Sociedade

Entradas que tenham a ver com questões de evolução social, tradições, etc.
Retrato de Luís Lavoura

Acabo de almoçar num restaurante (sala pequena) em que, com 40 graus de temperatura exterior, o ar condicionado estava ligado mas a porta da rua permanecia aberta.

 

Tenho dificuldade em explicar estes comportamentos - comuns em Portugal - à luz de uma teoria que postula que os empresários atuam racionalmente no sentido de fornecer o melhor produto, ao mais baixo custo, aos clientes, sendo que, caso não o façam, outros empresários mais racionais surgirão que o farão e os suplantarão.

 

A eletricidade é assim tão barata? Não creio.

 

Os clientes não afluiriam ao restaurante caso a porta estivesse fechada mas com um letreiro a dizer "Aberto"? Duvido.

 

Tenho para mim que estes casos demonstram que a teoria acima identificada é, de facto - apesar de perfeitamente lógica -, falsa. Pelo menos, em Portugal não se aplica. Talvez se aplique alhures.

Retrato de Luís Lavoura

... enriquecem um país. Veja-se o caso da seleção alemã de futebol, onde fazem grande figura Mesut Oezil (filho de pais turcos, nascido e criado na região do Ruhr), Sami Khedira (filho de pai tunisino e mãe alemã, nascido e criado em Estugarda), ou Jerôme Boateng (filho de pai ganês e mãe alemã, nascido e criado em Berlim). Isto sem contar com vedetas polacas mas nacionalizadas alemãs por terem avôs alemães, como Miroslav Klose.

Retrato de Luís Lavoura

Diz a polícia que ontem à tarde houve dois incidentes graves na praia do Tamariz, Estoril. Houve uns indivíduos que se enfrentaram à facada e, mais tarde, um assalto a alguns banhistas que se encontravam no areal.

 

Longe de mim acreditar que a polícia mente, claro. Mas a minha mulher e os meus filhos passaram ontem o dia todo nessa praia e não notaram absolutamente nada. A praia é larguinha e pode ser que tudo se tenha passado sem que eles, do sítio onde estavam, notassem. Mas permito-me ter dúvidas.

Retrato de João Cardiga

Obrigado Saramago por deixares um legado literário riquissimo para nós os podermos apreciar.

Obrigado Saramago por demonstrares que é possível ultrapassar o fatalismo lusitano e ser grande em todo o mundo.

Obrigado Saramago por desbravar caminhos literários para outros percorrerem.

Obrigado Saramago por todos os risos, sonhos e pensamentos que me provocaste.

Obrigado Saramago por todas as lutas que combateste e pelas mudanças que as mesmas implementaram.

Obrigado Saramago e desculpa por só agora a agradecer, numa altura em que já não lerás este agradecimento.

Retrato de Luís Lavoura

Neste momento em que tanto se fala dos portugueses e luso-descendentes na África do Sul, cabe perguntar, por que motivos não regressam eles a Portugal? É uma pergunta que faço àqueles conservadores que se preocupam com a fraca natalidade em Portugal e com a perspetiva de o país vir a ficar cada vez mais despovoado. Esses conservadores querem, de alguma forma, incentivar os portugueses a ter mais filhos, mas eu pergunto, por que não se preocupam antes em incentivar os emigrantes e os seus descendentes a regressar a Portugal? Não seria essa uma forma muito mais rápida e direta de a população portuguesa aumentar, acolhendo até mão-de-obra já com um certo nível de qualificação?

 

O facto é este: no mundo atual, altamente móvel, as pessoas vão para onde crêem que as suas perspetivas de vida serão melhores. De pouco importa uma pessoa ter nascido em Portugal ou na África do Sul ou na Venezuela - ela acabará por ir viver para um qualquer destes países, ou para outro qualquer onde acredite que a sua vida será melhor. A solução para o problema (mais imaginário do que real, diga-se) do despovoamento de Portugal não reside em pedir aos portugueses que tenham mais filhos, reside em prometer a quem vive em Portugal melhores perspetivas de progresso. Se Portugal fôr um país próspero, não faltarão luso-descendentes que a ele queiram regressar.

Retrato de Luís Lavoura

Duas deputadas do PS, pertencentes ao Movimento Humanismo e Democracia (um movimento católico ao qual o PS dá uma mãozinha), apresentaram uma proposta no sentido de diminuir o número total de feriados nacionais e alterar de variadas formas a estrutura desses feriados. O projeto parece-me, pelas noticias vindas a público, cheio de incongruências e sem qualquer lógica interna clara. Provavelmente será liminarmente deitado para o lixo.

 

Entretanto, permanece verdade que Portugal tem feriados a mais, tanto de cariz religioso como de cariz nacional e, ainda mais, que esses feriados dão azo a demasiadas "pontes", diminuindo a produção e criando picos artificiais de procura turística no Algarve, com prejuízo para a economia.

