Religião

Textos e vídeos sobre religião.
Retrato de Luís Lavoura

Quem quiser defender a laicidade da universidade (italiana), tem aqui uma petição (em italiano) para assinar.

Retrato de Luís Lavoura

Neste país com cada vez menos substância para discutir e cada vez mais dado a frivolidades, foi tema de forte contestação na última semana, por parte de comentadores conotados com a direita política, o facto de o papa se ter abstido de se deslocar a uma universidade pública de Roma, devido à contestação de que tal visita foi alvo por parte de alguns professores e estudantes.

A história foi no entanto muito mal contada por esses comentadores de direita, os quais omitiram alguns detalhes cruciais.

Primeiro, o papa não tencionava apenas visitar a universidade em questão. Pretendia proferir nela um discurso.

Segundo, o dito discurso, ou palestra, não seria proferido, a título particular, num anfiteatro qualquer da universidade, perante quem a ele quisesse assistir. Ele seria proferido no âmbito de uma cerimónia oficial da universidade, a "abertura do ano letivo".

Terceiro, a deslocação do papa à universidade não se faria a título particular, ou a convite de um grupo particular de professores ou estudantes da universidade, mas sim a convite da própria reitoria da universidade.

É para mim totalmente inapropriado, e altamente contestável, que a reitoria de uma universidade pública e - necessariamente - laica, convide um líder religioso a proferir uma conferência nessa universidade. Muito pior ainda se essa conferência fôr proferida no âmbito de uma cerimónia protocolar da universidade, cerimónia à qual diversos membros da Academia são obrigados a assistir, por inerência das suas funções.

Considero altamente recomendável que as universidades disponibilizem espaços (salas de aulas, anfiteatros, etc) para que neles se realizem, a pedido de grupos de professores ou estudantes (ou de outras entidades), debates ou conferências sobre quaisquer temas de interesse público ou político ou académico.

Considero altamente reprovável que a direção (a reitoria) de uma universidade pública e laica convide líderes religiosos a proferir tais conferências. E ainda mais reprovável se a conferência não fôr para ser proferida, a título privativo, numa qualquer sala da universidade, mas sim no âmbito de uma cerimónia universitária.

Retrato de Igor Caldeira
Há uns 15 anos, quando a TVI nasceu, a revista Sábado de então publicou um cartoon que já na altura me pareceu profético e que por isso gravei na minha memória. As duas personagens do cartoon eram um anjo e um diabo. O primeiro vira-se e diz:
- Então, agora que a Igreja Católica vai ter uma estação de televisão, deves estar danado!
- Nada disso. - retorquiu o diabo - Só há duas hipóteses: ou a televisão é muito beata e não tem audiências (eu ganho!) ou a televisão é um sucesso e não pode ser lá muito católica (eu ganho!).
Uns 7 ou 8 anos depois assim foi: o Big Brother, que Emídio Rangel (o das italianas de protuberâncias mamárias ao léu e das meninas da meteorologia com os Pilares de Hércules por baixo das mini-saias) recusou por discordância ética, foi o impulsionador da TVI.
Casos há em que o facto de os fanáticos religiosos não estarem à altura do moralismo que destilam acarreta consequências graves. No entanto, em muitos outros os efeitos só podem ser positivos. O bom funcionamento da economia de mercado tem um efeito civilizador fantástico, e que o digam os eslovenos. Li que a televisão líder de mercado por aquelas bandas o é muito por consequência da sua generosa oferta de programas pornográficos. Sucede que a holding que controla a televisão em causa é detida por uma sociedade fundada pela Conferência Episcopal da Igreja Católica de Maribor.

Só não percebo se o objectivo é verdadeiramente civilizado (fazer dinheiro) ou se existe alguma agenda oculta para tornar os eslovenos viciados em pornografia, por um lado, ameaçando-os com as chamas do Inferno, por outro.
Sobre isso, o cartoon que li quando tinha 9 ou 10 anos nada dizia.
Retrato de Igor Caldeira
Naser Khader era um dos candidatos, ontem, nas eleições dinamarquesas. É de direita. Filho de imigrantes, Naser veio da Síria com onze anos, é muçulmano. Apoia o Governo dinamarquês por este, na crise dos desenhos satíricos de Maomé, ter feito frente aos fanáticos religiosos que exigiam desculpas dinamarquesas. Ontem, também Asmaa Abdol-Hamid era candidata. É da extrema-esquerda. Filha de imigrantes, Asmaa veio da Palestina, é muçulmana. Ela fez a campanha de véu e, nos comícios, recusou a apertar as mãos aos camaradas masculinos. Para ela, uma muçulmana não toca em homens, senão marido. Ontem, fez um mês que Zahara Bani- -Ameri morreu na prisão, em Teerão, onde estava porque se passeou de mão dada com um rapaz que não era marido. Há 30 anos, eu era de extrema-esquerda, também por causa da liberdade das mulheres. Ontem, eu teria votado em Naser, não em Asmaa. Às vezes não há como ficar no mesmo sítio para parecer termos mudado.
Ferreira Fernandes, Correio da Manhã
Retrato de Miguel Duarte

Bem, não sei se era realmente esse o objectivo escondido de Bush, quando começou a defender, em vez da educação sexual a sério, promover-se a abstinência nas escolas americanas.

