Numa visita à Holanda há uns meses atrás, apercebi-me que sob a capa de um suposto liberalismo esconde-se por vezes uma total indiferença.

Para enquadrar deixem-me explicar que o “típico” Holandês odeia prostituição, drogas, aborto, etc mas não quer proibir nada. Assume a postura do “queres te matar, força”.
Eu não discordo desta postura mas é aqui que, pela tolerância, começa a indiferença.

O problema surgiu quando o desafio foi a imigração e os Holandeses continuaram a dizer “não proibimos, faz para aí, mas eu não quero ter nada a ver com isso”.
Fechar os olhos foi mais fácil.

Em pouco tempo começou a surgir uma segregação. As várias comunidades começaram a isolar-se em guetos sem se misturarem com os outros holandeses. Surgindo assim um novo conceito dos países desenvolvidos: O apartheid espontâneo.
Na boa prática dos Holandeses continuou a não existir interferência.

Mas apesar do silêncio, a raiva começava a crescer dentro de cada indivíduo, ocultada por um silêncio politicamente correcto.
Deu-se início a uma guerra fria urbana, que não usa armas nucleares, mas que já levou a assassinatos e à queda de um governo.

Esta é a minha resposta à pergunta do Miguel Duarte no último post.
Liberalismo e tolerância não são, nem podem ser, um fechar de olhos. É preciso evoluir para um conceito de compreensão, análise de necessidades, integração e respeito.

Na Holanda já aprenderam a lição e iniciaram programas de integração através da distribuição geogáfica.
Mas será que na Europa já aprendemos a lição ou vamos repetir o mesmo erro em todos os países?

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Ser liberal não deve querer

Luís Lavoura on Domingo, 13/08/2006 - 17:30

Ser liberal não deve querer dizer que não se tenha convicções pessoais, nem deve implicar alheamento em relação às escolhas de cada um.

Se as pessoas se drogam com heroína, pois eu acho que isso deve ser permitido, mas não acho bem que o façam, nem devo limitar-me a desviar o olhar quando vejo um drogado.

As pessoas devem ter as suas convicções e procurar agir de acordo com elas, no sentido de melhorar a sociedade em que vivem. Mas o caminho para esse melhoramento não passa, em minha opinião, por proibições.

Retrato de Miguel Duarte

Desconheço a holanda

Miguel Duarte on Sábado, 12/08/2006 - 13:35

Sinceramente desconheço a situação na Holanda e concordo sem dúvida nenhuma com as pessoas serem integradas onde outras pessoas vivem. Não devem existir guetos. Embora são precisamente os emigrantes que se gostam de fechar em guetos e é complicado obrigar as pessoas a viver em sítios que o Estado determina (não é um princípio muito liberal ;) ).

Mas pergunto-me se isso chega. Por exemplo, entre o caso recente no Reino Unido viviam pessoas que exteriormente não tinham qualquer sinal de falta de integração, aliás, um deles até era um "ocidental" recém convertido ao islamismo e outros eram estudantes universitários, o que implica um grau mínimo de cultura e de convivência com a cultura local.

Existem outras questões (polémicas) que se podem fazer, como os famosos testes culturais, que se fazem já em vários países, onde a pessoa para pedir a nacionalidade tem que mostrar que pelo menos conhece a língua e a cultura local. Ou o teste holandês de antes de atribuir um visto expor o futuro emigrante a aspectos mais "chocantes" da sociedade receptora, por forma a pelo menos informá-lo sobre a cultura para onde se quer mudar.

Mas sobre este tema, eu gostava de ter respostas e não tenho. Apenas sei que estamos (a Europa) presentemente no mau caminho. Agora há uma coisa com a qual não sou tolerante e essa coisa é a intolerância.

"Ser tolerante é ser intolerante com a intolerância". Acho que aqui estamos de acordo.

Eu sou totalmente a favor do tipo de medidas que falaste relativamente a um teste cultural. Acho que não tem nada de iliberal em colocar a integração cultural como condição para a imigração, desde que não se caia nos exageros dos EUA.

O argumento que tu apresentaste de início (não ser liberal determinar onde as pessoas vão viver) foi me apresentado pelos liberais mais conservadores do JOVD.
Mas a questão está em que os imigrantes que se isolam são geralmente aqueles que beneficiam de segurança social.
Ora bem, a solução Portuguesa de habitação social parece-me ser a resposta adequada.
Em vez de dar um salário a troco de nada, ajuda-se o imigrante a encontrar emprego e arrenda-se uma casa a preços mais baixos num local pre-determinado.

No fundo é uma negociação que acaba por ser mais liberal do que a postura comunista de "toma dinheiro, faz o que quiseres com ele".

É de lembrar que o imigrante que estuda ou trabalha não é uma ameaça para o país mas uma grande mais-valia.

Retrato de Miguel Duarte

O que eu disse é que "sou

Miguel Duarte on Sábado, 12/08/2006 - 14:50

O que eu disse é que "sou tolerante em tudo, menos com a intolerância". Um pouco diferente da tua interpretação. ;) Se isso me torna tolerante ou não, não sei.

Relativamente à tua proposta, será que a emigração deve ser subsidiada? É que dar casa a alguém a preços subsidiados é estar a distorcer o mercado de trabalho e os custos das empresas completamente. Ainda por cima se esse alguém vem de fora. Também espero não estar a importar imigrantes para viverem da segurança social (como tu sugeriste), isso é um contra-senso.

A minha posição é que as pessoas devem ser livres de procurar trabalho em Portugal, mas têm que encontrar um trabalho que lhes assegure uma subsistência normal, o que implica ter dinheiro suficiente para pagar a renda de uma casa em condições. Em termos de segurança social a imigração tem que ser um contribuinte positivo para a mesma, não um encargo adicional.

A solução passa a meu ver por assegurar que os salários mínimos permitem às pessoas subsistir efectivamente e que o mercado da habitação funciona. Agora isto não resolve o problema dos guetos. :(

Se for necessária habitação a custos controlados, o sistema actual de habitação social também não é claramente um bom exemplo. Pois têm-se criado precisamente os guetos que tu referiste.

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