Eu concordo totalmente com o post anterior: o atual governo é efetivamente catolizante ao conceder aos funcionários públicos "tolerância de ponto" durante a próxima visita papal.
Mas eu diria que, muito mais importante do que essa toleância de ponto meramente pontual, e que apenas se aplica aos funcionários públicos, é a questão dos feriados religiosos, que roça o escândalo.
O Estado português concede atualmente, salvo erro, seis feriados religiosos: Carnaval, Sexta-feira Santa, Corpo de Deus, Assunção (15 de Agosto), Todos-os Santos (1 de Novembro) e Natal. Consideremo-los um a um.
1) O Carnaval nem sequer é uma festa religiosa. Hoje em dia é celebrado nalgumas localidades com uns cortejos mas na maior parte dos sítios ninguém o festeja. O Carnaval é um feriado pernicioso porque, como é uma terça-feira, dá sempre lugar a uma tolerância de ponto na segunda-feira anterior - na prática, são dois dias sem trabalhar. Deveria ser eliminado. As empresas que quisessem fechar - nomeadamente, nas localidades onde há cortejos e desfiles - teriam liberdade para o fazer, evidentemente.
2) A Sexta-feira Santa é um feriado que, apesar de religiosamente importante, em muitos locais não é celebrado. Há muitos sítios de Portugal onde as pessoas tradicionalmente trabalham na sexta-feira antes da Páscoa, mas não na segunda-feira seguinte. Para a maior parte dos portugueses, hoje em dia, a Sexta-feira Santa, mais a quinta-feira anterior (tolerância de ponto...), são dias de romagem à praia. Raros são os locais de Portugal onde há quaisquer festividades notáveis na Sexta-feira Santa. Não se percebe para que serve esse feriado, a não ser para os hoteis do Algarve fazerem preços mais altos.
3) O Corpo de Deus é um verdadeiro escândalo: um feriado que só serve para ir à praia. Como é uma quinta-feira de Primavera, toda a gente faz uma "ponte" e vai quatro dias para o Algarve. Este feriado deveria ser imediatamente eliminado.
4) A Assunção é um feriado virtualmente inexistente porque calha em Agosto, mês tradicional de férias. Não serve para nada, ninguém - a não ser os mais devotos católicos - se lembra de comemorar tal dia. É um feriado estúpido e inútil.
5) O dia de Todos-os-Santos é um feriado importante porque, mesmo para os não católicos, serve geralmente para romagem aos cemitérios.
6) O Natal é um feriado importante porque, mesmo para os não católicos, serve de festa familiar.
Em suma, há pelo menos quatro feriados religiosos (um deles, o Carnaval, não o é verdadeiramente) que não há qualquer razão para manter, na atual sociedade portuguesa largamente não católica ou, pelo menos, não praticante. Três desses feriados são particularmente perniciosos porque dão lugar invariavelmente a um ou dois dias a mais, para além do feriado, em que muita gente não trabalha.
Veredito: eliminem-se todos os feriados religiosos com exceção do Natal e, talvez, do Primeiro de Novembro. Substituam-se esses feriados por quatro dias mais de férias legais para cada trabalhador. Cada um fará com esses dias o que quiser. As empresas privadas que o desejarem poderão, naturalmente, fechar, de acordo com os seus trabalhadores, em quaisquer dias que considerem de especial relevância. As pessoas serão mais livres. As idas à praia serão melhor distribuídas ao longo do ano, haverá menos filas nas estradas. Quem quiser respeitar a sua religião terá plena oportunidade de o fazer.














A concordata
David Moreira on Sábado, 17/04/2010 - 18:01É preciso não esquecer que existe a Concordata, um tratado internacional entre Portugal e o Vaticano. Por causa desta concordata é que existe a Lei sobre liberdade religiosa. Isto num estado que se diz laico.
Para que o estado fosse verdadeiramente laico, a concordata e lei sobre liberdade religiosa deviam acabar.
Reservando simplesmente para a constituição a liberdade de culto.
Os feriados religiosos fazem parte deste pacote de águas turvas.
Um País laico em que o estado serve a maioria católica de praticantes e não praticantes, com feriados, tolerâncias de ponto quando vem o Papa.
Deixar uma resposta