Religião

Textos e vídeos sobre religião.
Retrato de Luís Lavoura

Em frente à principal igreja protestante da cidade suíça de Neuchâtel encontra-se a estátua do Reformador (iniciador do protestantismo) Guillaume Farel, que viveu no século 16. A estátua, erigida no final do século 19, mostra um homem de pé, braços ao alto brandindo um livro (presumivelmente a Bíblia) aberto. Na base da estátua, uma frase de Farel: "A palavra de Deus está viva, eficaz, e é tão cortante como um cutelo de dois gumes".

Ao ler aquilo, pensei que a estátua e a frase se aplicariam perfeitamente como lema do atual Estado Islâmico (o livro seria nesse caso o Corão, evidentemente). Não deixa de ser curiosa esta identidade de pontos de vista entre um Reformador do Século 16 e os atuais islamitas radicais.

Retrato de Luís Lavoura

Foi muito positiva a decisão do Tribunal Constitucional ontem anunciada, segundo a qual o Ministério Público terá que admitir que uma sua procuradora não trabalhe ao sábado por motivos religiosos.
É uma função importante do Estado procurar garantir a liberdade religiosa dos cidadãos, em particular permitindo, na medida do razoavelmente praticável, que os cidadãos com interditos religiosos específicos os possam respeitar. Não são (apenas) os cidadãos quem terá que se sacrificar no seu direito ao trabalho para poder respeitar os seus interditos religiosos.
Não há razão, ao fim e ao cabo, para que seja ao domingo, e não ao sábado, que não se trabalha - a não ser precisamente para satisfazer os desejos da maioria dos cidadãos, que é católica e não quer trabalhar ao domingo. Mas a maioria também tem que respeitar e procurar satisfazer as necessidades da minoria.

Retrato de Luís Lavoura

Enquanto o extremismo muçulmano sunita continua a fazer mortos às centenas pelo mundo fora - só ontem foram uns 80 numa igreja paquistanesa e outros tantos numa mesquita xiita iraquiana - os EUA, e a Europa por arrasto, continuam a aliar-se à Arábia Saudita e a vilificar os xiitas do Irão e da Síria. Dão facas a quem nos quer degolar. Até quando prosseguirá esta política burra, que não identifica os verdadeiros inimigos?

Retrato de Luís Lavoura

Ontem, na sua homilia de posse, o novo cardeal patriarca de Lisboa reiterou a visão da Igreja de uma vida humana "desde a conceção até à morte natural" e da imprescindibilidade de um homem e de uma mulher na educação infantil.
Trata-se de duas asneiras.
A morte natural é algo que hoje em dia cada vez menos existe. Praticamente, já só há morte natural nos acidentes cardiovasculares. Em todas as restantes mortes, a medicina intervem, nada natural, e de forma frequentemente altamente intrusiva. A medicina adia a morte, de tal forma que uma vida que, naturalmente, teria o seu término agora, acaba de facto por só acabar daqui a uns dias, ou uns meses, ou uns anos. Onde há medicina não há morte natural. É pena que a Igreja ainda não se tenha (aparentemente) dado conta deste facto.
Quanto ao homem e à mulher na educação infantil, trata-se de um estereótipo romântico. No passado, as pessoas morriam frequentemente muito jovens (por exemplo, os homens de acidentes de trabalho, as mulheres no parto), pelo que havia muitos órfãos. Lendo as histórias de pessoas famosas (por bons ou maus motivos), rapidamente nos damos conta de que grande número dos nossos antepassados foram educados só pela mãe, ou só pelo pai, ou por nenhum deles, ou por enteados. A família moderna, estável, de uma mulher, um homem e os filhos de ambos, é um estereótipo muito recente. Em todas as épocas, grande número de crianças foi educada só por mulheres ou (muito mais raramente) só por homens. E a Igreja sempre conviveu bem com este facto da vida; apenas recentemente adquiriu esta obsessão parva da educação ter que ser feita por um homem e uma mulher.

Retrato de Luís Lavoura

(1) Começou por cumprimentar "boa noite" quando chegou ao palanque.

(2) Teve a humildade e decência de começar liderando uma oração pelo seu predecessor.

(3) Teve a muito maior humildade de prosseguir pedindo que, ali mesmo, rezassem por ele.

(4) É jesuíta, ordem dos homens mais cultos e cientificamente produtivos da Igreja.

(5) Escolheu um nome único no papado, ainda por cima de dois dos maiores santos da Igreja (um dos quais português).

(6) Em Buenos Aires deslocava-se de transportes coletivos, coisa que os governantes portugueses ainda não aprenderam a fazer (e que teriam legítimo medo de ser insultados ou mesmo agredidos se fizessem).

Infelizmente tem 76 anos e, se calhar, vai acabar mais cedo do que esperaria quem o elegeu.

Retrato de Luís Lavoura

O bispo das Forças Armadas, tal como qualquer cidadão, tem o direito de criticar o governo. Pode fazê-lo em termos adequados ou desadequados e a crítica pode ser justa ou injusta, mas ele tem sempre o direito de a fazer. Eu discordo da crítica que ele anteontem fez, mas não o critico por a ter feito, pois ele tem o direito de expressar a sua opinião.

O que critico, muito fortemente, é o ministro da Defesa pela forma como ele reagiu à crítica. O ministro deve saber que o Estado português é laico e que a Igreja portuguesa é, desde 1911, independente do Estado. Um ministro não tem nada que se imiscuir em coisas da Igreja. Um ministro deve considerar um bispo como quem considera qualquer outro cidadão: não é por ser dignitário da Igreja que ele tem mais, nem menos, direitos e deveres do que qualquer outro.

