A crise financeira que o mundo está a viver, a qual provavelmente levará ao colapso económico-social mais alguns países além da Islândia, e que possivelmente levará ao abandono da moeda única europeia (euro) por parte de alguns países, mostra, em minha opinião, que o liberalismo foi longe de mais, nomeadamente no campo financeiro.
Foi longe de mais, não apenas por não ter sabido regular e supervisionar algumas práticas financeiras, mas, de facto, por ter permitido algumas dessas práticas.
Ou seja, para emendar o sistema financeiro (inter)nacional, não se tratará apenas de regulamentar (pelos Estados) certas práticas e transações financeiras; tratar-se-á necessariamente de proibir algumas práticas que, aparentemente, deveriam permanecer livres num contexto liberal.
Coisas como levar para fora de um país moeda desse país, ou investir o nosso dinheiro num país estrangeiro, terão provavelmente que voltar a ser proibidas ou fortemente condicionadas, como o eram vulgarmente no tempo dos nossos pais.
Será necessário restringir fortemente os movimentos trans-fronteiriços de capitais, e não apenas regulamentá-los. De facto, são esses movimentos trans-fronteiriços que, tanto permitem que um país enriqueça subitamente devido a um afluxo de capitais estrangeiros, como fazem que esse país colapse quando os "investidores" internacionais decidem abandoná-lo.
O mundo futuro terá certamente que ser bem menos liberal, no campo financeiro, do que o atual.














Tiro ao lado
Miguel Duarte on Domingo, 01/03/2009 - 19:42Concordo contigo que é necessário regulamentar os mercados, mas nunca ao ponto em que sugeres nos últimos parágrafos.
Eu diria que a primeira coisa a regulamentar são os empréstimos a privados. Coisas tão simples definir que um empréstimo à habitação não pode passar dos 70% do valor da habitação, e repor o limite deste tipo de empréstimos nos 30 anos, pode fazer milagres quer pelo valor das casas (tornado-os mais realistas com o tempo), quer controlando o excesso de dívida dos particulares. O mesmo se pode fazer por exemplo no que toca a empréstimos ao consumo (obrigar sempre a que consumidor dê uma entrada significativa quando adquire um bem).
Quando olho para o défice externo crónico da nossa economia, que consome muito mais do que aquilo que produz, é evidente que vamos ter que cortar no consumo e a forma mais lógica que vejo, é precisamente cortar drasticamente no consumo interno. Uma economia deve crescer essencialmente com base na poupança e não no crédito desenfreado.
Quando ao dinheiro, se Portugal continuar a endividar-se, não à Euro que nos valha e é evidente que as taxas de juro para todos os portugueses vão começar a subir, controlando assim também a nossa despesa externa. E claro, talvez o mais importante, o deficit do nosso orçamento de Estado tem que passar a ser na pior das hipóteses igual a 0. Custe o que custar.
Só não entendo o porquê da ultima parte
Stran on Domingo, 01/03/2009 - 21:32"E claro, talvez o mais importante, o deficit do nosso orçamento de Estado tem que passar a ser na pior das hipóteses igual a 0. Custe o que custar."
Esta medida é conjuntural ou é uma regra a seguir em qualquer situação? E se for a segunda opção, qual o fundamento dessa medida?
Simples
Miguel Duarte on Segunda, 02/03/2009 - 08:58Dado que neste momento não se pode imprimir euro, o Estado português vai ter que pagar tudo o que pedir emprestado até ao último cêntimo e todos sabemos como isso vai ser cada vez mais difícil e vai implicar cada vez mais o pagamento de mais impostos. Infelizmente andamos com a desculpa que os investimentos do Estado são produtivos há décadas, quando na realidade andamos apenas a endividar-nos para o futuro e a criar um futuro com impostos cada vez mais elevados.
A agravar a situação, em termos práticos, o investimento público em excesso, não gerador de aumentos de produtividade, está a criar procura interna falsa e a aumentar de uma forma artificial o défice da nossa balança comercial. O Estado está a injectar dinheiro na economia portuguesa, via dívida, que irá inevitavelmente sair da nossa economia para o exterior, e isto para não falar quando, como é o caso do TGV, não pede simplesmente dinheiro emprestado para o colocar directamente lá fora.
