Transportes

Comentários de membros do MLS sobre a política de transportes em Portugal.
Retrato de Luís Lavoura

Segundo notícia de última hora, a CP (Comboios de Portugal) divulgou em comunicado que está sem dinheiro para pagar atempadamente os salários de dezembro, prometendo porém que os pagará com apenas uma semana de atraso.

Isto são, naturalmente, consequências da míngua de crédito que a todos afeta, agora até mesmo as empresas públicas.

Espero que este atraso no pagamento (por enquanto não passa disso) ajude a concentrar os espíritos de gestores e funcionários da CP (e também do governo) para a necessidade urgente de reorientar essa empresa no sentido unicamente da satisfação dos desejos e necessidades dos seus (reais e potenciais) clientes, e não de outros quaisquer objetivos.(*)

Com um bocado de sorte, isto até ajudará a focalizar as mentes dos trabalhadores da CP sobre a necessidade de evitar novas greves.

 

(*) Por "cliente" deve entender-se a pessoa que pretende um serviço e está disposta a pagar por ele o seu real custo, e não a pessoa que apenas consome o serviço se ele lhe for prestado a um preço abaixo do custo.

Retrato de Luís Lavoura

Em Lisboa já praticamente não há autocarros a circular depois das dez da noite. (A maior parte das carreiras deixa de circular a partir das nove ou nove e meia.)

Valia até agora o metropolitano, que circula até à uma da manhã.

Mas agora também pretedem acabar com este, fazendo-o terminar às onze da noite.

E querem eliminar também as carreiras de autocarros da madrugada.

Conclusão: pretendem transformar Lisboa numa pequena cidade da pacata Suíça, onde toda a gente se fecha em casa a partir das nove ou dez da noite. É a virtude calvinista transferida para uma cidade católica.

Retrato de Luís Lavoura

Com a morte esperada (por enquanto apenas se fala de um adiamento sine die) do TGV Lisboa-Madrid, morrerá também o pioneiro projeto de ligar o porto de Sines a Madrid e à fronteira francesa através de uma linha de caminho-de-ferro em bitola europeia para transporte de mercadorias.

Trata-se de um projeto megalómano do tipo do do falecido Novo Aeroporto Internacional de Lisboa. As mercadorias que eventualmente estejam em Sines para ser transportadas para a Europa Central jamais o serão por caminho-de-ferro - o transporte por navio é energeticamente e, portanto, financeiramente muito mais barato. Faz, de todo, pouco sentido transportar mercadorias não urgentes de Portugal para a Europa por caminho-de-ferro, quando se sabe que o transporte por barco é energeticamente muito menos dispendioso.

A utilização do caminho-de-ferro para transportar mercadorias para a Europa é um velho sonho que nunca se concretiza. A linha da Beira Alta tem imensa capacidade para isso - pois foi modernizada nesse sentido - que se encontra desaproveitada, pois que as empresas portuguesas, muito racionalmente, preferem exportar por barco tudo o que não seja urgente.

Neste ponto, há uma boa notícia que recentemente ouvi. No ano transato, o aumento do tráfego de mercadorias no porto de Leixões foi de tal ordem que este porto deu grande lucro e, como consequência, decidiu baixar as suas tarifas para o próximo ano na ordem dos 10 a 15%. Ou seja, o preço da estiva no porto de Leixões vai baixar, tornando mais barato às empresas exportar a partir dele. O que faz todo o sentido, tanto economicamente como ambientalmente. O mar, não o caminho-de-ferro nem a estrada, deve ser a porta privilegiada para o comércio internacional de Portugal.

Retrato de Luís Lavoura

Os passes ditos "sociais" nos transportes coletivos foram criados quando Mário Soares era primeiro-ministro, na década de oitenta do século passado. Eram na altura uns papeis de diversas cores, consoante o mês do ano, que se colavam num cartão. Com tal tecnologia, como é evidente, bem pouco se podia fazer de um passe. Serve isto para dizer que os passes de hoje, que são cartões informáticos programados, não deveriam necessariamente ter nada a ver com os antigos passes do tempo de Mário Soares primeiro-ministro. Os passes desse tempo serviam para viajar à borla em transportes coletivos durante um mês do calendário. Os passes de hoje poderiam e deveriam servir para muito melhor do que isso.

Viajar à borla é imoral. Favorece o uso imoderado e irracional dos transportes. Favorece a suburbanização, a procura de trabalho a longa distância, e a substituição de trajetos a pé por trajetos em transporte coletivo - favorecendo pois a obesidade. As viagens, sejam elas em transporte individual ou coletivo, devem, em princípio, ser sempre pagas. Nem outra coisa faz sentido num tempo em que o gasóleo está caríssimo e em que fornecer o serviço de transporte custa, pois, os olhos da cara.

