Sociedade

Entradas que tenham a ver com questões de evolução social, tradições, etc.
Retrato de Luís Lavoura

Fez-se muito alarido nos mídia com o anúncio das linhas gerais de uma nova lei para o arrendamento urbano. Alarido de mais para lei tão pouca, em minha opinião.

Em primeiro lugar, há que reconhecer que grande parte do atual mercado de arrendamento - que é vasto, basta ver, por exemplo, todas as dezenas de milhares de estudantes universitários que habitam quartos ou casas arrendados - é mercado negro. É mercado que se faz à margem da lei, sem contratos nem recibos, por motivos puramente fiscais. A nova lei do arrendamento, seja ela qual fôr, em nada alterará esse mercado, dado que ele se faz à margem da lei, não por a lei ser má, mas apenas para fugir aos impostos. Portanto, a nova lei em pouco influenciará ("dinamizará", como gostam de dizer os seus propagandistas) o mercado de arrendamento.

Em segundo lugar, no que respeita às rendas "antigas", as anteriores à reforma do arrendamento promovida por Cavaco Silva quando era primeiro-ministro, a nova lei consagrará um período de cinco anos durante o qual nem os arrendamentos para fins comerciais, nem os arrendamentos para fins habitacionais a pessoas idosas serão alterados. Ora, esses arrendamentos são o grosso e o busílis das rendas "antigas". E não serão alterados durante os próximos cinco anos. E, daqui a cinco anos, talvez o governo já seja outro e faça uma nova lei para alterar, uma vez mais, a situação.

Em suma: pouco se alterará para já. Mesmo os arrendamentos comerciais, em que nada justifica que se permita a continuação da concorrência desleal que os comercianetes que pagam rendas "antigas" fazem aos comerciantes que pagam rendas "novas", não serão alterados. Quase tudo ficará na mesma. A nova lei é um aborto declarado antes mesmo de nascer.

Retrato de Luís Lavoura

Vi hoje um poster, supostamente contra a violência doméstica, em que se exibe uma mulher morta. A legenda do post era qualquer coisa como "Em 2010, quarenta reconciliações acabaram assim."

Nada tenho contra a imagem no poster, mas a legenda parece-me chocante, porque apela, implicitamente, a que as pessoas não se reconciliem. E isso é um panorama pavoroso.

Como seria um mundo em que duas pessoas, sempre que se desentendessem, jamais se reconciliassem? Seria um mundo horrível.

Um mundo sem perdão e sem reconciliação seria um mundo no qual seria impossível viver.

Retrato de Luís Lavoura

Segundo ouvi esta manhã nas notícias da Antena 1 (pode ser verdade, mas também pode ser falso), a Igreja Católica estará disposta a, graciosamente, prescindir de dois feriados - o Corpo de Deus e a Assunção de Maria (15 de agosto).

Acho evidentemente positivo que estes dois feriados sejam eliminados, mas

(1) Parece-me vergonhosamente insuficiente. Há (pelo menos) um outro feriado religioso, a Imaculada Conceição (8 de dezembro), que não faz qualquer sentido manter.

(2) Não considero aceitável que tenha que ser a Igreja Católica a prescindir dos feriados. O Estado é quem tem a faca e o queijo na mão, deve ser ele quem determina que dias são feriados, quer a Igreja Católica esteja de acordo, quer não.

(3) Os feriados religiosos eliminados deveriam ser transformados em dias de férias extra, que o trabalhador pudesse gozar em qualquer dia pré-determinado, por forma a manter a liberdade religiosa dos católicos e aumentar a dos não-católicos. Os feriados católicos não devem ser eliminados para obrigar as pessoas a trabalhar mais, mas sim para levar à prática a laicidade do Estado e a liberdade religiosa de todos.

Retrato de Luís Lavoura

Ouvi hoje na rádio (mais) um demógrafo a queixar-se do envelhecimento da população e a dizer que é necessária uma política ativa de apoio à natalidade para que a população "de origem" portuguesa não envelheça ainda mais.

(Achei deliciosamente subtil o "de origem". Também poderia ter dito "de estirpe" ou, ainda melhor, "de raça". Seria menos hipócrita. O que se esconde por detrás de toda esta preocupação é sempre o mesmo: racismo.)

Eu acho que o problema está a ser mal posto.

Se o problema é o envelhecimento da população, então a solução não é fazer mais bebés, a solução é matar os idosos (não os deixar viver até tão tarde). De facto, o grande problema demográfico atual é que as pessoas vivem até cada vez mais tarde, mas continuam a deixar de ser (suficientemente, razoavelmente) produtivas por volta dos 60 ou 70 anos de idade. A sociedade tem portanto uma sobrecarga cada vez maior de pessoas improdutivas a sustentar. A solução para esse problema não está, evidentemente, em fazer mais bebés - pois que as crianças também são, ao fim e ao cabo, pessoas improdutivas que é necessário sustentar.

