Sociedade

Entradas que tenham a ver com questões de evolução social, tradições, etc.
Retrato de Luís Lavoura

A melhor reação às ideias ontem avançadas para promover a natalidade foi a de Arménio Carlos, líder da CGTP e pessoa com quem não simpatizo. Disse ele, muitíssimo corretamente, que o que é essencial para aumentar a natalidade é que haja empregos, especialmente empregos estáveis e seguros. Essa é toda a verdade. O resto, as medidas fiscais e outras que o Estado arquitete, a pouco ou nada levarão.

E, já agora, poder-se-ia acrescentar: se nem para os pais há empregos, para os filhos muito menos os há - o desemprego jovem anda perto dos 50%. Se não há empregos para os jovens, para quê produzir mais jovens?

Retrato de Luís Lavoura

O governo diz que quer que a economia melhore mas que não pode fazer grande coisa por isso, pois que cabe aos empresários privados, e não ao Estado, investir. Têm que ser os privados  fazer a economia andar para a frente.

Quando se trata da natalidade, o governo pretende assumir uma postura mais pró-ativa: parece que quer dar incentivos fiscais a quem tenha mais filhos.

Eu diria, porém, que a natalidade só aumentará quando a economia melhorar também. Os incentivos fiscais serão inúteis. Em matéria de natalidade como em matéria de economia, cabe aos privados e não ao Estado tomar a iniciativa. E os privados - os prospetivos pais - só a tomarão quando tiverem sólidas perspetivas de empregos minimamente estáveis e minimamente bem remunerados. Perspetivas que hoje, infelizmente, muitos deles não têm.

Retrato de Luís Lavoura

Esta manhã na rádio falou-se de jovens mulheres que, para terem um emprego, são forçadas a prometer ao patrão que não engravidarão durante os próximos cinco ou seis anos. O compromisso é fácil de manter, dado que, sobretudo para jovens empregados, o despedimento é extremamente fácil, sobretudo pela contratação a recibos verdes. Há também muitos casos de mulheres que, embora engravidem, são forçadas a despedir-se se quiserem manter a gravidez, porque as condições de trabalho que lhes são fornecidas, nomeadamente em termos de horários, são incompatíveis com a gravidez (tempos de alimentação corretos, alimentação adequada, etc).

Fala-se muito em Portugal da baixa natalidade e daquilo que o Estado deveria fazer para mitigar esse problema. Refere-se a necessidade de mais creches, etc. Talvez fosse bom falar-se sobretudo da necessidade de impôr as leis do trabalho existentes e de não permitir a fuga a elas mediante expedientes.

Retrato de Luís Lavoura

Recorrentemente aparecem queixas sobre o elevado preço dos livros em Portugal. Para sustentar essas queixas compara-se o preço de livros portugueses com o preço de livros ingleses - veja-se por exemplo este post. Porém, tal comparação não faz qualquer sentido, porque o mercado disponível para livros em língua inglesa é imensamente maior do que o para livros em português (de Portugal!), pelo que as tiragens dos livros ingleses são imensamente maiores, e os preços unitários correspondentemente mais baixos.

Uma comparação justa seria entre os preços dos livros portugueses e os preços de livros noutros mercados de dimensão comparável; sendo que, para avaliar da dimensão do mercado não basta conhecer a população do país, é preciso também conhecer os níveis de alfabetização e de hábitos de leitura. Por isso, eu suspeito que a comparação adequada seria entre o preço dos livros portugueses e os preços dos livros checos ou sérvios. Alguém os conhece?

Retrato de Luís Lavoura

Morreu Mário Leston Bandeira, um demógrafo que passava o tempo a lançar atoardas sobre o declínio (nunca concretizado!) da população portuguesa e sobre a morte anunciada de Portugal por via do decréscimo da natalidade.

Agora talvez o debate sobre esse decréscimo se torne mais racional e se passe a considerar, com verdade, que a população não evolui apenas por via da natalidade mas sim também devido à economia e ao saldo migratório. E talvez a demografia passe a ter menos ressonâncias de proteção de uma salazarenta "raça" portuguesa.

Retrato de Luís Lavoura

Mais uma vez, na sexta-feira surgiu na comunicação social um apelo lancinante para que o Estado preste atenção à descida da natalidade e faça alguma coisa (que ninguém sabe bem qual possa ser) para que os portugueses tenham mais filhos. O risco, dizem, é que Portugal em breve tenha apenas 6 milhões de habitantes (como se isso fosse algum desastre - Portugal já teve 6 milhões de habitantes e nem por isso era menos país do que é hoje).

