Religião

Textos e vídeos sobre religião.
Retrato de Luís Lavoura

Ontem ouvi na rádio a seguinte história, da boca de uma pessoa que considero fidedigna. No estado norte-indiano de Haryana, uma rapariga foi violada. O caso foi para tribunal. Os anciãos da aldeia de onde o violador era originário fizeram pressão para que o violador não fosse condenado. Propuseram o seguinte arranjo: o violador aceitaria casar com a rapariga e, em troca, a acusação seria abandonada. Tendo em conta que a rapariga violada dificilmente poderia no futuro arranjar marido, os seus pais aceitaram o "negócio". Fez-se o casamento e a rapariga foi, como é costume na Índia, viver no seio da família do marido. Lá, fizeram-lhe a vida negra: maus tratos físicos e psicológicos e exigências de que a rapariga pressionasse a sua família no sentido de ressarcir a família do violador pelas despesas que esta tinha tido em tribunal. A história arratou-se durante anos e terminou há pouco tempo com o suicídio da rapariga.

Isto é apenas uma história nada atípica de coisas que se passam com mulheres na Índia. Coisas que estão bem documentadas e são amplamente discutidas na Índia. Mas que parece não chegarem aos ouvidos dos europeus, ou não lhes interessarem. Para os europeus, apenas os maus-tratos de que as mulheres são alvo em países de cultura muçulmana interessam. Para muitos europeus o islamismo é horrível porque nos países muçulmanos as mulheres são vítimas de maus-tratos. Mas nenhum europeu diz o mesmo da Índia. Os tratos frequentemente bem piores de que as mulheres são alvo nos países de cultura indiana não interessam aos europeus.

Retrato de Luís Lavoura

Hoje causou sensação a notícia de um padre assassinado em França na sua própria igreja.

Mas o assassinato de padres não é inédito. Em 1980 o arcebispo de San Salvador foi abatido com um tiro na cabeça enquanto rezava missa, numa igreja cheia. Dez anos mais tarde, no mesmo país, seis padres jesuítas foram abatidos nas suas camas durante a noite.

Os assassinos de padres nem sempre são maldosos extremistas muçulmanos influenciados por um fanatismo qualquer. Nos esemplos acima, foram pessoas bem instaladas numa sociedade muito católica.

Retrato de Luís Lavoura

A propósito do recente cartaz do Bloco de Esquerda que tanta celeuma causou, dei por mim a pensar: como é que Deus é pai de Jesus?

Num sentido mais simples, é sabido que Deus é "pai", no sentido de criador, de todos nós. Ele é o nosso pai celestial. Muito bem. Mas parece que, para Jesus, ele era pai em mais algum sentido. De facto, Jesus era o filho de Deus. "O", e não apenas "um". Jesus era Deus filho. Portanto, Deus era mesmo pai de Jesus, num sentido bem real. E a mãe de Jesus era Maria. Logo, Deus era pai, não era mãe. Mas isto quererá dizer que Deus produz espermatozoides, com os qual fecundou um óvulo de Maria? E, se Jesus é filho de Deus, e Deus pai o ama como seu filho, quer isto dizer que Deus tem genes, que transmite à sua descendência, à sua prole, neste caso a Jesus?

Tudo isto é muito misterioso para mim. Eu bem sei que os mistérios estão no cerne da religião cristã. Mas este mistério é mesmo por demais. Então Deus é um espírito incorpóreo e sem sexo, ou é um ser bem masculino, dotado de espermatozoides que pode usar para fecundar mulheres?

Retrato de Luís Lavoura

Aqui:

"As caricaturas do Charlie [...] no caso do uso e abuso de Maomé são uma provocação a toda uma religião, como se todos os crentes dessa religião merecessem ser ofendidos pelos abusos de uns quantos."

"As caricaturas limitam-se a recorrer a uma imagem por ser a mais óbvia, pouco [lhes] importando que para fazer passar uma mensagem de crítica ao extremismo, seja implícita uma segunda imagem óbvia de provocação a todos os muçulmanos."

"As famosas caricaturas são inegavelmente uma manifestação da liberdade de expressão, mas isso não significa que façam sentido, que sejam bem feitas ou que mereçam ser emolduradas."

Retrato de Luís Lavoura

Mais uma vez, o papa exibiu sabedoria nas suas palavras.

A liberdade de expressão é um "direito humano fundamental", tal como a liberdade de religião, disse ele. Porém, a liberdade de expressão deve ser exercida "sem ofender", acrescentou. Disse ainda que "não devemos provocar, não devemos insultar a fé de outras pessoas, não devemos brincar com a fé", pois que "todas as religiões têm a sua dignidade".

É isso mesmo.

(Notícia retirada da agência noticiosa RT, reproduzindo a agência da Santa Sé.)

