Transportes

Comentários de membros do MLS sobre a política de transportes em Portugal.
Retrato de Luís Lavoura

Segundo o Ministério das Obras Públicas, que é responsável pela TAP, a privatização dessa empresa é urgente (foi afirmado em notícia esta manhã na Antena 1). Esse Ministério diz que a empresa não resistirá a qualquer choque (um aumento do preço do combustível para aviões, uma diminuição da procura causado por uma qualquer crise do transporte aéreo) que possa vir a sofrer proximamente. Em caso de tal choque, a TAP falirá, dado que o Estado, seu proprietário, não está autorizado - por regras da União Europeia - a injetar capital nela.

 

(Em caso de falência da TAP, acrescento eu, a empresa morre, mas as dívidas não. Como o proprietário da TAP, ou seja, o Estado português, não morre com ela, as dívidas permanecem para esse proprietário as pagar. Os contribuintes ficam com o bolo das dívidas para pagar ao longo dos anos seguintes.)

 

Há muitos, muitos anos (uma ou duas dezenas deles, pelo menos) que a privatização da TAP se impõe. Porque o transporte aéreo é (na Europa) um negócio cada vez mais perigoso, difícil e, potencialmente, ruinoso. O Estado adiou sempre a privatização, ano após ano, sempre, quiçá, à espera de ter uma melhor TAP para vender. Mas nunca teve nem nunca terá. Urge que o Estado se desfaça dela o mais urgentemente possível.

 

Os tempos petrolíferos não estão para que os contribuintes andem a brincar com negócios que dependem crucialmente do preço do petróleo.

Retrato de Luís Lavoura

Os portugueses já hoje têm muitos incentivos para mentirem ao Estado sobre qual é a sua residência permanente. As pessoas declaram ao Estado residências falsas para, por exemplo, poderem matricular os filhos numa escola melhor, receberem subsídios à agricultura que desenvolvem nas suas quintas, poderem votar num círculo eleitoral que lhes agrade mais, obterem cartão de estacionamento gratuito da EMEL, usufruírem de um melhor centro de saúde, poderem continuar a ocupar uma casa com uma renda muito baixa, e muitos outros efeitos. A partir de agora, existirá mais uma razão para mentirmos ao Estado sobre a nossa verdadeira residência: pagar menos nas autoestradas. Por exemplo, um cidadão que viva em Lisboa mas tenha uma casa de férias, à qual se desloca regularmente, nos arredores de Castelo Branco, passará a declarar a casa de Castelo Branco como sua verdadeira morada, para não ter que pagar portagem na A23 de cada vez que lá vai. Digam lá que este primeiro-ministro não é porreiro, pá...

Retrato de Luís Lavoura

A "solução" encontrada pelo governo para o pagamento de portagens nas SCUTs é, como já vem sendo usual neste país, totalmente orientada para os utilizadores repetitivos do sistema de transportes em questão, mas desconsidera totalmente os seus utilizadores ocasionais ou eventuais.

 

Eu vivo em Lisboa e só ocasionalmente e imprevisivelmente vou de carro até ao Norte e necessito de utilizar uma SCUT. Posso ter de fazer isso a qualquer momento mas, por regra, não o farei mais do que uma vez por ano, e não farei mais do que uma ou duas dezenas de quilómetros numa SCUT por ano. Que sentido faz obrigar um utilizador como eu a ir gastar dez euros, ou mais, num chip que provavelmente só servirá para pagar um euro de portagens por ano?

 

Para todos os efeitos práticos, este chip constitui um imposto automóvel extra. Os automobilistas são obrigados por lei a comprar um chip que, possivelmente, nunca ou só muito raramente irão utilizar.

 

Fica-se com a clara noção de que, como é prática usual dos governos, esta obrigatoriedade se destina basicamente a criar uma renda para uma determinada indústria nacional, neste caso, para a produtora dos cartões Via Verde. A partir de agora, todos os automobilistas serão obrigados a comprar um cartão Via Verde, mesmo aqueles a quem esse cartão nunca ou raramente servirá para alguma coisa. De facto, para cúmulo da perversidade, passará a haver dois tipos de cartões Via Verde: os cartões de segunda categoria, que são obrigatórios para todos os automobilistas mas só permitem pagar as portagens das SCUTs, e os cartões de primeira categoria, mais caros e que permitem, não apenas pagar nas SCUTs mas também pagar nas outras autoestradas. Claramente, o objetivo desta marosca governamental é criar uma renda, um mercado cativo, para a empresa que produz a tecnologia Via Verde.

