Sociedade

Entradas que tenham a ver com questões de evolução social, tradições, etc.
Retrato de Luís Lavoura

Volta e meia nos EUA há um indivíduo que decide fazer uma chacina, baleando indiscriminadamente uma série de pessoas antes de ser ele próprio abatido pela polícia, ou então de se suicidar. O caso não é classificado como terrorismo mas sim como o resultado de uma forma de desequilíbrio mental, conjugado com a fácil disponibilidade de armas de fogo nos EUA. Como não é terrorismo, o ato tresloucado merece atenção moderada e rapidamente desaparece da atenção pública.

Há dois dias um caso similar aconteceu em Londres. Em vez de se usar uma arma de fogo utilizou-se um carro, que demonstrou ser um instrumento de morte bastante menos eficaz. O caso foi classificado como terrorismo, o que lhe deu uma repercussão muito maior. Mas, no fundo, não passou do mesmo tipo de ato que regularmente ocorre nos EUA: um desequilibrado mental que decide fazer uma mortandade antes de ser ele mesmo morto.

É naturalmente lamentável que ocorram estas coisas. Mas não me parece que classificá-las como "terrorismo" ajude em nada a eliminá-las. Só aumenta a repercussão delas, e contribui para dar ao Estado o poder para nos submeter a cada vez mais medidas securitárias.

Retrato de Luís Lavoura

Várias pessoas dizem que é preciso resolver o problema das grandes migrações internacionais eliminando as suas causas, nomeadamente, promovendo o desenvolvimento dos países mais pobres.

Mas isto é falso. A migração internacional custa muito dinheiro e raramente são os mais pobres quem emigra. As pessoas só começam a emigrar maciçamente quando saem da miséria. (Por exemplo, em Portugal emigrou-se mais na década de 1960, precisamente quando o país estava a enriquecer de forma acelerada.) Se há hoje muitos chineses e muitos bengalis em Portugal, isso deve-se em grande parte a a China e o Bangladeche serem hoje muito menos pobres do que eram há algumas décadas.

As grandes migrações internacionais são sinal de alguma riqueza, não de miséria absoluta. Eliminar a miséria só trará mais migrações, não menos.

Retrato de Luís Lavoura

O Estado pretende resolver o problema das rendas baixas nas cidades permitindo que as rendas subam, mas atribuindo aos inquilinos pobres subsídios que lhes permitam pagar a renda.

Em minha opinião, esta ideia não tem pernas para andar. Uma renda baixa nas cidades de Lisboa ou Porto é de, tipicamente, 100 euros. A renda de mercado numa dessas cidades é de, tipicamente, 500 euros. Seria portanto necessário fornecer ao inquilino um subsídio mensal de 400 euros para lhe permitir habitar a sua casa com uma renda de mercado. É evidente que o Estado não tem possibilidades de subsidiar algumas dezenas de milhares de famílias ao ritmo de 400 euros mensais!

Eu penso que a ideia do subsídio está correta, mas tem que se lhe colocar um teto máximo: 100 euros por mês. Permite-se que as rendas todas sejam liberalizadas - isto é, que aumentem para o seu valor de mercado - mas fornece-se aos inquilinos pobres um subsídio que não pode ultrapassar os 100 euros mensais.

Qual será o efeito prático disto? Uma vez que uma renda em Lisboa ou Porto é de 500 euros mensais, os inquilinos pobres não poderão continuar a viver nessas cidades. Porém, fora das cidades, em aldeias, facilmente se arranja um apartamento por 150 euros mensais. Os inquilinos idosos e que já não têm razão de trabalho para residir em Lisboa ou Porto serão portanto, na prática, forçados a "sair da sua zona de conforto", na expressão de Pedro Passos Coelho, e a ir viver para a província. O que não será uma coisa assim tão dramática pois, de facto, no passado muitos desses inquilinos pobres viveram na província - na sua juventude, antes de migrarem para Lisboa ou Porto.

Irão falecer lá onde nasceram.

Retrato de Luís Lavoura

No blogue A Destreza das Dúvidas (blogue que não me permite deixar comentários), Luís Gaspar argumenta que faz sentido um condomínio proibir um dos seus condóminos de arrendar a sua fração por curtos períodos a turistas, dado que existe o risco de alguns turistas se portarem mal, perturbando a vida aos restantes moradores do condomínio.

Isto é, em princípio, verdade. Mas, pela mesma bitola, faria sentido um condomínio proibir o arrendamento a não-turistas, porque também há o risco de não-turistas se portarem mal. E, de facto, também há o risco de um qualquer morador do prédio, incluindo um condómino, se portar mal. Levado às últimas consequências, o argumento de Luís Gaspar é um argumento contra a existência de condomínios. Num condomínio, há sempre o risco de um qualquer condómino ter atividades que perturbam os restantes. (Por exemplo, uma condómina pode prostituir-se na sua fração, o que pode perturbar os restantes condóminos.) A única forma de eliminar este tipo de conflitos de vizinhança é eliminar os condomínios: cada prédio ter um proprietário único, o qual arrenda as diversas frações a diversas pessoas, tendo o cuidado de selecionar pessoas que não se perturbem umas às outras. (É como se faz na Alemanha, em que praticamente todos os prédios têm proprietários únicos e praticamente todas as pessoas vivem em casas arrendadas.) Os condomínios são uma contínua fonte de problemas de vizinhança.

Retrato de Luís Lavoura

... a violação da lei que eu esperava (e que no ano passado ocorreu). Os altifalantes da festa do Benfica foram desligados algures entre as onze e a meia-noite e os moradores das redondezas puderam portanto dormir em paz. Ainda bem.

