Segurança Social

Visões sobre a segurança social.
Retrato de Luís Lavoura

Tal como seria de esperar, a proposta do governo (a mando da troika) de reduzir as pensões de reforma que foram calculadas de acordo com antigas e (para os pensionistas) muito favoráveis fórmulas fez entrar em verdadeira loucura os que serão prejudicados (isto é, aqueles que se reformaram já há bastantes anos), os quais, da direita à esquerda, de Cavaco Silva a Gomes Canotilho, disparam os mais completos disparates sobre a medida (aliás ainda incerta e desconhecida nos seus pormenores), dizendo que ela será "retroativa" (!!!) (como pode ser retroativo algo que só se aplicará a partir de agora?), inconstitucional, que violará o princípio da igualdade (!!!) (e não será esse princípio violado quando pensionistas que se reformaram em anos diferentes recebem reformas calculadas de acordo com métodos diferentes?), que atingirá cidadãos que já têm sido duramente sacrificados (de que forma?), que violará um "contrato" (o texto do qual contrato ninguém consegue mostrar, nem se sabe quem o assinou), e um sem-número de outras asneiras.

De entre todo este chorrilho, destaca-se pela honestidade e pela verdade a voz de José Silva Lopes, antigo presidente do Montepio e antigo ministro das Finanças, que, reconhecendo embora que a medida o vai atingir pessoalmente do ponto de vista financeiro, afirma que ela é imprescindível. Louvemos a clarividência e coragem quase únicas desse economista.

É preciso afirmar claramente que quem tem até agora sofrido duramente uma perda de rendimentos são sobretudo os funcionários do setor privado, que se têm visto privados dos empregos. Os reformados continuam calmamente indiferentes a este flagelo, com os seus rendimentos intocados. Esses rendimentos são hoje, frequentemente, muito superiores aos da generalidade dos trabalhadores no ativo, sendo uma barbaridade a forma como estes são esmifrados (através das contribuições para a Segurança Social e, crescentemente, através dos impostos) para sustentar níveis ostentatórios de riqueza da parte de quem já não trabalha. É preciso afirmar claramente que ter pensionistas cujas pensões de reforma são calculadas de acordo com diferentes fórmulas constitui, isso sim, uma violação grosseira do princípio da igualdade - todas as reformas devem ser calculadas de acordo com a mesma fórmula - e essa fórmula deve ser alterada, ao longo do tempo, por forma a ajustá-la àquilo que os trabalhadores no ativo conseguem efetivamente pagar.

Portugal não pode continuar a ser esta miserável gerontocracia, em que uns se refastelam em "direitos adquiridos" pagos pelo suor dos outros.

Retrato de Luís Lavoura

De alguma forma, o governo está agora a tentar ir ao bolso dos pensionistas e reformados há mais tempo, reduzindo o valor das pensões de reforma que auferem quando esse valor é considerado muito elevado. Essas tentativas do governo têm sido muito criticadas.

Em minha opinião o governo tem toda a razão nestas suas tentativas e eu espero que ele tenha muito sucesso. Muitas pensões de reforma mais antigas são escandalosamente elevadas e incomportáveis para um país no nosso atual estado. É imprescindível reduzi-las drasticamente. A prazo, todas as pensões de reforma, mesmo as de indivíduos que descontaram muito dinheiro durante a sua vida de trabalho, mesmo a de pessoas que se reformaram há muito tempo, devem sofrer a aplicação de um teto máximo, que as limite a serem inferiores a, talvez, dois ou três mil euros mensais - mas mesmo pensões desse valor só em casos excecionais devem ser pagas. Porque é totalmente inaceitável que o Estado conceda pensões de reforma superiores a tais valores.

Há quem argumente que isso constituiria a aplicação retroativa da lei; falso! Porque a redução das pensões só se fará daqui para a frente, pelo que não existe qualquer retroatividade. Há também quem argumente que isso constituirá uma quebra por parte do Estado do contrato com base no qual a Segurança Social está estabelecida; falso! Não há qualquer contrato, nunca ninguém assinou contrato nenhum com a Segurança Social. Os contratos apenas estão na imaginação, na ideia, das pessoas; na verdade não existem.

Força, governo! Corte de vez nessas pensões de reforma de dois, três, quatro e mais milhares de euros! A Segurança Social não pode continuar a ser este regabofe, este locupletar-se dos velhos com o dinheiro arduamente produzido pelos novos.

Retrato de Luís Lavoura

Usualmente, em Portugal, o debate público sobre o sistema de financiamento das pensões de reforma é restringido a duas opções: o sistema atual, ou então um sistema de capitalização baseado nas poupanças individuais de cada um.