No entanto, a coisa de facto funcionou. As gravidezes entre adolescentes aumentaram em 3% de 2005 para 2006 (aproximadamente mais 20.000 bébés), bem como as doenças sexualmente transmissíveis. Ah, e o uso do preservativo (claro) diminuiu.

Some key sexually transmitted disease rates have been rising, including syphilis, gonorrhea and chlamydia. The rising teen pregnancy rate is part of the same phenomenon, said Dr. Carol Hogue, an Emory University professor of maternal and child health.

"It's not rocket science," she said.

Escusado será dizer, que um outro problema, para os conservadores, é que obviamente, o número de mães solteiras aumentou, em parte, devido a esta questão.

Caros conservadores, a natureza humana é o que é, não aquilo que queremos que seja (sinto-me um conservador ao afirmar isto). Nós bem que podemos querer negar os impulsos sexuais aos jovens, mas a realidade, é que eles vão existir e fazem parte da nossa natureza animal. Pregar a abstinência e manter os jovens na ignorância no que toca a contraceptivos, além de moralmente dúbio, simplesmente vai resultar em mais doenças e mais gravidezes.

Retrato de Miguel Duarte

Porquê uma promoção a este filme aqui? Simplesmente porque no livro original, "Magisterium" é a "Igreja Católica". O filme, onde todo o bom não religioso deve levar a sua criança, é na realidade uma crítica à Igreja Católica (o autor do livro é ateu).

Para o director do filme:

"The Magisterium stands for arbitrary authority and dogma of any kind"

e segundo ele, o objectivo do autor seria denunciar:

"the abuse of religion and the misuse of the idea of God for political ends"

É evidente que o filme em alguns países (como os EUA, claro), já começou a ficar debaixo de um ataque serrado. Uma ironia que acaba por ser muito cómica, pois, não é muito habitual ver-se ateus a queixar-se da propaganda religiosa (em forma de filmes), que é habitual passar nos cinemas na época natalícia. E que, de facto é enjoativa e de mau gosto (sob o meu ponto de vista de não religioso, obviamente).

Claro está, como liberal, não tenho a mínima intenção de apelar à proibição de filmes com conteúdo religioso, apenas critico, o radicalismo de quem é religioso e pretende proibir os outros de levar ao cinema os seus filhos assistir a filmes anti-religião ou censurar os filmes que criticam a religião.

Retrato de Miguel Duarte

Era uma vez uma professora da primária que dava aulas numa escola e que se chamava Gibbons. Uma escola especial, num país muçulmano, onde meninos ocidentais não muçulmanos conviviam com meninos muçulmanos e eram felizes, muito felizes. Neste país longe, muito longe, chamado Sudão, a professora, um dia, decidiu pedir a uma aluna para trazer o seu ursinho e pediu aos meninos e meninas para decidir entre si qual o nome que o ursinho deveria ter.

Vinte dos vinte e três meninos e meninas decidiram, democraticamente, que o ursinho se devia chamar Maomé. Não sabemos porque escolheram esse nome, mas talvez fosse porque esse era um nome muito comum no seu país e alguns dos meninos tinham esse nome.

A professora respeitou a escolha dos seus alunos e pediu, a cada um deles, para levar sucessivamente o ursinho para casa durante o fim-de-semana e para escrever um diário sobre o que fizeram com o ursinho Maomé. No fim, o objectivo era fazer um livro com os diários dos meninos, o título seria "O Meu Nome é Maomé".

No entanto nesse país longe, muito longe, viviam vários homens maus, sendo que um deles era pai de um dos meninos. Assim que viu o que estava a acontecer e porque era inseguro, muito, muito inseguro, relativamente à sua religião, decidiu apresentar queixa na polícia. Esse homem mau disse à polícia que a senhora professora estava a brincar com o seu profeta, que por acaso também tinha o mesmo nome do ursinho.

Assim que isso aconteceu, outros homens maus juntaram-se a ele e decidiram fazer mal à professora. A professora foi então presa e sujeita a julgamento, de acordo com uma lei que os homens maus criaram e que se chama Charia. Essa lei é muito má, pois é usada para justificar a discriminação das meninas, para fazer maldades às pessoas que não a respeitam ou que não são muçulmanas e até para reduzir a liberdade das pessoas.