Retrato de Luís Lavoura

Hoje em dia as pessoas em Portugal cada vez têm menos filhos. Os filhos geralmente ocupam um lugar primordial, central e essencial nos afetos dos pais. Quando as pessoas não têm filhos, esse lugar fica vazio e as pessoas ressentem-se. Então, arranjam um animal de estimação (geralmente um cão) e projetam nele todo o afeto que usualmente dariam a um filho. De facto, os animais de estimação são os filhos que essas pessoas nunca tiveram. Nesta evolução (em minha opinião) doentia, os animais de estimação são, de facto, elevados à categoria de seres humanos. Na ótica dessas pessoas, os animais de estimação têm os mesmos direitos que seres humanos porque, de facto, o seu cão ocupa no coração delas o lugar que normalmente estaria reservado a um filho.

É por isso que, na política atual, os partidos defensores dos "direitos dos animais" tomam tanta força. É que há muitas pessoas para quem os animais se confundem, de facto, com pessoas. Nos seus afetos, os seus cães são como se foram os filhos que elas nunca tiveram.

Retrato de Luís Lavoura

A hipocrisia é uma caraterística central da cultura portuguesa.

Levantou-se ontem enorme celeuma porque a nova bastonária da Ordem dos Farmacêuticos, uma senhora deveras nova e talvez pouco experimentada nestas coisas, afirmou que nos hospitais portugueses se pratica eutanásia. Imediatamente caíram o Carmo e a Trindade. Vão ser levantados inquéritos, a Ordem dos Médicos negou veementemente, exige-se que a senhora apresente provas daquilo que afirmou, etc. Enfim, um coro de virgens ofendidas.

Tudo isto acontece devido à tal hipocrisia. A eutanásia, tal como o aborto, é uma coisa que se pode praticar - o que não se pode, é dizer que se pratica. Um médico português pode perfeitamente praticar a eutanásia ou ajudar a um suicídio, desde que seja extremamente discreto; em caso algum deve assumir que o fez. E, é claro, sim, a eutanásia é praticada, de forma mais clara (ministrar uma dose exagerada de um fármaco, que provoque a morte do doente) ou mais escura (não prestar os cuidados máximos para tentar preservar a vida, sobretudo no caso de doentes já muito idosos ou de vidas tidas como de pouco valor), mas sempre, claro, com o cuidado de não dar nas vistas nem assumir nada.

Seria bom que a sociedade portuguesa deixasse de ser tão horrivelmente hipócrita e que as pessoas passassem a ter a coragem de assumir o que fazem, o que fizeram e o que farão.  Isso constituiria um poderoso incentivo a que as coisas fossem discutidas abertamente e se tomassem decisões. Mas talvez isso seja esperar de mais dos portugueses - um povo que ainda há duas gerações era maioritariamente constituído por "carroceiros das berças" e no qual a cultura católica - uma cultura de confessionário - permanece muito arreigada.

Retrato de Luís Lavoura

Prossegue a política, que já tem décadas em Portugal e com a qual todos os partidos parecem concordar, de privilegiar os portugueses que habitam em casa própria - geralmente, pessoas que tiveram dinheiro para a comprar ou emprego seguro que lhes permitiu pedir um empréstimo ao banco - em detrimento daqueles que vivem em casa arrendada. Essa política, de forma chocante, abrange até um partido que se diz de esquerda - precisamente, o Bloco de Esquerda.

Agora o Bloco, conjuntamente com o Partido Socialista, quer que as casas de morada de família não possam ser penhoradas pelo Fisco. Se um senhorio tiver dívidas fiscais, as suas casas, nas quais habitam famílias, podem ser penhoradas pelo Fisco; então, porque não deverão poder as casas próprias também ser penhoradas?

Por que razão não deverão pessoas que compraram casa poder ser despejadas pelo Fisco? Elas podem sempre recorrer ao arrendamento. Se não têm posses para sustentar uma casa própria e, simultâneamente, pagar honestamente as suas dívidas fiscais, podem ir viver para casa arrendada!

Acho indigno de partidos de esquerda porem-se a defender burgueses que habitam em casa própria, em vez de defenderem os proletários que vivem em casa arrendada!

Retrato de Luís Lavoura

Em Portugal, a inveja é uma força motriz principal da sociedade. As pessoas, mais do que preocuparem-se com o seu bem-estar, ofendem-se acima de tudo com o bem-estar superior dos outros.

Anda muita gente muito incomodada porque José Sócrates viveu um ano ou dois em Paris. Querem saber que dinheiro lhe permitiu fazer isso. A razão porque querem saber isso é que têm inveja de José Sócrates, porque ele pôde viver em Paris e eles gostariam de também o ter podido fazer. Por isso, andam a meter o nariz na vida financeira de José Sócrates, algo que não lhes diz absolutamente respeito.

Retrato de Luís Lavoura

O deputado do PAN (Pessoas, Animais e Natureza) estreou-se ontem pessimamente no Parlamento, com a sugestão de que deveriam ser atribuídos benefícios fiscais a quem tivesse animais de companhia.

Deixemos de parte a questão de que tais benefícios obrigariam ao registo de todos os animais de companhia, incluindo a elaboração de um seu obituário, coisa que não faço ideia como se pudesse levar a cabo.

A justificação que o deputado do PAN apresentou para a sua sugestão foi de que muitas famílias portuguesas têm animais de companhia. O deputado inverteu o argumento: em vez de serem atribuídos benefícios fiscais para incentivar os cidadãos a adotarem um qualquer comportamento, devem ser atribuídos benefícios fiscais sempre que muitas pessoas já tenham adotado esse comportamento.

Se era para fazer figuras destas, mais valia o deputado do PAN não ter sido eleito.