Consta que Manuela Ferreira Leite disse ontem numa conferência qualquer umas coisas que - descontando o mau jeito com que as disse - considero muito acertadas.
Ferreira Leite disse que o Serviço Nacional de Saúde não pode continuar a pagar indiscriminadamente certos tratamentos a pessoas idosas. Ela referiu explicitamente tratamentos de hemodiálise a pessoas de mais de setenta anos de idade, exemplo que talvez não seja o mais adequado. Mas a ideia mantem-se, e eu acho que ela é correta. O país, disse ela, não tem rendimentos, não tem dinheiro que lhe permita tais luxos. Os tratamentos, claro, devem ser livres - a quem os possa e queira pagar. As pessoas que tenham dinheiro para se tratarem, tratar-se-ão. O Estado é que não pode fornecer gratuitamente o serviço a todos.
É duro? É. É feio? É. Mas é a realidade. A partir de certa idade, torna-se irracional, um desperdício de dinheiro, estar a procurar prolongar indefinidamente a vida. Aquilo que essas pessoas produzem ou podem vir a produzir já não compensa o esforço. Se elas tiverem dinheiro para continuarem a tratar-se, poderão fazê-lo. Mas a sociedade, o Estado, é que não pode estar a pagar isso.














Entanásia activa
David Moreira on Sábado, 14/01/2012 - 22:27Os celtas ficaram conhecidos pela forma que tratavam os velhos. Pura e simplesmente atiravam-nos de um penhasco.
O que propões é mesmo, mas de outra forma.
Ou seja, eutanásia activa.
outra
Luís Lavoura on Segunda, 16/01/2012 - 17:22Tirado daqui:
"Seguia o etnólogo, há semanas, um grupo de bochimanes - povo a que dedicou uma tese de doutoramento - quando, numa madrugada, dormindo no seu jipe, a uma distância respeitosa do acampamento dos nómadas, foi acordado por um súbito burburinho. Ao olhar foi surpreendido por um cruel espetáculo. O grupo, com uns vinte indivíduos, tinha levantado amarras pela calada da noite, deixando para trás, ainda adormecido, um casal de idosos. Os anciãos ergueram-se, ignorando completamente a ajuda que o estranho lhes pudesse prestar, e prosseguiram no rasto dos companheiros. Viegas Guerreiro testemunhou o modo como nas condições inóspitas do deserto se resolve o problema da terceira idade."
celtas
Luís Lavoura on Segunda, 16/01/2012 - 10:21Não só os celtas, muitos outros povos faziam coisas análogas.
Entre os esquimós o hábito era levarem os velhos para um local perdido no meio da neve e abandoná-los lá, onde eles não tivessem meios para voltar para junto de outros homens, acabando por morrer de frio.
No Alentejo há cinquenta anos atrás era comum, e socialmente bem visto, os velhos suicidarem-se por enforcamento, por forma a não consituírem um peso económico para as suas famílias.
Eutanásia dos pobres
1 homem cansado (não verificado) on Quinta, 12/01/2012 - 16:57Depois de uma vida de trabalho, a serem explorados pela classe capitalista, que agora se chama liberal para não parecer mal, os pobrezinhos devem ser deixados morrer, hein? E anda esta gente na igreja a bater com a mão no peito...
Ferreira Leite
João Miguel Covas (não verificado) on Quinta, 12/01/2012 - 00:02Concordo com alguns argumentos, não concordo com a conclusão. Não acho que seja inevitável que a sociedade deixe morrer uma pessoa só porque tem mais de 70 anos. Alias, com base em dados da Associação Portuguesa de Doentes Renais que foram divulgados na imprensa hoje, a média de idade de doentes em diálise é de 68 anos. Logo, uma grande parte destes doentes deixaria de ser tratada.
Acho que o problema do nosso sistema de saúde é muito mais profundo. É essencialmente um problema de falha no modelo de financiamento, falha no paradigma de serviço publico, e em certa medida, um grande desaproveitamento dos recursos do sistema privado. Enquanto não houver uma reforma profunda nestes componentes, não haverá solução, e o SNS irá continuar a degradar-se.
Quanto ás soluções, não acredito que sejam a negação cega de cuidados de saúde, nem com base na idade, nem em qualquer outro factor. Alias isso tem um nome: discriminação. E não é melhor nem mais justificavel do que qualquer outro tipo de discriminação, quer ela seja com base na idade, no género, raça, religião ou orientação sexual.
A haver discriminação, que seja com base nas capacidades económicas do doente. Quer ela seja com base em co-pagamentos ou seguros de saúde privados, é discutível. Mas não deve ser negado o tratamento com base em carência económica.
Enquanto não se iniciar um debate sério na sociedade Portuguesa sobre o modelo do sistema de saúde, o seu financiamento, e a organização dos prestadores de serviços, este tema continuará a ser o pão nosso de cada dia.
PS: Continuem o excelente trabalho que têm feito. Sou simpatizante do MLS há algum tempo, e espero que cresça e se materialize numa verdadeira mudança de mentalidades na política portuguesa. Acho que falta um verdadeiro Partido Liberal Social em Portugal, e precisamos de mais sementes como estas para que isso aconteça.
Abraço
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