União Europeia

Artigos relacionados com a construção europeia e política a nível europeu.
Retrato de João Mendes

[Também no Cousas Liberaes.]

1. Enquanto a grande preocupação com o Ministro da Economia e Emprego for com ele aparecer ou não o suficiente nas notícias, não vamos a lado nenhum. E enquanto acharmos que o Ministro da Economia «manda» na economia portuguesa e a muda por decreto também não. A economia portuguesa se muda por decreto, com crescimento sustentável a ser criado por lei, mas sim com mais empreendedorismo e maior capacidade de assumir riscos e apostar em novas ideias da parte dos privados. O que deve fazer o Ministro? Acabar com barreiras a que isso aconteça, promovendo uma reforma de cima a baixo da legislação laboral e da legislação relativa ao arrendamento.

2. Os constantes encontros entre França e Alemanha para discutir o futuro da União Europeia têm essencialmente servido para nos trazer propostas coxas que não resolvem os problemas de fundo e causam apenas mais instabilidade, além de que os encontros bilaterais apenas servem de achas para a fogueira do eurocepticismo em países que não sejam a França ou a Alemanha. Mas infelizmente, a Comissão Europeia anda demasiado apanhada por ideias relativas a «impostos sobre as transacções» para dar um contributo mais relevante para o debate sobre o futuro da União Europeia.

3. O Parlamento Europeu é sistematicamente ignorado pela comunicação social apesar da sua importância no actual desenho institucional da União Europeia, especialmente pós-Tratado de Lisboa. Curiosamente, depois, a população em geral tende a considerar o Parlamento Europeu como sendo pouco relevante. Seria importante que começasse a ser dada ao Parlamento Europeu a relevância que deve ter. Afinal, é suposto é a comunicação social manter a população informada de temas relevantes para a sua vida em comunidade, e o que acontece no Parlamento Europeu tem influência muitíssimo relevante (basta ver o que aconteceu ao Acordo SWIFT.)

4. A Croácia vai aderir à União Europeia no dia 1 de Julho de 2013. Numa altura em que alguns se parecem esquecer daquilo que a União Europeia nos trás, ou então dar as várias liberdades europeias por garantidas, é importante lembrar que o ideal europeu pode facilmente ser consumido pelas chamas do nacionalismo e do populismo se esta crise se agudizar e os europeístas não tentarem, pelo menos, participar de forma dinâmica no debate público sobre o futuro da União Europeia.

5. Eu não sou daqueles que acham que milagrosamente se conseguiria reproduzir os benefícios da União Europeia sem esta e penso que está na altura de dar um passo em frente. Mas para que esse passo em frente seja um passo sólido, é preciso que haja um debate público europeu sobre o tema que vá para além das meras tricas nacionalistas costumeiras. Infelizmente, a comunicação social e a liderança política dos Estados Membros não parece estar para aí virada e os grupos federalistas não têm ainda voz relevante. É urgente que fortaleçam a sua voz.

Retrato de Miguel Duarte

Vale a pena ler este artigo sobre o suposto corte de cabelo à dívida pública grega. O mesmo confirma aquilo que eu pensei quando olhei para os planos apresentados na altura: praticamente não se fez qualquer redução em termos efetivos e os bancos saem deste negócio muito bem.

To correctly measure the service and reduction of debt, these must be compared with the 5.02 percent average interest rate that Greece currently pays on its bonds. When this is taken into account, even the much-touted 20 percent principal reduction on the discount bond option is much lower on a present-value basis, because the coupon rates are higher on the new bond than on the old bonds.

The 30-year discount-bond option, which would swap new debt for existing obligations at 80 percent of face value, for example, has a coupon starting at 6 percent, rising to 6.5 percent in year five and 6.8 percent in years 10 through 30. Greece realizes only 22 basis points of interest savings in the first five years and will have negative annual interest savings for the next 25 years.

Even after taking into account that Greece pays back only 80 percent of the original principal in year 30, the present value of debt falls only 1.78 percent under this option. This is a far cry from the 20 percent discount applauded by many analysts. And, to entice bondholder participation, Greece must borrow an additional 26.10 percent of the original face value to purchase the zero-coupon bonds’ principal collateral for the discount security.

