Sociedade

Entradas que tenham a ver com questões de evolução social, tradições, etc.
Retrato de Luís Lavoura

A notícia do dia é que a população de Portugal está a decrescer.

Grave? Não. O facto é que nunca a população de Portugal foi tão grande como hoje. Ela é agora de 10 milhões e meio de pessoas, quando ainda na minha infância era bem inferior a dez milhões de pessoas. Portanto, ainda há muito espaço para que a população de Portugal decresça mais. Não temos que nos preocupar com o facto de a população estar a decrescer.

O preocupante, isso sim, é o envelhecimento da população. Mas, sobre isso, o teste do pezinho nada nos diz.

Retrato de Luís Lavoura

Parece que uma das tradicionais "repúblicas" coimbrãs, isto é, uma casa na qual viviam em comunidade quatro estudantes, vai fechar, porque a senhoria aumentou a renda de 12,5 para 764 euros. O caso, espantemo-nos, é notícia nos jornais.

Eu diria que 764 euros por uma casa para quatro pessoas é preço de mercado. Em Lisboa há, sem dúvida, montes de grupos de quatro estudantes que vivem em conjunto em apartamentos arrendados por valores dessa ordem - ou mais elevados. Nada há de chocante em que os quatro estudantes dessa república coimbrã sejam forçados a pagar aquilo que, provavelmente, muitos dos seus colegas já pagam - por habitarem em apartamentos que não levam o nome de "república" mas que, afora isso, em tudo são similares àquele.

Justiça e igualdade é isto - todos pagarem o mesmo valor, o valor de mercado - em vez de uns pagarem 750 euros e outros pagarem apenas 10.

Retrato de Luís Lavoura

O grande problema com o orçamento de Estado para 2014 é que ele altera aquilo que para os portugueses é mais importante: as hierarquias sociais.

Os portugueses constituem um povo sobremaneira invejoso e consciente das hierarquias. Para um português, a quantia absoluta que ele ganha não é muito importante: o mais importante é saber que ganha mais do que o vizinho sr. X e menos do que a parente sra. Y. Nestas condições, esse português terá inveja da sra. Y mas, em contrapartida, satisfar-se-á com a inveja que o sr. X dele tem e com o respeito que ele por ele demonstra.

Ora, o orçamento de Estado para 2014 promete diminuir significativamente os rendimentos de funcionários públicos e de reformados. De um momento para o outro, um idoso aposentado passará a ter menos rendimentos do que o seu filho trabalhador - alterando as relações de poder na família. Um professor do setor público passará a ganhar menos do que o seu colega de um colégio privado - alterando a relação de inveja que entre eles vigorava. Isto é sobremaneira intolerável para os portugueses.

Para a mentalidade portuguesa, um aumento de impostos ou uma desvalorização da moeda são soluções boas, porque não alteram as relações de poder, subserviência e inveja no interior da sociedade. Um corte súbito de salários, isso é intolerável, pois corresponde a uma alteração da hierarquia social, a coisa que para os portugueses é mais importante.

Retrato de Luís Lavoura

Alguém me saberá explicar por que carga de água praticamente todos os jogadores da seleção moçambicana de hóquei em patins são de raça branca, totalmente branca?

Será que há assim tantos moçambicanos brancos? Será que há racismo institucional no hóquei em patins moçambicano? Será que Moçambique oferece a sua nacionalidade a jogadores provindos de outros países?

Retrato de Luís Lavoura

A primeira viagem do papa foi à ilha italiana de Lampedusa, próxima de Malta e da costa líbia, onde a Itália acumula os desgraçados imigrantes africanos que são resgatados no mar Mediterrâneo. O papa falou da "indiferença" do mundo perante a sorte daqueles que procuram vidas melhores para si e as suas famílias.

Foi uma visita original e que fica muitíssimo bem ao papa.

É interessante confrontar o alheamento e a repugnância com que são recebidos estes novos boat people com a excitação e júbilo que rodearam, há 40 anos, a chegada dos boat people vietnamitas a Hong Kong. Esses foram recebidos de braços abertos, foram objeto de muitas reportagens televisivas, e rapidamente receberam asilo nos EUA. Os boat people atuais não têm interesse em termos de exploração política e são vistos como um incómodo horrível.

