Sociedade

Entradas que tenham a ver com questões de evolução social, tradições, etc.
Retrato de Luís Lavoura

No seguimento da apresentação do PEC, diversos comentadores têm afirmado que a restrição nele prevista a algumas deduções fiscais constitui um ataque à classe média.

Isto é uma frase populista. Acontece que "classe média" é um conceito muito mal definido, em particular porque quase toda a gente gosta de dizer que pertence à classe média. Fica muito mal uma pessoa dizer que pertence à classe baixa mas também é pouco elegante dizer-se que se pertence à classe alta, pelo que toda a gente que se quer bem acaba por dizer que pertence à classe média. A classe média acaba pois por abarcar uma imensidão de gente, e é facilitista qualquer um argumentar que o Estado está a atacar uma coisa tão grande e informe como seja a classe média.

Recentemente houve na blogosfera uma discussão sobre "classe média" entre Fernanda Câncio (FC) e Luís Aguiar-Conraria (LAC). FC afirmou que quase todas as pessoas da classe média hoje em dia têm ao seu serviço uma mulher-a-dias. LAC contrapôs que os rendimentos da classe média em Portugal são de tal forma baixos que não dão para contratar uma mulher-a-dias.

O cerne da argumentação de LAC é que, fazendo a média dos rendimentos em Portugal, a classe média em Portugal é constituída por pessoas que ganham qualquer coisa como 750 euros por mês. As pessoas que ganham 1500 euros por mês não são portanto da classe média - são da classe alta. As pessoas de quem FC falava, que têm uma mulher-a-dias para as ajudar nos afazeres caseiros, não são de facto classe média - são classe alta.

O corte nos benefícios fiscais que o governo agora pretende implementar constitui, suspeito eu, precisamente um ataque à classe alta - não à classe média. Porque em Portugal a classe média não tem dinheiro para pôr os filhos numa escola privada e dificilmente tem dinheiro para efetuar despesas em saúde que ultrapassem as compras de alguns fármacos.

Seria bom que os comentadores aceitassem que, quando falam em classe média, estão de facto, tal como FC, a referir-se sobretudo a pessoas da classe alta.

Retrato de artur baptista

Aanlisando o PEC e prospectivando as suas linhas mestras, tentando ir um pouco mais longe do que a mera análise financeira, fica claro para mim que está implicito uma mudança de Modelo.

No principio foi o ataque aos chamados "gestores". E quem são eles? Como eu tenho como profissão o de Gestor Contratado posso bem falar com conhecimento de causa. São então profissionais com uma sólida base de habilitações literárias, normalmente com uma licenciatura complementada com mestrados e pós-graduações (pagas normalmente com dinheiro proprio ou da familia) e com vontade de vencer. Essa vontade obrigou a muitas horas de trabalho, e acima de tudo a ter de tomar decisões que implicavam risco, já que se trabalha para os detentores de capital que não admitem erros. Portanto o erro capital desses gestores foi o de aceitarem tomar decisões, expondo-se e expondo a sua familia a um nivel de risco elevado (se por exemplo são também nomeados Gerentes, deixam de ter direito a subsidio de desemprego). Outro erro capital é de serem ambiciosos e empreendedores. Chegados aqui e com salários que tem de remunerar todos estes riscos e nivel de responsabildiade, são aqueles que são chamados a ter o maior esforço financeiro de tal forma que se chega a um corte directo de 45% do seu rendimento anual (se somarmos os 11% de Segurança Social, torna-se um valor de 56% para o Estado de forma directa!).

Ao mesmo tempo permite-se que a função publica obtenha direitos só porque existe baseados nas famosas "carreiras", mesmo que tenham nivel de Bom nas suas avaliações e mesmo no caso de não serem necessários em determinadas áreas. São os chamados "direitos adquiridos".

Numa palavra, para mim fica mais uma vez claro - o Modelo de Portugal é o de manter os direitos da Administração Publica a todo o custo, mesmo esvasiando a iniciativa privada, o empreendorismo e a ambição.

Flarei depois do Lucro - outra palavra que vai influenciar o Modelo.

