Retrato de Miguel Duarte

Após os resultados "finais" (ainda faltam os resultados dos círculos no estrangeiro), tornou-se claro que apesar de ter perdido as eleições na velha guerra esquerda/direita, os partidos de direita oferecem mais opções de negociação ao Partido Socialista que os partidos de esquerda. Efectivamente, o Partido Socialista à direita tanto com o PSD como com o CDS-PP poderá negociar para obter uma maioria, sendo que com os partidos de esquerda só conseguirá uma maioria com os votos do PCP e do BE. Tal parece-me bastante positivo, dado que significa que o próximo governo será certamente um governo ainda mais de direita económica no que toca à economia. Já no que toca às liberdades individuais, PS + PCP + BE são suficientes para fazer aprovar o casamento entre pessoas do mesmo sexo, pelo que espera-se que esta seja uma medida aprovada nesta legislatura. A Eutanásia, devido às reticências do PCP, ficará contudo na prateleira por mais 4 anos.

Este é sem dúvida um resultado mais democrático, que se for aproveitado pelos vários partidos, permitindo ao PS governar em maioria relativa durante a legislatura completa, irá certamente contribuir para o amadurecimento da democracia portuguesa, obrigando a uma maior discussão e negociação das medidas propostas pelo partido do governo.

Tenho alguma pena contudo que PS e PSD ainda sejam neste momento suficientes para fazer alterações na constituição, pois considero que a participação de pelo menos um médio partido neste tipo de alterações era necessário.

Na corrida dos pequenos partidos, lamento que nenhum tenha conseguido eleger um deputado, mas, noto dois aspectos positivos. Pela primeira vez um partido, o PCTP/MRPP, sem conseguir eleger deputados conseguiu financiamento público, o que lhe dará a oportunidade de ter sustentabilidade financeira durante os próximos anos e espera-se, voz adicional, roubando assim votos ao BE e PCP. É relevante também que os pequenos partidos conseguiram nestas eleições mais de 175.000 votos, mais 50.000 votos que em 2005, sendo que 5 partidos conseguiram mais que 0,25% da votação nacional, versus apenas 3 em 2005. Resultados que contudo significam a morte à nascença do MEP e MMS, que apesar do elevado investimento financeiro, do próprio bolso, em propaganda política, sem qualquer direito a receber financiamento público de volta, irão perder as energias daqui para a frente (será que o presidente do MMS irá cumprir a sua palavra e dissolver o partido?). O PND conseguiu apenas metade dos votos as eleições anteriores, sendo já notório nestes eleições a perda de energia deste partido, que quase não fez campanha (que se notasse em Lisboa, pelo menos). Relevante são também os péssimos resultados da coligação PH - MPT, que conseguiram em conjunto ter piores resultados que o PH sozinho nas eleições de 2005.

Apesar dos resultados do último parágrafo, desmotivadores para os novos partidos, parece-me que a necessidade de um partido liberal, centrista, com ideologia, continua a ser necessária e passível de ser bem sucedida, por ao contrário de partidos como o MEP, o MMS e o PND, um partido verdadeiramente liberal (economicamente, socialmente e europeísta) ir oferecer uma alternativa diferenciada face ao leque de partidos existentes. Algo que MEP e PND no seu conservadorismo social não conseguiram oferecer e o MMS no seu populismo bacoco também desiludiu.

Retrato de João Cardiga

Respostas rápidas

João Cardiga on Terça, 29/09/2009 - 00:42

Antes demais gostava de dar os parabéns a todos os que escreveram hoje que embora não tenha escrito nada acompanhei em termos de leitura. Fiquei preso entre o trabalho e a resposta a uma transcrição que fizeram de um artigo meu no Insurgente.

Miguel Araujo, uma resposta rápida:

"1) o vosso movimento está a ponto de perder a oportunidade histórica para se constituir num novo partido de sucesso;"

É caso para dizer que é morto por ter cão e morto por não ter. Se é verdade esta teria sido uma conjuntura ideal para ter aparecido, a verdade é que a solidez do partido que queremos formar ia embora se o tivessemos feito. Julgo que se o é a longo prazo é indiferente o timming. Este momentum apenas faria com que tivessemos menos trabalho...

"2) o PSD de Passos Coelho apanhará o barco do liberalismo em Portugal;"

Aqui eu discordo, se Passos Coelho quiser apanhar o barco do liberalismo terá de sair do PSD (quem sabe para um partido criado de novo, as portas estão abertas :)). Dentro do PSD poderá ter um discurso mais ou menos liberal, poderá mesmo cativar o eleitorado liberal, mas a máquina partidária falará sempre mais forte e na prática nunca será liberal. O PSD é um partido principalmente autarquico onde o Lobby da construção civil fala mais alto. Poderá passar de grandes obras publicas para pequenas obras publicas mas o modelo de desenvolvimento, na pratica, pouco se alterará. No entanto caso o PSD queira uma coligação (até para lhe dar uma coerencia em termos liberais) julgo que não vem nenhum mal ao mundo.