É pois necessário inverter a obsessão com o prolongamento da vida humana. As pessoas devem aceitar que há uma idade para tudo - inclusivé para morrer.

 

(Sob este ponto de vista, convem ver o vício tabagista de forma diversa da atual. O tabaco provoca, sabe-se, muitas doenças. Mas tem uma vantagem grande - tende a matar os seus viciados quando ainda não são muito idosos e através de uma doença indetetável e rapidamente fatal - o cancro do pulmão. O tabagismo é um vício horrível, mas faz a sociedade poupar imenso dinheiro em pensões de reforma.)

 

(Há muitos anos, quando a explosão demográfica no Terceiro Mundo era um problema muito falado, vi um cartoon de Quino em que a Mafalda se queixava: "Há quem diga que somos de mais... Mas ninguém se vai embora". O espírito deste post é precisamente esse.)

Retrato de Luís Lavoura

Dizem que a Rio Tinto vai investir um balúrdio para reativar as minas de ferro de Moncorvo (Trás-os-Montes). A mineração irá criar (daqui a dez anos!) 400 postos de trabalho diretos mais 800 indiretos.

Vai ser preciso mandar vir ucranianos, brasileiros e caboverdianos.

Retrato de Luís Lavoura

O primeiro-ministro anunciou que haverá uma redução no número de feriados.

A Igreja Católica já veio dizer, muito razoavelmente, que está disposta a discutir e, de facto, que aceita a eliminação de alguns feriados religiosos.

Ainda bem que estamos todos de acordo para dar este passo, fundamental para a laicidade do país.

Devem acabar os feriados do Corpo de Deus (uma quinta-feira na primavera que não serve para mais nada se não para uma boa ponte), da Assunção de Nossa Senhora (o 15 de agosto no qual boa parte dos portugueses está, de qualquer forma, de férias), e de Nossa Senhora da Conceição (o 8 de dezembro no qual, de qualquer forma, o comércio está todo aberto).

Se quiserem acabar também com feriados nacionais, opto pelo 10 de junho (que não tem qualquer tradição e foi uma invenção oportunista da Primeira República, e que dá azo a pontes inconvenientes com o 13 de junho) e pelo primeiro de dezembro (que se refere a um facto muito antigo e que também nunca é respeitado pelo comércio).

Retrato de Luís Lavoura

... enche a galinha o papo. E o governo teria duas formas fáceis de poupar alguns tostões, embora poucos, ao orçamento do Estado. Uma, seria denunciar o acordo com a Igreja Católica e deixar de pagar uma disciplina de Educação Moral e Religiosa (quase sempre católica) nas escolas, incluindo o pagamento àqueles que a lecionam. De caminho, poderia também deixar de pagar os capelães hospitalares. Outra forma de poupar seria alterar a lei por forma a que os abortos, embora livres, deixassem de ser pagos pelo erário público. É que, 20.000 abortos a 400 euros por aborto, faz 8 milhões de euros por ano - não é muito, mas sempre é alguma coisinha.

Retrato de João Cardiga

Participei, enquanto cidadão e membro do Movimento Liberal Social, na Manifestação de 12 de Março. Foi com orgulho que o fiz, mais orgulho tive em ver tantas pessoas, tão diversas na rua. Tive um gosto especial ao tomar conhecimento que alguns amig@s, que normalmente não participam, saíram à rua e protestaram. Tenho de felicitar a Paula Gil, Alexandre de Sousa Carvalho, António Frazão e João Labrincha. Apesar de o evento os ultrapassarem, sem a ideia original nada teria sido feito.

Mais tarde participei em algumas Assembleias do Rossio. Não cheguei a acampar. No início, dava prazer acompanhar o espírito da mesma. Não concordava com muito das posições tomadas, mas era de salutar a vontade de integrar e o gosto em debater que algumas pessoas tinham. Conheci diversas que de outra forma nunca se teriam cruzado na vida. Foi bom saber que existem tantas pessoas interessadas e interessantes.

Agora a 15 de Outubro convocou-se uma nova manifestação e desta vez eu NÃO VOU! E esta minha vontade nasce da irracionalidade desta convocatória, e, principalmente por tudo o que aconteceu depois destes eventos.

Comecemos pela irracionalidade. Diz-se que é contra o “orçamento dos cortes” mas ainda nem se sabe que cortes são (e muito menos qual o orçamento). Ou seja, é uma apologia da ignorância. A mensagem é “Eu nem quero saber o que será feito, eu sou contra! Porquê? Porque sim!”. Neste sentido, não existe nenhum motivo para se convocar uma manifestação agora.

Portugal teve uma mudança democrática no início deste Verão. Nas eleições legislativas, os eleitores demonstraram claramente que rumo pretendiam seguir (e qual o que não queriam). Para quem exige mais democracia deveria aprender a respeitar as instituições democráticas. Isto não implica não protestarem, mas sim fazerem-no de forma consciente e fundamentada. Este não é o caso.