É claro que tendo a Alemanha e a França a mandar (e os políticos, populistas que conhecemos por detrás), dificilmente se conseguiria melhor. A mim parece-me que cada vez é mais tempo de a Grécia fazer contas à vida (ou ameaçar fazê-lo) e impor um verdadeiro corte à sua dívida, que lhe permita resolver os seus problemas e retomar o crescimento. Os bancos dos outros países, nomeadamente a Alemanha e a França irão ficar em graves dificuldades (até porque a seguir virão outros países), mas isso, é um problema que a Alemanha e a França terão que resolver.

Retrato de Igor Caldeira

Há duas forma de ver a actual crise com as agências de rating de um ponto de vista economicamente "liberal".

  1. Do ponto de vista libertário, o que uma empresa (qualquer empresa) faça, está bem, é bom, é ontologicamente bom, porque o Estado é ontologicamente mau e como o Estado é mau e uma empresa privada é boa, só se pode concluir que a Moody's está correcta e a Europa e Portugal estão errados.
  2. Do ponto de vista liberal, um oligopólio de três empresas americanas que controlam 95% do mercado mundial não é um mercado concorrencial e por isso deve ser alvo de intervenção (cujos moldes ficam em aberto aqui). 

Efectivamente, ao passo que os libertários não têm problemas com situações de monopólio privado, um liberal prefere situações de concorrência. Quando há falhas de mercado, tem de se perceber se elas são naturais ou induzidas (por exemplo, por excesso de intervenção do Estado) e depois o Estado deve agir conformemente. Nuns casos retirando-se, noutros casos intervindo. Os libertários, à semelhança dos socialistas, tem uma solução "one-size-fits-all". Os liberais são um pouco mais sofisticados. 

 

Um dos motivos (talvez O motivo) pelos quais os libertários defendem esta abordagem, é porque desejam ser coerentes. Como são coerentes todas as fés. Não interessa se o apedrejamento de uma mulher nos parece bárbaro. Se a Bíblia ou o Corão o dizem é porque está certo. Pouco importa que seja estranho que os Estados Unidos, com dívida de 100% do PIB, défice de 10%, crescimento inferior a 2% e uma balança comercial cronicamente deficitária tenha um rating AAA, enquanto países europeus em situações similares estejam em piores lençóis. Se as "empresas privadas" o dizem, é porque está certo.

Certo? Obviamente não. Os libertários, que muitas das vezes confundem libertarismo com liberalismo clássico, gostam da Escola Austríaca. Gostam do monetarismo. Criticam a impressão de papel para suprir o despesismo descontrolado dos governos. E criticam bem. Mas, hélas, não são coerentes. A última década viu o Euro valorizar-se sustentadamente contra o Dólar, ameaçando de forma fundamental a hegemonia da moeda americana. Os mercados parecem pouco convencidos com a estratégia americana de imprimir notas para pagar os seus défices, e refugiam-se no Euro. Os mercados, de forma livre, transitam do Dólar para o Euro.

 

As agências de rating têm opiniões bastante diferentes dos mercados cambiais. O Estado americano, próximo da bancarrota caso o rating reflectisse as suas verdadeiras condições (verifique-se a notação da agência chinesa Dagong - e ninguém melhor que os chineses sabe o que vale a dívida americana) tem a nota máxima, debalde a realidade económico-financeira do país. 
Pelo contrário, os elos mais fracos do Euro estão a ser arrastados para um poço sem fundo, do qual a única forma de sair será a bancarrota. Com eles arrastarão vários outros países europeus até que a própria moeda europeia tenha de ceder.

Eu acredito no controlo da inflação, no equilíbrio orçamental, na redução ao mínimo possível de toda a dívida pública, sei que esta crise foi permitida pelo despesismo de muitos países.  

E sei também ver a duplicidade de avaliações, a opacidade de critérios, e a multiplicidade dos interesses em causa. Precisamos de respostas políticas e de respostas europeias à crise, que não é uma crise económica, é uma crise de sobrevivência. 

Porque o problema não é a economia. It's the politics, stupid!

Retrato de Luís Lavoura

Segundo ouvi ontem no Telejornal, o Reino Unido e a França declararam que, no conflito líbio, estão do lado dos rebeldes e contra Ghadafi. Foram passadas imagens de um representante do governo francês dizendo que Ghadafi "deve partir".

 

Isto suscita-me três questões:

 

(1) Que eu saiba, a União Europeia tem uma alta-representante para a política externa, que, por sinal, o Reino Unido até fez questão que fosse uma britânica. Essa alta-representante é quem deve elaborar e ser a porta-voz da política de negócios estrangeiros da União. Mas, pelos vistos, (pelo menos) dois países importantes da União estão-se nas tintas para estas regras e preferem ter uma política externa própria e independente da dos restantes países da União. Não é desta forma, evidentemente, que a política externa da União Europeia irá longe, ou que a União Europeia poderá alguma vez ter voz relevante em questões internacionais.