Retrato de Luís Lavoura

O povo português é, diz-nos um estudo que já vi mencionado, um dos da Europa (conjuntamente com o italiano) que mais mima as crianças. As crianças são, em Portugal, tratadas nas palminhas. Não se pode ofendê-las nem agravá-las, todos os carinhos são insuficientes para com elas.

Regularmente, os trabalhadores dos transportes coletivos fazem greves nas quais prejudicam gravemente o dia a muitos portugueses. Causam-lhes perda de tempo, arrelias, stress e gasto monetário. Tudo isso é horrível mas, para os portugueses, muito pior do que isso é os professores fazerem uma greve aos exames, porque isso faz as crianças (neste caso, os jovens) perderem tempo, arreliarem-se e ficarem stressadas. E isso é, para os portugueses, inadmissível, insuportável. É mil vezes pior do que qualquer greve dos transportes.

Senhores grevistas, stressem à vossa vontade os adultos. Mas não façam isso às crianças, por favor!!!

Retrato de Luís Lavoura

O argumento que corre, incontestado, é que a coadoção (seja em casais homossexuais seja em heterossexuais - não diferencio) é boa para as crianças porque, se o progenitor original morrer, elas ficam sempre com o progenitor que coadotou.

Isto é um facto. Mas a ele há a contrapôr outro facto: havendo dois progenitores, há o risco de estes se divorciarem. E o divórcio dos pais constitui, para uma criança pequena, um trauma considerável. E uma complicação na vida (morar uns dias na casa de um, outros dias na do outro). Para além de que, com demasiada frequência, os pais que se divorciam utilizam os filhos como arma de guerra um contra o outro, com grande prejuízo tanto para a criança como para o sistema judicial.

Ora, na sociedade atual a morte de pessoas jovens não é, felizmente, tão frequente como foi no passado, mas o divórcio é muitíssimo mais frequente do que foi.

Por isso, eu não estou certo de que a coadoção não seja, pelo contrário, algo que deva ser evitado. Mais vale, talvez, entregar a criança à adoção por uma, e uma só, pessoa - e deixar que essa pessoa se case e divorcie com quem quiser, quando quiser, quantas vezes quiser. Seria uma família anormal, é certo, a constituída por uma criança somente com um progenitor oficial. Mas seria uma adoção em que a responsabilidade estaria claramente atribuída. O que, nos tempos atuais de pessoas crescentemente irresponsáveis, é uma grande vantagem.

Retrato de David Cruz

António Bagão Félix, João César das Neves e Pedro Quartim Graça são alguns dos principais signatários de uma petição pública à Assembleia da República, designada «Defender o Futuro», que pretende contestar as leis do casamento entre pessoas do mesmo sexo, aborto, divórcio, procriação medicamente assistida, entre outras. O presente artigo não pretende discutir as leis em questão, mas assinalar uma incoerência grave que se encontra nos princípios da petição.

Segundo os autores, a legislação que regula a procriação medicamente assistida, onde se incluem as técnicas de inseminação artificial e de fertilização in vitro, enquadra-se num conjunto de leis que “têm vindo a corroer o tecido social do país”. Na mesma página da petição, defende-se “uma política de responsabilidade e solidariedade expressa em leis que (…) protejam e promovam a natalidade”. Na verdade, a demonstração de reservas quanto à aplicação das técnicas de procriação medicamente assistida não é, de todo, congruente com o interesse de incrementar o número de nascimentos.

Para além da diminuição da descendência média, a maternidade tardia constitui uma das principais tendências reprodutivas que se têm vindo a acentuar, nos últimos anos, em Portugal. Neste âmbito, os dados estatísticos são elucidativos: se no início da década de 1980 a idade média da mãe da mãe ao nascimento do primeiro filho se encontrava nos 23 anos, na actualidade aproxima-se dos 30 anos; e se em 1995 os nascimentos de mães com 35 e mais anos representavam apenas 10% do total de nados vivos, em 2011 representaram cerca de 24%. É plausível que quer a idade média da mãe ao nascimento ao primeiro, quer a percentagem de nascimentos de mães com 35 e mais anos, continuem, substancialmente, a aumentar.

