Sociedade

Entradas que tenham a ver com questões de evolução social, tradições, etc.
Retrato de Luís Lavoura

Muita gente na Europa Ocidental está abespinhada com a decisão da Hungria de construir um muro ao longo da sua fronteira com a Sérvia, para impedir a passagem de migrantes. A Hungria, na qual entram cerca de mil migrantes por dia, não os quer receber e prefere que eles fiquem presos do lado sérvio. Os europeus ocidentais que reagem contra esta decisão da Hungria não se apercebem de que os seus países fazem exatametne o mesmo: a Espanha tem muros a separá-la de Marrocos em Ceuta e Melilla, a Inglaterra procura por todos os meios reter os migrantes em Calais, em França, para que eles não entrem no seu território, e toda a Europa se queixa amargamente de que as atuais autoridades líbias não fazem o que Kadhafi fazia - prender os migrantes na Líbia, não os deixando embarcar para Itália.

A Hungria apenas está a fazer o mesmo que todos os restantes países da Europa fazem ou desejam fazer.

Retrato de Luís Lavoura

Lendo recentemente uma História de Portugal, apercebi-me de que um grande número de reis morreu relativamente novo.

Fui agora ver à wikipedia as datas de nascimento e morte dos vinte primeiros reis de Portugal. A média das idades de morte é 53,5 anos. É evrdade que esta média inclui alguns casos de reis cuja vida foi cortada cedo pela guerra (Sebastião I, que morreu aos 24 anos em Alcácer-Quibir) ou, ao que se julga, pelo veneno (Fernando I e João II, que morreram aos 37 e 40 anos, respetivamente). Mas, mesmo que se elimine esses três, a média apenas sobe para os 57 anos.

O que pretendo dizer é que a vida normal de um homem - mesmo daqueles que chegam à idade adulta -, na ausência da medicina moderna, é bem mais curta  do que o que se julga. O homem, no fundo, não está feito para viver muito mais do que 50 ou 60 anos; tudo o que vive para além disso é fruto da artificialidade.

Retrato de Luís Lavoura

"a conciliação da vida familiar com o trabalho [...] é também importante para resolver os problemas demográficos"

Assim falou a ministra das Finanças, de acordo com a SIC-Notícias.

Mas quais problemas demográficos? A baixa natalidade? O desemprego é uma praga em Portugal. Especialmente o desemprego dos jovens. O desemprego indica que em Portugal não há população a menos - há população a mais.

Gerar mais crianças apenas poderia fazer aumentar ainda mais o número de desempregados.

Há um problema demográfico em Portugal, sim: o excesso de idosos. Mas esse problema não pode ser resolvido através da "conciliação da vida familiar com o trabalho".

Retrato de Luís Lavoura

Parece que o governo agora quer fazer aprovar um pacote legislativo com o objetivo de fazer aumentar a natalidade.

Eu penso que esse objetivo é genericamente irrealista. A baixa natalidade é uma consequência inescapável da sociedade moderna. Praticamente nenhuma sociedade moderna consegue ter uma natalidade que lhe permita manter o nível da população. Há umas poucas exceções - a Suécia, os EUA - mas elas são verdadeiramente excecionais, e não sabemos se sustentáveis a longo prazo.

O problema é que a sociedade moderna se baseia numa educação demasiado longa e cara, em pessoas que entram na vida ativa muito tarde e que depois ainda demoram bastantes anos até terem um emprego seguro e razoavelmente pago. Nessas condições, a maioria das pessoas tenderá sempre a adiar os filhos até muito tarde, e muita gente tenderá sempre a não os ter. A perspetiva de ter que pagar a educação de um filho durante 25 anos e de, após isso, ainda ter que o ajudar até que eventualmente, por volta dos 35 anos de idade, ele tenha um emprego razoavelmente pago, é aterrorizadora.

No mundo antigo, isto é, há 50 anos atrás, a sociedade tinha um nível tecnológico muito baixo, o que significava que as pessoas aos 15 anos de idade já podiam arranjar um emprego e, meia dúzia de anos mais tarde, já podiam ter filhos. Mas no mundo moderno, com um alto nível tecnológico, as pessoas só aos 25 anos de idade arranjam um emprego. Pura e simplesmente, já não dá para ter muitos filhos.

A única solução para sociedades modernas manterem o seu nível populacional é a imigração.

Retrato de Luís Lavoura

Daqui:

Há algo de errado neste país, os nossos idosos não querem descansar e, enquanto na China a liderança já vai apresentando gente de meia idade, por cá os nossos cotas agarram-se ao poder com unhas e dentes. Na América os grandes empresários vendem ou passam aos filhos o que ganharam, dão metade a fundações e vão gozar a vida para a Florida, por cá arrastam-se até que a Parkinson ou o Alzheimer lhes diga basta.