 

Desde já afirmo que sou favorável ao pagamento de portagens em todas as atuais SCUTs e que nada tenho a objetar contra esse pagamento ser feito através de um identificativo automático de matrícula. Mas - esse dispositivo deve ser gratuito. Os automobilistas que apenas eventualmente, ocasionalmente e imprevisivelmente têm que utilizar uma SCUT não devem ser obrigados a pagar um novo imposto de circulação para poderem andar por aí à vontade.

Retrato de Luís Lavoura

Nos últimos empos tem-se falado muito sobre as grandes obras públicas e a necessidade ou não-necessidade de as adiar. Foca-se invariavelmente, quando se discute este problema, o TGV. Isto dever-se-á à opção, feita pelo PSD de Manuela Ferreira Leite, de escolher essa grande obra pública como o principal alvo a abater. Eu penso que essa foi uma das muitas más escolhas que o PSD de Manuela Ferreira Leite fez. Porque, de ente todas as grandes obras públicas em curso ou projeto, o TGV parece-me a menos má de todas.

 

Isto porque o TGV é um combóio que funciona a eletricidade, eletricidade essa que pode ser produzida por uma variedade de meios. As outras grandes obras públicas, pelo contrário, destinam-se a meios de transporte que só funcionam a petróleo. Eu compreendo que Manuela Ferreira Leite, que é uma senhora de 70 anos, acredite que vai haver sempre petróleo e que ele vai permanecer sempre a um preço aceitável. A maioria dos portugueses da classe social de Manuela Ferreira Leite concordará com ela - eles andam muitíssimo de automóvel, algumas vezes (gostosamente) de avião, mas raramente de combóio. Para eles, as auto-estradas são ótimas grandes obras públicas, e um novo aeroporto para Lisboa também é uma boa grande obra pública; o TGV, pelo contrário, é totalmente dispensável, é uma verdadeira delapidação de dinheiro.

 

Infelizmente, estão errados. O petróleo não dura sempre e, daqui a dez anos, a gasolina estará a um preço proibitivo para quem queira andar de avião ou automóvel. As grandes obras públicas de que não se fala - as autoestradas e o aeroporto - destacar-se-ão então como os elefantes brancos que são. O TGV para Madrid acabará por parecer a menos má de todas as grandes obras públicas. Aposto, aliás, que acabará por ser muito mais utilizado do que as atuais previsões mais otimistas sugerem.

Retrato de Luís Lavoura

Um conhecido meu dizia há dias que, em sua opinião, virtualmente qualquer governo seria hoje melhor do que aquele que Portugal atualmente tem.

Afirmação tão radical custou-me a aceitar quando a ouvi. Infelizmente, cada vez mais me parece ser a cruel realidade.

A decisão de avançar com os projetos de grandes obras públicas (vias rodoviárias, novo aeroporto, TGV) é completamente louca. O governo repete a mesma receita que tem sido aplicada vezes sem conta ao longo dos últimos 25 anos por sucessivos governos portugueses: estimular a economia com base na construção civil aplicada aos transportes. A economia portuguesa está, de facto, viciada nessa droga que é o investimento estatal em betão. Só que, as condições mudaram.

O governo não se apercebe de que o pico da produção mundial de petróleo já foi inexoravelmente ultrapassado. A partir de agora, o setor dos transportes, responsável por 40% da energia primária consumida, não terá possibilidades de crescer - de facto, estará condenado ao definhamento progressivo. Esta cruel realidade é especialmente verdadeira nos casos do transporte aéreo e do rodoviário, que só podem subsistir à custa do consumo de petróleo.

Sobre um tal pano de fundo, estar a investir em mais estradas e mais aeroportos é, pura e simplesmente, louco. Nunca haverá automobilistas nem vôos que possam vir a justificar economicamente essas obras. Quando elas estiverem completas, de facto, já se conduzirá menos e já se voará muito menos do que atualmente. A coisa será ainda pior ao longo dos decénios seguintes - não nos esqueçamos de que o prazo de amortização de uma autoestrada ou um aeroporto é da ordem dos vinte anos.

Desejo que haja em breve uma crise política que permita que rapidamente Portugal mude de governo. Sócrates perdeu completamente o norte. O seu governo está de pantanas, profundamente dividido - já não é possível ocultar que o ministro das finanças está contra o primeiro-ministro, e vice-versa. O facto de o PSD ter passado a superar o PS nas intenções de voto é muito positivo.

Tal como Mário Soares e Jorge Sampaio antes dele, em breve Cavaco Silva terá que tomar a decisão da sua presidência: percebendo que a Assembleia da República em funções, embora capaz de sustentar uma solução governativa, já não corresponde aos desejos do povo português, terá que a dissolver e convocar novas eleições, que abram caminho a uma nova maioria. Espero que já não faltem muitos meses para que isso aconteça.

