Transportes

Comentários de membros do MLS sobre a política de transportes em Portugal.
Retrato de Luís Lavoura

Tenho lido muitas razões para se ser a favor da privatização da TAP, mas em geral elas não me convencem.

A privatização da TAP não fará necessariamente com que os seus sindicatos deixem de ter muito poder nela nem fará como que acabem as greves nela; há companhias aéreas privadas na Europa (Air France, Lufthansa) nas quais os sindicatos também são muito poderosos e nas quais também há greves.

A privatização da TAP não é necessária nem urgente: embora a TAP esteja muito endividada e tecnicamente falida (isto é, com capitais próprios negativos), ela já está nessa situação há muitos anos e pode, creio, continuar assim por muitos mais anos. A TAP não dá prejuízo (os anos de pequenos prejuízos são compensados por outros anos de pequenos lucros) e, portanto, nada a impede de continuar a operar.

É verdade que não há necessidade nenhuma de a TAP permanecer pública; mas isso não é razão para a privatizar. Há outras empresas (por exemplo, a Caixa Geral de Depósitos) que não se entende por que motivos hão de ser públicas, porém, não é por isso que se vai a correr privatizá-las.

Eu sou a favor da privatização da TAP, não por esses motivos, mas por outro: porque o transporte aéreo é hoje em dia uma indústria pouco rentável e muito arriscada. Ou seja, embora a TAP atualmente não dê prejuízo, há um forte risco de que um dia ela venha a ser atacada no seu nicho de mercado (a ligação Europa-Brasil) e não consiga resistir. E nesse dia falirá, e então os prejuízos - isto é, as enormes dívidas que a TAP tem acumuladas - recairão sobre os contribuintes.

Ou seja, em meu entender, convém privatizar a TAP porque o Estado português pouco ganha com ela mas, em compensação, arrisca-se a um dia sofrer perdas avultadas por causa dela.

Retrato de Luís Lavoura

A Grécia tinha em curso a privatização do seu principal porto, o Pireu. O principal porto alemão, o de Hamburgo, é gerido por uma empresa pelo menos parcialmente privada.

É algo que questiono: porque é que o Estado português não privatiza os seus principais portos? Não seria essa a forma adequada de os desenvolver, trazendo para eles capitais privados e a concorrência entre os diversos portos? Não têm os portos de Leixões, Lisboa e Sines dimensão que possa interessar a operadores privados? Porque foram os aeroportos privatizados mas não o são os portos?

Retrato de Luís Lavoura

A greve da TAP marcada para o período entre o Natal e o Ana Novo constituirá, obviamente, um sério prejuízo financeiro para a empresa. Mas é sempre isso que as greves visam: provocar um prejuízo para a empresa que force o seu patrão a ceder. É, portanto, normal.

A greve não provocará, no entanto, grande prejuízo para a economia do país. No inverno poucos turistas vêem para Portugal, portanto o turismo será pouco afetado. Também há poucas viagens de negócios neste período, logo os negócios não serão afetados. Os setores que interessam na economia - os exportadores  - praticamente não serão prejudicados.

A greve prejudicará, isso sim, o consumo dos portugueses. Prejudicará aqueles portugueses que quereriam ir de férias a Londres ou ao Brasil. O que, sem dúvida, os deixará muito frustrados. Mas isso até será benéfico para a economia portuguesa - será menos dinheiro esbanjado no estrangeiro.

Em conclusão, não prevejo impacto económico substancial desta greve, e o impacto que houver até será mais positivo que negativo. Não há qualquer razão - a não ser uma razão populista - para o governo impôr uma requisição civil. Embora a greve vá prejudicar muita boa gente, não há quaisquer interesses vitais do país em jogo.

Retrato de Luís Lavoura

Em relação com a suposta necessidade de aumentar a natalidade, fala-se muito em Portugal em o Estado apoiar as famílias, por exemplo criando mais creches. Mas eu recentemente fui objeto na Suíça de uma medida de apoio à família que nunca vi referida em Portugal. Na Suíça é possível comprar, por 30 francos (cerca de 25 euros) anuais, um "passe" para crianças/jovens (entre os 6 e os 16 anos de idade) que lhes permite viajar gratuitamente em qualquer transporte coletivo (público ou privado) em todo território da Suíça, durante um ano inteiro, desde que acompanhadas pelo pai ou pela mãe. Bom, não é?

(Crianças com menos de 6 anos e idade viajam sempre gratuitamente, mesmo sem estarem acompanhadas.)

Retrato de Luís Lavoura

Parece que a TAP anda com dificuldades sistemáticas (reconhecidas pela própria empresa) em cumprir os vôos que tem programados, devido a falta de aviões e/ou pilotos.

Nada que tenha obstado a que, no domingo passado, um avião da TAP tenha, no âmbito de um festival aéreo, feito um vôo rasante, de exibição, sobre a baía de Cascais.

