"Agora, o semanário The Economist alarma-se com a "assustadora" disposição xenófoba de milhões de chineses, sugerindo que a futura superpotência que é a China se poderá tornar mais perigosa do que previam os optimistas."

Diz Sarsfield Cabral no Público. Bate certo com todos os outros sinais alarmantes vindos da China. E apesar dos sinais positivos dos últimos tempos, há coisas que não se resolvem pela guerra mediática.

Dá tempo ao tempo

Limbo1978 on Sexta, 16/05/2008 - 07:36

Quando Japão recomeçou com o seu processo de industrialização após a II Guerra Mundial, os produtos made in japan eram considerados inseguros e de qualidade duvidosa, hoje são poucos os que poem em causa a qualidade e a segurança dos produtos japoneses.

À medida que vão conquistando novos mercados os países emergentes acabam por inevitavelmente ter que melhorar os seus produtos, e como a questão de corporate social responsability está em voga, os consumidores acabam por exigir mais às empresas. Os mercado exige.

Assim, mesmo que as questões que levantaste não sejam uma prioridade para partido comunista, estas terão que ser resolvidas, caso contrário a China não crescerá...

China plural?

Limbo1978 on Quinta, 15/05/2008 - 14:10

Creio que de uma forma geral os chineses da República Popular da China partilham a ideia da unificação. Os chineses estão acostumados à ideia da unidade do país. Mesmo a questão do Tibete, a ideia defendida é mais em torno da autonomia do que da independência. Quanto à população muçulmana do noroeste acho que não é assim tão sério.

Num território tão vasto é natural que hajam muitas diferenças culturais, mas esta questão não tem que necessariamente ser vista como força separadora como é costumamos assistir aqui na Europa, habituada a lutar pela independência por mais ínfimo pedaço de território. Noutras partes do mundo estas diferenças são encaradas com orgulho e como pluralidade cultural. Os dirigentes Comunistas estão agora a tentar recuperar e a explorar as potencialidades destas pequenas riquezas outrora destruídas por Mao.

Quanto à questão da recusa ao apoio às vítimas não sei onde leu. O último update que fiz era que China para além da ajuda do governo central com a presença em pessoa do presidente de Wen Jiabao, está a aceitar ajuda externa.

Os desafios da China são no meu entender outros:

- Poluição, a poluição na China custa por ano mais de 5% do PIB, e está a níveis insustentáveis.

- Falta de alimentos, apesar do vasto território a percentagem de terra arável é relativamente pequena, e a poluição não ajuda em nada.

- Reforma da propriedade, mesmo com a recente alteração da lei da propriedade que apenas serviu para agradar todas as partes, é necessária uma verdadeira reforma e clarificação.

- Direitos Humanos, a eterna questão, com o desenvolvimento a questão dos DH e do direito do trabalho têm que ser encaradas pelos dirigentes.

- Por fim a corrupção.

Os actuais líderes dizem-se legitimados pela competência, mas, estarão eles preparados para responder a estes desafios?

desafios da China

Hugo Garcia on Quinta, 15/05/2008 - 15:44

FOi no Telejornal que ouvi isso, mas também não é relevante. Posso ter ouvido mal.

Também penso que a China não seja um país muito plural, apesar da sua dimensão. Temo é que isso seja o típico pensamento Ocidento-centrista de "os chineses são todos iguais".
Enfim. Ainda há quem não distinga chineses de japoneses.

Adiante.

Têm existido sinais naturais de mudança na China:
surgimento de ONGs. líderes cada vez um pouco mais abertos.
Isto poderá (ou não) ser sinal de que o povo chinês deseja uma cultura mais aberta.
Seria de esperar que os povos com tendência para o negócio fossem mais abertos, mas a história não nos diz isso.

A mega-revolução industrial que a china ainda está a sofrer abre feridas profundas a nível social, nomeadamente entre os povos urbanos e rurais.
Para além das feridas sociais o número de mortes por doença tem tendência a disparar. (falta de higiene, poluição e ausência de preocupação com a saúde em geral).

