Religião

Textos e vídeos sobre religião.
Retrato de João Cardiga

Talvez tenha alguma importância para a discussão descrever como uma pessoa como eu, ateia, vê estas temáticas. Talvez por ser um ateu num país historicamente católico eu divido esta temática numa espécie de santissima trindade, isto é, em religião, livro sagrado e Igreja.

E é importante distinguir estas três temáticas pois trato-as de maneira diferente.

A que para mim é mais pacifica é a religião. Para mim é um acto pessoal e enquanto não interferir na liberdade de outras pessoas não julgo criticável nem condenável. É estranho para mim, confesso, por exemplo ver pessoas acreditarem que uma divindade as quer a passar fome durante o dia e terem autênticos festins de comida à noite durante um periodo de tempo do ano para que no final possa ter algo melhor (a "salvação"), ou que recitando uns quantos versos de forma repetida se desculpa qualquer erro que se tenha cometido. E da mesma forma estranho que pessoas acreditem em algo que não têm qualquer prova de existência.
No entanto também reconheço que esta capacidade de ter fé traz bastantes benefícios e como tal não considero nem algo bom ou mau, mas apenas uma caracteristica do ser humano.

Quanto ao livro sagrado (e é valido para a biblia, o al corão, a torah, ou qualquer outro) não só não considero sagrado, como acho que é um mero livro. No caso concreto - a biblia - até acho que a melhor designação seria livros. E como livro é um mero objecto, é desprovido de qualquer maldade ou bondade e não representa nenhuma ameaça (bem a não ser que alguém num acto de furia decida mandar o mesmo à cabeça de outra pessoa). Como livro de leitura não acho minimamente interessante (já o tentei ler por diversas e de várias formas e o insucesso tem sido constante) embora já ache interessante as histórias lá contidas, da mesma forma que gosto da história dos deuses gregos ou de quaisquer outras divindades.
No entanto achei interessante a dessacralização deste livro por parte de quem é contra a opinião de Saramago. Quase todos argumentaram que o livro não é para ser lido de forma literal, o que é um enorme passo, embora coloque sérias duvidas acerca da fonte de sustentação da Igreja e da própria religião, pois se este livro deve ser alvo de interpretações, quais são as interpretações legitimas e quais as ilegitimas? E já agora gostava que me esclarecessem só mais uma coisa: se existiu uma quase unanimidade quanto à subjectividade do texto ainda ninguém disse nada sobre se o texto é ou não de inspiração divina? Adoraria que alguém da Igreja me respondesse a esta simples questão.

E por falar de Igreja, chegamos então à terceira vertente desta "santissima trindade". E se a nível pessoal as anteriores despertam a minha curiosidade, já esta é um tema bem diferente. E o que é a Igreja? Para mim é simplesmente um movimento politico do foro privado (bem embora apenas o seja privado à bem pouco tempo). E, se a memória não me falha, é talvez o movimento politico mais antigo existente na Europa. Desde que Constantino deu o monopólio à igreja católica que Igreja é sinonimo de poder. Todas as suas estruturas, todos o seu plano de acção gira à volta deste objectivo desde o seu início. Dada a nossa conjuntura actual até nos podemos iludir que isso é algo do passado, no entanto julgo que é mesmo isso, uma mera ilusão. A Igreja só existe enquanto fonte de poder, e o seu objectivo é transformar a sociedade para garantir o seu próprio sustento. E convém não esquecer que, como disse anteriormente, estamos a falar de uma estrutura milenar, pelo que de certeza que não desaparecerá num abrir e fechar de olhos nem sequer se modificará, por mais que alguns crentes assim o desejem. Quando os bispos dizem abertamente que os crentes deverão votar nos partidos que respeitam os valores cristãos, não é um mero episódio. É a Igreja na sua essência mais pura. E, desculpem os crente, como movimento politico e de poder, é uma organização altamente condenável. O raciocinio que defendem já promoveu muitas desgraças, a própria Igreja compactuou com enormes atrocidades ao longo da sua história (recente e mais antiga). Aliás a Igreja é um perfeito exemplo de um pensamento ideológico anti-liberal.
Poderão argumentar que a Igreja não é só isso, tem muito trabalho de solidariedade. Concordo com isso, só que essa acção não é a sua acção principal, mas sim acessória ao seu fim. Não é uma ajuda desinteressada, bem pelo contrário e até é semelhante à acção que muitas outras religiões fazem. Serve para criar ligações de confiança que aumentam a rede de apoio à sua causa e é em tudo identico ao que os movimentos radicais islamicos promovem no seu território.

