Religião

Textos e vídeos sobre religião.
Retrato de Luís Lavoura

No passado, os jornalistas portugueses inventaram a expressão "fraturante" para designar certos temas, os quais nunca foram claramente definidos, que levantam mal-estar na política portuguesa e os quais os grandes partidos preferem deixar para objeto de referendos populares. Temas como o aborto, a educação sexual nas escolas, os homossexuais, a prostituição, a reprodução medicamente assistida, a eutanásia, a liberalização das drogas, etc, são considerados "fraturantes".

Trata-se de uma designação curiosa porque em política, por definição, todos os temas são supostos ser fraturantes, no sentido de que todos os temas políticos fraturam a sociedade entre aqueles que são de uma opinião e aqueles que são de outra opinião. A política é isso mesmo: dissensão, desacordo e fratura. Logo, dizer que um determinado tema é "fraturante" é indefinido: todos os temas políticos são fraturantes.

É preciso pois definir com precisão o que é um tema fraturante. Algumas pessoas dizem que é algo relacionado com "os costumes". Mas isto é falso. Há muitos costumes que não são fraturantes, e há temas fraturantes que não podem ser considerados propriamente um costume. Por exemplo, fumar em restaurantes é, sem dúvida, uma matéria de costumes: havia o costume de ser permitido fumar em restaurantes e, por imposição de uma lei, esse costume foi alterado. Mas nunca ninguém se lembrou de designar essa lei como "fraturante". Nem ninguém sugeriu levá-la a referendo. Houve debate político, os deputados discordaram e depois concordaram, e a lei foi aprovada sem grandes problemas. Por outro lado, o aborto, um tema "fraturante" por excelência, dificilmente pode ser considerado como um costume: ninguém tem o costume de abortar. E raramente se fala desse "costume", e raras vezes alguém diz em público que fez um aborto - como quem fuma num restaurante ou vai ao cinema num sábado à tarde. O aborto não é um costume.

É portanto tempo de se pôr os pontos nos ii e dizer claramente que os temas fraturantes não são temas de "costumes". Os temas fraturantes são os seguintes: aqueles que ofendem a moral religiosa católica. E é tempo de dizermos isso com todas as letras, para não andarmos a perder tempo com eufemismos e conversas de mal entendidos. Os temas fraturantes são aqueles que sugerem que a atividade sexual não se destina apenas à reprodução mas sim (principalmente) à obtenção de prazer (exemplos: educação sexual nas escolas, homossexualidade, prostituição), aqueles que se referem à eliminação deliberada e consciente de uma vida humana (aborto, eutanásia), ou aqueles que interferem na forma canónica da reprodução humana (disponibilização de contracetivos, reprodução medicamente assistida, tratamento dos embriões excedentários dela inevitavelmente resultantes). Isso é fraturante. O único tema "fraturante" que não tem a ver com a moral religiosa católica é a liberalização das drogas - a qual, precisamente por isso, muitas vezes não é propriamente considerada como sendo verdadeiramente fraturante.

Uma vez visto o que é um tema fraturante, convem dizer-se que um tal tema é fraturante em Portugal precisamente porque Portugal é um país fraturado. Isto é uma verdade da qual as pessoas fogem como da peste: Portugal não é, nem nunca foi, apesar dos seus oito séculos de história, um país verdadeiramente uno. Portugal é um país fraturado desde ainda antes da sua fundação, como é bem ilustrado neste post. Há em Portugal uma fratura antropológica entre o Norte e o Sul do país, fratura essa que já era anterior ao século décimo. A fronteira que separa o Norte do Sul do país (e que percorre também toda a Espanha, não é exclusiva de Portugal) passa um pouco mais a Norte no litoral (pela Figueira da Foz e pela Mealhada) e um pouco mais a Sul no interior (por Penamacor). Para Norte dessa fronteira temos terras nas quais os árabes nunca se fixaram, que permaneceram sempre cristãs e que a cultura liberal e aberta do Al Andalus nunca influenciou. Para Sul dessa fronteira são as terras nas quais os árabes estiveram verdadeiramente instalados. A diferença entre o Norte e o Sul deste país fraturado é imensa, e não é o facto de falarmos todos a mesma língua e de vivermos sob o mesmo governo e sob as mesmas leis há muitos séculos que faz desaparecer uma fronteira antropológica. No Sul de Portugal a religião não assume um papel estrutural na sociedade como no Norte; por exemplo, o suicídio é muitíssimo mais frequente no Alentejo, onde é visto como uma solução natural e puramente pessoal para problemas da vida, do que em Trás-os-Montes, onde é encarado como um grave pecado. A sociedade nortenha (e açoriana e madeirense também - as ilhas foram colonizadas sobretudo por nortenhos) é estruturalmente conservadora e religiosa, enquanto que no Sul a religião não passa de uma opção pessoal.