Há qualquer coisa de errado quando de um lado se acusa o sistema de não respeitar a terceira idade, de exigir que se trabalhe para além dos 65 anos e, do outro lado, vemos cada vez mais idosos a serem protagonistas na comunicação social, na política e até nos duelos eleitorais, pior ainda, alguns dos mais idosos assumem mesmo um papel de liderança. Na banca temos (ou tínhamos) figuras como Ricardo Salgado (71 anos) e Jardim Gonçalves (79 anos), na comunicação social temos Manuela Ferreira Leite (74) e Medina Carreira (74), na política activa temos Henrique Neto (79) e Mário Soares (85), no mundo empresarial temos Belmiro de Azevedo (77), Américo Amorim (80) e Alexandre Soares dos Santos (80). A lista poderia prosseguir, mas estes nomes são suficientes para percebermos como esta geração de octogenários tem um grande pesos na gestão dos destinos do país e mesmo na opinião pública. [...]

É evidente que não podemos decretar uma idade de reforma ou proibir um idoso, ainda por cima alguns deles são os mais ricos deste país de pobres, a ficarem calados ou a darem o lugar aos outros. Mas a verdade é que em muitas empresas são impostos limites de idade e na Administração Pública só mesmo a título excepcional se permite que alguém trabalhe para além dos 70 anos. Um bom exemplo deste fenómeno foi a apresentação da candidatura [...] de Henrique Neto. [...] Vimos um cota falar para uma plateia de cotas, onde se notava Arnaldo Matos, o homem que se autointitulava grande educador do proletariado. [...]

Quantos jovens com menos de 30 anos têm paciência para ver as caretas assustadoras de Manuela Ferreira Leites, os vómitos de ódio de Henrique Neto, as loucuras de Mário Soares, o discurso moralista do merceeiro que fugiu para a Holanda ou os anúncios dos cataclismos do Medina Carreira. Esta gente não percebe que já não diz nada a uma boa parte dos portugueses e que o domínio que exercem na política, nas academias ou na comunicação social só serve para impedir o aparecimento de gente mais jovem, com novas ideias, novos conceitos estéticos, novas soluções. [...]

Não é só o governo que está dizendo aos nossos jovens que estão a mais em Portugal, uma boa parte da sociedade portuguesa está impondo ao país um modelo político económico gerido por idosos porque a desconfiança em relação à aptidão dos jovens é uma mania muito portuguesa. Neste [país] dizemos sempre cobras e lagartos, não admira que a geração que recomenda a terceira classe antiga insista em não abandonar o poder e quando isso suceder os que os substituírem estarão tão velhos quanto eles e teimosos como de costume.

Retrato de Luís Lavoura

Vai hoje ser discutida na Assembleia da República legislação no sentido de diminuir a liberdade que os bancos têm de fixar comissões de manutenção de contas à ordem. Segundo se argumenta, essas comissões têm crescido rapidamente nos últimos anos, sendo atualmente demasiadamente altas para muitos clientes. Ao que parece, a maioria parlamentar quer que os bancos apenas possam cobrar comissões por serviços prestados, mas não pela própria manutenção da conta à ordem.
Há que entender que os bancos cobram cada vez mais comissões porque a taxa de juro é atualmente tão baixa. Há trinta anos, quando a inflação era de 10%, os bancos lucravam só por terem o nosso dinheiro guardado neles. Mas hoje, quando a inflação e a taxa de juro são basicamente nulas, os bancos não lucram nada em terem lá o nosso dinheiro. É por isso que cobram comissões. E essas comissões são necessariamente tanto mais altas quanto mais baixa fôr a taxa de juro. Não há outra forma de um banco sustentar a sua infrastrutura!
A maioria parlamentar deve entender que a própria existência de uma conta à ordem já é um serviço que o banco nos presta. O banco guarda nele o nosso dinheiro em segurança, e isso é um serviço. O banco processa os pagamentos que nos fazem e que nós fazemos, e isso é outro serviço. O banco fornece-nos extratos mensais que nos permitem saber todas as movimentações de dinheiro que fizemos, e isso é outro serviço.
Portanto, a mim parece-me que os bancos devem ser livres de cobrar as comissões de manutenção que bem entendem. As pessoas que acham que essas comissões são demasiadamente elevadas podem prescindir de ter conta bancária, e não tardarão a entender quão vasto é o serviço que os bancos prestam apenas com as contas à ordem. Lembram-se do tempo do dinheiro guardado em casa debaixo de colchões, dos vales de correio para efetuar pagamentos, dos cheques em que se recebia o salário? Podemos voltar a esse tempo se não tivermos conta bancária, mas certamente que isso nos sairá muito mais caro, em tempo e em dinheiro, do que ter uma conta.

Retrato de Luís Lavoura

A situação económica na Venezuela deteriora-se de mês para mês.