E este ponto levanta-me uma grande questão enquanto liberal. Sendo que defendo maior apoio às IPSS, até que ponto esta ajuda deve ser cega, isto é, até que ponto é que eu ao financiar IPSS de cariz religioso não estou a financiar um projecto que é profundamente anti-liberal e que pode provocar, a longo prazo, uma diminuição da minha própria liberdade?

Retrato de João Mendes

A Igreja Católica em todo o seu esplendor 'espiritual', bem como uma apresentação da 'verdadeira fé' para alguns anglicanos. Isto, está bom de ver, é tudo muito religioso e espiritual, e nada de profano e político. Não é uma manobra política para aumentar o número de membros do Clube Católico, criando umas regras especiais tipo "Igreja de geometria variável" para conseguir mais membros, é uma questão puramente espiritual. E o progressismo destas pessoas nota-se nos vários temas que levam às conversões, como sejam a possibilidade da ordenação de mulheres...

Retrato de João Cardiga

Claro que é para vender! Aliás que outra coisa podia ser! Uma autêntica campanha de Marketing! Que outra motivação é que um escritor que escreveu "Evangelho segundo Jesus Cristo" e agora "caim" tem para falar e ter essa opinião? Ele no fundo, no fundo até é crente, só que como tem que fazer pela vida tem de dizer aquelas coisas coitadinho.

Claro que ele não diz aquilo porque é a opinião dele sobre um livro, da mesma forma que outros dizem que alguns livros deles são péssimos.

E enquanto se discute as motivações de Saramago sempre não se discute porque raio é que não nos incomoda que uma instituição politica de foro privado apenas permita homens nos cargos de poder ou porque é que não nos importamos de financiar com dinheiros públicos instituições cujos estatutos permitem os seus funcionários serem despedidos se se por exemplo divorciarem ou se fizerem um aborto, entre outras questões...

Retrato de João Cardiga

Já agora gostaria de deixar aqui algumas das leis/estatutos (que são bem mais que os famosos 10) que existem na biblia:

"1 Estes säo os estatutos que lhes proporás.(...)
17 E quem amaldiçoar a seu pai ou a sua mäe, certamente será morto. (...)
23 Mas se houver morte, entäo darás vida por vida,
24 Olho por olho, dente por dente, mäo por mäo, pé por pé,
25 Queimadura por queimadura, ferida por ferida, golpe por golpe. (...)
28 E se algum boi escornear homem ou mulher, que morra, o boi será apedrejado certamente, e a sua carne näo se comerá; mas o dono do boi será absolvido. (...)

Cap. 22
"(...) 2 Se o ladräo for achado roubando, e for ferido, e morrer, o que o feriu näo será culpado do sangue. (...)
18 A feiticeira näo deixarás viver.
19 Todo aquele que se deitar com animal, certamente morrerá.
20 O que sacrificar aos deuses, e näo só ao SENHOR, será morto.(...)"

Retrato de João Cardiga

José Saramago disse: "A Biblia é um manual de maus costumes" e parece que o mundo lhe cai em cima.

Não percebo esta incapacidade de aceitar que se critique a Igreja e que uma pessoa tenha o direito de expressar a sua opinião. E não me refiro à Igreja, de quem eu não espero à partida uma actitude tolerante, mas da sociedade em si. Logo ontem quando li a caixinha do publico de subidas e descidas (na ultima página) pressenti que iria existir polémicas dadas as palavras com que Saramago foi brindado.

Mas paremos um pouco para pensar o que é a religião. É simplesmente um acto de fé, isto é, de acreditar em algo que não tem qualquer prova de existência. Não deixa de ser estranho que tantas pessoas, que normalmente têm uma actitude racional perante a vida, tenham uma actitude tão defensiva perante este tema.

Da mesma forma me é indiferente que alguém acredite em Deus, ou que existe um coelho gigante no espaço que guia todos os nossos destinos, ou sequer que o Pai Natal existe.

O que eu não compreendo é porque é que podemos criticar uns e outros não, porque é que (algumas pessoas) reagem sempre como se de uma ofensa pessoal se tratasse.

Honestamente gostava que alguém me explicasse qual é o problema com o que Saramago disse...

Lisboa, 12 de Junho - O Movimento Liberal Social (MLS) considera os actuais feriados desadequados à realidade portuguesa.

Numa sociedade multicultural, onde existem múltiplas religiões, onde os não-crentes são já o segundo “grupo religioso” do país e onde a tradição católica tem um peso tendencialmente menor, a existência de feriados comemorativos de adventos exclusivos ao Catolicismo afigura-se como discriminatória.

Por respeito a todos os cidadãos, o MLS incita os partidos parlamentares a rever o regime de feriados, eliminando os actuais feriados religiosos e substituindo-os por dias de férias suplementares à disposição de cada trabalhador. Um tal regime seria benéfico para aqueles que não são católicos ou são católicos não-praticantes, aumentaria o número de dias úteis de trabalho, diminuiria os gastos das empresas em pagamentos suplementares aos trabalhadores nos dias feriados e reduziria a paragem do país em períodos de "pontes" como o que se verificou esta semana.