É pois tempo de se assumir que Portugal não é nem tem de ser um país uno, que há diferenças importantes na forma de encarar a vida entre o Norte e o Sul de Portugal. Essa fratura antropológica reflete-se numa fratura política face a certos temas, entre a sociedade do Sul, que herdou o seu liberalismo do Al Andalus, e a sociedade do Norte, de cuja estrutura o catolicismo é parte integrante. E é importante ter-se em conta que esta diferença estrutural influencia os indivíduos mesmo para além da sua religião. Os nortenhos, mesmo quando não são católicos, têm geralmente uma visão da sociedade conservadora e moralista; os sulistas, mesmo quando são católicos, adoptam em geral uma postura moralmente liberal e mais relaxada.

Retrato de Luís Lavoura

Num conjunto de brilhantes posts no blog Portugal Contemporâneo, Pedro Arroja afirma que o socialismo, o liberalismo e o catolicismo têm valores primordiais diferentes e potencialmente antagónicos. Enquanto que para o socialismo o valor principal é a igualdade entre todos os homens (mais tarde as mulheres também foram incluídas nessa equação de igualdade), a qual igualdade tem como corolário a democracia (na qual cada homem tem direito a um e um só voto, princípio de acordo com o qual todos os homens são iguais no seu poder político), o liberalismo tem como principal valor a liberdade, e o catolicismo tem como valor principal a vida humana. Pedro Arroja escreve especificamente que o catolicismo deseja maximizar a vida humana em quantidade (número de homens), duração (tempo de vida, i.e. adiando a morte o mais possível) e qualidade. Escreve também que é por este motivo que o catolicismo é radicalmente contra todas as formas de aborto (coisa que nem sempre se atreve a dizer em voz alta na Europa, mas que afirma sem rebuços nos países mais atrasados da América Latina), e também contra o casamento de homossexuais - porque, como Pedro Arroja escreve, de um tal casamento "não sai nada", isto é, não pode sair uma nova vida humana.

A descrição de Pedro Arroja parece-me muito correta, e dela confirmo que, claramente, estou no campo liberal. De facto, para mim a vida humana está longe de constituir um valor primordial e supremo. Só vale a pena a vida construtiva, a vida que merece ser vivida. A vida humana não é para ser maximizada em duração, e muito menos em quantidade.

Seria bom, já agora, que outras pessoas também optassem claramente por um dos campos, em vez de manterem um pé em cada lado. É, ao fim e ao cabo, uma escolha de vida - decidir qual é para nós o valor principal. Pedro Arroja já escolheu, claramente, estar no campo católico, após ter passado alguns anos da sua vida no campo liberal. Outras pessoas ainda não decidiram bem para que lado pendem.

"A Força Aérea Portuguesa é a única Força Aérea no mundo que tem uma santa padroeira atribuída por despacho Papal – a Nossa Senhora do Ar. Contudo, essa característica única, não deixa o Ramo aeronáutico das Forças Armadas Portuguesas insensível às celebrações daquela que é internacionalmente considerada como a Santa Padroeira da Aviação Universal – a Nossa Senhora do Loreto."

retirado do portal da Força Aérea Portuguesa

Retrato de Miguel Duarte

Os acontecimentos no Conselho dos Direitos Humanos da UN continuam a suceder-se. O último foi a proibição no mesmo de qualquer crítica a leis inspiradas na lei Sharia ou a fatwas.