Retrato de Luís Lavoura

Os Açores são um arquipélago constituído por nove ilhas. Todas as nove ilhas são diferentes, claro, mas há uma que é mais diferente do que as outras: São Miguel. São Miguel é a maior das nove ilhas e tem metade da população dos Açores. Ou seja, de todas as outras oito ilhas, só uma - a Terceira - tem população vagamente comparável à de São Miguel mas, mesmo assim, todas elas oito juntas não ultrapassam a população de São Miguel. São Miguel tem também uma sociedade muito mais desigual do que a das restantes oito ilhas - enquanto que nelas prevalece a igualdade de rendimentos, e uma grande entreajuda entre a população, em São Miguel há grandes extremos de pobreza e riqueza. As famílias açorianas muito ricas são todas de São Miguel, e os horríveis extremos de pobreza nos Açores são também todos encontrados em São Miguel (essencialmente nas partes norte e leste da ilha). Uma outra curiosidade de São Miguel é que os seus habitantes falam com uma pronúncia muito acentuada e caraterística, parecida à pronúncia madeirense e, nos casos mais extremos, quase incompreensível para os portugueses do Continente, enquanto que em todas as outras oito ilhas as pronúncias dificilmente são distinguíveis da pronúncia portuguesa padrão.

Dadas estas singularidades de São Miguel relativamente a todas as outras ilhas, não pode deixar de ser peculiar o seguinte. Qualquer natural dos Açores, com exceção dos de São Miguel, diz tipicamente "eu sou da ilha X", mas os micaelenses sistematicamente dizem "eu sou dos Açores". Ou seja, São Miguel identifica-se sempre com "os Açores", enquanto que todas as outras oito ilhas se singularizam a si mesmas. Se alguém diz que é dos Açores, é certo e sabido que é de São Miguel; qualquer habitante das outras oito ilhas dirá de que ilha é, jamais dirá apenas que é dos Açores.

Esta peculiaridade foi horrivelmente visível nas recentes reportagens sobre um autocarro caído por uma ribanceira abaixo na zona nordeste de São Miguel - não por coincidência, uma das zonas mais pobres de Portugal. Há ribanceiras em todas as ilhas açorianas, e um acidente destes é muito diferente consoante ocorra numa ilha pequena, como as Flores ou a Graciosa, onde todas as pessoas se conhecem entre si, ou numa ilha grande e impessoal como São Miguel. O mínimo que se exigiria seria, enfim, que as reportagens dissessem que o desastre ocorreu em São Miguel, para localizar com alguma precisão. Mas não: as reportagens disseram sistematicamente que "nos Açores um autocarro caiu por uma ribanceira" e tivemos que esperar até ouvir a típica pronúncia de um habitante local a falar para percebermos que o desastre ocorrera em São Miguel.

Seria pedir de mais, que os micaelenses mudassem os seus hábitos e passassem a identificar a ilha de que são naturais em vez de se refugiarem no "sou dos Açores". Mas pode-se exigir dos mídia nacionais que não adoptem este procedimento de confundir São Miguel com os Açores. Quando algo ocorre em São Miguel, deve-se dizer onde ocorreu, e em particular em que ilha ocorreu - não se deve dizer apenas "nos Açores".

Retrato de Luís Lavoura

O ministro da agricultura português foi recentemente à maior feira europeia de produtos hortícolas e frutícolas, que se realiza em Berlim (*). A delegação portuguesa nessa feira foi, ao que se diz, paupérrima. De lá, o ministro da agricultura mandou o recado de que a agricultura hortofrutícola portuguesa, evidentemente, não pode competir em quantidade com a restante agricultura europeia, pelo que tem que apostar somente na qualidade dos produtos portugueses.

Não pode competir em quantidade? Por quê? O ministro não especificou. Portugal é, certamente, um país relativamente pequeno. Mas a Holanda, que também é um país bem pequeno, compete em quantidade - por exemplo, produz tomates para toda a Alemanha. Não é por Portugal ser mais pequeno do que a Espanha que não pode competir em quantidade. Por exemplo, no setor da cortiça Portugal compete em quantidade com a Espanha e com os outros países.

A tragédia da agricultura hortofrutícola portuguesa, que o ministro não especificou, é o minifúndio. É essa a tragédia do nosso mundo rural. Com exceção do Alentejo e, parcialmente, do Ribatejo, a nossa paisagem agrícola está retalhada pelo minifúndio, o qual impede uma gestão e uma produção em quantidade. As melhores zonas para a produção de hortícolas e frutas - o Algarve, a Extremadura, a Beira Alta - estão todas retalhadas em propriedades de meio hectare ou um hectare. E, é claro, com um tal regime de propriedade, Portugal jamais poderá competir em quantidade.