No TGV vamos gastar dinheiro em linhas não rentáveis (ou seja, às quais a sociedade não atribui um valor superior ao seu custo) e a esmagadora maioria dos bens adquiridos será produzido no exterior, sendo que esse mesmo exterior irá emprestar-nos o dinheiro para comprarmos esses bens.
Num mundo ideal, eu diria que tu deverias ter excedentes nos bons anos e eventualmente défices ligeiros nos maus anos, o problema é que o nosso histórico é de défices graves nos maus anos e défices ligeiros nos bons anos.
Opinião e Sugestões
Stran on Segunda, 02/03/2009 - 12:16Segue então a minha resposta:
"Dado que neste momento não se pode imprimir euro..."
Aqui tenho de dizer, ainda bem! É de má memória o tempo em que faziamos isso (não sei porquê mas vem me à memória o Zimbabwe)
"...e todos sabemos como isso vai ser cada vez mais difícil e vai implicar cada vez mais o pagamento de mais impostos..."
Aqui julgo que não, principalmente com a baixa de taxa de juros.
" Infelizmente andamos com a desculpa que os investimentos do Estado são produtivos há décadas, quando na realidade andamos apenas a endividar-nos para o futuro e a criar um futuro com impostos cada vez mais elevados."
Concordo quase totalmente, só a parte dos impostos é que não concordo. Para além da questão das taxas de juro, o que julgo que vai acontecer é um estrangulamento da acção do Estado. Ou seja, não são os impostos que vão aumentar porque me parece que estamos a atingir um máximo, mas sim a capacidade de o Estado conseguir executar o quer que seja. Olhando para o orçamento de Estado (um pequeno habito masoquista que tenho) torna-se claro para onde é canalizado grande parte dos nossos impostos (pagamento de divida), pelo que aumentando este ponto iremos diminuir o valor do orçamento para as outras rubricas.
A parte que eu acho mais importante de focar é produtividade dos nossos investimentos. Julgo que não temos a mesma opinião quanto ao valor do deficit (eu defendo valores mais altos que tu), no entanto esse deficit tem de ser justificado pela produtividade dos investimentos. Isto é, ao contrário do que é actualmente moda afirmar-se, um investimento publico não é benéfico per si.
Aliás um mau investimento publico (julgo que a linha de TGV Porto -Lisboa será um bom exemplo, embora ainda faltam estudos) é terrivel para a sociedade. Não compreendo esta actitude irresponsável por parte dos politicos de todo quadrante. O que é que a sociedade diria de uns pais que se endividam para ir passar férias à Republica Dominicana e depois dessem a factura aos seus filhos para pagar? Ora muitos investimentos publico são meras "viagens à Republica Dominicana"!
"...não gerador de aumentos de produtividade..."
E este é o verdadeiro busilis da questão! E é um problema que não vem de agora, já se arrasta desde da decada de 80. Nos ultimos 20 anos temos tido crescimento economico criado artificialmente (primeiro via Obras públicas e depois via crédito) e mais cedo ou mais tarde iremos ter de pagar (e muito caro) essa factura.
"No TGV vamos gastar dinheiro em linhas não rentáveis (ou seja, às quais a sociedade não atribui um valor superior ao seu custo) e a esmagadora maioria dos bens adquiridos será produzido no exterior, sendo que esse mesmo exterior irá emprestar-nos o dinheiro para comprarmos esses bens."
Não existe espaço no MLS para receberem financiamento para elaborarem um estudo sobre esta temática? Julgo que seria muito benéfico para o vosso movimento esse estudo. Primeiro porque poderiam ter uma opinião sustentada, depois porque não vejo na actualidade nenhum dos partidos politicos interessados nessa abordagem, além de que vos daria bastante visibilidade. O que achas?