A crítica à condenação de uma mulher ao apedrejamento devido a um suposto adultério, ou ao casamento de raparigas com nove anos foi considerada como um insulto ao Islão e levou à proibição, no âmbito das actividades do Conselho de Direitos Humanos, de qualquer crítica ao Islão e às práticas realizadas em seu nome.

Citação do representante do Egipto:

What we are talking now about is not about the right of NGOs to speak but about the Sharia law and whether it is admissible to discuss it in this Council.

Retrato de Igor Caldeira

Parece-me interessante a ideia de realizar uma conferência sobre A Ideia da Morte de Deus na Cultura Ocidental (quarta-feira, dia 4 de Junho às 18:30, Anfiteatro IV da FLUL). Temo no entanto que ela reproduza a maioria dos clichés que a discussão (que é tão velha como a frase de Nietzsche, que por sua vez é apenas uma constatação de algo que começou a acontecer de forma institucionalizada desde a Revolução Americana e de forma larvar pelo menos desde Spinoza e Hobbes).

A discussão sobre a morte de deus está normalmente inquinada pela sacralização do conceito de "deus"; a própria utilização da palavra "deus" em maiúsculas (não me posso esquecer de uma carta que à revista Sábado escrevi, sobre Dawkins, com o "d" minúsculo repetido até à exaustão, mas publicada com o "d" maiúsculo não menos exaustivamente). A primeira tarefa para que possa haver uma discussão séria, não marcada pela costumeira desonestidade argumentativa que constitui a colocação das diferentes partes em posições de superioridade e inferioridade, é dessacralizar o conceito; só assim pode ele ser dissecado racionalmente.

Isto feito, partimos então não para a morte de deus (algo que, literalmente tomado, seria pouco melhor que cretino dado que não foi deus que foi morto, mas a ideia de deus que foi arredada das múltiplas esferas da vida humana, tanto na dimensão social quanto na individual) mas para o weberiano desencantamento do mundo.

Este processo revestiu múltiplas formas, umas - raras, mas cruciais porque radicais - morais, outras - débeis e parcelares - políticas e outras - e aí o desencantamento foi dominante - científicas.

Do ponto de vista científico, todos os avanços no saber se deram contra a religião, reduzida ela à sua essência - o dogma. A negação científica de deus está profundamente enraizada, inclusivamente entre os crentes. A recusa dos textos religiosos como relevantes para o progresso do saber e da investigação científica - realidade da qual áreas como a geologia ou a biologia são exemplos extremados - é de facto uma perniciosa forma de ateísmo que contagiou todos os países que se conseguiram desenvolver por via da inteligência. Podemos pensar que há países ricos e nos quais a religião é dominante, como as petromonarquias. Mas nem aí se produz ciência, nem a sua riqueza nasceu da inteligência.

Em todo o caso esta separação, por si só, é débil e superficial. A negação de deus na ciência, mas a sua aceitação na política ou na moral permite não só que subsistam ideias minimalistas a respeito da racionalidade que a reduzam a áreas sérias como a economia, a medicina, etc., como tem permitido o ressuscitar de deus através do criacionismo (muito em voga no protestantismo americano, mas curiosamente com boas e sólidas raízes no catolicismo europeu), envolvendo ideias sem qualquer sustentação científica com um argumentário e uma linguagem pseudo-científicos.