(*) Para todos os efeitos práticos, Berlim reassumiu, e cada vez mais reassume, o lugar de capital económica e cultural da Europa, que foi o seu até à Primeira Guerra Mundial.

Retrato de Luís Lavoura

Nos tempos de António Guterres - o tempo da bolha das dot-com - o Estado propagandeou as maravilhas da nova economia baseada na internet. Todas as pessoas eram supostas ir passar a fazer o essencial das suas compras pela internet. Lembro-me de uma iniciativa patrocinada pelo Estado, na qual 15 pessoas foram fechadas durante dois meses num barco ancorado algures, sem qualquer contacto com o mundo exterior exceto a internet e os seus cartões de crédito, para demonstrar como essas pessoas podiam, a partir do barco, comprar tudo aquilo de que necessitassem.

Hoje ficamos a saber que o Estado português está muito preocupado por, aparentemente, 6% dos portugueses comprarem medicamentos pela internet. O Estado diz que isso é um perigo para a saúde, que os medicamentos são frequentemente contrafeitos, etc. Isto deixa-me perplexo. Então nós não éramos supostos passarmos a fazer todas as nossas compras pela internet? Se podemos comprar na internet camisas (possivelmente contrafeitas), salsichas (possivelmente contrafeitas), máquinas de barbear (possivelmente contrafeitas), ou Corn Flakes enriquecidos com cálcio (possivelmente contrafeitos), por que motivos não haveremos também de comprar pela internet vitaminas ou antidepressivos, igualmente possivelmente contrafeitos?

Cheira-me que há aqui uma não pequena dose de protecionismo, não só do Estado português, mas dos Estados a nível mundial. A favor do negócio dos médicos e das farmácias.

Curiosa a noticia do Jornal O Público sobre a condecoração a Pedro Santana Lopes:

"No seu curto discurso, Cavaco Silva sentiu necessidade de justificar a tardia condecoração a Santa Lopes, lembrando que estava a “cumprir o dever e a tradição de condecorar” pessoas que desempenharam funções de relevo na vida política portuguesa."

em http://www.publico.pt/Política/santana-lopes-dedica-condecoracao-a-sua-equipa-de-governo_1418629

Portanto, parece que as condecorações devem ser atribuidas a todos os que passam por funções de relevo, independetemente dos méritos e excelências de cada um.

Mas não é essa a ideia que o portal das "AS ORDENS HONORÍFICAS PORTUGUESAS" (em http://www.ordens.presidencia.pt/portugues.htm ) transmite. Depois de ler fiquei com a percepção que as condecorações têm por base o mérito.

Será que não foi sempre assim?
Ou será que é o actual Presidente da República Cavaco Silva que está enganado ao pensar que a atribuição deve-se à tradição?
Ou está com o peso na consciência e não quer ser acusado de politicamente incorrecto?
Ou até está a comprar o apoio de Santana Lopes dentro do PSD?

Tantas questões e tão pouco mérito...

Retrato de Luís Lavoura

Vi ontem na televisão, em parte, mais um dos programas de José Hermano Saraiva. Não posso deixar de louvar o homem. Vi agora na wikipedia que já tem 90 anos de idade, e isso nota-se: a figura está deveras decrépita, as mãos tremem-lhe visivelmente e a fala já não é perfeita, custando um pouco entender o que diz. Mas continua ativamente a trabalhar, a realizar os seus programas televisivos sobre os municípios de Portugal, sua história e arte, programas que considero bem interessantes. É notável a capacidade, a tenacidade e a força de trabalho deste homem. Assim continue.

Retrato de Luís Lavoura

Os empresários portugueses gostariam de diminuir o número de feriados oficiais em Portugal, começando por eliminar o feriado do primeiro de Dezembro. Compreendendo a preocupação dos empresários portugueses, penso que eles escolhem, todavia, mal o dia, por duas razões: primeiro, porque já hoje o setor comercial em peso trabalha no dia primeiro de Dezembro, ou seja, esse feriado já hoje não é respeitado por muitos; segundo, porque em dois de cada sete anos o primeiro de Dezembro calha ao fim-de-semana, ou seja, esse feriado é de qualquer forma inútil em quase um terço dos anos.

