Muitos liberais consideram que a forma adequada de garantir pensões de reforma é através de um sistema baseado em poupanças individuais, capitalizadas ao longo dos anos, de forma independente, por cada um de nós. Esses liberais advogam a destruição do atual sistema, no qual os trabalhadores atualmente no ativo pagam as reformas dos atuais idosos.
Eu concordo que o sistema de poupanças capitalizadas individuais é muito mais favorável à liberdade pessoal de cada um. Cada pessoa faz as suas poupanças, investe-as da forma que deseja, e gasta-as a partir do momento que considerar adequado e ao ritmo que escolha. Isto é plena liberdade e responsabilidade individual, disso não pode haver dúvidas.
No entanto, ao contrário desses liberais, eu oponho-me a tal sistema, porque penso que ele, além de não resolver o problema de fundo - o facto de as pessoas cada vez trabalharem menos tempo da sua vida e cada vez passarem mais tempo da sua vida a viver de reformas - ainda traz acentuados malefícios.
O problema de fundo é que hoje as pessoas pretendem viver 85 anos trabalhando apenas 35. As pessoas querem entrar no mercado de trabalho aos 25 anos de idade (após um período educativo cada vez mais longo) e refomarem-se aos 60. Isto dá, só por si, pessoas que trabalham menos de metade da sua vida. Este problema de fundo não é resolvido pelo sistema de capitalização. Na melhor das hipóteses, pode-se esperar que, nesse sistema, as pessoas se sintam estimuladas a trabalhar até o mais tarde que puderem - se é que encontram quem as queira empregar.
O sistema de capitalização assume, a meu ver erradamente, que as poupanças de cada um se valorizam, acumulando um juro invariavelmente superior à taxa de inflação. Só essa crença justifica que os adeptos desse sistema acreditem que, com ele, as pessoas podem efetivamente pagar as suas reformas sem terem de para elas descontar metade de tudo aquilo que ganham. De facto, se uma pessoa quiser trabalhar dos 25 aos 60 anos de idade (35 anos no total) e depois viver ainda até aos 95 anos de idade (mais 35 anos), a pessoa terá em geral que poupar metade daquilo que aufere para poder pagar a sua reforma. Os adeptos do sistema de capitalização acham que isto não é assim, uma vez que as poupanças se valorizam inexoravelmente. Ora bem, eu no mundo à minha volta não vejo nada disso, não vejo que as poupanças se valorizem sempre, pelo contrário, observo muitas pessoas cujas poupanças vão sendo fortemente desvalorizadas por sucessivas crises financeiras e sucessivos crashes bolsistas. Se tivermos em conta a realidade palpável desses crashes, facilmente concluiremos que, num sistema de capitalização, as pessoas deveriam poupar, não metade mas até mais de metade dos seus rendimentos para poderem garantir (?) as suas reformas.
O sistema de capitalização também não nos informa sobre o que acontece às pessoas que, de alguma forma, não poupem o suficiente para os seus extra-longos períodos de reforma. Cada vez mais encontramos pessoas que vivem até aos 100 anos ou mais de idade. Essas pessoas não têm culpa de nunca mais morrerem, nem têm culpa de jamais terem previsto que iriam viver até tão tarde. Quando as poupanças realizadas se acabam - aos 80 ou 90 anos de idade da pessoa - qe se faz? Os adeptos da capitalização não no-lo dizem.
Mas, para além destas insuficiências inerentes ao sistema de capitalização, esse sistema é positivamente maléfico ao contribuir para a financiarização ainda maior da economia. Isto porque poupar para refomas é fazer poupanças a muito longo prazo - ao contrário de poupar para uma eventual situação de desemprego ou de problemas de saúde, em que a poupança é de médio prazo e tem que permanecer disponível para, a qualquer momento, ter que ser disponibilizada. Um sistema de poupança capitalizada para as reformas obriga à formação de enormíssimas quantidades (tendencialmente metade dos rendimentos das pessoas ao longo de toda a sua vida!) de capital financeiro, em busca desesperada por valorizações mais ou menos especulativas. A economia fica totalmente financiarizada, com enormes montantes de poupança que não correspondem, tendencialmente, a muito valor produtivo real. Trata-se de uma receita perfeita para cada vez mais e cada vez maiores crashes financeiros, na medida em que há cada vez mais capital financeiro em busca contínua de possibilidades de investimento rentável que, a prazo, se revelam frequentemente uma miragem.