Outra das fraquezas associadas a um certo positivismo é que a alternativa ao minimalismo foi o maximalismo dos totalitarismos do século XX. Diz-se correntemente que se trata de correntes ateias e que as ditaduras ateístas mataram muito mais gente que as ditaduras religiosas. Ora, um pouco de História não mata ninguém. E pode até prevenir algumas mortes, presumo eu. Comparando a Alemanha nazi com a Alemanha da Guerra dos Trinta Anos, temos que a II Guerra Mundial e as purgas que a precederam matou cerca de 12 dos 72 milhões de alemães, ou seja, cerca de 17% da população. Em contrapartida, calcula-se que ao todo a população alemã tenha sido, nas guerras religiosas, diminuída em um terço (em algumas zonas a população reduziu-se em dois terços). Ou seja Hitler conseguiu matar metade dos alemães que católicos e protestantes, em todo o seu fervor religioso, conseguiram. Dir-me-ão que esta é uma forma desumana de encarar o problema, descontextualizada também. De todo. De que outra forma podemos responder à questão do cálculo das mortes, senão, efectivamente, calculando as mortes e contextualizando-as no universo demográfico de cada época?

Pois bem. Mas vou aprofundar a ideia. Estas ditaduras totalitaristas não são de forma nenhuma distintas da religião, excepto na ideia de deus, e mesmo aí algum cuidado é preciso ter. Eles não são o culminar do racionalismo, elas são a própria negação do racionalismo. E não vou argumentar em torno da ideia de Liberdade, trave mestra de toda a arquitectura da Modernidade. Basta-nos dizer que o comunismo e o nazismo tiveram, tal como a religião na passagem do Homem da sua mera condição animal para seres providos de razão, a intenção de explicar o mundo. Fornecer as respostas às questões que afligiam os homens. E tal como a religião, rapidamente se enquistaram no dogma. E até criaram (embora aqui eu admita que a ideia possa ser forçada, e portanto nela não me aventuro) os seus próprios deuses.

Os totalistarismos não são pois a negação da religião, mas a continuação da religião por outros meios - políticos. E foram tão destrutivos quanto destrutiva foi e tem sido a religião. Dir-me-ão que não está no cerne do cristianismo ou do islamismo o ódio e o desprezo pelo Outro, que o mal que deles nasceu não estava neles. Os textos que os fundam não são de forma nenhuma prova disso. Os fundamentalistas religiosos conseguem sempre encontrar nesses textos excelentes bases de apoio. Mais ainda, mesmo os crentes menos radicais usam da sua crença para frequentemente impor a outrem realidades não consensuais.

E a ideia pode ser explorada à exaustão: se no nazismo de barato dou que o ódio é próprio sustento da ideologia, ninguém de boa fé pode supor que Karl Marx pretendesse que em seu nome dez ou vinte milhões de pessoas fossem mortas na URSS, ou setenta milhões na China, ou dois milhões no Cambodja. Economista que era, provavelmente (poderíamos supor pelo contrário) que perante o falhanço prática da sua teoria, deixasse ele próprio de ser comunista. Os comunistas tinham muito boas intenções. Mas algo há no comunismo que o conduziu a ser tão nefasto. Por que motivo conclusão diferente poderíamos retirar a respeito do cristianismo ou do islamismo?

O desencantamento da política não se deu pois de forma nenhuma pelas ditas ditaduras ateístas (que, como ditaduras que são, são negações da razão e da Modernidade) mas pela laicização (em sentido próprio) ou seja, pelo Estado moderno. Estado moderno, Estado de direito, Estado fundado na soberania popular e Estado neutral. A sua neutralidade encontra uma das suas mais importantes, mas mais quebradiças, construções no Estado laico - uma instituição absolutamente independente dos variados dogmas aos quais os seus cidadãos possam ou não aderir, porque por certo nem todos aderirão aos mesmos dogmas e isso é já razão suficiente (se outras e muito boas não houvesse) para que o Estado não tenha dogma algum que não seja a ausência de dogma e o absoluto respeito por cada indivíduo tomado em si e nas suas relações com os outros indivíduos e nunca como parte de grupos infra-estatais que visem obter privilégios que a sua liberdade individual lhes não confira.