É por isso muito instrutivo ler um artigo (em inglês) na edição desta semana do Economist, que mostra que há um outro sistema, que mistura elementos dos dois anteriores, que parece ser tão sustentável quanto possível, para o qual se pode transitar imediatamente (ou de forma gradual), que de facto já é aplicado em diversos países europeus (Suécia, Itália, Polónia, Letónia), e que recebe aplausos da parte do Banco Mundial.

O mundo afinal não é só a preto e branco.

Retrato de Luís Lavoura

Segundo entendi de um artigo na edição desta semana do Economist, o Reino Unido está em vias de introduzir um novo sistema de pensões de reforma, de radical simplicidade: a partir de daqui a alguns anos, todos os reformados passarão a receber uma pensão, idêntica para todos, de 144 libras (cerca de 180 euros) por semana. Deixará de haver uma componente da pensão de reforma proporcional ao salário do trabalhador.

A mim um tal sistema parece-me eminentemente conveniente. É simples: cada trabalhador sabe perfeitamente que pensão espera. Encoraja o trabalho: como a pensão é baixa, o reformado é encorajado a continuar a trabalhar o mais tempo que puder. Pela mesma razão, encoraja a poupança do trabalhador. Finalmente, é um sistema igualitário: todos recebem do Estado a mesma pensão de reforma.

(Naturalmente que pressuponho que também a idade a partir da qual a reforma é auferida seja a mesma para todos. Quer trabalhem até aos 50 ou até aos 80 anos de idade, todos recebem pensão de reforma estatal a partir dos 65.)

Segundo o Economist, embora a muito curto prazo este sistema vá custar mais dinheiro à Segurança Social inglesa, a longo prazo, pelo contrário, induzirá substanciais poupanças em relação ao sistema atual.

É um sistema assim que eu gostaria de ver implementado em Portugal: a mesma reforma para todos, a partir da mesma idade para todos. De acordo com a velha ideia de Friedman de um "rendimento de liberdade".

Retrato de Luís Lavoura

Aquilo que concluo da discussão na caixa de comentários deste post é que os nossos políticos locais não têm o salário que formalmente a lei lhes concede: eles têm o dobro desse salário. Ou seja, eles são pagos principescamente bem.

De facto, o que a lei diz é que qualquer político municipal, desde que ocupe o lugar (de vereador ou presidente de Câmara) por mais de seis anos, tem o direito a que o seu tempo de serviço seja contado a dobrar para efeitos de aposentação, o que na prática quer dizer que se poderá reformar tantos anos mais cedo quantos os anos que serviu como político municipal. Por exemplo, uma pessoa que tenha servido durante três mandatos como vereador de uma Câmara Municipal (um caso em que, penso eu, muitas pessoas estão incluídas) terá cumprido doze anos de trabalho como vereadora e portanto poder-se-á reformar doze anos mais cedo do que a idade normal. O que quer dizer que, além dos doze anos de salário de vereador, auferirá mais doze anos a viver à custa da Caixa Geral de Aposentações, isto é, dos contribuintes. Temos portanto que a generalidade (ou pelo menos uma boa parte) dos vereadores municipais recebe salário a dobrar.

Uma iniquidade e uma pouca-vergonha, é o que isto é.

Retrato de Luís Lavoura

A presidente da Câmara Municipal de Palmela vai, em fevereiro, reformar-se, com 47 anos de idade e 26 de trabalho (começou a trabalhar aos 20). Totalmente de acordo com a lei, segundo somos informados.

Entretanto, a porteira do meu prédio, que começou a trabalhar aos 18, está (ansiosamente) à espera de atingir os 67 de idade para se reformar.

Eu julgava que já tivessem sido alteradas as iníquas leis da reforma (que nem sei quais sejam) que permitem que tal se passe, que uma pessoa se reforme com tal idade. Pelos vistos, ainda não foram. De que está a Assembleia da República à espera?

A Segurança Social estatal só deveria fornecer pensões de reforma a partir dos 65 a 70 anos de idade. Independentemente da idade com a qual as pessoas tivessem decidido deixar de trabalhar.

Retrato de Igor Caldeira

Estranhos factos: entre 1995 e 2007 a desigualdade económica, atravessando mais e uma década de governos de Esquerda e de Direita, manteve-se inalterada. 

Só com a crise económica é que nos fomos tornando num país mais igualitário.
Índice de Gini, 1995-2011

 

Em 2005 os 20% mais ricos ganhavam 7 vezes mais que os 20% mais pobres. Em 2011, ganhavam apenas 5,7 vezes mais. De uma diferença de 2 (EU 5, PT 7) passámos a apenas 0,6 (5,1; 5,7). Parece que a crise tem doído mais a quem mais ganha. Quem diria?