Há muitas coisas que eu não entendo nesta tese, e a principal delas é: se Portugal já hoje é incapaz de dar emprego a todos os seus jovens, para que raio querem que Portugal tenha ainda mais jovens? Será que Portugal tem falta de mão-de-obra? Não tem, evidentemente, como se vê pelo nível do desemprego no país. Mas, se a economia portuguesa não tem falta de mão-de-obra, para que raio querem que os portugueses produzam ainda mais mão-de-obra? Não a tem o país a suficiente para si próprio e, ainda, para forçar tantos portugueses a emigrar?

Retrato de Luís Lavoura

Uma coisa curiosa é que boa parte dos argumentos que recentemente têm sido expendidos contra a coadoção por casais homossexuais podem, da mesma forma, ser utilizados contra a coadoção por casais heterossexuais e, frequentemente, também podem ser utilizados contra toda e qualquer adoção. A direita conservadora anda tão falha de intelecto que utiliza argumentos que julga serem contra a coadoção por homossexuais mas que na verdade valem contra toda e qualquer adoção. Por exemplo:

(1) A coadoção é um capricho dos adultos, a criança não precisa dela para nada. Este argumento tanto vale para homossexuais como para heterossexuais.

(2) A criança tem o seu pai e a sua mãe biológicos, o Estado não pode fingir que isso não é assim. Este argumento vale contra toda e qualquer adoção.

(3) O Estado não se deve intrometer em assuntos da família, que devem ser regulados pela sociedade. Mais uma vez, este argumento vale contra toda e qualquer adoção.

(4) A coadoção por homossexuais é uma solução perigosa para a criança, pois o casal coadotante poderá mais tarde divorciar-se. Mais uma vez, este argumento pode igualmente ser utilizado contra a coadoção por heterossexuais e, de facto, contra qualquer adoção por casais.

A minha recomendação é que, quando virmos qualquer argumento que seja lançado contra a coadoção por casais homossexuais, examinemos com cuidado se esse argumento não é igualmente válido contra outras (co)adoções. Se o fôr, então esse argumento deve ser descartado.

Retrato de Luís Lavoura

Pense-se o que se pensar das praxes académicas, parece-me evidente que os jovens que recentemente se afogaram na praia do Meco entraram na água por sua iniciativa e de sua livre vontade.

Não é, de facto, concebível que um só indivíduo pudesse ter forçado fisicamente os outros cinco a entrar na água a contragosto.

Portanto, o veredito é simples: cinco jovens estouvados fizeram algo de perigoso e morreram em consequência disso.

Não há aqui nada de anormal ou que mereça grande discussão. É sabido que os jovens, sobretudo mas não somente os machos, são estouvados, temerários e fortemente propensos a tomarem atitudes (muito) perigosas, que ocasionalmente resultam na morte.

O afogamento é um caso raro. O mais comum, neste campo, são os desastres rodoviários. Todos os anos morrem em Portugal dezenas de jovens, sobretudo machos, em desastres desse tipo. Não podemos duvidar que muitos desses desastres são consequência direta da temeridade na condução deles.

Retrato de Luís Lavoura

Uma evolução positiva que tenho notado no comércio lisboeta é que há cada vez mais lojas a abrir e a fechar rapidamente, ou seja, há empreendedorismo, tentativa e transformação. No passado, em grande parte por culpa de uma lei do arrendamento iníqua que protegia as rendas baixas de arrendamentos celebrados há muitos decénios, as lojas eram sempre as mesmas - frequentemente lojas anquilosadas, pouco evoluídas e desadaptadas aos tempos modernos. A paisagem urbana pouco variava: as lojas de há cinquenta anos continuavam no mesmo local. Hoje verifica-se, pelo contrário, que muitas lojas surgem de um dia para o outro, testam o mercado, tentam vender os seus produtos ou serviços - e muitas não sobrevivem mas, naturalmente, algumas vingam. Há portanto inovação e empreendedorismo, coisa que dantes não havia ou era dificultada. Ainda bem que as coisas mudaram.

Retrato de Luís Lavoura

Tem uma certa graça ver Portugal a colaborar na candidatura da chamada "dieta mediterrânica" a património mundial, quando é mais que certo que a dieta historicamente praticada pelos portugueses foi tudo menos mediterrânica. Tradicionalmente, os portugueses comiam arrobas de sal, vinho certamente mas sempre em excesso, gordura de porco q.b., e ervas aromáticas quase nenhumas (exceção feita à salsa e ao Alentejo); sem falar no azeite falsificado com óleos mais baratos. A dieta portuguesa não é dieta nenhuma, muito menos mediterrânica.