A última esfera na qual o desencantamento do mundo existe é enfim a moral. E aqui surge talvez o maior dos paradoxos - que de resto é mesmo anterior à própria Modernidade, mas que definitivamente se problematiza com ela. Entre a moral pregada dos púlpitos e o ethos vivido na sociedade vai uma distância tal que é difícil saber se vivemos todos num mesmo mundo. E arredo daqui a questão da hipocrisia e do falso moralismo. Não me interessa saber se o padre x cumpre os ensinamentos de Cristo, até porque ensinamentos cristãos há-os para todos os gostos. A questão é mesmo a de saber se os indivíduos se revêem nos dogmas que as religiões lhes pretendem impor. Quantos portugueses se dizem crentes de alguma religião, e quantos aprovaram o aborto até às 10 semanas? Quantos se divorciaram? Quantos se abstiveram de ter sexo fora do casamento? Quão fraca é a moralidade que não consegue que os indivíduos livremente ajam de acordo com ela, sem se ofenderem nem ofenderem os outros?

Diz-se amiúde que a religião é uma necessidade do Homem. Diremos então: a religião é patológica ao Homem. Não creio que seja uma inevitabilidade. Mas será um pathos. Ora aquilo de que o Homem enquanto ser racional precisa não é de se sujeitar a uma paixão, a uma inclinação da natureza, de se aviltar a uma reminiscência com fundamentos eventualmente até biológicos. O facto de a nossa natureza nos dizer para ter sexo loucamente para melhor propagarmos os nossos genes não significa que o façamos (diz-nos mesmo que, no processo, podemos morrer em resultado de doenças várias). Não, do que o Homem precisa não é de um pathos, é de um ethos, um hábito de reflectir e escolher racionalmente.

Ora uma ética fundada na única ideia metafísica racionalmente fundamentável (e ainda assim cientificamente não redutível), a liberdade, é precisamente o legado da Modernidade, esse desencantamento do mundo que a morte de deus constitui e que nos foi legada pelo Iluminismo. E O que é o Iluminismo?


O Iluminismo é a saída do homem da sua menoridade de que ele próprio é o culpado. A menoridade é a incapacidade de se servir do entendimento sem a orientação de outrem. Tal menoridade é por culpa própria se a sua causa não resido na falta de entendimento, mas na falta de decisão e de coragem em se servir de si mesmo sem a orientação de outrem. Sapere aude!
Kant, Resposta À Pergunta: Que é o Iluminismo?


Aceitar a morte de deus pelo reconhecimento do desencantamento da ciência, da política e da moral é por conseguinte a única forma de reconhecer a liberdade do indivíduo enquanto ser racional. E para tal não é preciso deixar de acreditar em deus. Basta já não o levar muito a sério. Nada que praticamente todos os ocidentais, de resto, já não o façam.

Retrato de Igor Caldeira

Já todos ouvimos e lemos que o Estado tem uma qualquer obrigação de apoiar os diferentes cultos religiosos (pagando aulas de Religião, subsidiando escolas religiosas, construindo igrejas e centros paroquiais, etc.). A teoria que circula a respeito da "sociedade civil" (que apesar de ser "civil" parece que precisa do dinheiro político) e que habitualmente é a forma encapotada de os conservadores defenderem mais privilégios para a Igreja Católica (mesmo que isso implique fazer umas cedências de circunstância a cultos irrelevantes como o muçulmano ou o judeu - esquecendo as igrejas evangélicas, com muitíssimo mais fiéis) vai ter agora de enfrentar um problema grave.

Está em vias de se constituir a Associação Ateísta Portuguesa. Será que agora os defensores da "sociedade civil" subsídio-dependente vão aceitar que a futura Associação também mame da teta estatal ou será que a distribuição de dinheiro de impostos alheios com vista à propaganda ideológica é um couto abraâmico?

Retrato de Miguel Duarte

Comentários do Egipto e do Paquistão a comentários completamente inofensivos sobre o Islão por parte de um representante da IHEU (numa reunião recente nas Nações Unidas).

