Retrato de Luís Lavoura

O ideólogo socialista Vital Moreira sugere no seu blogue "a possibilidade de [o Estado] bonificar transitoriamente os juros [dos empréstimos para compra de habitação] das famílias em maiores dificuldades".

Trata-se de uma proposta que beneficiaria os irresponsáveis, premiando a sua irresponsabilidade:

1) Beneficiaria aqueles que, livremente, decidiram comprar uma casa, em detrimento daqueles que, mais prudentes, decidiram morar em casa arrendada.

2) Beneficiaria aqueles que, livremente, decidiram ir viver numa casa própria, em detrimento daqueles que, mais solidários, decidiram ficar a viver na casa dos pais, acompanhando-os e apoiando-os na velhice.

3) Beneficiaria aqueles que, livremente, decidiram contrair um empréstimo com taxa de juro variável, em detrimento daqueles que, mais precavidos, optaram por um empréstimo com taxa de juro fixa.

4) Beneficiaria aqueles que compraram uma casa grande e cara e que, por isso, ficaram com uma dívida avultada, em detrimento daqueles que, mais comedidos, compraram uma casa mais pequenita.

5) Beneficiaria aqueles que compraram casa numa rua boa e cara em detrimento daqueles que, mais modestos, aceitaram ir morar para um bairro mais baratinho.

A proposta de Vital Moreira incorre além disso no risco de, a médio prazo, se tornar num encargo financeiro insustentável para os contribuintes:

1) As bonificações "temporárias" teriam tendência em prolongar-se pelos anos fora, tornando-se semi-definitivas.

2) Não há quaisquer indicações de que as taxas de juro possam vir a descer de forma duradoura. A inflação pode manter-se alta, dado o fim do "efeito China" que a suprimiu durante muitos anos, e dado o previsível aumento gradual do preço da energia. Portugal encontra-se fortissimamente endividado ao estrangeiro e os bancos estrangeiros poderão ter uma relutância crescente em emprestar aos bancos portugueses, forçando os bancos portugueses a cobrar spreads mais elevados aos seus clientes. A crise financeira pode prosseguir, suprimindo todos os empréstimos bancários em geral e forçando a subida da taxa Euribor.

Em suma, a proposta de Vital Moreira é uma proposta socialista típica. Parece muito boazinha, bem intencionada e talvez até prudente, mas corre o risco de descambar num encargo permanenete para os contribuintes, além de premiar os comportamentos mais estouvados e incentivar a irresponsabilidade.

até custa a acreditar

Hugo Garcia on Quarta, 24/09/2008 - 19:14

Até custa a acreditar numa proposta destas.

Mas não me levem a mal. Acho que o Estado deve apoiar quem tem dívidas. E esse apoio deve ser sob a forma de redução do défice.
Se o estado começar por acabar com as suas dívidas vai dar uma grande ajuda à redução das taxas de juro. E fazer pressão perante os restantes países da UE para que façam o mesmo.

Pode ainda ajudar de outras formas.
Por exemplo, estimular o mercado de arrendamento através de leis mais flexiveis.

Pode até diminuir o IVA e o IRC para promover o emprego e assim diminuir o factor risco e o crédito mal parado.

Ou por exemplo, criar legislação mais apertada para o crédito ao consumo e o crédito rapido.

E se tudo isto não chegar, pode parar a construção imobiliária nas zonas urbanas para não desvalorizar as casas de quem está endividado.

Há inumeras formas de ajudar sem se entrar no subsidiozinho.

Estou de acordo em geral com

PedroFélix on Quarta, 24/09/2008 - 17:38

Estou de acordo em geral com este texto. Porém, penso que à irresponsabilidade das decisões individuais (quer as de cá quer as do outro lado do Atlântico...), não se pode escamotear a do Estado quando bonificou a taxa de juro nos anos 90, até 2003 quando M.Ferreira Leite acabou com o pagode, quando a taxa de juro estava a níveis mais baixos de sempre. No entanto, isso não justifica voltar a incorrer no mesmo erro, claro está.
Pedro José Félix

Retrato de Luís Lavoura

Exatamente

Luís Lavoura on Quinta, 25/09/2008 - 08:29

Seria a repetição de um erro já incorrido.

Luís Lavoura

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