Sociedade

Entradas que tenham a ver com questões de evolução social, tradições, etc.
Retrato de Luís Lavoura

Ontem fui a um concerto. Antes de ele começar, servi-me da casa de banho. Como de costume, à porta da casa de banho das mulheres havia uma fila de gente à espera. Espreitando para dentro dessa casa de banho (os construtores portugueses têm quase sempre a arte de fazerem casas de banho com um supremo grau de privacidade, que permitem a qualquer um espreitar lá para dentro), vi que tinha três sanitas. A dos homens, tinha duas sanitas e dois urinóis.

Eu não entendo esta falta de lógica das casas de banho. Metade da população são mulheres. De onde, nas casas de banho deveria haver pelo menos tantas sanitas para as mulheres quanto há sanitas e urinóis (tudo junto) para os homens. Assim, se a casa de banho dos homens tem duas sanitas e dois urinóis, a das mulheres deveria ter, no mínimo, quatro sanitas - não somente três. Mas, por diversos motivos, as mulheres demoram mais tempo a fazer as suas necessidades do que os homens, pelo que, de facto, o número de sanitas destinadas às mulheres deveria ser, talvez, 50% superior ao número de sanitas e urinóis destinados aos homens.

As casas de banho públicas deveriam ser semple planeadas com a casa de banho das mulheres com, pelo menos, o dobro da superfície da dos homens. Se para os homens bastam uma sanita e um urinol, para as mulheres são precisas quatro sanitas. Se para os homens é preciso acrescentar um urinol extra, então para as mulheres devem ser adicionadas duas sanitas extra.

Só assim deixará de haver bichas para a casa de banho das mulheres. Ou, pelo menos, as bichas para a dos homens serão do mesmo tamanho que para a das mulheres.

Igualdade não é fazer para os homens e para as mulheres casas de banho com áreas iguais. Igualdade é permitir que homens e mulheres tenham o mesmo tempo, ou a mesma falta dele, para fazerem em descanso as suas necessidades.

Retrato de Luís Lavoura

Deu muito brado durante as últimas semanas da silly season o facto de a Porto Editora ter editado uns livros de atividades para meninos da pré-primária com distinção entre os sexos - uns livros para meninos, outros para meninas.

Não me pronuncio sobre o conteúdo dos livros, que desconheço.

O que questiono é a necessidade ou conveniência de editar dois livros diferentes. Já tenho dois filhos, os quais andaram em infantários, os infantários não eram separados por sexos, meninos e meninas eram supostos, no infantário, praticar as mesmas atividades e brincadeiras. Nunca ouvi referir qualquer conveniência de, em tão tenra idade, fazer meninos e meninas praticarem exercícios ou atividades distintos.

Editar dois livros é certamente mais caro do que editar apenas um. Dá mais trabalho, as tiragens são menores e os custos de distribuição são maiores. Para que se deu a Porto Editora a mais trabalho e despesa sem qualquer necessidade didática que o justificasse? (Se houvesse necessidade didática, então também haveria infantários segregados por sexo. Ou então, mesmo nos infantários não segregados, as educadoras atribuiriam atividades diferentes aos meninos e às meninas.)

A razão é simples: o mercado. A Porto Editora sabe, ou julga saber, que há pais que querem dar uma educação supostamente diferenciada aos seus rebentos. Que há pais que querem explicitamente que os seus filhos realizem atividades e tenham livros supostamente adequados ao seu sexo.

O problema não está na Porto Editora. O problema está nos adultos que compram estes livros para as suas crianças. São eles que são sexistas. A Porto Editora limita-se a pressentir a existência de um mercado para o sexismo e a explorar esse mercado.

Retrato de Luís Lavoura

Suponhamos que, num dia de nevoeiro, ocorre um choque em cadeia numa autoestrada. Depois do choque, na confusão, ainda algumas pessoas são atropeladas ao saírem dos seus carros. Ademais, umas tantas pessoas morrem ainda nas ambulâncias ou nos hospitais.