Retrato de Igor Caldeira

Há uns tempos e a respeito das afirmações do arcebispo de Cantuária defendi a tese de que não se tratava de um acto de cobardia de um ocidental face ao islamismo, mas antes de um firmar de uma aliança entre religiões. A meu ver, quanto menos liberdade tivermos para criticar o islamismo mais à vontade se sentirão os conservadores religiosos para nos impôr restrições no que ao cristianismo se refere.

Estas economias de escala que os sectores religiosos pretendem fazer começam a dar os seus frutos no Reino Unido. Um anúncio televisivo a uma marca de produtos para cabelos no qual se combinava elementos religiosos e mulheres voluptuosas foi retirado após os protestos de centenas de cristãos que se sentiram ofendidos.

Observação 1

É preciso ser muito joão-carlos-espadeiro para não perceber que a religião e a liberdade são ontologicamente realidades que se repelem. Desde que os homens tentaram ser efectivamente livres (portanto, desde os séculos XVI a XVIII) até aos dias de hoje praticamente todas as lutas pela liberdade coincidiram - directa ou indirectamente - com uma luta contra a religião, seja em abstracto, seja com um culto dominante em concreto. Essa luta desenvolveu-se em torno do direito de afirmação da individualidade - do direito de cada um crer ou não crer e de, crendo, crer à sua própria guisa.

Durante um curto período parecia ter-se conseguido encontrar um caminho para o equilíbrio - cada indivíduo terá a sua religião e o Estado não se mete nisso. Não é líquido que ele esteja já quebrado. Mas começam a avolumar-se indícios de que as religiões querem recuperar a sua capacidade de opressão sobre o Indivíduo.

Observação 2

Os first-comers ao mundo da tolerância - países anglo-saxónicos, Países Baixos - criaram um modelo de convivência, em particular no mundo anglo-saxónico, fundado em ilhas culturais. O modelo multiculturalista é tributário dessa tradição, que durante séculos permitiu que judeus e cristãos vivessem no mesmo país (situação para a qual o primaz da Igreja Anglicana chamou a atenção) embora isso significasse que cada um tivesse regras próprias, comunitárias. Em sociedades pouco evoluídas é um modelo que pode funcionar.

Em sociedades complexas, contudo, a destruição do Estado de Direito com o pretexto do respeito pelas culturas e pelo desenvolvimento das comunidades é um atavismo de consequências catastróficas. O modelo universalista francês, fundado na cidadania abstracta, é o único que pode funcionar e que nos pode salvar do relativismo que caminha de mãos dadas com este retorno da religião política. Tem defeitos e algum dirigismo estatal (que deveria ser extirpado), mas é a melhor base que temos. E, contudo, até esse está em perigo. Sarkozy está a empenhar-se duramente na promoção de movimentos fundamentalistas islâmicos e de um maior destaque da Igreja Católica. Veja-se a cronologia.

Retrato de Luís Lavoura

Sobre a Concordata e a sua relação com liberdade religiosa, fala D. Carlos Azevedo, secretário da Conferência Episcopal Portuguesa:

"Dado que existe uma Lei da Liberdade Religiosa, alguns ministérios esquecem que há uma Concordata e aplicam apenas essa Lei, como se ela fosse aplicável, que não é: a Lei da Liberdade Religiosa aplica-se às confissões religiosas, mas não à Igreja Católica."

O entendimento do Movimento Liberal Social é diferente.

Retrato de Igor Caldeira

É injusto!, a expressão da indignação, é uma frase que muitas vezes digo quando discuto a questão das liberdades individuais e políticas, sobretudo quando o tema envolve, de forma imediata ou mais remota, a religião. A indignação que assim se exprime é um sentimento de impotência, de tentiva mal sucedida de encontrar um eco, uma imagem ou uma semelhança - não na superfície mas nas motivações profundas - naquele que provoca a indignação. Ou seja, não se trata da discordância sobre uma qualquer matéria, mas a percepção de que não há qualquer hipótese de acordo porque o que é exigido é a capitulação, o apagamento de nós e a nossa submissão à posição contrária. É injusto! é por isso uma frase insuficiente. Perante Atocha dizer que é injusto não basta. E procurar o diálogo com quem fez Atocha, faz sentido?