Entre o desenvolvimento económico e os vários problemas sociais que a China irá atravessar nos próximos anos, será que se vai desenvolver uma consciência colectiva mais humana, social e participativa ?

Penso que um dos pontos determinantes é a existência de uma classe média.

Perdoem-me a insistência mas gostava de ler mais algumas opiniões.

E a resposta?

Stran on Quinta, 15/05/2008 - 11:06

Caro Limbo,

Colocou uma questão curiosa que gostaria de saber a sua resposta.

Quanto ao guterrismo poderia aprofundar um pouco mais a sua análise, que não me parece a mais correcta...

"mas apenas uma democracia e uma economia de mercado permite atingir os níveis de desenvolvimento dos EUA ou de uma Europa"

Quanto a esta frase discordo profundamente com o "apenas" julgo que é necessário mais do que isso...

nem tão aberta

Hugo Garcia on Quinta, 15/05/2008 - 12:47

nem tão fechada.
Realmente a minha comparação tem limites face à China não ter o mesmo desejo de abrir as economias mundiais que os EUA tinham.

Ainda agora a China recusou apoio às vítimas do terramoto.

Mas por outro lado, a cultura da China está a abrir-se a olhos vistos. Mas séculos ou milhares de anos de Confucionismo não se ultrapassam numa década.

a grande dúvida que se coloca para se poder fazer alguma prospectiva é sobre a mudança interna da China, a níveis cultural e social.
- Será que os chineses partilham do espírito de unificação ?
- Será que são assim tão idênticos num país tão grande ?
- Será que não têm um grande desejo de viajar e conhecer o Mundo ?

Interessante por exemplo é o fascínio que os chineses têm por marcas como o IKEA.

Durante milhares de anos a China procurou o conforto do isolacionismo, sendo um país vasto manter a auto-suficiência numa economia fechada de subsistência não é uma tarefa difícil. Difícil talvez tenha sido manter a economia fechada estando na mira dos canhões europeus.

Ao contrário do que os portugueses fizeram décadas mais tarde, quando Zheng He se tornou o maior navegador de todos os tempos, quando esteve mesmo para dobrar o Cabo ainda das Tormentas, a ordem imperial foi fazer regressar todos os navios porque se considerou que o mundo de “fora” não tinha nada para oferecer à China.

Séculos mais tarde, soube-se o verdadeiro custo desta decisão um pouco estranha para os olhos de um Europeu.

Se esta tradição se mantiver é pouco provável que a China se venha a tornar numa nova-EUA. Mas com a economia já bastante aberta, nem que seja por causa da hipoteca que detém sobre os EUA, julgo que é praticamente impossível voltar atrás. Mas ainda há esperança. Oxalá que nunca se percam os outros valores tradicionais:
- Não fazer ninguém perder a face
- Não interferir nos assuntos internos de outros países

Se assim for, é possível que a nova potência emergente tenha uma atitude perante o mundo bastante diferente da dos EUA, se bem que os surtos nacionalistas assustam tanto o mundo ocidental como os próprios dirigentes do regime Comunista.

Espero que a China à semelhança do que aconteceu com os outros regimes autoritários na Asia, se venha a transformar numa economia de mercado e acima de tudo numa democracia.

Um regime autoritário pode ajudar um país a evitar o chamado “middle income trap” - que, por exemplo, Portugal se deixou cair nos anos do Guterrismo, onde as reformas necessárias deram ligar a medidas demagógicas ou mesmo inacção - mas apenas uma democracia e uma economia de mercado permite atingir os níveis de desenvolvimento dos EUA ou de uma Europa.

E nisto, à pergunta colocada se o nosso planeta terá capacidade para suportar uma China como os EUA, eu colocaria a questão de outra forma: Terá o globo capacidade de suportar mais 1.3 biliões de pessoas com o mesmo padrão de vida dos EUA?

Será?

Stran on Quarta, 14/05/2008 - 17:34

Será que o Globo tem capacidade para uma China como os USA?

