António Bagão Félix, João César das Neves e Pedro Quartim Graça são alguns dos principais signatários de uma petição pública à Assembleia da República, designada «Defender o Futuro», que pretende contestar as leis do casamento entre pessoas do mesmo sexo, aborto, divórcio, procriação medicamente assistida, entre outras. O presente artigo não pretende discutir as leis em questão, mas assinalar uma incoerência grave que se encontra nos princípios da petição.
Segundo os autores, a legislação que regula a procriação medicamente assistida, onde se incluem as técnicas de inseminação artificial e de fertilização in vitro, enquadra-se num conjunto de leis que “têm vindo a corroer o tecido social do país”. Na mesma página da petição, defende-se “uma política de responsabilidade e solidariedade expressa em leis que (…) protejam e promovam a natalidade”. Na verdade, a demonstração de reservas quanto à aplicação das técnicas de procriação medicamente assistida não é, de todo, congruente com o interesse de incrementar o número de nascimentos.
Para além da diminuição da descendência média, a maternidade tardia constitui uma das principais tendências reprodutivas que se têm vindo a acentuar, nos últimos anos, em Portugal. Neste âmbito, os dados estatísticos são elucidativos: se no início da década de 1980 a idade média da mãe da mãe ao nascimento do primeiro filho se encontrava nos 23 anos, na actualidade aproxima-se dos 30 anos; e se em 1995 os nascimentos de mães com 35 e mais anos representavam apenas 10% do total de nados vivos, em 2011 representaram cerca de 24%. É plausível que quer a idade média da mãe ao nascimento ao primeiro, quer a percentagem de nascimentos de mães com 35 e mais anos, continuem, substancialmente, a aumentar.
No entanto, a afirmação da maternidade tardia é incompatível com a deterioração da capacidade humana reprodutiva que tende a acentuar-se com a idade. Verifica-se, no caso das mulheres, um agravamento substancial na transição da casa dos trinta para os quarenta anos. Deste modo, é expectável que se assista, nas próximas décadas, a um incremento significativo dos diagnósticos de infertilidade. É precisamente neste campo que a procriação medicamente assistida pode desempenhar um papel crucial, através do prolongamento na idade dos limites biológicos para a reprodução. Em suma, estas técnicas potenciam a conciliação de duas tendências inicialmente opostas: uma de natureza biológica, outra de carácter sociocultural.
Publicado no Nove por Dez
















