Retrato de João Cardiga

Assisti com interesse a uma breve "discussão" entre Tiago Loureiro (da Rua Direita) e Tiago Ramalho (d'O Afilhado) sobre o liberalismo e o conservadorismo.

Para explicar o meu ponto de vista irei utilizar algumas das frases que foram ditas, começando pelo ultimo parágrafo de Tiago Loureiro:

"Sendo pragmático e olhando para a nossa realidade, mexendo nestas rotulagens ideológicas sempre incompletas e subjectivas, esta parece-me ser a perspectiva mais correcta."

Não concordando com a perspectiva dele, a verdade é que ele foca um ponto que é muito importante: a nossa realidade! E julgo que este é o principal problema da perspectiva dele, é que não tem em linha de conta a nossa realidade. Se o tivesse, rapidamente teria que assumir que é uma impossibilidade real uma pessoa ser-se liberal e conservador ao mesmo tempo.

É que a meu ver e ao contrário do que ele afirma (o conservadorismo como "uma espécie de postura saída da personalidade de cada um") o conservadorismo é uma ideologia. E é no sentido que defende um modelo de sociedade que mantenha os valores conservadores definidores da "cultura" portuguesa (vulgo tradição). Todas as propostas que saem desta ideologia têm esse objectivo, e em Portugal vão buscar as suas raízes ao Estado Novo. Senão vejamos, defendem um Estado securitário (relembrar as politicas defendidas por Paulo Portas), um padrão social e moral monopolista e com raizes na religião católica, em alguns sectores defendem o nacionalismo e defendem menos produção Estatal (no entanto em que o Estado mantém um apertado controlo para continuar a ser Forte) à imagem do Estado Corporativista. Julgo que a principal diferença relativamente ao Estado Novo é o facto de aceitarem a democracia. E finalmente o seu foco de atenção das politicas são sempre grupos (empresa/familias) e não individuos.

Ora tudo isto é o oposto da visão de um liberal. Sendo que o modelo de sociedade defendido pelos liberais é profundamente diferente do anterior. Mais, dado o contexto português, ser-se liberal é ser-se progressista, pois, embora tenham existido algumas medidas liberais, Portugal ainda não vive numa sociedade liberal, pelo que é uma tarefa criar estruturas para modificar a nossa sociedade.

E como o Tiago Loureiro diz: "devemos considerar (...) oposto do progressismo – e nunca um do outro"

No entanto concordo com o que o Tiago Ramalho afirma quanto às definições das diferentes ideologias em Portugal:

"Há em Portugal três grandes ideologias que obtêm a simpatia do eleitorado: a social-democracia, o liberalismo e o conservadorismo."

Efectivamente são essas as três ideologias que abarcam 90% (se não mais) do eleitorado português. Desconfio mesmo que até muitos comunistas, não o são ideologicamente mas apenas afectivamente.
No entanto, e ao contrário do que ele afirma, as duas ideologias em questão não são apenas diferentes mas opostas. No entanto, em politica oposição não significa que a não existência de medidas pontuais em que ambos podem estar de acordo. Aliás essa será a meu ver uma virtude de um futuro Partido Liberal: a sua capacidade de criar pontes em vez de destrui-las.

Uma nota final:

"Seria ideal que se recriasse o espectro: três grandes partidos, ideologicamente bem alicerçados: um grande partido social-democrata, um grande partido liberal e um grande partido conservador."
"Um partido que perfilhe verdadeiramente uma doutrina liberal, em Portugal, não há. E faz falta."

É por isso e para isso que se trabalha aqui no Movimento Liberal Social.

Retrato de João Cardiga

Obrigado!

João Cardiga on Quinta, 30/07/2009 - 10:08

Oi,

Antes demais obrigado pelas tuas palavras e por teres passado por aqui! E tens razão, ainda é necessário fazer quase tudo! Mas o trabalho já se iniciou e é apenas uma questão de tempo para tudo isso aparecer.

Já percebi o teu ponto de vista. Quando falo em oposição refiro-me mais à visão de sociedade. Se tivesse de colocar as 3 ideologias na matriz Direita-Esquerda, eu diria que o Conservadorismo é de direita o Liberalismo de centro e a Social democracia de Esquerda.

Sendo de centro, obviamente existe pontos de ligação, tanto à esquerda como à direita, mas as diferenças são sempre muito significativas.

Em Portugal parecem-me opostas por causa do nosso passado, e da fraca evolução ideológica do conservadorismo em Portugal (embora neste ponto o MEP até possa a vir fazer a diferença).

Bem resta-me agradecer a tua vinda, e espero que possas vir mais vezes para continuar este e outro debates.

Um abraço
João Cardiga

não tenho jeito para assuntos

Tiago Moreira Ramalho (não verificado) on Quinta, 30/07/2009 - 08:46

João,

Eu apenas tenho alguma dificuldade em chamar-lhes opostos. Opostos significaria que não podem defender nada, mas nada igual. Chamo-lhes diferentes porque, simplesmente, têm pequenas proximidades, apesar de terem perspectivas completamente distintas da sociedade.

De qualquer modo, força para o movimento. Para além de um partido liberal, também precisamos de movimentos de cidadãos e grupos de pensamento. Pensando bem, precisamos de quase tudo :)

Abr.

TMR

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