Epá, já sou mais liberal que o Liberal
Stran on Sábado, 28/02/2009 - 00:50É com supresa que vejo que neste caso tenho uma opinião ligeiramente mais liberal que tu. Não julgo que se deva proibir a circulação de capitais. Regulamentar julgo que seja correcto, uma regulamentação que terá de ser transnacional ou mundial mesmo. Proibir algumas praticas também julgo necessário, como proibir um endividamento da pessoa ou agragado familiar acima de X% de rendimento, ou ainda regular o mercado publicitário bancário que muitas vezes praticava publicidade enganosa. Assim como restrições a nivel de politicas de dividendos, etc...
No entanto não julgo que tenha de ser menos liberal em termos de circulação de capitais, será um erro se isso vier a acontecer e com consequências demasiado nefastas para as economias do mundo. Restringir a circulação de capitais só vai, no fundo, obrigar a investimentos menos eficientes (pela impossibilidade de o aplicar noutra região do globo) o que tornará a economia menos eficiente e gerará um agravamento da própria crise.
nada liberal
Luís Lavoura on Sábado, 28/02/2009 - 16:45É evidente que as ideias que proponho neste post não são nada liberais, muito pelo contrário.
Lembro-me de que quando eu era novo (para aí nos anos 70) os meus pais assinavam uma determinada revista estrangeira e que, todos os anos, para renovarem a assinatura, tinham que pedir ao banco a emissão de um cheque em moeda estrangeira para a pagar, apresentando ao banco um comprovativo de que tal cheque se destinava a assinar essa determinada revista, e não para qualquer outro fim. Isto porque os movimentos de capitais para fora de Portugal eram controlados pelo Estado e só se podia fazer sair capitais para certos e determinados fins.
Como é evidente, uma tal forma de fazer as coisas é altamente restritiva da liberdade das pessoas, e eu lamentaria que tivéssemos que regressar a ela.
No entanto, creio que isso será inevitável, sob pena de continuarmos a ter crises financeiras cada vez mais devastadoras. De facto, as crises financeiras são fortemente ampliadas pela liberdade de movimentação dos capitais. Por exemplo, neste momento toda a Europa de Leste está praticamente na bancarrota, porque todos os capitais internacionais estão a fugir dela (como antes entraram).
A liberdade de circulação de capitais amplia as crises financeiras e torna o mundo extremamente instável.
Luís Lavoura
A mesma justificação para outros cenários
Stran on Domingo, 01/03/2009 - 02:26"No entanto, creio que isso será inevitável, sob pena de continuarmos a ter crises financeiras cada vez mais devastadoras. De facto, as crises financeiras são fortemente ampliadas pela liberdade de movimentação dos capitais. Por exemplo, neste momento toda a Europa de Leste está praticamente na bancarrota, porque todos os capitais internacionais estão a fugir dela (como antes entraram).
A liberdade de circulação de capitais amplia as crises financeiras e torna o mundo extremamente instável."
Julgo que este é exactamente o mesmo tipo de argumento que se pode utilizar para condicionar outras liberdades comerciais. Pessoalmente, não julgo que o maior problema seja esse. Restringir a circulação de capitais é semelhante a restringir a circulação de bens (no fundo o capital é um bem) e que, se a tendência se seguir restringirá a circulação de pessoas. Isto não quer dizer que não devam ser criadas regras, mas essas regras não deveriam se focar na circulação mas sim nos mercados directamente. Esta crise financeira começou nos mercados, e se não for resolvida nos mercados, a solução apenas servirá para camuflar o problema, sendo certo que, muito provavelmente, crie mais danos que beneficios.
Não é na circulação (ou falta dela) dos capitais que se poderá ir buscar soluções para uma crise que há muito estava antecipada. E o efeito de ampliação que referes, e que eu também concordo que existe, é mesmo e só um efeito de ampliação, isto é, não é um efeito negativo per si, enquanto tiver sustentação. Se retirares esse efeito de ampliação, estarás no fundo e apenas a restringir o desenvolvimento economico potencial.
P.S. peço desculpa se a resposta está um pouco confusa. Estou um pouco cansado, no entanto julgo esta discussão interessante e não quis deixar de responder assim que pude.
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