Sociedade

Entradas que tenham a ver com questões de evolução social, tradições, etc.
Retrato de Luís Lavoura

No blogue A Destreza das Dúvidas (blogue que não me permite deixar comentários), Luís Gaspar argumenta que faz sentido um condomínio proibir um dos seus condóminos de arrendar a sua fração por curtos períodos a turistas, dado que existe o risco de alguns turistas se portarem mal, perturbando a vida aos restantes moradores do condomínio.

Isto é, em princípio, verdade. Mas, pela mesma bitola, faria sentido um condomínio proibir o arrendamento a não-turistas, porque também há o risco de não-turistas se portarem mal. E, de facto, também há o risco de um qualquer morador do prédio, incluindo um condómino, se portar mal. Levado às últimas consequências, o argumento de Luís Gaspar é um argumento contra a existência de condomínios. Num condomínio, há sempre o risco de um qualquer condómino ter atividades que perturbam os restantes. (Por exemplo, uma condómina pode prostituir-se na sua fração, o que pode perturbar os restantes condóminos.) A única forma de eliminar este tipo de conflitos de vizinhança é eliminar os condomínios: cada prédio ter um proprietário único, o qual arrenda as diversas frações a diversas pessoas, tendo o cuidado de selecionar pessoas que não se perturbem umas às outras. (É como se faz na Alemanha, em que praticamente todos os prédios têm proprietários únicos e praticamente todas as pessoas vivem em casas arrendadas.) Os condomínios são uma contínua fonte de problemas de vizinhança.

Retrato de Luís Lavoura

... a violação da lei que eu esperava (e que no ano passado ocorreu). Os altifalantes da festa do Benfica foram desligados algures entre as onze e a meia-noite e os moradores das redondezas puderam portanto dormir em paz. Ainda bem.

Retrato de Luís Lavoura

Hoje em dia as pessoas em Portugal cada vez têm menos filhos. Os filhos geralmente ocupam um lugar primordial, central e essencial nos afetos dos pais. Quando as pessoas não têm filhos, esse lugar fica vazio e as pessoas ressentem-se. Então, arranjam um animal de estimação (geralmente um cão) e projetam nele todo o afeto que usualmente dariam a um filho. De facto, os animais de estimação são os filhos que essas pessoas nunca tiveram. Nesta evolução (em minha opinião) doentia, os animais de estimação são, de facto, elevados à categoria de seres humanos. Na ótica dessas pessoas, os animais de estimação têm os mesmos direitos que seres humanos porque, de facto, o seu cão ocupa no coração delas o lugar que normalmente estaria reservado a um filho.

É por isso que, na política atual, os partidos defensores dos "direitos dos animais" tomam tanta força. É que há muitas pessoas para quem os animais se confundem, de facto, com pessoas. Nos seus afetos, os seus cães são como se foram os filhos que elas nunca tiveram.

Retrato de Luís Lavoura

A hipocrisia é uma caraterística central da cultura portuguesa.

Levantou-se ontem enorme celeuma porque a nova bastonária da Ordem dos Farmacêuticos, uma senhora deveras nova e talvez pouco experimentada nestas coisas, afirmou que nos hospitais portugueses se pratica eutanásia. Imediatamente caíram o Carmo e a Trindade. Vão ser levantados inquéritos, a Ordem dos Médicos negou veementemente, exige-se que a senhora apresente provas daquilo que afirmou, etc. Enfim, um coro de virgens ofendidas.

Tudo isto acontece devido à tal hipocrisia. A eutanásia, tal como o aborto, é uma coisa que se pode praticar - o que não se pode, é dizer que se pratica. Um médico português pode perfeitamente praticar a eutanásia ou ajudar a um suicídio, desde que seja extremamente discreto; em caso algum deve assumir que o fez. E, é claro, sim, a eutanásia é praticada, de forma mais clara (ministrar uma dose exagerada de um fármaco, que provoque a morte do doente) ou mais escura (não prestar os cuidados máximos para tentar preservar a vida, sobretudo no caso de doentes já muito idosos ou de vidas tidas como de pouco valor), mas sempre, claro, com o cuidado de não dar nas vistas nem assumir nada.

Seria bom que a sociedade portuguesa deixasse de ser tão horrivelmente hipócrita e que as pessoas passassem a ter a coragem de assumir o que fazem, o que fizeram e o que farão.  Isso constituiria um poderoso incentivo a que as coisas fossem discutidas abertamente e se tomassem decisões. Mas talvez isso seja esperar de mais dos portugueses - um povo que ainda há duas gerações era maioritariamente constituído por "carroceiros das berças" e no qual a cultura católica - uma cultura de confessionário - permanece muito arreigada.

Retrato de Luís Lavoura

Prossegue a política, que já tem décadas em Portugal e com a qual todos os partidos parecem concordar, de privilegiar os portugueses que habitam em casa própria - geralmente, pessoas que tiveram dinheiro para a comprar ou emprego seguro que lhes permitiu pedir um empréstimo ao banco - em detrimento daqueles que vivem em casa arrendada. Essa política, de forma chocante, abrange até um partido que se diz de esquerda - precisamente, o Bloco de Esquerda.