Parece que não há aviões para ir buscar o Alberto João à Madeira, para participar numa reunião do Conselho de Estado. Porém, para participar em festarolas, eles não faltam.

Retrato de Luís Lavoura

A notícia do dia é que Cavaco Silva, em visita de Estado à China, afirmou que gostaria que houvesse um vôo direto a ligar Portugal (leia-se Lisboa) a uma das principais cidades desse país (Pequim ou Xangai).

Eu acho muito bem, mas questiono, o que têm os políticos a ver com isso? As companhias aéreas são hoje, na sua generalidade, privadas ou, pelo menos, regem-se em geral por óticas empresariais e não políticas. Portanto, uma companhia aérea, portuguesa ou chinesa ou de outro país qualquer, encetará um vôo direto da China para Portugal se e quando achar que há mercado que justifique tal vôo. E não faltam, ao que julgo saber, na China diversas companhias aéreas privadas que têm muito olho para o negócio. Elas encetarão vôos diretos para Portugal se e quando acharem que vale a pena - não quando o presidente português o quiser.

E é assim mesmo que deve ser.

Retrato de Luís Lavoura

Em 2004, para o campeonato europeu de futebol, contruíram-se em Portugal (entre outros) dois estádios que tinham a particularidade de disporem de acessos particularmente bons, por estarem situados longe de cidades e na berma de autoestradas: os estádios de Aveiro e do Algarve.

Esses esplêndidos estádios dispunham e dispõem de acessos incomparáveis. É impossível ir lá a pé ou, sequer, de transportes coletivos; quem quiser lá ir assistir a um jogo de futebol apenas tem que meter-se no seu carro e dirigir-se a eles pela autoestrada. É o único acesso, e é um acesso perfeito.

O resultado esteve ontem, mais uma vez, à vista: filas intermináveis (sete quilómetros!) na Via do Infante, com pessoas que queriam chegar ao Estádio do Algarve e não conseguiam (fora os infelizes que nada tinham a ver com o jogo e que foram apanhados no meio da fila, incapazes de alcançar o seu destino). À meia hora do desafio de futebol ainda havia gente a entrar no estádio. O estádio de Aveiro foi palco de cena semelhante há uma semana atrás, aquando da final da Supertaça.

Isto mostra o disparate gigantesco que se fez em 2004. Os acessos perfeitos são, afinal, acessos impossíveis. O automóvel não é a forma correta de se aceder a um estádio de futebol. É impossível colocar 30000 pessoas num estádio de futebol a tempo e horas recorrendo a autoestradas.

O correto teria sido colocar os estádios na proximidade imediata de cidades, ao alcance de pessoas que se deslocassem a pé.

Retrato de Luís Lavoura

É completamente inaceitável a forma como o atual governo está a lidar com a empresa de transportes privada Vimeca.

Virtualmente, o governo está a forçar essa empresa a participar no esquema de passes da região metropolitana de Lisboa, coisa que não tem o direito de fazer.

Os operadores privados de transporte não têm no seu contrato de concessão que sejam obrigados a participar num esquema de passes sociais conjuntamente com outros operadores. Não é legítimo o governo alterar unilateralmente o contrato no sentido de forçar um operador a participar nesse esquema, contra a sua vontade e para seu evidente prejuízo.

A participação num qualquer esquema de passes deve ser e manter-se matéria da liberdade de cada operador de transportes.

Retrato de Luís Lavoura

Segundo a agência noticiosa russa RT:

The accident occurred right after the point when the EU-sponsored European Rail Traffic Management System (ERTMS), which would’ve braked the train automatically, gave way to the outdated Spanish ASFA system.

Ou seja, tal como me parecia, a culpa deste grave desastre não está apenas com o maquinista, mas também com a rede espanhola de caminhos-de-ferro RENFE, que mantem em atividade um sistema de gestão de tráfego primitivo, que não permite travar automaticamente um comboio.

É inadmissível que na moderna época de automação, em que até já estão a ser testados automóveis que se conduzem a si próprios, a RENFE mantenha em operações comboios que dependem do maquinista para evitar desastres.

Retrato de Luís Lavoura

Não entendo a causa do desastre ferroviário na Galiza.

Querem-nos convencer de que a culpa foi do maquinista, que resolveu, por sua alta recreação, conduzir o comboio a velocidade excessiva. Mas, pergunto, como é possível que ele tenha podido fazer tal coisa, mesmo querendo? Os comboios não dispõem de limitadores automáticos da velocidade? Os maquinistas podem conduzir os comboios à velocidade que muito bem lhes apeteça? Não acredito que assim seja!

Temo bem que as autoridades espanholas estejam no afã de acusar o maquinista apenas com o intuito de arranjar um bode expiatório e ocultarem o verdadeiro culpado: deficiências ou negligências técnicas no comboio e/ou na linha, nos quais deveria ser pura e simplemente impossível circular a tal velocidade.