Retrato de Miguel Duarte

É em dias como hoje que o cidadão comum que utiliza viatura individual se pode aperceber da importância dos transportes públicos. Hoje foi um dia de caos nas auto-estradas e na cidade de Lisboa. Quem tem viatura individual deve ter desesperado parado no trânsito e gasto bastante mais tempo e dinheiro em combustível nas suas deslocações.

O interesse de quem tem automóvel é chegar o mais rapidamente possível e ao menor custo ao destino, como tal, tem interesse directo em evitar que existam mais utilizadores nas estradas de que é utilizador habitual. Sendo que a rentabilidade de investimentos em novas estradas, por eventuais novos utilizadores é progressivamente menor à medida que se controem novas infraestruturas, dado que faixas adicionais nas auto-estradas não aumentam na mesma proporção o escoamento do tráfego e o espaço para nova construções é limitado e mais caro de expropriar (quando tal é uma possibilidade).

Retrato de Miguel Duarte

The last eruption of the Eyjafjallajoekull volcano was on 20 March, when a 0.5km-long fissure opened up on the eastern side of the glacier at the Fimmvoerduhals Pass. The eruption prior to that started in 1821 - and continued intermittently for more than a year.

Fonte: BBC

Retrato de João Cardiga

Embora o nome tenha caído um pouco em desuso em Portugal, as discussões à volta das leis laborais giram à volta de um conceito: a flexissegurança.

O debate foi introduzido em Portugal a meio da decada passada, no entanto tem sido bipolarizado, o que faz com que o mesmo não avance.
Um bom exemplo desta bipolarização, ocorre aqui na blogosfera entre "O Insurgente" e o "Arrastão". Para os primeiros apenas conta a flexibilidade, enquanto para os segundos apenas conta a segurança.

Começando pelos primeiros: Nesta visão, os trabalhadores abandonam a sua componente humana e passam a ser meros instrumentos de produção. Dito de outra forma, são uma "máquina" complexa de produção, e como todas as máquinas, quando não funcionam bem, ou se deitam fora, ou se fazem ajustes para funcionarem melhores. Pior que isso, são "máquinas" descartáveis. É preciso a "máquina" funcionar à meia-noite? Então chama-se a "máquina" e ela tem de ir trabalhar. Ela não quer? Troca-se por outra que trabalhe nessas condições. E como estamos a falar de "máquinas", vale tudo: enganar, mentir, fugir à lei, etc... para se obter o resultado pretendido. E se alguém lhes aponta este facto, assobiam para o lado e dizem que a culpa é do bicho-papão chamado "Estado".

Já os segundos: Nesta visão, apenas os trabalhadores têm direito à condição de humanos. Todos os outros são exploradores, verdadeiros monstros. E como os trabalhadores são os unicos cidadãos, para continuarem a existir têm de continuar a ter trabalho. Tudo gira à volta desta condição. Pouco interessa que a empresa não consiga vender, como todos sabem, todas as empresas têm uma arvore das patacas escondida no escritório do director, pelo que há sempre dinheiro para os trabalhadores. Ou seja, a realidade é para estes um ente imutável. Uma empresa que existe terá de existir sempre, mesmo que esteja a produzir candeeiros a petroleo. Obviamente que a assumpção de risco não é para eles, pois isso é coisa de porco capitalista. Assim não interessa se o trabalhador rouba, insulta, não trabalha, etc... desde que que tenha um sitio para ir. E se alguém lhes aponta este facto, assobiam para o lado e dizem que a culpa é do bicho-papão chamado "Patronato".

Obviamente ambas as visões são profundamente erradas, e caso fossem implementadas acarratariam sérios problemas para a nossa sociedade. A questão é que, enquanto o discurso girar à volta deste discurso bi-polar, nenhuma verdadeira opção irá emergir.

Felizmente já trabalho tempo suficiente para saber que estas caricaturas que eles defendem, de um modo geral, não correspondem à nossa realidade.

O Secretário de Estado dos Transportes, Carlos Correia Fonseca, fez uma análise sobre o Metro de Lisboa e demonstrou uma forte incapacidade de pensamento sistémico.

As estações periféricas são pouco utilizadas enquanto que troços centrais têm uma elevada utilização.
E desta observação e de uma análise muito linear, o Secretário de Estado, concluiu que não faz sentido investir nas periferias, mas sim investir na área central.
Ora bem, isto pode fazer sentido numa análise linear, mas não faz qualquer sentido numa análise sistémica.