"3) a partir de aí o espaço fica politicamente ocupado pelo que a opção mais racional será os membros do MSL integrar-se no PSD."

Bem depende dos membros :D Mas voltando ao PSD. No PSD ele consegue chegar ao poder se convencer que pode ganhar as eleições, mas dificilmente isso lhe dará margem de manobra para mudar o partido.

P.S. desculpa a resposta rápida, mas já é bastante tarde e eu tenho mesmo de me ir deitar...

mais sobre o momentum

Anónimo on Segunda, 28/09/2009 - 18:47

Concordo que um partido não se faz de um dia para o outro mas há que saber aproveitar oportunidades pois a água de um rio nunca passa duas vezes no mesmo sítio.

Um PSD com Passos Coelho pode, se tiver sucesso, retirar campo de manobra ao MLS. Já hoje se falava de um PSD de terceira geração e é claro que as linhas populistas do Santana/Menezes, ou a linha conservadora da Ferreira Leite/Cavaco, não têm futuro num partido de alternância de poder. A linha social democrata do Carlos Pimenta/ Fernando Nogueira tem pouco espaço de manobra pela ocupação do nicho por parte do PS (e também pelo facto destes andarem arredados da política activa) pelo que ao PSD não restam muito mais oportunidades que não passem pela redefinição do seu perfil político.

Eu creio que é exactamente isso que vai acontecer com a nova liderança de Passos Coelho e se assim for, a criação de um novo partido liberal terá muito pouca capacidade de afirmação. Teria sido diferente se tivesse aparecido antes, porventura nestas eleições. O País começa a estar preparado para uma visão política liberal (moderada) e o novo PSD vai apanhar este barco se tiver visão estratégica.

Vamos ver. Posso enganar-me mas o meu dedo mindinho diz-me que 1) o vosso movimento está a ponto de perder a oportunidade histórica para se constituir num novo partido de sucesso; 2) o PSD de Passos Coelho apanhará o barco do liberalismo em Portugal; 3) a partir de aí o espaço fica politicamente ocupado pelo que a opção mais racional será os membros do MSL integrar-se no PSD.

A propósito, não sou votante do PSD nem tenho qualquer procuração deste partido para vos seduzir para ele :)

Miguel Araújo

Retrato de Luís Lavoura

tanto melhor

Luís Lavoura on Terça, 29/09/2009 - 11:46

Ó Miguel Araújo, se o PSD se transformar num partido liberal, pois tanto melhor para nós! Escusaremos então de tentar criar um partido liberal de raiz...

Eu não tenho nenhuma objeção nem preocupação em que o PSD se transforme em liberal. Simplesmente, não acredito que isso aconteça. As raízes profundas do PSD encontram-se na União Nacional de Salazar, nomeadamente a nível local e autárquico, e não acredito que essas raízes profundas deixem facilmente o PSD transformar-se em liberal. As raízes profundas do PSD são profundamente anti-liberais. Quer o pobre Pedro Passos Coelho queira, quer não.

Mas se eu estiver errado e Passos Coelho tiver sucesso com a transformação do PSD em liberal, pois bem, eu passarei a votar PSD e ficarei todo satisfeito com isso.

Luís Lavoura

perda de momentum

Anónimo (não verificado) on Segunda, 28/09/2009 - 15:57

Caro Miguel,

Há anos que falas na necessidade desse partido mas tenho a sensação que estás a perder o "momentum". Pedro Passos Coelho vai ganhar a futura liderança do PSD mais tarde ou mais cedo e ele encarnará a transformação do PSD num partido liberal. É o caminho natural do PSD que já não pode afirmar-se como social democráta pois esse nicho foi ocupado pelo PS e não pode/deve ser conservador (tipo cavaco e Ferreira Leite) pois não há mercado eleitoral suficiente para essa postura no Portugal do Século XXI e esse deveria ser, aliás, o nicho de mercado do CDS/PP.

Portanto, ou o vosso grupo entra no PSD e ajuda o Passos Coelho a dinamizar a mudança liberal do PSD ou antevejo que o vosso papel será o de eternos comentadores políticos.

Abraço,

Miguel Araújo

Retrato de Miguel Duarte

Veremos

Miguel Duarte on Segunda, 28/09/2009 - 17:14

Eu não acredito em grandes alterações no PSD. Penso que Pedro Passos Coelho gostaria de fazer o PSD "um pouco mais liberal", será muito difícil transformá-lo num partido verdadeiramente liberal. E quanto ao CDS-PP, bem, acho que ficará mesmo pelo populismo conservador.

Mas sim, está na hora do MLS avançar. E estamos a preparar-nos para isso. O nosso objectivo nunca foram estas eleições. Um partido não se faz, com pés e cabeça, do dia para noite, só porque alguém sonha.

  • As linhas e os parágrafos quebram automaticamente

Mais informação sobre as opções de formatação