 

Para mim, a forma óbvia de resolver este problema é tentar substituir alguns dias feriados - principalmente todos os feriados religiosos, dado que Portugal deve ser um país laico, mas não necessariamente só esses - por dias de férias extra para cada trabalhador. Dado que esses dias de férias extra serão, em princípio, gozados por cada trabalhador de uma determinada empresa em dias diferentes, a empresa nunca parará, e os picos de procura turística no Algarve deixarão de se verificar. Penso que esta solução, de facto, beneficiaria mais a economia e a produção do que a eliminação de dois ou três feriados. As empresas deixariam de parar meia-dúzia de dias por ano - ou deixariam de pagar salários a dobrar nesses dias do ano. As empresas manter-se-iam em funcionamento permanente, só que nalguns dias haveria um ou outro trabalhador a faltar - coisa que já hoje ocorre, de qualquer forma, por motivos de doença, apoio à família, etc.

 

Para os trabalhadores, a medida seria benéfica na medida em que teriam maior liberdade de guardar os dias que considerassem - inclusivé por motivos religiosos - mais importantes, ou de, pelo contrário, tirar uma semana extra de férias por ano. Perderiam, por outro lado, a regalia dos salários a dobrar nalguns dias do ano. E perderiam as pontes. s trabalhadores não seriam muito prejudicados, mas a economia nacional seria fortemente beneficiada.

Retrato de Luís Lavoura

Em quase todos os países do mundo a desigualdade social tem aumentado acentuadamente nas últimas décadas. Este fenómeno é explicado teoricamente por um teorema que atribui esse aumento da desigualdade à globalização. A explicação é simples. Os trabalhadores muito qualificados dos países pobres são atraídos pelos altos salários que lhes podem ser pagos em países ricos, pelo que os seus salários nos países pobres também têm que subir. Os trabalhadores pouco qualificados dos países ricos, por seu lado, vêem-se perante a concorrência dos seus colegas de países pobres, que auferem salários muito inferiores, pelo que os seus salários também são forçados a descer.

Em Portugal, que é um país do meio da tabela (mais a puxar para o rico do que para o pobre, diga-se), observamos simultâneamente os dois fenómenos. Enquanto que os salários dos gestores de topo sobem, por forma a impedir que eles sejam tentados a emigrar para países mais ricos, os salários dos trabalhadores menos qualificados descem, uma vez que eles estão sujeitos à concorrência de trabalhadores ainda mais baratos na Roménia ou no Bangladeche.

Este é um teorema inescapável, de demonstração teórica simples e verificação empírica imediata. Não há volta a dar-lhe. A desigualdade é uma consequência da globalização.

Retrato de Luís Lavoura

Os críticos de José Sócrates andam a agitar o espantalho do mau gosto por este manifestado nos projetos de engenharia (ou seriam de arquitetura?) que assinou para algumas moradias na Guarda. Aparentemente essas moradias violam grosseiramente os padrões arquitetónicos tradicionais da Beira Alta.

Eu compreendo essa crítica vinda de mentalidades conservadoras. Acho-a porém totalmente inaceitável da parte de quem quer que se reclame de liberalismo.

Como é evidente, Sócrates, tal como a maior parte dos arquitetos e engenheiros, fez (ou assinou) projetos de acordo com os gostos de quem lhos pedia. Quem lhos pedia era quem pagava, e quem paga é, e deve ser, soberano. Se as pessoas querem uma moradia para morarem, e se até pagam para a construir, não devem ir ser obrigadas a ter a moradia de acordo com os gostos de outrém, muito menos de acordo com os padrões de uma coisa tão fugidia quanto o é a tradição.

Eu concordo que o gosto de muitas das moradias que se vêem atualmente pela Beira Alta é altamente duvidoso. Mas é o gosto dos seus legítimos proprietários e eu não tenho autoridade para lhes negar o direito de morar como querem e no sítio de que gostam. Eles é que pagaram as suas moradias e têm o direito de as ter como querem.

Liberais-conservadores deste país, defini-vos: ou se é liberal, ou se é conservador. Não se pode ser as duas coisas alternadamente, consoante as conveniências dos ataques que se quer dirigir a Sócrates.

Retrato de Luís Lavoura

De acordo com o Ministério Público - o tribunal provavelmente será mais brando - dois anos e meio de prisão é o preço de duas vidas humanas, mais uma vida arruinada por incapacidade permanente, em Portugal.

Foi essa a pena que o Ministério Público pediu para a condutora que, a 120 quilómetros por hora, atropelou três mulheres, matando duas delas e estropiando irremediavelmente a outra, no Terreiro do Paço há dois anos.