É evidente que, para as pessoas individualmente envolvidas neste desastre e para os seus familiares, interessa muito se elas morreram ou não. Porém, para a sociedade em geral, não interessa nada se neste choque em cadeia morreram exatamente 15 ou 20 ou 25 pessoas. Só interessa que foi um desastre muito grave e que se gostaria de evitar que voltasse a acontecer. Interessa também, estatisticamente, saber se este tipo de desastre é muito frequente ou se não passa de uma infeliz raridade.

Aquilo que se diz para um choque em cadeia numa autoestrada também é verdade para um incêndio florestal. À sociedade interessa pouco qual o número exato de mortes num determinado incêndio florestal. Apenas interessa saber se é ou não muito frequente que morram pessoas em incêndios florestais, e que medidas podem ser tomadas para que não voltem a morrer pessoas em incêndios florestais.

Retrato de Luís Lavoura

Em tempos, derrubar aviões era um dos principais objetivos de grupos terroristas. Mas pôr uma bomba num avião é muito complicado. Hoje em dia há uma forma mais fácil e barata de derrubar aviões: fazer um drone entrar pelo motor do avião adentro em pleno vôo.

As autoridades portuguesas continuam a prestar muita atenção à possibilidade de alguém levar uma bomba para dentro de um avião. Mas desconsideram a possibilidade do drone. Um dia destes um avião cai quando vai aterrar em Portugal. O dano que isso fará ao turismo português será maior do que o de um qualquer atentado terrorista na Tunísia ou na Turquia.

Retrato de Luís Lavoura

É mais que sabido que um dos grandes problemas com os incêndios florestais em Portugal é a existência desordenada de aldeias e, mesmo, de casas isoladas no meio da floresta. Invariavelmente, os bombeiros desistem de combater os fogos no meio da floresta, postam-se junto às aldeias ou casas isoladas e procuram protegê-las apenas a elas. A floresta é deixada arder.

Perante esta realidade, seria desejável que o Estado tivesse algumas políticas, tímidas que fossem, no sentido de incentivar as pessoas a abandonar as aldeias e irem viver para as vilas.

O fogo que recentemente queimou o "pinhal interior", e que destruiu bastantes casas e aldeias, poderia constituir uma oportunidade para implementar tal política. O Estado poderia decidir ajudar as pessoas a reconstruírem a sua casa, mas com a condição de só o fazer se a casa fosse construída na vila. (Quem dá dinheiro tem o direito de impôr condições.)

Mas tudo se encaminha no sentido de que assim não será. O Estado vai ajudar as pessoas a reconstruírem a sua casa na sua aldeia. Aldeias com 10, 20 ou 30 habitantes vão portanto ser restauradas. Continuará a haver segundas habitações no meio do eucaliptal, segundas habitações essas que os bombeiros tentarão a todo o custo proteger, em detrimento da floresta. Pessoas continuarão a viver isoladas no meio das árvores, com todos os custos que isso implica, porque não prescindem de estar perto das suas hortas.

O erro vai-se repetir. O Estado não deveria continuar a ajudar as pessoas a morar onde muito bem lhes apeteça.

Retrato de Luís Lavoura

Lemos que durante os recentes incêndios as autoridades evacuaram dezenas de aldeias, e ficamos impressionados com o imenso trabalho que as autoridades tiveram a evacuar tantas aldeias.

Mas, na verdade, cada uma dessas "aldeias" consiste hoje em meia-dúzia de casas habitadas, em média. É pouca gente.

A minha questão, porém, é: já agora, que se teve tanto trabalho em evacuar essas aldeias todas, não seria boa ideia tentar impedir que os habitantes a elas regressem? É que esta coisa de ter milhentas povoações de minúsculo tamanho é altamente prejudicial para um combate eficaz aos incêndios (os bombeiros gastam imenso tempo e esforço a procurar defender pequenos aglomerados dispersos de casas, em vez de estarem efetivamente a combater o fogo em geral) e constitui um grave risco para as próprias populações das aldeias.

Eu bem sei que se trata em grande parte de velhos casmurros, que não querem nem por nada abandonar a terreola onde sempre viveram. Mas é preciso alguém que tenha a coragem de meter juízo na cabeça dessa gente!

