Retrato de Luís Lavoura

Cálculos preliminares indicam que a visita do papa ao Reino Unido foi custeada em 10 milhões de euros pelo erário público desse país.

Isto não me chocaria tanto se o governo do Reino Unido não tivesse na sua constituição um partido que se diz liberal.

Liberalismo não é só o Estado dar liberdade religiosa aos seus cidadãos. Liberalismo não é apenas o Estado ser laico. Liberalismo é também o Estado tratar a religião como um assunto privado de cada um, permitindo que cada cidadão financie a seu bel-prazer as suas opções religiosas, mas sem que o próprio Estado financie quaisquer dessas opções.

Há neste ponto uma divergência entre democracia e liberalismo. Um democrata é pela regra da maioria: se muitos cidadãos de um determinado país professam uma determinada religião, um democrata achará bem que o Estado desse país financie essa religião. Mas o liberalismo tem a posição oposta: os cidadãos devem ser livres de financiar a sua opção religiosa e não deve ser o Estado a usurpar o dinheiro dos impostos de todos para esse efeito.

Tenho vergonha de que um governo no qual se encontra um partido liberal tome atitudes destas.

O Reino Unido não é propriamente um estado laico na medida de que o chefe de estado, a Rainha, é "defensora da fé" e chefe da igreja anglicana e isto é lei. 

O papa não é um líder religioso normal, pois também é um chefe de estado.

Como se deve portar um estado, ele mesmo com um chefe de estado e líder religioso, que recebe outro chefe de estado e também líder religioso, e que atrai multidões? Certamente não se vai comportar como um estado laico “à francesa”, pois não o é.

O escândalo não está no facto de o Reino Unido ser um" estado laico" e que gastou 10 milhões na visita do papa. O escândalo está na proveniência do dinheiro, ao que parece foi retirado da cooperação com países pobres.

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