Retrato de Luís Lavoura

Choca-me ver partidos alegadamente de esquerda, nomeadamente o PCP e o BE, a proporem pressurosamente a reposição de dois feriados católicos, um dos quais - o Corpo de Deus - reconhecidamente insignificante e irrelevante a não ser para os católicos mais empenhados.

No meu entender, partidos verdadeiramente de esquerda dever-se-iam empenhar na laicização do Estado (a qual, aliás, deve acompanhar a progressivamente maior indiferença da população em relação à religião), passando pela supressão progressiva dos feriados religiosos. No mínimo, deveriam calar-se sobre o assunto e esperar que fosse a Igreja a lutar pela reposição dos feriados.

Mas enfim, o clima pré-eleitoral que progressivamente se instala elimina toda a coerência. Agora, aquilo em que os partidos parecem estar unicamente interessados é em oferecer prendas à população.

É pena.

Retrato de Luís Lavoura

Em frente à principal igreja protestante da cidade suíça de Neuchâtel encontra-se a estátua do Reformador (iniciador do protestantismo) Guillaume Farel, que viveu no século 16. A estátua, erigida no final do século 19, mostra um homem de pé, braços ao alto brandindo um livro (presumivelmente a Bíblia) aberto. Na base da estátua, uma frase de Farel: "A palavra de Deus está viva, eficaz, e é tão cortante como um cutelo de dois gumes".

Ao ler aquilo, pensei que a estátua e a frase se aplicariam perfeitamente como lema do atual Estado Islâmico (o livro seria nesse caso o Corão, evidentemente). Não deixa de ser curiosa esta identidade de pontos de vista entre um Reformador do Século 16 e os atuais islamitas radicais.

Retrato de Luís Lavoura

Foi muito positiva a decisão do Tribunal Constitucional ontem anunciada, segundo a qual o Ministério Público terá que admitir que uma sua procuradora não trabalhe ao sábado por motivos religiosos.
É uma função importante do Estado procurar garantir a liberdade religiosa dos cidadãos, em particular permitindo, na medida do razoavelmente praticável, que os cidadãos com interditos religiosos específicos os possam respeitar. Não são (apenas) os cidadãos quem terá que se sacrificar no seu direito ao trabalho para poder respeitar os seus interditos religiosos.
Não há razão, ao fim e ao cabo, para que seja ao domingo, e não ao sábado, que não se trabalha - a não ser precisamente para satisfazer os desejos da maioria dos cidadãos, que é católica e não quer trabalhar ao domingo. Mas a maioria também tem que respeitar e procurar satisfazer as necessidades da minoria.

Retrato de Luís Lavoura

Enquanto o extremismo muçulmano sunita continua a fazer mortos às centenas pelo mundo fora - só ontem foram uns 80 numa igreja paquistanesa e outros tantos numa mesquita xiita iraquiana - os EUA, e a Europa por arrasto, continuam a aliar-se à Arábia Saudita e a vilificar os xiitas do Irão e da Síria. Dão facas a quem nos quer degolar. Até quando prosseguirá esta política burra, que não identifica os verdadeiros inimigos?

Retrato de Luís Lavoura

Ontem, na sua homilia de posse, o novo cardeal patriarca de Lisboa reiterou a visão da Igreja de uma vida humana "desde a conceção até à morte natural" e da imprescindibilidade de um homem e de uma mulher na educação infantil.
Trata-se de duas asneiras.
A morte natural é algo que hoje em dia cada vez menos existe. Praticamente, já só há morte natural nos acidentes cardiovasculares. Em todas as restantes mortes, a medicina intervem, nada natural, e de forma frequentemente altamente intrusiva. A medicina adia a morte, de tal forma que uma vida que, naturalmente, teria o seu término agora, acaba de facto por só acabar daqui a uns dias, ou uns meses, ou uns anos. Onde há medicina não há morte natural. É pena que a Igreja ainda não se tenha (aparentemente) dado conta deste facto.
Quanto ao homem e à mulher na educação infantil, trata-se de um estereótipo romântico. No passado, as pessoas morriam frequentemente muito jovens (por exemplo, os homens de acidentes de trabalho, as mulheres no parto), pelo que havia muitos órfãos. Lendo as histórias de pessoas famosas (por bons ou maus motivos), rapidamente nos damos conta de que grande número dos nossos antepassados foram educados só pela mãe, ou só pelo pai, ou por nenhum deles, ou por enteados. A família moderna, estável, de uma mulher, um homem e os filhos de ambos, é um estereótipo muito recente. Em todas as épocas, grande número de crianças foi educada só por mulheres ou (muito mais raramente) só por homens. E a Igreja sempre conviveu bem com este facto da vida; apenas recentemente adquiriu esta obsessão parva da educação ter que ser feita por um homem e uma mulher.