 

(2) Parece evidente que Ghadafi não irá de motu proprio satisfazer a vontade do governo francês e "partir". Pergunta-se então, estão o Reino Unido e a França dispostos a juntar os atos às palavras e a forçar, manu militari, Ghadafi a sair do poder? Ou, como de costume, o Reino Unido e a França acobardar-se-ão e ficarão à espera que os EUA avancem por eles? É que, se o Reino Unido e a França não atuarem, desde já, com as suas Forças Armadas, para apoiar os rebeldes e depôr Ghadafi, só podemos concluir que as suas tomadas de posição são inócuas e insignificantes.

 

(3) Supondo que ninguém (nem os EUA, nem a França, nem o Reino Unido) atua militarmente contra Ghadafi e que este vence a atual guerra civil - possibilidade razoavelmente provável, dado que os rebeldes não dispõem de força aérea - com que cara ficarão depois o Reino Unido e a França? Que relações poderão eles ter de futuro com a Líbia de Ghadafi? E como ficarão a União Europeia e as suas relações com a Líbia?

 

A mim parece-me que o Reino Unido e a França deveriam ter mais juízo e mais tento na língua e não tomar posição fora de tempo e em desconsideração dos outros Estados-membros da União Europeia, incluindo alguns, como a Itália e Portugal, que têm todo o interesse em ter boas relações com a Líbia - esteja no poder líbio Ghadafi ou outro qualquer.

Retrato de João Mendes

http://www.cousasliberaes.com/2011/02/instituicoes-europeias-ii.html - Também no Cousas Liberaes!

A interpretação do Direito da União Europeia é competência do Tribunal de Justiça e do Tribunal Geral (ex-Tribunal de Primeira Instância), órgãos jurisdicionais por excelência da UE. São estes tribunais, cuja jurisdição é obrigatória, que decidem casos de incumprimento de legislação europeia por parte de Estados Membros. O Tribunal de Justiça trata também de casos de reenvio prejudicial. (Estes últimos são casos em que o Tribunal responde a dúvidas que os tribunais nacionais possam ter relativamente à aplicação do Direito da União num certo caso concreto.)

No âmbito desta última competência, o Tribunal desenvolveu paulatinamente um sistema de precedente e, no âmbito de todas as suas competências, um corpo doutrinário de extrema relevância para o desenvolvimento do Direito da União e da União Europeia. O Tribunal foi responsável directo pela doutrina da supremacia do Direito da União, pelo aprofundamento do mercado único, pelo efeito directo do Direito da União (que significa que este é invocável directamente pelos cidadãos e pelas empresas), pela capacidade dos tribunais nacionais de aplicarem directamente Direito da União, e pela criação de protecções de direitos humanos no direito da então CEE.

A importância do Tribunal no que concerne ao aprofundamento do mercado único não pode ser exagerada. Foi o Tribunal que, numa série de decisões importantes, e utilizando doutrina mencionada no parágrafo anterior, levou a que os Estados Membros se vissem «forçados» a implementar legislação europeia (em particular, os Tratados) que estes pretendiam protelar, compensando assim o estado enfraquecido da Comissão durante os anos 70. Também importantes foram as também já mencionadas decisões, nos anos 80, que introduziram preocupações com direitos humanos no (então) direito comunitário, à data tendencialmente virado para a integração económica. As protecções relativas a direitos humanos mantiveram-se jurisprudenciais até à entrada em vigor da Carta de Direitos Fundamentais da UE com o Tratado de Lisboa.

Vários outros princípios poderiam ser aqui discutidos, mas cada um deles merece maior atenção do que um ou dois parágrafos. A questão fundamental é perceber a importância da existência de um Tribunal eminentemente independente como forma de resolver litígios de forma pacífica, promover a aplicação dos Tratados e do Direito da União por parte dos Estados Membros, e promover a aplicação uniforme deste Direito num contexto nacional. De uma perspectiva mais genérica, no entanto, este Tribunal é um exemplo da importância dos tribunais num regime constitucional.

São os tribunais que desenvolvem o Direito, ao formularem normas de conduta que regulam situações concretas da vida, quer dos Estados, quer das empresas ou das pessoas singulares. A independência dos tribunais é uma condição necessária para uma boa aplicação do poder jurisdicional, mas esta deve ser complementada com uma consciência, por parte dos tribunais, do seu verdadeiro poder, e de uma ética jurídica que os leve a utilizá-lo de forma justa e equitativa.