É um preço incrivelmente baixo. A vida humana, em Portugal, é quase de borla. Pode-se matar quase impunemente, desde que se utilize a arma apropriada - o automóvel.

A defesa da condutora baseou toda a sua defesa (de acordo com a RTP) na tese de que foi um "acidente" (a própria palavra é reveladora) que poderia acontecer a qualquer um. Poderia acontecer, por exemplo, ao senhor juiz, atropelar mortalmente três pessoas à saída do tribunal. Tratar-se-ia de um mero azar, um acidente. Convem portanto, senhor juiz, ser misericordioso - isto também lhe pode acontecer a si. Os atropelaentos mortais são danos colaterais da utilização do automóvel. Não há culpa, foi tudo sem querer. E pode acontecer a qualquer um.

A vida humana não tem preço. É de borla.

Retrato de João Cardiga

Será imoral o valor que António Mexia ganhou no ultimo ano?

 

Para ser honesto tenho muita dificuldade a responder a esta questão. O tema da moralidade é algo para o qual eu não tenho uma especial propensão e honestamente não conheço os fundamentos de tal palavra para me sentir muito confortável neste tema. Assim moralidade, imoralidade ou amoralidade são temas que fujo como o diabo da cruz, principalmente quando, como neste caso, apontam para uma moralidade colectiva algo que ainda me faz mais confusão e traz-me à memória homens com capuzes brancos, cruzes, e outros adereços...

 

No entanto como sou um gajo racional (por vezes pouco) e já agora emocional (por vezes muito), parece-me que é um tema no qual posso discorrer. Isto é, se ainda não vivermos numa sociedade em que existe censura aos pensamentos e onde existem dogmas que não podem ser confrontados. E enquanto individuo devo dizer que me faz muita confusão. É mesmo isso, confusão. Passo a explicar: uma das grandes inovações do capitalismo foi dar valor ao que fazemos, isto é passou a existir um tradutor para quanto uma hora do nosso trabalho vale, ou é valorizado pela sociedade. E é por isso mesmo, pela comparabilidade que o capitalismo permite, que me faz confusão.

 

O que é que leva a que uma vida valha muito mais que outra? Não estou a falar de um pouco mais, estou a falar de muito, mas mesmo muito mais? Por exemplo, neste caso concreto do António Mexia (que julgo que recebeu 3.000.000), o que é que ele tem de especial que comparativamente a um amigo meu que ganha 500 Eur, o António Mexia valha 6.000 vezes mais que o meu amigo? Honestamente não sei o que é que faz alguém ter tal valorização, e por isso fico confuso. Fico confuso quando numa sociedade uma pessoa tem de trabalhar 428,57 anos para ter o mesmo valor que o que outro individuo faz num ano. Tal numero deixa-me confuso e faz-me desejar que o meu amigo acredite piamente na reencarnação, para não desmoralizar por completo...

 

E também me faz confusão que isto não faça confusão a outras pessoas, pois para ser honesto este tema, não é um tema recente. É um tema tão antigo como a própria humanidade. Este tipo de desigualdade - desigualdade que condiciona a liberdade dos outros - sempre existiu e foi tendo fundamentações diferentes. Começou pela força, passou pela genética e atualmente é a força do mercado que dita essa desigualdade. Ou seja mudou-se a forma, manteve-se o conteúdo.

 

Se a memória não me falha, existiu um movimento, em tempos idos que agarrou esta problemática, desculpem a expressão, pelos "cornos". Que ousou dizer que nenhum homem deve ser superior a outro homem, que todos nascemos iguais. Salvo erro chamava-se, deixa cá ver, ah já sei Liberalismo.

 

Hoje, quando esta desigualdade põem materialmente em perigo essa noção, faz-me confusão que o debate no meio dessa corrente ideológica esteja tão adormecido, encontrando-se no meio do liberais doutrinários que defendem situações que fazem com que ainda, tal como na sociedade feudal, vivamos em mundos distantes.*

 

*(Nota final: este artigo não serve para defender o igualitarismo de pay-out como defendido pela corrente socialista. Tal noção acaba de ter o mesmo problema que esta desigualdade tem, isto é, cria desigualdade de uma forma que me faz muita confusão. No entanto, não posso ficar imune a situações que materialmente criam desigualdades entre seres humanos sem qualquer tipo de justificação. Por exemplo, se ambas as pessoas perderem um pé por má prática médica receberão indemnizações completamente diferentes em valor, fazendo com que materialmente o valor da vida de duas pessoas seja diferente. Por outro lado ainda vivemos numa sociedade em que não conseguimos escolher e valorizar outras práticas de criacção de desigualdade de pay outs, pelo que é uma desigualdade imposta à sociedade e não escolhida livremente pela própria...)