Li ontem de uma assentada Os homens do terror - Ensaio sobre o perdedor radical de Hans Magnus Enzensberger. O único livro dele que tinha lido foi o Guerra Civil e já na altura me tinha parecido brilhante. Muitas vezes torço o nariz e fico a pensar melhor no que ele escreve: ele tem o condão de nem sempre dizer aquilo que nós pensamos que ele está a dizer. Quando comecei o livro assustei-me: não tinha paciência para ler um livro que se limitasse a desculpabilizar, através de uma análise psicológica e económica (reduzindo a alma humana a um conjunto de índices alcançáveis mediante umas quantas equações), os terroristas enquanto vítimas do capitalismo e da globalização. De facto, pouco a pouco essa ideia vai sendo desconstruída ao longo do livro até que Enzensberger claramente ataca esse tipo de posições. Suspirei de alívio e reconheci o autor de Guerra Civil.

O argumento do autor parece-me fazer sentido e a sua resposta ao problema ainda mais.

Começando pelo princípio: O falhado pode contentar-se e resignar-se com a sua sorte, a vítima pode exigir reparação, o vencido pode preparar-se para o assalto seguinte. Pelo contrário, o perdedor radical isola-se, torna-se invisível, cuida dos seus fantasmas, concentra a sua energia e espera pela sua hora. [...] Contudo, o que os outros pensam dele [...] não chega ao perdedor ara que se radicalize. Ele próprio tem de contribuir com a sua parte. Ele tem de dizer a si mesmo: Sou um perdedor e mais nada. [...] Só então "perde o controle". O perdedor radical é aquele que profundamente não tem já qualquer esperança na sua vitória: ele vive numa dialéctica permanente de auto e hetero-culpabilização a respeito da sua condição, projectando no mundo o ódio a si próprio e desejando tanto a destruição dos outros quanto a sua própria destruição. Como o autor escreve, ele quer ser o senhor da vida dos outros e o senhor da sua própria morte. Nesse momento, em que ele tem o poder de destruir os outros e aniquilar-se também, ele tem o controlo absoluto: como é possível punir alguém que se pune a si próprio?

Entre nós os perdedores radicais habitualmente resignam-se a actos de pouca envergadura: matam os filhos e a mulher e depois suicidam-se; matam os colegas e os professores e depois suicidam-se; matam os colegas de trabalho e o chefe e depois suicidam-se. Mas o que sucede quando surge uma ideologia que os mobilize?

Na Alemanha do pós-guerra e ao longo das décadas de 20 e 30 o nazismo conseguiu pegar numa nação derrotada, concentrar todos os recorrentes alvo de ódio e de teorias conspirativas (judaísmo e conspiração capitalista-bolchevique) e transformá-lo numa ideologia que varreu o país e que consistiu num acto colectivo de suicídio demográfico e cultural: um sétimo da população alemã perdeu-se, a elite intelectual que sustentara as universidades alemãs emigrou para os Estados Unidos. Só havia duas hipóteses: ou a vitória (e um país da Europa Central conquistar o Mundo era ridículo) ou então a derrota absoluta. Se o povo alemão não vencesse, cria Hitler, então era porque não merecia viver. Os alemães sobreviveram, mas nunca mais foram os mesmos e a Alemanha é hoje apenas a sombra do que foi.