Se o ministro da Defesa não concorda com a crítica feita por Januário Torgal Ferreira (como eu não concordo), pode criticá-la. Não tem nada é que se imiscuir na vida interna da Igreja nem que dar lições ao bispo sobre o que ele deve ou não deve fazer enquanto dignitário da Igreja.

Retrato de Luís Lavoura

O antigo mordomo do papa foi preso sob a acusação de ter roubado, e facilitado a divulgação pública, de documentos do seu amo.

Isto levanta-me diversas interrogações e perplexidades.

Se a contabilidade de uma empresa, ou as cartas de amor recebidas por uma pessoa, forem roubados e depois aparecerem divulgados, isso é crime? O Estado dedicará meios policiais à investigação de quem é que roubou esses documentos e os divulgou? As pessoas que roubaram esses documentos serão postas na prisão? Eu creio que não (mas posso estar enganado). O crime de roubo reporta-se a bens com valor material, monetário, não a documentos. A divulgação pública de documentos pode ser considerada imoral ou anti-deontológica, mas penso que tambem não é crime.

Então, a que propósito é que o roubo de documentos ao papa dá lugar a prisão?

Pergunto tambem, quem aplica que lei? O Estado do Vaticano dispõe de leis? E de prisões? Ou valem as leis de Itália e serve-se o Vaticano de prisões italianas? O mordomo foi detido e posto na prisão com base nas leis do Vaticano, ou nas da Itália? Com base em que arranjo?

É pena que os mídia não nos esclareçam sobre estes pontos.

Retrato de Luís Lavoura

No domingo entre as 8 e as 9 da manhã liguei a rádio, Antena 1 (a estação que quase sempre ouço). Estavam a transmitir a missa, desliguei.

Virei-me para a televisão. Na RTP 2 estavam a transmitir o programa Eclesia sobre atividades da Igreja Católica. Mudei de canal, na RTP 1 estavam a transmitir também a missa.

Concluo que ao domingo entre as 8 e as 9 da manhã as principais estações emissoras do Estado estão todas entregues à difusão católica.

Eu aceito que essas estações transmitam programas dedicados às religiões en geral, à católica em particular. Até aceito que transmitam a missa - se bem que, num país onde, anormalmente, a Igreja dispõe de uma estação de rádio só para si, pudesse ser muito bem ser essa estação, e só ela, a transmiti-la. Mas não aceito este enfeudamento simultâneo de todos os canais públicos de mídia à religião católica.

Dá ideia que, no entendimento dos governantes portugueses, e dos gestores desses canais em particular, Portugal continua a ser um país oficialmente católico e o povo português continua a ser maioritariamente devotamente católico. Quando é sabido que hoje em dia não mais do que metade dos portugueses põe os pés na missa.

Retrato de Luís Lavoura

Num programa da RTP 2 ontem à noite, um padre e um ateu "espiritual" (como ele próprio se classificou) concordaram na conveniência de introduzir no programa escolar o ensino das religiões num sentido global (isto é, não no sentido de procurar converter as crianças a uma qualquer religião específica). Segundo eles, sendo as religiões um importante produto do espírito humano, convem que as pessoas as conheçam e percebam, para que, por exemplo, possam entender o sentido da Pietà de Miguel Ângelo ou do Magnificat de Mozart.

Trata-se, sem dúvida, de um argumento poderoso e verdadeiro. Porém, não posso concordar com a tese. Há imensos produtos do espírito humano, de grande importância, beleza e profundidade, que hoje em dia já não se ensina nas escolas. Pura e simplesmente, o saber ocupa lugar e não há cabeça humana que possa abarcar tudo que o espírito humano já produziu. Perante tais limitações, é importante escolher aquilo que se vai ensinar, ou deixar de ensinar, às crianças e jovens. Não dá para ensinar tudo. E, na hora de escolher, mais vale escolher matérias consensualmente verdadeiras do que mitos, tradições e historietas que hoje em dia, no nosso mundo científico, já pouco ou nenhum sentido fazem.

 

P.S. Para além deste argumento, há um outro: que professores teriam uma visão tão abrangente e desapaixonada das religiões que estivessem disponíveis para as ensinar, de uma forma não apostólica, aos jovens? A maioria das pessoas que se interessam por religião professa uma. Não acredito que haja em Portugal suficientes pessoas que consigam ensinar, de forma mínima, os princípios que sejam apenas do judaismo, cristianismo e islamismo - para não falar do budismo e do hinduismo.

Retrato de Luís Lavoura

Ontem na televisão, numa curta interevenção de um minuto, o Álvaro, com ar cansado e acabrunhado, usou por três vezes a expressão "Santa Sé" - ele que, temo bem, até deve ser ateu. No certeiro post de Luís Menezes Leitão (no blogue Delito de Opinião, linque na barra ao lado), o Álvaro bem nos podia poupar este espetáculo deprimente e humilhante, e abandonar de vez a ideia parva e inútil da extinção de feriados:

"[...] nesta história dos feriados, uma iniciativa absolutamente ridícula e que só demonstra uma falta de consideração pelos símbolos nacionais como não há memória em Portugal, acabou por transformar a extinção dos feriados religiosos numa suspensão por cinco anos porque "é a vontade da Santa Sé". Pelo vistos, para o Governo, se é a vontade da Santa Sé, [...] amen. Mas como [...] a Santa Sé [não se importa] com os feriados que comemoram a independência do país ou o regime republicano, esses serão definitivamente extintos. Se o ministro da Economia tivesse um pingo, já não digo de sentido de Estado, mas de vergonha na cara, voltava atrás com esta absurda proposta de extinção de feriados e poupava-nos a este triste espectáculo da humilhação do Estado Português e dos seus símbolos nacionais, a que todos os dias somos forçados a assistir."