Agora o Bloco, conjuntamente com o Partido Socialista, quer que as casas de morada de família não possam ser penhoradas pelo Fisco. Se um senhorio tiver dívidas fiscais, as suas casas, nas quais habitam famílias, podem ser penhoradas pelo Fisco; então, porque não deverão poder as casas próprias também ser penhoradas?

Por que razão não deverão pessoas que compraram casa poder ser despejadas pelo Fisco? Elas podem sempre recorrer ao arrendamento. Se não têm posses para sustentar uma casa própria e, simultâneamente, pagar honestamente as suas dívidas fiscais, podem ir viver para casa arrendada!

Acho indigno de partidos de esquerda porem-se a defender burgueses que habitam em casa própria, em vez de defenderem os proletários que vivem em casa arrendada!

Retrato de Luís Lavoura

Em Portugal, a inveja é uma força motriz principal da sociedade. As pessoas, mais do que preocuparem-se com o seu bem-estar, ofendem-se acima de tudo com o bem-estar superior dos outros.

Anda muita gente muito incomodada porque José Sócrates viveu um ano ou dois em Paris. Querem saber que dinheiro lhe permitiu fazer isso. A razão porque querem saber isso é que têm inveja de José Sócrates, porque ele pôde viver em Paris e eles gostariam de também o ter podido fazer. Por isso, andam a meter o nariz na vida financeira de José Sócrates, algo que não lhes diz absolutamente respeito.

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O deputado do PAN (Pessoas, Animais e Natureza) estreou-se ontem pessimamente no Parlamento, com a sugestão de que deveriam ser atribuídos benefícios fiscais a quem tivesse animais de companhia.

Deixemos de parte a questão de que tais benefícios obrigariam ao registo de todos os animais de companhia, incluindo a elaboração de um seu obituário, coisa que não faço ideia como se pudesse levar a cabo.

A justificação que o deputado do PAN apresentou para a sua sugestão foi de que muitas famílias portuguesas têm animais de companhia. O deputado inverteu o argumento: em vez de serem atribuídos benefícios fiscais para incentivar os cidadãos a adotarem um qualquer comportamento, devem ser atribuídos benefícios fiscais sempre que muitas pessoas já tenham adotado esse comportamento.

Se era para fazer figuras destas, mais valia o deputado do PAN não ter sido eleito.

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Segundo tomei conhecimento neste fim-de-semana, os serviços de informação europeus sabem que há em Istambul 2,5 milhões de pessoas à espera de uma oportunidade para emigrarem para a Europa.

Esta é uma perspetiva aterradora. 2,5 milhões de pessoas, parece imensa gente.

Até nos apercebemos de que a União Europeia tem 500 milhões de pessoas. Como essas pessoas vivem em média até aos 80 anos de idade, significa que deveriam nascer anualmente na UE 500/80 = 6,25 milhões de bebés. Deveriam nascer, mas na realidade nascem muito menos. Como a natalidade europeia média anda pelas 1,7 crianças por mulher, há um défice de natalidade de aproximadamente um sexto. O que significa que cerca de um milhão de bebés que deveriam nascer para que a população se mantivesse, não nascem.

O que significa que a UE necessita de um milhão de imigrantes por ano para manter a sua população.

Visto desta perspetiva, não é particularmente aterrador que 2,5 milhões de pessoas queiram entrar na UE.

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Vi ontem na televisão imagens de imigrantes sírios que esperam em Calais a sua oportunidade de entrar no Reino Unido. Depois mostraram imagens de pretos a ser desembarcados em Lampedusa.

Nessas imagens vi homens jovens, com bons corpos, energéticos e de boa saúde. Bons para trabalhar e ganhar o pão de cada dia. Bem diferentes de grande parte da população europeia - envelhecida e debilitada por doenças, diabetes e artroses. E pensei, oxalá os deixassem trabalhar, em vez de estarem ali a perder a sua vida sem fazer nada e a ser alimentados pelo erário público.

Retrato de Luís Lavoura

A União Europeia tem cerca de 300 milhões de habitantes. Dado que cada pessoa vive em média um pouco menos de 100 anos, para repôr a população da União é necessário que nasçam 3 milhões de bebés por ano. Mas a natalidade média na União é pouco mais de 2/3 da necessária (em vez de 2,1 filhos por mulher, a natalidade média é pouco superior a 1,4 filhos por mulher). Quer isto dizer que, em vez de nascerem 3 milhões de bebés por ano, só nascem 2. O que quer dizer que falta 1 milhão de bebés por ano.
Creio que todos os refugiados que anualmente demandam a Europa não chegam a perfazer esse número, 1 milhão, mas andam por essa ordem de grandeza. (A título de comparação, este ano foram já resgatadas 188 mil pessoas em barcos no Mediterrâneo perto de Itália.) Ou seja, o número de refugiados que procura a Europa é basicamente igual ao número de bebés que faltam à Europa.
A questão, pois, não é haver refugiados a mais. É apenas gerir o número de refugiados que há.