No entanto, a afirmação da maternidade tardia é incompatível com a deterioração da capacidade humana reprodutiva que tende a acentuar-se com a idade. Verifica-se, no caso das mulheres, um agravamento substancial na transição da casa dos trinta para os quarenta anos. Deste modo, é expectável que se assista, nas próximas décadas, a um incremento significativo dos diagnósticos de infertilidade. É precisamente neste campo que a procriação medicamente assistida pode desempenhar um papel crucial, através do prolongamento na idade dos limites biológicos para a reprodução. Em suma, estas técnicas potenciam a conciliação de duas tendências inicialmente opostas: uma de natureza biológica, outra de carácter sociocultural.

Publicado no Nove por Dez

Retrato de David Cruz

Não há consenso quanto ao fluxo de saídas da população residente em Portugal. Recentemente, o Instituto Nacional de Estatística (INE) revelou que, em 2011, emigraram 44 mil pessoas. O Governo acredita que o fenómeno foi mais intenso. O Secretário de Estado das Comunidades, José Cesário, desvalorizou as estimativas do INE ao afirmar que, nos últimos anos, têm saído anualmente cerca de 100/120 mil nacionais. Ou seja, valores comparáveis à vaga emigratória ocorrida durante a década de 1960.

Na verdade, nenhuma das fontes é fidedigna. Não é possível mensurar a emigração, pois este fenómeno não é sujeito a qualquer registo. Actualmente, um indivíduo que deixe o país não precisa de declarar às autoridades a sua saída, nem é alvo de qualquer tipo de inquérito. Na melhor das hipóteses, os migrantes poderão ser identificados nos países de destino através dos vistos e autorizações de residência. As dificuldades de registo aumentam caso o país de destino pertença à União Europeia, no qual vigora a livre circulação de pessoas. Como tal, os números dos movimentos emigratórios divulgados pelo INE constituem apenas uma estimativa.

Outra explicação para os números distintos pode estar no próprio conceito de emigrante. Segundo o INE, um “Emigrante permanente” é uma “pessoa (nacional ou estrangeira) que, no período de referência, tendo permanecido no país por um período contínuo de pelo menos um ano, o deixou com a intenção de residir noutro país por um período contínuo igual ou superior a um ano”. É provável que a Secretaria de Estado não tenha considerado o critério de duração da permanência no país de destino. De acordo com INE, não é considerado um caso de emigração, por exemplo, uma saída temporária para Angola com a duração de 10 meses.

A realidade socioeconómica nacional sugere que os dados do INE estejam subestimados. No entanto, o “palpite” do Secretário de Estado é exagerado. Não estamos perante tal sangria populacional, pois isso manifestar-se-ia noutros indicadores demográficos sujeitos a registo.

Publicado no blogue Nove por Dez

Retrato de Luís Lavoura

Um estudo recentemente realizado em Portugal, na Noruega e na Croácia revela que uma percentagem de 10% a 20% de homens declara ter períodos longos de falta de interesse sexual. Esta percentagem foi considerada "elevadíssima" pela cientista que coordenou a parte do estudo realizada em Portugal.

Talvez estimulados por séries americanas que mostram, por exemplo, pessoal hospitalar a intercalar as suas funções profissionais com a prática sexual mútua, a sociedade "ocidental" atual convenceu-se de que é normal, adequado, desejável e saudável que as pessoas, especialmente os homens mas de preferência também as mulheres, estejam permanentemente interessadas e disponíveis, tanto psicologicamente como fisicamente, para copularem entre si. Se não estão continuamente interessadas e disponíveis, então isso é considerado preocupante, anormal e, eventualmente, patológico, imediatamente se mobilizando os especialistas, armados de terapias e drogas, para ajudar @ infeliz que padece dessa falta de interesse ou desejo sexual.

(Significativamente, nunca se fala do efeito contrário, de pessoas que possam sofrer de um desejo e de um interesse excessivos na prática sexual, nem para curar tais condições se prontificam especialistas, médicos e terapeutas, eventualmente armados de drogas que, por exemplo, ajudem a suprimir a excitação sexual.)

Eu diria que é uma sociedade hiper-sexualizada, obcecada pela cópula, esta em que toda a gente é suposta estar permanentemente interessada em, e com disponibilidade para, fazer sexo.