Retrato de Luís Lavoura

Eu não percebo nada da matéria e portanto posso estar a dizer diversos disparates, mas deixa-me perplexo como é que o Estado português praticamente desistiu de se financiar no mercado interno - mediante a emissão de Certificados de Aforro (CA) que ofereçam juros atraentes - ao mesmo tempo que se financia no mercado externo pagando juros mais elevados.

Parece que o Estado português tem hoje que pagar um juro de 4,8% pelas obrigações que emite, com um prazo de reeembolso de dez anos. Este juro é extremamente elevado, bem mais elevado do que os juros oferecidos por qualquer banco privado para um depósito a prazo. Entretanto, o juro oferecido pelos CA, indexado à Euribor, não ultrapassa, mesmo para CAs já muito antigas, os 2% ao ano - para as CAs mais recentes é bem inferior a isso.

Concluo que o Estado teria ampla margem para aumentar substancialmente o juro que oferece aos CAs que atualmente emite, por forma a esse juro ser superior àquele que é oferecido pelos bancos para depósitos a prazo mas mantendo-se, ainda assim, inferior àquele ao qual o Estado se financia no mercado internacional.

Só posso concluir que o Estado português está deliberadamente a evitar concorrer com a banca privada na captação das poupanças dos portugueses. Ou seja, o Estado português oferece um juro muito baixo pelos CAs para apoiar a banca privada, evitando que os CAs lhe façam concorrência. O Estado prefere ser ele a pagar juros elevados lá fora, a forçar a banca a ser ela a ir procurar mais financiamento ao exterior.

Esta pode ser uma política muito altruísta mas não me parece ser a política correta. É função do Estado português, creio, tratar primeiro dos seus interesses, que são os de todos os contribuintes, e só depois tratar dos interesses dos bancos privados. E isso exigiria que o Estado português procurasse financiar-se no mercado onde pudesse pagar os juros mais baixos, que seria provavelmente o mercado interno, o mercado dos aforradores privados portugueses.

Retrato de Miguel Duarte

Somos dois a não perceber

Miguel Duarte on Quarta, 21/04/2010 - 16:22

Sendo que eu sou de Economia e acho uma parvoíce completa na actual situação económica o baixo valor dos juros dos certificados de aforro.

O mais grave é que não estás sequer a ajudar a banca portuguesa, quem tu estás a "ajudar" é essencialmente a banca estrangeira. Os cidadãos portugueses teriam todo o interesse em emprestar dinheiro ao Estado a 3% e 4% ao ano, o que seria mais económico e muito melhor para a economia nacional que pedir dinheiro emprestado ao estrangeiro. É duvidoso que os cidadãos cobrissem a totalidade das necessidades do Estado, mas, se cobrirem 5% ou 10%, era dinheiro que o Estado poupava e que entrava no bolso dos aforristas quando recebessem o capital e juros no futuro.

O Estado aparentemente quis fazer uma falsa poupança ao dar más condições aos certificados de aforro, os cidadãos desinteressaram-se, a poupança em Portugal caíu para níveis muito baixos e agora pagam-se juros elevadíssimos a investidores estrangeiros.

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