Nas empresas de transporte coletivo, a predominância dos passes leva a encarar os clientes como não passando de utentes. Uma pessoa que tem passe aceita sempre o serviço que lhe servem, porque ele já está pago e é agora de borla (é um "custo afundado"). A empresa deixa de ter que lutar por cada viagem de cada cliente, passando em vez disso a servir aos utentes serviços estandardizados.

Quer isto dizer que os passes devam ser abolidos? Não - eles devem ser reinventados. Devem, no futuro, servir para o mesmo que os cartões de hipermercados (ou de diversas outras lojas) servem - como estratégia de fidelização de clientes.

No futuro que eu encaro, os passes só em casos extremos devem dar o direito a fazer viagens sem pagar. Eles devem, sobretudo, servir para reduzir o preço de cada viagem para clientes muito frequentes. Com a tecnologia eletrónica que hoje se utiliza para os passes, isso é facilmente possível. Uma possibilidade, por exemplo, seria a seguinte: um cliente com passe pagaria as primeiras vinte viagens do mês ao preço normal, e nas seguintes só pagaria metade do preço; a partir da octagésima viagem, as viagens seriam à borla. Uma outra possibilidade seria, o cliente com passe teria direito a uma viagem à borla por cada dez a pagar. Ainda uma terceira possibilidade seria, o cliente com passe apenas pagaria 90% do preço normal de qualquer viagem.

Isto serviria o objetivo normal de um cartão de hipermercado - fidelizar o cliente - sem apresentar os inconvenientes que os atuais passes apresentam - o uso imoderado de transportes coletivos, o encarar esse uso como um custo afundado, o favorecimento da suburbanização.

Retrato de Luís Lavoura

É perfeitamente adequada a decisão do governo no sentido de aumentar fortemente os preços dos transportes coletivos. O Estado não pode continuar a subsidiar a mobilidade dos cidadãos.

No entanto, são necessárias outras medidas na mesma linha.

(1) É necessário diminuir fortemente as reduções de preços que são oferecidas a diversas classes de cidadãos nos transportes coletivos. Os jovens gozam de redução de preços, os idosos e pensionistas gozam de reduções de preços, os militares gozam de reduções de preços, etc. Estas reduções de preços, ademais, aplicam-se a esses cidadãos independentemente de viajarem "em serviço" ou por puro lazer. Eu diria que todas as reduções de preços indiscriminadas devem ser eliminadas.

(2) É necessário aumentar o preço dos passes mais do que o preço dos bilhetes avulso. Os passes são em Portugal aberrantemente baratos - por exemplo, no Metropolitano de Lisboa basta fazer duas viagens por dia durante metade do mês e a partir daí, com passe, viaja-se à borla. Os passes devem ser lucrativos apenas para as pessoas que efetivamente utilizam muito os transportes coletivos.

(3) É necessário retirar a política de preços dos transportes coletivos da alçada de decisões governamentais. As empresas de transportes coletivos devem ser livres de escolher as suas políticas de preços. A política de preços dos transportes coletivos deve deixar de poder servir ao governo como forma de este fornecer benesses políticas à população. Em particular, as empresas de transportes coletivos rodoviários devem ser livres de, a qualquer momento, alterar os seus preços em função da alteração do preço do gasóleo que utilizam.

Retrato de Luís Lavoura

Numa interessante entrevista transmitida hoje pela Antena 1 (deve estar ou ficar em breve online no sítio dessa rádio), o presidente da Autoeuropa disse que essa empresa, em conjunto com uma variedade de outras empresas exportadoras portuguesas, estão afincadamente à procura de novos meios de transporte para levar os seus produtos para a Europa (e para importar as peças e materiais necessários). Disse explicitamente que o transporte rodoviário atualmente utilizado, embora muito flexível, é demasiado caro, e que se poupará muito dinheiro se a ferrovia conseguir oferecer soluções convenientes, nomeadamente dispensando transbordos (que é o que mais encarece o transporte) e fazendo o transporte porta-a-porta.

 

O interessante nisto, para mim, é ver que o reino dos transportes rodoviários está a acabar. As empresas estão a sentir o custo excessivo desse transporte, e querem mesmo regressar ao modo ferroviário, muito mais barato - mas que tem que se adaptar às atuais necessidades de flexibilidade.

Retrato de Luís Lavoura

É muito importante ler este post de Joana Ortigão para se compreender, de forma bem documentada com números, e não apenas com conversa balofa, todos os disparates que, ao longo das últimas décadas, sucessivos governos têm cometido em matéria de obras públicas, especificamente construção de autoestradas, desnecessárias. É como um julgamento público. Nem a autoestrada para o Algarve - que, em metade da sua extensão, só tem tráfego que a justifique no mês de Agosto - escapa.