Sobre este tema, Miguel Duarte, presidente do MLS afirmou “Existem pelo menos cinco feriados religiosos em Portugal que já não fazem qualquer sentido (Sexta-Feira Santa, Corpo de Deus, Assunção de Nossa Senhora, Todos os Santos, Imaculada Conceição) por a esmagadora maioria da população, mesmo muitos daqueles que se consideram Católicos, os considerar apenas como dias extra de férias e não como uma data especial a ser comemorada”.

Lisboa, 17 de Maio de 2009 - O MLS - Movimento Liberal Social deplora a utilização das Forças Armadas Portuguesas, exército de um estado laico, na cerimónia das comemorações dos 50 anos do Cristo Rei. Não é lícito que o Exército, um poderoso símbolo de soberania e do Estado, coloque este simbolismo ao serviço de uma religião em particular, promovendo-a em detrimento de outras e ofendendo assim desta forma todos os portugueses seguidores de outras religiões que não a católica ou que não seguem qualquer religião.

A laicidade é uma garantia de liberdade para todos os cidadãos, quaisquer que sejam as suas crenças religiosas, inclusivamente os Católicos. O MLS considera por isso que chegou a altura de os representantes do Estado português assumirem que Portugal não tem qualquer religião oficial e consequentemente, não misturar o simbolismo do Estado com cerimónias de cariz religioso.

Sobre este tema, Miguel Duarte, presidente do MLS afirmou: "Um Estado verdadeiramente laico não deve privilegiar, nem descriminar qualquer religião, sendo que a presença das Forças Armadas Portuguesas nas cerimónias dos 50 anos do Cristo Rei é claramente um privilégio a uma visão religiosa específica em detrimento de todas as outras, conferindo-lhe um carácter especial que esta não tem".

Lisboa, 12 de Fevereiro de 2009 - Apenas no Concílio Vaticano II (1962 a 1965) a Igreja Católica aceitou a autonomia administrativa do Estado perante as igrejas, contudo, nunca aceitou a autonomia ética da sociedade perante a moral defendida pela Igreja Católica. Em questões como o aborto, o casamento e a eutanásia, a Igreja Católica tem até aos dias de hoje insistido em misturar religião com a esfera do Estado e dos direitos reconhecidos por lei. Sendo as declarações emitidas durante a Conferência Episcopal Portuguesa mais um episódio deste comportamento.

Ora laicidade não é a simples separação entre a administração do Estado e a Igreja Católica (ou qualquer outra organização religiosa), mas também, a distinção entre regras legais universais, para toda a populações e a moral que cada religião recomenda aos seus fiéis.

O MLS – Movimento Liberal Social, considera que a Igreja Católica tem todo o direito a se opor ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. Tem inclusivamente o direito de não aceitar entre as suas fileiras homossexuais. Não deve contudo, num Estado de Direito laico, desejar impor pela força da lei a sua moral particular, aos seus fiéis, a todos os cidadãos que praticam outras religiões, ou aos que não têm qualquer religião. Isto se deseja ser vista como uma entidade respeitadora da democracia e da liberdade.

A laicidade é uma garantia de liberdade para todos os cidadãos, quaisquer que sejam as suas crenças religiosas, inclusivamente os Católicos. O MLS considera por isso que chegou a altura de a Igreja Católica, mantendo o seu direito a recomendar aos seus fiéis as práticas comportamentais que considera mais adequadas, aceitar que vive num estado laico e que não compete às organizações religiosas determinar ou influenciar a orientação de voto dos seus fiéis. Inclusivamente, porque essas mesmas organizações religiosas são financiadas pelos impostos de todos os cidadãos e não devem por isso, relativamente a temas relacionados com os direitos, liberdades e garantias, adoptar opiniões de carácter político a apelar à discriminação de alguns cidadãos.

Miguel Duarte, presidente do MLS sobre este tema afirmou “declarações como as emitidas durante a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), onde se refere que a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo não é uma prioridade, são profundamente ofensivas a qualquer cidadão preocupado com a liberdade dos portugueses, pois, a eliminação de qualquer discriminação legal deve ser sempre uma prioridade num Estado de Direito democrático”.