China - Nova EUA

Hugo Garcia on Quarta, 14/05/2008 - 15:56

Aparentemente, pegando um pouco no que li do post e do comentário anterior, imagino que a china se transforme naquilo que têm sido os EUA ao longo das últimas décadas.
Isto porque parte dos mesmos pressupostos:

Grande Crescimento
Política capitalista
Grande espírito de unificação
Nivel cultural baixo
Participação democrática baixa
Governo controlador e vigilante
No limite uma governação de "quero, posso e mando"

Tal como o foram os EUA, a China provavelmente transformar-se-á no país que muitos vêem como a oportunidade,como um esplendor de sucesso, mas também muito odiado.
Odiado pelos outros, pelas elites intelectuais e especialmente por todos aqueles que se sentirem, de alguma forma, reprimidos.

Da contra-informação ao nacionalismo

Limbo1978 on Quarta, 14/05/2008 - 11:31

Julgo que são poucos os que duvidam que a China será a próxima super-potência. Com os Estados Unidos hipotecados à China julgo que esta é uma hipótese cada vez mais realista.

O que não sabemos ainda é se a China será um poder hegemónico estável e próspero ou se será um poder que irá ameaçar a estabilidade mundial.

Os recentes incidentes em torno da chama olímpica veio mostrar uma aparente faceta desconhecida no mundo ocidental. Mas será isso mesmo assim?

Todos as nações têm o seu orgulho, e temos naturalmente que distinguir o regime do povo. Quando os EUA foram surpreendidos por ataques aéreos nos atentados de 11 de Setembro a resposta desta nação, apoiada pelo seu povo, foi vingar a sua fúria no resto do mundo sem olhar a grandes meios. Foi acima de tudo o orgulho de uma nação que esteve em causa. Neste caso mesmo com os media do seu lado não impediu a reprovação por parte de muitos.

No caso da China, habituada a seu isolacionismo milenar, o relacionamento com os media é deveras uma novidade, nem que seja por não ter uma imprensa livre. O que aconteceu em torno da chama olímpica expôs esta fragilidade, mas também o enviesamento da imprensa ocidental. (Por exemplo as seguintes imagens que motivaram os sms que apelavam ao boicote aos produtos Franceses na China nunca circularam na imprensa ocidental: http://www.zonaeuropa.com/20080410_1.htm)

Não é abusivo dizer que a nossa imprensa tem um sentimento anti-China, a forma como abordou a questão da tocha olímpica, a forma como abordou a questão da Mattel, a questão do regime do Sudão…entre outros. Os desenvolvimentos recentes com os media a orientarem a um potencial boicote aos J.O. foi talvez a gota de água para o povo chinês, foi uma questão de orgulho nacional que esteve em causa. Os media ao tentarem atacar o regime Comunista acabou por desferir um golpe à população de 1.3 biliões de habitantes. A resposta nacionalista não passou de uns sms não tiveram efeitos práticos, segundo a cadeia de supermercados Carefour, um dos alvos do boicote.

Uma coisa é certa, não há nada que o dinheiro não resolve. Depois dos incidentes o regime contratou várias empresas de relações públicas para melhorar a sua imagem junto do ocidente, e julgo que esta prática veio para ficar.

No caso de Mattel, quando esta empresa tentou imputar as culpas aos fabricantes na China devido ao excesso de chumbo nos seus produtos, veio-se a descobrir que afinal a Mattel era a responsável pela insegurança dos seus produtos. O regime na altura contratou uma empresa de relações públicas para resolver o caso. O resultado foi esta imagem que abriu telejornais e foi fotografia de capa dos principais jornais a nível mundial
http://graphics8.nytimes.com/images/2007/09/21/business/worldbusiness/22mattel.600.jpg

e a mensagem que saiu para a comunicação social não podia ter sido mais vergonhosa para o vice presidente da Mattel que teve que pedir desculpas em publico em troca de algumas lições sobre a qualidade.

Muito vai mudar no mundo com a emergência de uma nova super potência. Só desejo à China estabilidade e prosperidade para o bem da estabilidade global.

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