Retrato de Luís Lavoura

Portugal teve em tempos muito baixo prestígio junto dos franceses - era o país pobre e atrasado que fornecia as porteiras aos prédios parisienses, Mas hoje o prestígio de Portugal em França está muito em alta, como se vê pelo crescimento exponencial do número de turistas franceses em Portugal. E como se vê pelo facto de, no próximo ano, os dois clubes de futebol primeiros classificados no campeonato francês irem ambos ser treinados por portugueses - Leonardo Jardim no Mónaco, Jorge Jesus em Paris.

Retrato de Luís Lavoura

Volta e meia nos EUA há um indivíduo que decide fazer uma chacina, baleando indiscriminadamente uma série de pessoas antes de ser ele próprio abatido pela polícia, ou então de se suicidar. O caso não é classificado como terrorismo mas sim como o resultado de uma forma de desequilíbrio mental, conjugado com a fácil disponibilidade de armas de fogo nos EUA. Como não é terrorismo, o ato tresloucado merece atenção moderada e rapidamente desaparece da atenção pública.

Há dois dias um caso similar aconteceu em Londres. Em vez de se usar uma arma de fogo utilizou-se um carro, que demonstrou ser um instrumento de morte bastante menos eficaz. O caso foi classificado como terrorismo, o que lhe deu uma repercussão muito maior. Mas, no fundo, não passou do mesmo tipo de ato que regularmente ocorre nos EUA: um desequilibrado mental que decide fazer uma mortandade antes de ser ele mesmo morto.

É naturalmente lamentável que ocorram estas coisas. Mas não me parece que classificá-las como "terrorismo" ajude em nada a eliminá-las. Só aumenta a repercussão delas, e contribui para dar ao Estado o poder para nos submeter a cada vez mais medidas securitárias.

Retrato de Luís Lavoura

Várias pessoas dizem que é preciso resolver o problema das grandes migrações internacionais eliminando as suas causas, nomeadamente, promovendo o desenvolvimento dos países mais pobres.

Mas isto é falso. A migração internacional custa muito dinheiro e raramente são os mais pobres quem emigra. As pessoas só começam a emigrar maciçamente quando saem da miséria. (Por exemplo, em Portugal emigrou-se mais na década de 1960, precisamente quando o país estava a enriquecer de forma acelerada.) Se há hoje muitos chineses e muitos bengalis em Portugal, isso deve-se em grande parte a a China e o Bangladeche serem hoje muito menos pobres do que eram há algumas décadas.

As grandes migrações internacionais são sinal de alguma riqueza, não de miséria absoluta. Eliminar a miséria só trará mais migrações, não menos.

Retrato de Luís Lavoura

O Estado pretende resolver o problema das rendas baixas nas cidades permitindo que as rendas subam, mas atribuindo aos inquilinos pobres subsídios que lhes permitam pagar a renda.

Em minha opinião, esta ideia não tem pernas para andar. Uma renda baixa nas cidades de Lisboa ou Porto é de, tipicamente, 100 euros. A renda de mercado numa dessas cidades é de, tipicamente, 500 euros. Seria portanto necessário fornecer ao inquilino um subsídio mensal de 400 euros para lhe permitir habitar a sua casa com uma renda de mercado. É evidente que o Estado não tem possibilidades de subsidiar algumas dezenas de milhares de famílias ao ritmo de 400 euros mensais!

Eu penso que a ideia do subsídio está correta, mas tem que se lhe colocar um teto máximo: 100 euros por mês. Permite-se que as rendas todas sejam liberalizadas - isto é, que aumentem para o seu valor de mercado - mas fornece-se aos inquilinos pobres um subsídio que não pode ultrapassar os 100 euros mensais.

Qual será o efeito prático disto? Uma vez que uma renda em Lisboa ou Porto é de 500 euros mensais, os inquilinos pobres não poderão continuar a viver nessas cidades. Porém, fora das cidades, em aldeias, facilmente se arranja um apartamento por 150 euros mensais. Os inquilinos idosos e que já não têm razão de trabalho para residir em Lisboa ou Porto serão portanto, na prática, forçados a "sair da sua zona de conforto", na expressão de Pedro Passos Coelho, e a ir viver para a província. O que não será uma coisa assim tão dramática pois, de facto, no passado muitos desses inquilinos pobres viveram na província - na sua juventude, antes de migrarem para Lisboa ou Porto.

Irão falecer lá onde nasceram.