O sistema jurisdicional europeu não é isento de críticas, muitas relativas à sua lentidão, outras relativas a regras específicas do seu funcionamento. É uma matéria bastante técnica, mas com importância vital para o bom funcionamento das instituições e para o futuro da União. Gostaria que este tipo de temas não fossem apenas abordados na universidade, por quem neles se especialize, mas também mais cedo, na própria escola secundária. Se é verdade que as instituições europeias estão muitas vezes afastadas das pessoas, não me parece menos verdade que pouco se aprende sobre o seu funcionamento em devido tempo, o que não ajuda a torná-las mais acessíveis.

É preciso que as pessoas ganhem consciência de como funciona a União Europeia, para serem intervenientes informados num debate fundamental: o debate sobre o futuro da UE.

Haverá mais artigos nesta série, que abordarão vários temas relativos a este debate. Este artigo, no entanto, fica por aqui!

Retrato de Igor Caldeira

O mito urbano que melhor conheço, porque o vi alastrar por todo o lado, ao ponto de ouvir pessoas inteligentes e informadas propagando-o, repetindo-o e crendo nele como o papa não seria capaz de acreditar em deus, é o do efeito do Euro sobre os preços. Mais concretamente, qualquer coisa como 90% dos portugueses acredita piamente que o café custava 50 escudos em 2001, e que os comerciantes, por causa do Euro, passaram a cobrar 50 cêntimos.

 

As duas coisas não podiam ser mais erradas.

Nos idos de 1998, era eu um consumidor de café inveterado, e sabia bem quanto (me custava) pagar os 80 escudos do café. Por mais que explique que me recordo bem de quanto custava a bica no café em frente ao meu liceu, ninguém (nem sequer ex-colegas de turma, que passavam comigo as tardes a jogar às cartas), ninguém me dá razão.

Em 2001, aquando da introdução do euro, recordo-me que a bica no café do meu prédio custava 85 escudos, e que passou a 42 cêntimos. Em 2008/2009 estava em 50 cêntimos, o que dá um aumento de preços de 20% em oito anos (nada de extraordinário, abaixo de 3% de aumento anual).

 

Mas não precisam de acreditar na minha palavra: veja-se este inquérito do Público de há 10 anos atrás.

http://dossiers.publico.pt/noticia.aspx?idCanal=323&id=85339

"Sabe quanto custa um café em euros? 
Um café... anda à volta de 85 cêntimos. Não, isso é muito, é 170 escudos. Devem ser 40 e poucos cêntimos.
Paulo Santos, Motorista da Carris 
Depende. Pode ser 42 cêntimos, se o café andar, como agora, à volta dos cem escudos.
Maria Teresa Oliveira, Funcionária de agência de viagens 
Nota: 42 cêntimos são cerca de 85 escudos
"

 

Ou seja, há 10 anos atrás o café custava 85 escudos, e hoje custa (para 55 cêntimos) 110 escudos. Um aumento de 29% em 10 anos - é esse o tal efeito inflaccionista do Euro?

 

 

Por que motivo têm as pessoas esta ideia? Como pôde este mito propagar-se e enquistar-se em tão pouco tempo? Há muitas razões; uma mentira repetida muitas vezes acaba tornando-se uma verdade. Mas é um facto que a mentalidade de aldeia que ainda vamos tendo entre nós facilita esta espécie de anti-europeísmo somatizado numa negação da realidade.

O nosso problema não é o Euro. O nosso problema é que nós não somos suficientemente civilizados para o Euro. É por isso que, daqui a a uns meses, vamos pôr os contribuintes alemães a pagar pela nossa dívida.

Retrato de João Mendes

(Também publicado no Cousas Liberaes.)

Ponto prévio: sou europeísta. Aliás, sou mesmo federalista. E sou-o por ser liberal, por defender as liberdades individuais e a economia de mercado como fundamentais para a existência de paz e prosperidade a longo prazo. A União Europeia é uma garantia desta paz e prosperidade, interligando as economias dos Estados Membros através do mercado único, e criando mecanismos de resolução pacífica de conflitos.

Para atingir as suas várias atribuições, a União Europeia possui um conjunto de instituições e órgãos. Neste âmbito, ouve-se habitualmente falar na Comissão Europeia, no Conselho e no Conselho Europeu, no Parlamento Europeu e no Tribunal de Justiça. Também se ouve falar do Banco Central Europeu, mas fará mais sentido discuti-lo no contexto do euro e da política monetária comum.