Retrato de Igor Caldeira

Filha de imigrantes libaneses, Nariman foi levada ao Líbano aos 14 anos para arranjar um marido. Casou-se com Ahmed, tiveram um filho no Brasil e, há três meses, voltaram para o Líbano.
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Nariman contou também que Ahmed rasgou os passaportes dela e do filho. Ela conseguiu tirar novos documentos e tentou embarcar para o Brasil, mas foi impedida por ordem do marido. O “Fantástico”, então, procurou o cônsul brasileiro em Beirute. “Mulher libanesa não tem o menor direito”, disse o cônsul brasileiro no Líbano, Michael Francis. “Mas ela não é libanesa, ela é brasileira”, afirma o repórter Marcos Losekann. “De qualquer maneira, ela é casada com um libanês, casada com um libanês muçulmano. O marido dela tem direito de vida e morte sobre ela”, diz o cônsul.
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Ahmed disse ainda que já não queria saber de Nariman, mas que não abria mão de ficar com os filhos. Nariman resolveu fugir. “Mas eu preferia a morte do que deixar meu filho”, afirma Nariman.
[...]
Após passar por situações de risco na Síria, Narinam conseguiu acesso na embaixada de Damasco, onde aguarda poder voltar ao Brasil.

GLOBO.COM

Este caso foi uma excepção: acabou bem.

Na tarde de ontem [10/09/2008], Nariman ligou para a família e disse que ela e o filho passam bem. “Todos estão tranqüilos com o fim de tudo isso que aconteceu”, disse Chiah. Na terça-feira, o vôo em que ela decolaria do aeroporto de Istambul, na Turquia, com destino a Milão chegou a atrasar, mas não adiou a viagem. Agora, Nariman deve chegar a São Paulo por volta das 6h30 de hoje e esperar até as 14 horas por um vôo a Curitiba, onde desembarca às 15 horas.

Nariman passou os últimos dias na embaixada brasileira na Síria, para onde foi depois de uma difícil fuga do Líbano, onde mora o marido, que ela acusa de agressão. Em situação ilegal, por ter sido acusada pelo marido de abandono e seqüestro, Nariman precisou da ajuda do governo brasileiro para regularizar documentos. “O consulado e o Ministério das Relações Exteriores arrumaram tudo para ela poder ir para a Turquia legalmente”, conta Chiah.

Gazeta do Povo

Retrato de Igor Caldeira
As declarações do Cardeal Patriarca a respeito dos casamentos de mulheres católicas com homens muçulmanos, que tanta celeuma estão a levantar, não têm nada de estranho por dois motivos:

- Em primeiro lugar, elas não são estranhas porque são um conselho de prudência perfeitamente razoável. De facto, qualquer mulher dever-se-ia preocupar em saber com que homem se vai casar, muçulmano ou não. Mas deverá estar ainda mais atenta se o homem tem fortes convicções religiosas. A menos que tenham especial prazer em ser tratadas como seres inferiores, as religiões em geral, as abraãmicas em particular e a islâmica em particular não lhes são muito favoráveis.

- Em segundo lugar, estas declarações põem em destaque que toda esta conversa acerca do ecumenismo é apenas uma capa simpática e vistosa para uma aliança contra o pluralismo moral e a laicização de facto que vivemos nas sociedades europeias. O cardeal tem toda a razão quando afirma que os muçulmanos só respeitam o cristianismo porque aqui estão em minoria. Deixemo-nos de discursos pseudo-conciliatórios e vejamos como são tratados os não-crentes ou os cristãos nos países muçulmanos. Veja-se o Líbano, o Iraque, o Irão, o Egipto, as monarquias da península arábica. Veja-se como os muçulmanos são uma infindável fonte de violência na Índia.

Podemos dizer que o problema não está no islamismo em si. Eu concordo. Todas as religiões são intrinsecamente exclusivistas e, por conseguinte, más. Estranho é que o cardeal diga que os muçulmanos não têm o direito de achar que a sua é a única verdade. Será que o cardeal subitamente aderiu ao relativismo? Será que não acha que a sua verdade é A verdade? Claro que acha e, tal como os muçulmanos, tem todo o direito de achar que a sua verdade é a única verdade. Como eu acho que a minha verdade é a única verdade. O que não temos é o direito de impor a nossa verdade aos outros. E é aí que as religiões falham rotundamente, e é por isso que elas são hoje a mais perigosa doença mental da humanidade.

O cristianismo não é melhor que o islamismo e se é mais tolerante que ele, é precisamente pelo mesmo motivo apontado pelo cardeal para os muçulmanos em Portugal tanto falarem no respeito da "cultura nacional" (o que quer que seja isso) e da "sua" religião. É porque a Igreja Católica, ainda que massivamente financiada pelo Estado, está social e politicamente em minoria. Porque a maior parte dos portugueses, se fosse honesta consigo própria, diria abertamente que de facto não é católica. Porque a esmagadora maioria dos portugueses intimamente sabe que jamais toleraria, nas condições actuais, que a Igreja lhe impusesse a sua agenda política tantas vezes escondida, mas cada vez mais revelada.