Desigualdade na distribuição do rendimento (S80/S20)

Retrato de Luís Lavoura

O orçamento de Estado de 2013 contem uma medida muito acertada, a qual aliás talvez seja a única medida acertada que contem: impõe um imposto especial, suplementar, às pensões de reforma mais elevadas.
Essa medida é acertada porque é necessária, porque é justa, e porque está de acordo com aquilo que a Segurança Social pública (SSp) deve ser.
É uma medida necessária porque, a longo prazo, a SSp não pode arcar com as pensões de reforma muito elevadas, as quais, embora sejam relativamente poucas, tendem a crescer rapidamente em número.
É uma medida justa porque as pessoas que auferem essas pensões o fazem, frequentemente, mercê de favores feitos pelo poder político às classes sociais às quais pertencem, não tendo jamais, ao longo da sua vida ativa, descontado para a SSp valores que justifiquem e sustentem tais pensões.
Finalmente, é uma medida que está de acordo com aquilo que a SSp deve ser, dado que a SSp só deve fornecer reformas de um valor mínimo (digamos, até 1000 ou 1500 euros mensais), devendo o restante da reforma ser proporcionado pelas próprias poupanças do reformado. Sendo que, apesar de a atual SSp não se guiar por esta visão, para lá deveria caminhar progressivamente.
Apesar de esta medida ser acertada, justa, necessária e totalmente apropriada, ela será com toda a probabilidade declarada inconstitucional pelo Tribunal Constitucional. Este, julgando em causa própria dado que muitos juízes auferem reformas chorudas (conheci um que, há uma dezena de anos, recebia 3000 euros mensais), declarará quiçá que a medida viola o princípio da confiança, o princípio da unicidade do imposto, ou o princípio da proporcionalidade do imposto - qualquer coisa, ou todas elas juntas. Vai ser tiro e queda.

Retrato de David Cruz

A natalidade está a diminuir e a população está a envelhecer. Os diversos quadrantes políticos e a sociedade civil são unânimes em classificar esta questão como problemática, sendo sugerido o recurso a medidas de incentivo aos nascimentos: flexibilização do horário de trabalho, extensão da duração da licença de parentalidade, atribuição de subsídios, reforço do abono de família, suavização da carga fiscal para as famílias numerosas, entre outras medidas, que, na verdade, devem ser interpretadas como políticas de suporte familiar do que propriamente políticas natalistas, devido ao insucesso demográfico das mesmas nos países em que foram aplicadas. Prevalece, ainda, a noção de que estas propostas não devem ser descartadas, inclusive, em períodos de crise orçamental, na medida em que constituem um investimento.

O erro destas políticas está em pressupor que os indivíduos não possuem qualquer limiar quanto ao número máximo de filhos desejados. Um inquérito recente do Eurobarómetro sobre Fecundidade e Clima Social indicou que em Portugal é idealizada uma média de dois filhos por pessoa. Isto significa que, após três décadas de fecundidade abaixo do nível de renovação geracional, mesmo num cenário de ausência de quaisquer constrangimentos reprodutivos o envelhecimento da população é uma inevitabilidade. Incentivar a natalidade para um patamar que evite o envelhecimento assemelha-se, ideologicamente, à política do “filho único” praticada na China, constituindo uma intromissão grave na esfera privada dos cidadãos.

Não sendo o problema demográfico, importa adaptar as políticas a uma nova realidade etária. O sistema de pensões vigente é fracamente insustentável, pois o número de contribuintes para a segurança social encontra-se progressivamente a diminuir, enquanto o número de beneficiários está gradualmente a aumentar. Neste âmbito, assinala-se o caso da Suíça, no qual é determinado um máximo na componente pública de pensão correspondente a um nível de qualidade de vida mínimo, sendo a restante componente da reforma de responsabilidade individual. Trata-se de uma intervenção que deverá ser acompanhada por uma redução da carga fiscal, de modo a que seja possibilitada a poupança.

[Também no Contruir Sociedade]

No seguimento do post anterior, e considerando o desaparecimento das reformas como hoje as concebemos, deixaria de haver descontos para a segurança social.

Ainda sobre a questão das reformas, poderia o estado manter um seguro, mas não obrigatório.

Penso que seria assim preferível que os custos da educação e saúde e outros custos sociais, nomeadamente as pensões, fossem pagos pelo orçamento geral do estado. Seriam os impostos em geral a cobrir esses custos.

Assegurar a saúde (a saúde é uma condição praticamente imprevisível) e a educação (ferramenta para o indivíduo poder ultrapassar condicionalismos à nascença), serão funções do estado.