É algo a que não podemos estar indiferentes, dadas as centenas de milhares de portugueses (alguns deles familiares, longínquos, meus) que vivem nesse país.

É certo que muitos desses portugueses o são apenas de cidadania e nunca viveram em Portugal. Mas têm o direito de para cá virem, quando o desejarem. E admira-me que não o estejam já a fazer, dada a situação de terrível insegurança, económica mas até também física, que reina na Venezuela.

Não me admiraria que Portugal enfrentasse em breve um retorno maciço de emigrantes, não muito diferente, até em número, da vaga de refugiados que veio de África em 1975.

Não sei, porém, se nos devemos assustar ou congratular com tal perspetiva. Tal como os refugiados de África (vulgarmente conhecidos como "retornados") se integraram relativamente depressa na sociedade portuguesa e constituíram, de facto, uma importante fonte de dinamismo económico para o país, também os eventuais refugiados da Venezuela poderão integrar-se muito bem e introduzir sangue novo na economia e na demografia estagnadas do país.

Retrato de Luís Lavoura

É chocante a barulheira que alguns clientes do antigo Banco Espírito Santo (BES) andam a fazer, a pedir para serem ressarcidos por "papel comercial" (uma forma de obrigações) do Grupo Espírito Santo (GES) que adquiriram aos balcões do BES. Espero que ninguém lhes faça a vontade. Certamente que não com o dinheiro dos meus impostos.

Vejamos. O papel comercial é da exclusiva responsabilidade de quem o emite (neste caso, o GES). Tanto faz que tenha sido vendido aos balcões do BES como aos balcões de qualquer outra entidade financeira. O destino do BES é irrelevante para avaliar sobre se o papel comercial deve dar rendimento ou não; quem é responsável por ele é o GES. Se o GES faliu, então quem comprou o papel comercial ficou sem o dinheiro. É tão simples quanto isso, e as pessoas não têm nada que se queixar do BES nem do Banco de Portugal. Perderam o dinheiro, azar delas. Cada um é responsável por onde investe o seu dinheiro.

Para cúmulo, informam-nos que, em média, cada uma dos clientes em questão tinha, em média, investido 140 mil euros no papel comercial. Mesmo admitindo que isto não passa de uma média, e que haverá clientes que investiram muito menos do que isso, eu pergunto quem são os idiotas que investem 140 mil euros num produto sem saberem bem em que esse produto consiste e que garantias ele oferece. Quem são os idiotas que investem 140 mil euros apenas em troca do lindo olhar da sua gestora bancária. Se não sabem tomar conta do seu pecúlio, é bem feita que o percam!

Retrato de Luís Lavoura

Penso que faz hoje todo o sentido repôr dois dos feriados que foram abolidos: o Primeiro de Dezembro e o Dia de Todos os Santos. Trata-se de datas com efetivo significado histórico e para parte substancial da população.

No entanto, os outros dois feriados que foram abolidos podem e devem desaparecer definitivamente do mapa, pois têm um significado residual. Em matéria de mudanças de regime político, já celebramos o 25 de Abril; não precisamos de celebrar uma outra mudança de regime, ocorrida há já um século. E quanto ao Corpo de Deus, é um feriado que só tem importância para os católicos mais fiéis e cumpridores - a imensa maioria da população nem sabe bem o que ele significa.

Retrato de Luís Lavoura

O governo de Sócrates cometeu duas interferências em hábitos ancestrais da sociedade portuguesa: proibiu que se fumasse em restaurantes e cafés e forçou uma baixa no teor de sal no pão produzido em padarias. Essas duas interferências - sobretudo a primeira - foram muito castigadas pelos liberais mais fundamentalistas - aqueles que acreditam em teorias, a meu ver completamente parvas, de que a sociedade tal como ela é é o puro resultado de uma evolução consensual e equilibrada e que, portanto, ela satisfaz a maioria da população.

Mas hoje constata-se, tal como era à partida previsível, que essas interferências governamentais na sociedade foram totalmente adequadas, corretas e que, de facto, hoje em dia a maioria das pessoas está perfeitamente adequada ao novo estado de coisas e satisfeita com ele. As pessoas desabituaram-se totalmente de fumar em cafés, que já é considerado como sujo e de mau gosto; e o pão continua a ser vendido pacificamente, sem que ninguém se lembre de lhe acrescentar sal.

Entretanto, há um senão: nas pastelarias, o pão que lá é feito, e todas as massas, continuam a conter quantidades inadmissíveis de sal. É difícil comer um qualquer pastel numa pastelaria portuguesa, ou uma pizza numa qualquer pizzaria, tal é o nojento teor de sal neles tipicamente contido. Talvez fosse bom o governo pensar em interferir nestes maus hábitos ainda arreigados.