Ora vejamos. Se existisse uma única linha de metro, a utilização dos troços centrais seria sempre superior aos da periferia. Isto porque quem viaja entre as estações periféricas, utiliza os troços centrais e quem utiliza as linhas centrais pode não usar a periferia da rede.

Ou seja, a forma das estações e troços periféricos passarem a ser mais utilizados é deixarem de ser periféricos e para isso é necessário prolongar essas linhas. Logo aqui, a análise do Secretário de Estado perde o sentido.

Mas há mais. As redes de transporte só são eficientes quando funcionam efectivamente em rede.
E neste aspecto o metropolitano de Lisboa ainda está muito atrasado. Apenas no centro de Lisboa existe uma rede, no espaço compreendido entre as estações: Marquês de Pombal, Baixa-Chiado, Alameda e Campo Grande. Assim sendo é natural que as linhas compreendidas entre estas estações sejam muito utilizadas, pois são elas que ligam todas as outras.

Imagine-se, a título de exemplo (não é uma proposta), que existia uma linha a dar a volta a Lisboa que ligasse Santa Apolónia, Gare do Oriente, Odivelas, Amadora Este e (depois de dar a volta a Monsanto) viesse dar a Algés, ligando com o Comboio da Linha de Cascais. Esta linha iria tirar muita da circulação dos troços centrais e iria dinamizar fortemente as estações que hoje são periféricas.

Portanto, o que resolveria o problema enunciado pelo secretário de Estado não é o que ele propôs, mas exactamente o oposto.

artigo:
http://jn.sapo.pt/paginainicial/pais/concelho.aspx?Distrito=Lisboa&Concelho=Lisboa&Option=Interior&content_id=1458173

Lisboa, 3 de Dezembro de 2009 - O Ministro das Obras Públicas, António Mendonça, disse ontem no Parlamento que as seis concessões rodoviárias, cujos vistos prévios têm vindo a ser recusados pelo Tribunal de Contas (TC), apresentam um saldo positivo de sete mil milhões de euros, com base em estudos de análise de custo-benefício.

O MLS - Movimento Liberal Social congratula-se por este Ministro fundamentar a realização das obras públicas de transportes no seu devido conteúdo e forma, ou seja, no saldo entre custos e benefícios das mesmas para os portugueses. No entanto, sugerimos ao Ministro que questione os resultados dos estudos que sustentam os números que anuncia, pelos seguintes motivos:

1. Os estudos de análise custo-benefício foram realizados muito posteriormente à tomada de decisão política sobre a construção das estradas, e após a realização de concursos de construção, o que constitui um desfasamento claro entre o que deveria ser a ordem de um processo decisional sério: primeiro estudar, depois decidir e executar.

2. Os estudos foram realizadas pela EP, uma entidade cuja missão é incompatível com a avaliação dos méritos das estradas para o país. A missão da empresa EP consiste na concretização das vias que integram a Rede Rodoviária Nacional Futura, previamente definida. Concluir por eventuais não vantagens para o país da construção de estradas desta rede seria, pois, contrário a esta missão, e, como é evidente, não deveria ser esta a realizar estudos de análise custo-benefício. A credibilidade dos estudos fica, pois, afectada na sua origem.

3. Os estudos de análise custo-benefício sofrem frequentemente de um problema de “enviesamento de optimismo”, estatisticamente documentado, que consiste na assunção de pressupostos demasiado optimistas, que resultam na previsão de resultados do projecto superiores aos que se concretizam na realidade. Os factores que conduzem a este problema integram em primeira linha precisamente o tipo de incongruências de processo de avaliação e decisão que referimos nos pontos 1.e

4. Os estudos em causa apenas comparam a situação de construir com a situação de construir estradas com a situação de não fazer nada, ou seja, esquecem a possibilidade de aplicar os recursos em causa a finalidades porventura mais úteis aos portugueses, como outro tipo de projectos na área de transportes ou noutras áreas essenciais como a educação, a saúde ou a justiça.

Nunca é tarde para repensar e reformular decisões mal tomadas, e, como o actual Ministro bem saberá, custos “afundados” não devem impedi-lo, e muito menos a imagem política que, pelo contrário, pode sair reforçada na sua seriedade após um acto de coragem e seriedade na busca dos interesses dos portugueses. O impasse presente causado pelos chumbos do Tribunal de Contas conferem uma oportunidade única de corrigir eventuais erros do passado. Este Ministro não deveria desaproveitá-la, e pode nisso contar com o total apoio do Movimento Liberal Social.