Um secretário de Estado qualquer (não recordo a pasta) disse ontem que o governo decretará muito em breve (no prazo de um mês, no máximo) medidas com vista a dinamizar a construção civil no setor habitacional, com o fim declarado de não permitir que as empresas de construção civil fiquem com falta de trabalho por causa do adiamento de algumas obras públicas.
Eu acharia bem que estas medidas passassem por uma revisão da lei do arrendamento, nomedamente acelerando a resolução de casos de atraso no pagamento de rendas por parte de alguns inquilinos, e também pelo fim da perpetuidade dos contratos de arrendamento não-habitacional anteriores a 1995 (os contratos de arrendamento habitacional necessitam, em minha opinião, de ser tratados com uma precaução social que, no entanto, não se justifica para os contratos de arrendamento comercial e industrial). Acharia também ótimo que o governo acabasse com os privilégios e distorções do mercado a favor da compra de casa para efeitos habitacionais, nomedamente com as isenções de IMI.
Mas considero péssimo se o governo decidir adotar quaisquer medidas que visem forçar os proprietários de casas devolutas a reabilitar essas casas. Há que compreender que, se muitas casas devolutas não são reabilitadas, isso passa por três ordens de problemas: (1) problemas com a identificação dos verdadeiros proprietários das casas, ou conflitos de propriedade entre herdeiros, (2) problemas no licenciamento de obras, devido à morosidade nas Câmaras e (não raro) à corrupção que nelas grassa, e (3) falta de rentabilidade, nas condições atuais, de muitas das casas devolutas (devido a situarem-se em zonas muito ruidosas, ou com muito tráfego, ou em ruas estreitas ou muito declivosas, ou. mais simplesmente, por não haver atualmente procura que justifique a ocupação de todas essas casas). Ora, não há medidas que possam ser tomadas pelo governo que resolvam rapidamente esses três problemas, especialmente o último deles. Pelo que, é desadequado e injusto decidir punir todos os proprietários que não reabilitam as suas casas velhas e desocupadas.
Convem portanto, a meu ver, o governo ter o máximo cuidado com as medidas que pretende implantar, não se deixando encantar pelos cantos de sereia dos partidos de esquerda, nomeadamente o BE, que pretendem à viva força voltar aos infelizes tempos em que Portugal consumia o dobro de cimento por habitante da média europeia, e que querem à viva força que todos os centros das cidades sejam restaurados - mesmo que pouca gente neles queira hoje viver.