A distribuição de poderes na União Europeia não foi feita de acordo com o modelo clássico da separação de poderes. Cada poder foi distribuído por várias instituições, de forma a garantir um equilíbrio de poderes que levasse à participação das várias instituições no processo de tomada de decisão.

A Comissão Europeia é constituída por Comissários, um por Estado Membro, que não podem receber quaisquer ordens e instruções dos Estados, devendo sempre agir de forma independente. Tem o poder de iniciativa legislativa (que já foi um monopólio, mas desde o Tratado de Lisboa as coisas há uma excepção), que lhe foi conferido precisamente por ser independente dos Estados Membros, tem o poder de processar Estados por incumprimento dos Tratados (é a “guardiã dos Tratados”), e tem o poder de aplicar e fiscalizar a aplicação de normas europeias (p.ex. as normas relativas à Concorrência).

O Conselho é constituído por representantes dos Governos de cada Estado Membro, reunindo-se em várias configurações dependendo do tema a tratar. Tem poderes no âmbito do processo legislativo, onde começou por ser o único co-legislador, com a Comissão, mas também poderes executivos, através de vários comités (a chamada “Comitologia”). O Conselho delibera cada vez mais por maioria qualificada (que foi tendo várias encarnações), sendo a deliberação por unanimidade residual. Há um sistema de presidências rotativas do Conselho, que permitem a cada Estado Membro presidir ao Conselho durante seis meses.

O Conselho Europeu começou por ser uma reunião do Conselho ao nível de Chefes de Estado e de Governo, mas transformou-se com o Tratado de Lisboa numa instituição própria. O Presidente do Conselho Europeu tem um mandato de dois anos e meio, renovável uma vez. O Conselho Europeu tem por objectivo deliberar sobre a orientação política da União Europeia.

Finalmente, o Parlamento Europeu é, neste momento, co-legislador com o Conselho em todas as áreas (salvo política externa). Começou por ser uma Assembleia, de cariz meramente consultivo, na qual se reuniam representantes dos Parlamentos nacionais. Passou a ser eleito directamente pelos cidadãos nos anos 70, e as suas competências têm-se expandido exponencialmente desde então. O Parlamento Europeu tem também competência para aprovar o Presidente da Comissão Europeia e Comissários, bem como votar moções de censura à própria Comissão já em exercício de funções. Estes poderes estiveram em evidência quando a Comissão Santer se demitiu, antecipando-se a uma moção de censura que não lhe ia ser favorável, e também com a rejeição de candidatos a Comissário durante a Presidência de Durão Barroso.

(Continua.)

Retrato de Miguel Duarte

Como já muitas vezes se tem dito, são as crises que impulsionam a Europa em direcção a uma maior integração. Tal é uma afirmação lógica, pois, são as crises que revelam as fragilidades da Europa, que a colocam entre a espada e a parede, e que a obrigam a resolvê-las.

Um destes momentos foi a crise grega. É hoje evidente que a moeda única implica que estamos todos no mesmo barco e que uma crise na Grécia tem implicações na Alemanha e em Portugal. Tal significa que hoje, mais do que nunca, perante um possível não pagamento de dívida por parte da Grécia, todos os países da zona Euro têm que intervir para evitar o pior, acabando por ser punidos por erros que não cometeram.

Ora, se temos o risco de ter que pagar pelos erros dos outros, também deve ser um direito podermos ter uma palavra a dizer antes de os outros cometerem erros. Os orçamentos nacionais deverão por isso passar a estar sujeitos a uma fiscalização a nível supranacional. A Alemanha e a França propuseram recentemente exactamente isso, exigindo que Bruxelas possa controlar e regular as políticas fiscais e a despesa de cada Estado da União Europeia, podendo intervir antes de os mesmos serem discutidos nos parlamentos nacionais.

Igualmente, a nuvem vulcânica que parou todo o tráfego na Europa está a gerar uma onda de protestos de ineficiência na capacidade de decisão a nível político, que demorou demasiado tempo a reagir às decisões técnicas e levou possivelmente a excessos no que toca ao fecho do espaço aéreo Europeu. Aparentemente, e esta é a queixa, a nível técnico a máquina europeia já funciona muito bem, mas os técnicos não tinham ninguém a nível político que pudesse tomar decisões que necessitavam de ter sido mais rápidas.