No século X os árabes diziam dos povos do norte que eram grosseiros de corpo e de mente, pouco inteligentes, pouco dados ao trabalho intelectual ou físico. A mesma coisa que hoje alguns ocidentais dizem a respeito dos árabes. O que só prova que nem os árabes de então eram superiores, nem os ocidentais de hoje o são. Pelo menos geneticamente. A questão é outra.
Do século X até aos dias de hoje o mundo islâmico em geral, e o árabe em particular, tem sofrido um declínio consistente, só invertido parcialmente nas últimas décadas pelo petróleo. De uma civilização que concentrava em si todo o saber do mundo antigo restam hoje 280 milhões de pessoas cuja produção cultural fica globalmentge muito atrás, por exemplo, da Espanha (de facto, foram traduzidos menos livros no mundo árabe nos últimos mil e duzentos anos que o são todos os anos em Espanha).
Culpar o colonialismo é arranjar mais bodes expiatórios. Judeus, americanos, liberais, democratas, socialistas, europeus... Mas foi a partir do próprio Corão que se extraíu o princípio que levou à proibição da imprensa mecânica no século XV.

Também é no Corão que está a invectiva para matar os que, tendo aceite o Livro (judeus e cristãos) não se submetam ao Islão, seja a ele aderindo, seja pagando um tributo especial. E aqui vamos ao coração do problema actual do islamismo radical. Radical significa ir à raíz e ir à raíz do islamismo é perceber que a palavra islam significa submissão. Só há duas alternativas: a submissão ou a morte. A vitória absoluta ou a derrota absoluta. Os árabes, mais que quaisquer outros muçulmanos, vivem hoje esta ferida aberta de se saberem factualmente inferiores aos outros, mas de se sentirem espiritualmente superiores. O seu lugar é o de um povo conquistador, dominador. Mas, por culpa alheia, estão subjugados por sub-humanos. Tal como os nazis pensavam e pensam. Não estou a dizer que os muçulmanos radicais são nazis. Estou a dizer que uns e outros partilham a mesma condição e têm a mesma inclinação, o mesmo amor à morte e ao sofrimento. Uns e outros têm a mesma concepção medieval de boa morte, morte no sofrimento mais atroz como condição salvífica do seu espírito.

São perdedores radicais e, como não conseguem conquistar o mundo, querem destruí-lo. E os outros muçulmanos, os que não são radicais, não são seus aliados: eles são as primeiras vítimas, como o foram os alemães às mãos dos nazis. A maior parte das vítimas actuais de terrorismo são civis muçulmanos, cuja morte é merecida precisamente porque não são radicais, ou são um pouco menos radicais. E são pobres. Como a maior parte dos perdedores radicais islâmicos são ricos ou pelo menos de classe média.

Indignar-se com a violação retumbante do princípio da reciprocidade é perda de tempo. Quem se enerva com tal facto é ele próprio o culpado. Enquanto se mantiverem exigências absurdas e ultrajes, será melhor reagir com uma calma inflexível e ignorar os provocadores que berram às suas próprias paranóias. Aliás, eles são imunes aos argumentos, de tal modo que é escusado aceitar os seus lemas monótonos e repetitivos. Quando, sem dúvida, se trata de fogo posto, de tomada de reféns e de assassínio, só o monopólio do poder da polícia e da justiça ajuda. A partir deste ponto, o "diálogo" recomendado como panaceia mostra-se como uma auto-ilusão. Até sociedades liberais como a holandesa tiveram de aprender que as tácticas de remissão dos ressentimentos e de atenuação dos conflitos com os migrantes hostis, em vez de os reprimir, agudiza-os. Favorecem a ascensão de partidos de direita populistas e a escalada da violência.

Esta é a resposta de Enzensberger e, creio, a única que faz sentido. Não temos de responder a todas as exigências porque nem todas as exigências são passíveis de negociação. O que devemos ter são princípios sólidos que defendam todas as liberdades. O facto de uma mulher andar de mini-saia, ser divorciada e lésbica é algo que diz respeito apenas a ela e portanto não podemos negociar com ninguém restrições à liberdade dela apenas porque a liberdade dela choca com as crenças de outrem. O diálogo não funciona aqui. Quem pretender violentamente limitar a liberdade dela, tem de ser punido exemplarmente. Se isso não acontecer e continuarmos a tergiversar e a pensar que talvez aplicar alguns dispositivos da Sharia talvez não fosse tão mau assim... bom, aí sim, este continente pertencerá aos Geert Wilders.