Retrato de Luís Lavoura

Há alguns decénios atrás, o governo tentou limitar o custo da habitação nas cidades (que era, nesse tempo, um bem escasso - hoje em dia já não é) proibindo o aumento, por parte dos senhorios, do valor das rendas, num tempo em que a inflação era elevada. O resultado a curto prazo dessa medida foi bom para os inquilinos. A longo prazo o resultado foi, porém, desastroso: ao empobrecimento dos senhorios seguiu-se a decrepitude das habitações arrendadas e a fuga generalizada ao mercado de arrendamento.

 

Hoje em dia o governo arrisca-se a repetir este erro com a imposição de aumentos apenas muito ligeiros ao preço dos transportes urbanos, numa época em que o custo destes aumenta aceleradamente por força do aumento do preço do gasóleo. (Note-se que não há qualquer perspetiva de, nos tempos mais próximos, o gasóleo deixar de subir rapidamente de preço. Muito pelo contrário, todos os analistas concordam que há uma crescente escassez de petróleo e que os custos da extração deste serão cada vez mais altos, pelo que o preço do gasóleo também aumentará.) Em vez de deixar os operadores de transportes subir o preço de acordo com os seus custos, o governo impôe uma subida de preços que não reflete, de forma nenhuma, o aumento dos custos.

 

É difícil perceber, aliás, por que motivos tem que ser o governo a fixar as tarifas dos transportes urbanos. Os diversos operadores de transportes sabem perfeitamente que, se aumentarem muito os preços, se arriscam a perder clientela. Em boa parte dos casos, até, os diversos operadores de transportes urbanos não operam em regime de monopólio - há diversas empresas que concorrem umas com as outras e, no limite, muitas pessoas têm carro próprio e podem optar por ele. Seria desejável que o Estado se retirasse, pura e simplesmente, da regulação deste negócio, deixando aos diversos operadores de transportes a fixação livre das suas tarifas.

Retrato de Luís Lavoura

Do livro "Transport Revolutions: Moving People and Freight without Oil", de R. Gilbert e A. Perl, retiro a seguinte frase (traduzida por mim, de forma livre):

 

"Recentemente, o transporte aéreo de pessoas e carga tem sido o setor de maior crescimento de entre todas as atividades de transporte. Em breve, eles podem iniciar um declíneo continuado, porque não haverá um substituto adequado para o cada vez mais caro combustível de aviação refinado a partir de petróleo. O transporte aéreo de pessoas e carga prosseguirá, mas com menor intensidade e na sua maior parte em grandes aviões, mais eficientes no uso de energia, voando num número limitado de trajetos, com a ajuda de alguns veículos aéreos (dirigíveis) parcialmente movidos a energia solar."

 

Quais as consequências desta eventual evolução para o futuro aeroporto de Alcochete? É simples - ele não deve ser construído. O aeroporto da Portela existe há 60 anos e continuará a servir Lisboa enquanto houver aviões para nele aterrar. Até ao fim.

Retrato de Luís Lavoura

Segundo o Ministério das Obras Públicas, que é responsável pela TAP, a privatização dessa empresa é urgente (foi afirmado em notícia esta manhã na Antena 1). Esse Ministério diz que a empresa não resistirá a qualquer choque (um aumento do preço do combustível para aviões, uma diminuição da procura causado por uma qualquer crise do transporte aéreo) que possa vir a sofrer proximamente. Em caso de tal choque, a TAP falirá, dado que o Estado, seu proprietário, não está autorizado - por regras da União Europeia - a injetar capital nela.

 

(Em caso de falência da TAP, acrescento eu, a empresa morre, mas as dívidas não. Como o proprietário da TAP, ou seja, o Estado português, não morre com ela, as dívidas permanecem para esse proprietário as pagar. Os contribuintes ficam com o bolo das dívidas para pagar ao longo dos anos seguintes.)

 

Há muitos, muitos anos (uma ou duas dezenas deles, pelo menos) que a privatização da TAP se impõe. Porque o transporte aéreo é (na Europa) um negócio cada vez mais perigoso, difícil e, potencialmente, ruinoso. O Estado adiou sempre a privatização, ano após ano, sempre, quiçá, à espera de ter uma melhor TAP para vender. Mas nunca teve nem nunca terá. Urge que o Estado se desfaça dela o mais urgentemente possível.

 

Os tempos petrolíferos não estão para que os contribuintes andem a brincar com negócios que dependem crucialmente do preço do petróleo.