-me uma grande questão enquanto liberal. Sendo que defendo maior apoio às IPSS, até que ponto esta ajuda deve ser cega, isto é, até que ponto é que eu ao financiar IPSS de cariz religioso não estou a financiar um projecto que é profundamente anti-liberal e que pode provocar, a longo prazo, uma diminuição da minha própria liberdade?