Mas se o motivo anterior era já suficiente para eu não ir, tal não me motivaria a escrever este artigo. O que me motiva é o que foi feito depois. Do 12 de Março nasceu um movimento, que do espírito do protesto apenas guarda o nome. E ao escolher “12 de Março” para designar tal associação, deveriam ter respeitado e compreendido o que aquele evento foi.

Afirmam-se apartidários, que não são “de esquerda ou de direita” e no entanto apenas promovem eventos e acções ligados à esquerda radical. Dizem querer promover a transparência e nem sequer se percebe o que formalmente são. Parecem um híbrido indefinido, entre grupo de amigos e movimento político.

Não são diferentes do que existe actualmente. São mais do mesmo. Vejo propostas sem nenhuma sustentação.

Não seria necessário muito debate para rebater muito delas. Tomemos por exemplo a “auditoria cidadã”. Nome bonito e pomposo. Mas será que alguém já ouviu falar do Tribunal de Contas? Este organismo faz auditorias às contas e publica os seus relatórios. Conseguem encontrar aqui grande parte da informação que pretendem – senão mesmo toda – com uma auditoria cidadã. Não se entende porque é que querem replicar informação. E menos se entende porque é que não promovem eles próprios essa auditoria. Não faz qualquer sentido exigir-se uma “auditoria cidadã” quando se tem a informação e os instrumentos. Claro que fazer exige trabalho, enquanto exigir se consegue com um simples protesto.

No fundo são mais uma “associação”, que aproveitou para surfar uma onda que não era a sua.

Mas o que aconteceu ao M12M é algo que, infelizmente, é normal por cá. Já o Rossio só tem uma palavra: deprimente! Fui-me informar do que tinha acontecido desde que resolvi abandonar as Assembleias. E eis que chego à acta da de 24 de Julho onde me deparo com:

“Se nos interessa neste momento incluir todas as pessoas? possivelmente não…”

Mas quem é que sequer se questiona neste sentido? Mais, o debate focou-se, entre outras coisas, em:

“preferimos chegar a um público que não se inclua em nada do que a públicos já inseridos em grupos organizados em formatos arcaicos”

Desculpem? Eu li bem? A grande “assembleia popular”, espelho da indignação e representante da voz popular agora deixou de ser inclusivo?

“Arcaicos”? Ah?!? Realmente não existe qualquer tipo de arcaísmo numa forma deliberativa que tem longas décadas desde que foi criada. É a pura ignorância a reinar por aquelas bandas.

Ok… Eu até dava o benefício da dúvida, caso não tivesse ido a algumas, mas isto é o continuar do espírito que levou à desmobilização da assembleia. Um conjunto de pessoas fechadas sobre si mesmo. Brincam um jogo de RPG “vamos re-inventar a roda democrática”. Nem se apercebem que falam para eles próprios e não representam nada.

Alguns dos episódios que aconteceram por lá roçaram o ridículo. Desde o choradinho pela carga policial, que foi um mero arrufo policial (apesar de considerar à mesma o episódio lamentável e grave), à tentativa de imposição de horários e regras aos acampados (quando quem votava não acampava) ou ao episódio “montypythiano” de se levar à votação se se levava à votação determinada posição, existiu um pouco de tudo.

Neste momento o Rossio e outros movimentos são representantes auto-indigitados de um enorme nada. Apenas aumentam a descrença na acção política e uma desmobilização de quem não tem por hábito participar activamente na política. Ao tratarem assuntos sérios de forma tão infantil resumem-se agora a um mero espelho de tudo o que está mal na política portuguesa.

Tenho alguma tristeza por escrever estas palavras. Senti a esperança destes momentos, e tentei estar o máximo que pude, mesmo quando tudo dizia para fazer o contrário. Existem nestes meios pessoas muito competentes e valorosas. Pessoas empenhadas. Mas enquanto se deixarem guiar por este rumo, as suas acções só servirão para demonstrar porque é que hoje estamos onde estamos. Por vezes alguns é quanto baste para que algo corra muito mal.

Retrato de Miguel Duarte

Infelizmente a realidade retratada pela imprensa e políticos muito pouco tem a ver com a realidade. Para o ano de 2009, tirado do relatatório da Europol, eis o resumo das tantativas de ataques terroristas em 2009. Islamistas apenas 1 em 294!

Terrorismo na Europa em 2009

Retrato de Miguel Duarte

Publicado no dia dos ataques, o vídeo descreve o Islão como “a principal ideologia dos genocídios”. “Antes de começar a Cruzada, é nosso dever dizimarmos o marxismo cultural”, pode ainda ler-se neste vídeo.

Fonte: Público

A ironia destes atos é que os extremos acabam por ter exatamente o mesmo comportamento. Entre um cristão radical e um muçulmano radical, ou um radical de esquerda e um radical de direita, vai dar tudo ao mesmo, a intolerância para com o próximo.