No julgamento, o juiz, que também era um homem mau, não quis distinguir entre alguém que queria brincar com o seu profeta e alguém que simplesmente tinha respeitado a vontade dos seus alunos. Decidiu então o juiz condenar a professora Gibbons a 15 dias de prisão e à expulsão do país longínquo. Fazendo a professora muito, muito triste e os meninos e meninas também muito, muito tristes.

O ursinho, esse, também ficou muito triste, pois teve que mudar de nome.

O Movimento Liberal Social defendeu – no final da sua VI Assembleia Geral, que decorreu durante o fim-de-semana em Sintra – o fim do IRC, um imposto considerado injusto e destruidor de empregos. Para Miguel Duarte, presidente do MLS, este imposto não é mais que uma dupla tributação sobre os empreendedores e investidores: o IRC tributa os lucros das empresas, e mais tarde, o que sobra desses lucros e é distribuído sob a forma de dividendos é tributado novamente em sede de IRS. Segundo o dirigente «hoje uma grande percentagem de portugueses investem em acções e em fundos de investimento e de pensões, sendo por isso injustamente afectados por esta dupla tributação, acabando o IRC por ser também destruidor de empregos ao prejudicar a competitividade da economia nacional face a outros países». O MLS propõe assim a eliminação progressiva do IRC, medida que irá criar mais empregos e aumentar o investimento, compensando por essa via a diminuição da carga fiscal.

Além da tomada de posição sobre o fim do IRC, o MLS aprovou durante a sua VI Assembleia Geral mais 10 moções, entre as quais se destacam as posições assumidas sobre uma nova lei eleitoral para a Assembleia da República, a corrupção e as liberdades religiosas.

Na temática do novo sistema eleitoral para a Assembleia da República, foi proposta a criação de um sistema misto com um círculo nacional único de grande dimensão e círculos uninominais, o que permitirá reduzir o número de deputados e aumentar a proporcionalidade, medida que ao contrário do que defende as propostas dos maiores partidos representados na Assembleia, em criar círculos uninominais, que levarão ao desaparecimento dos partidos de média e pequena dimensão, irá aproximar os deputados dos cidadãos, e manter a representatividade de pequenos partidos na Assembleia.

Ao nível da Corrupção, foi defendido que é necessário garantir a independência funcional efectiva dos titulares dos órgãos de justiça. Sendo também necessário melhorar a especialização dos juízes portugueses, bem como dos diferentes peritos que trabalham no combate à corrupção além de serem revistas as leis que mais originam casos de corrupção. O MLS defende ainda que deverão existir penas especialmente elevadas para crimes de “grande corrupção”. Um político ou alguém que ocupe um cargo importante na hierarquia do Estado deve dar o exemplo pela positiva e não pela negativa.

A moção sobre Liberdades Religiosas defendeu, por sua vez, que a neutralidade do Estado relativamente a todas as religiões é fundamental. O Estado não deverá financiar as actividades de qualquer religião, nem deverá reconhecer, nem deixar de reconhecer, oficialmente, qualquer religião ou grupo religioso.

Retrato de Igor Caldeira
Se alguém disser que defende uma rebelião contra a religião e as igrejas, será acusado de intolerância. Mas se o acontecimento for
Secretário de Estado do Vaticano apela à "rebelião" dos cristãos face ao laicismo
então a coisa passa relativamente despercebida.

Na "Visão" desta semana surgiu uma reportagem sobre uma “nova” organização mafiosa italiana: a ‘Ndrangheta, com origem na Calábria e que terá destronado a Cosa Nostra e a Camorra em termos de “volume de negócios” a nível internacional. “Nova” entre aspas, pois possui uma longa história mas só agora se tornou mais notada. Em parte, devido às perseguições bem sucedidas do Estado italiano contra a Cosa Nostra.

Contudo, parece existirem outros factores a motivar o sucesso da ‘Ndrangheta. Citando a Visão: “
A ‘Ndrangheta é, assim, uma organização horizontal (ao contrário da Cosa Nostra siciliana, piramidal e hierarquizada), sem chefe incontestado (melhor: com chefes intermutáveis)”

Ora, de acordo com o pensamento dicotómico cultura católica vs. cultura protestante, nas sociedades católicas as organizações bem sucedidas possuem uma estrutura piramidal e dependem de uma autoridade pessoalizada, visto reagirem mal a leis impessoais e abstractas. De facto, foi num país católico (= fragilidade estatal) que surgiram as associações mafiosas.
Mas parece não ser assim com a ‘Ndrangheta. Será a máfia calabresa um caso de adaptação dos valores das sociedades católicas, conjugando valores tradicionais como a honra e as ligações familiares com outros valores, como a organização horizontal e colegial?
Talvez possamos pensar que as sociedades de cultura católica podem sofrer transformações.