Seria muito mais eficiente eliminar o feriado do dia do Corpo de Deus, que (1) é repeitado tanto pelo setor comercial como pelo industrial, (2) é todos os anos numa quinta-feira, ou seja é sempre num dia de trabalho, e (3) pelo facto de ser numa quinta-feira, dá sempre azo a "pontes", ou seja, a mais um dia de trabalho perdido.

Mas é claro que os empresários portugueses não se querem meter em temas fraturantes - eliminar feriados católicos, nem pensar! Mesmo quando três quartos da população do país já hoje se está a marimbar para o caráter católico desses feriados.

Retrato de Luís Lavoura

Antes do 25 de Abril a lei determinava que, aquando do casamento, a mulher deveria adicionar ao seu nome o apelido do marido. O marido, esse, não adicionava ao seu nome o apelido da mulher. Assim se plasmava na lei uma velha tradição social.

Depois do 25 de Abril a Constituição obrigou a que a Lei não discriminasse entre os sexos. Isso obrigou a alterar a lei acima referida. Passou a ser possível, mas não obrigatório, tanto a homens como a mulheres aquando do casamento adicionar ao seu nome o apelido do cônjuge. Naturalmente que a nova determinação legal causou confusão e repulsa a muito boa gente. Durante os primeiros tempos muitas mulheres foram pressioandas pelas autoridades a seguir a tradição, mesmo quando declaravam não querer adicionar ao seu nome o apelido do marido. A lei veio ao arrepio da tradição e dos hábitos sociais. Mas teve que ser, porque a Consituição a isso obrigava.(*)

Infelizmente, nessa altura não se reparou que a própria definição do casamento como sendo a união entre um homem e uma mulher viola, ela mesma, a Constituição. Pois que, se constitucionalmente os dois sexos são equivalentes, se a Lei os deve encarar de forma indiferente e igual, então o casamento pode ser entre dois quaisquer cidadãos, independentemente do sexo deles. Ou seja, o próprio conceito tradicional de casamento encontra-se em contradição com o preceito constitucional de que a Lei não pode discriminar entre os sexos.

Urge colocar a Lei de acordo com a Constituição, como deve ser. O casamento deve, tal como qualquer outro contrato, estar aberto a quaisquer dois cidadãos, sem quaisquer discriminações - incluindo a discriminação dos sexos destes. Naturalmente que esta alteração dalLei chocará com a tradição e causará confusão, e até repulsa, a muito boa gente. Mas tem que ser. A Constituição impõe a não-discriminação dos cidadãos pelo Estado, em particular a não-discriminação em função do sexo. Cada qual, seja homem ou mulher, deve portanto ter a liberdade de se casar com quem quiser (e pelos motivos que quiser), seja homem ou mulher.

A Lei, por imperativos constitucionais, necessita frequentemente de se separar da tradição.

(*) Curiosamente, embora a não-discriminação entre os sexos esteja plasmada na generalidade das constituições das democracias liberais, em muitas delas a lei do casamento continua a não respeitar esse princípio. Ainda hoje, ao que julgo, a generalidade das mulheres é forçada a adoptar o nome do marido quando se casa, pelo menos em países de tradição germânica. É por isso que as mulheres alemãs costumam ter dois apelidos, separados por um hífen: um é o seu apelido de família, o outro é o apelido do marido. Não é só em Portugal que se torna necessário encarar com mais seriedade os preceitos constitucionais e obrigar a Lei a conformar-se a eles.

Retrato de Luís Lavoura

Oliveira de Azeméis é terra do país conservador. Fica situada aos pés do monte da Senhora de La Salette, que dá o nome a muitas mulheres portuguesas. Não deixa de ser portanto surpreendente a notícia que de lá chega.

Esclarecedor: a duas crianças, irmãs, já conscientes e com capacidade de optar (de 5 e 8 anos), foi dada a opção - continuar a viver na instituição que as acolhia, ou ir viver com um tio homossexual e com o seu companheiro (em união de facto). E as crianças escolheram o tio e o seu companheiro. E, mais notável do que essa escolha - o Tribunal de Família de Oliveira de Azeméis anuiu.

(É claro que as crianças escolheram mal. Vão ser terrivelmente discriminadas pelos seus colegas de escola quando estes descobrirem que elas vivem com dois homens. É evidente que seria mil vezes preferível para as crianças continuar a viver numa instituição, onde, naturalmente, não seriam objeto de discriminação absolutamente nenhuma. Mas as crianças, coitadas, na sua ingenuidade, não pensaram assim. Quem sabe, lá terão tido as suas razões.)