A prova de aferição de matemática que este ano os alunos do segundo ano (antiga segunda classe - tipicamente, meninos de oito anos de idade) tiveram que resolver continha algumas questões que são tudo menos matemática.
Numa questão exibia-se algumas figuras geométricas alinhadas: primeiro um círculo, depois um quadrado, depois outro círculo, depois outro quadrado, e finalmente mais um círculo. Perguntava-se aos alunos qual deveria ser a sétima figura geométrica a aparecer nesta sucessão. Ora bem, em matemática não se raciocina por analogia. Em matemática os raciocínios são rigorosos. Em matemática uma sucessão de objetos é definida por uma regra de construção, não por um exemplo visual. Nesta medida, a pergunta colocada aos alunos não tem resposta no âmbito da matemática.
Uma outra pergunta era similar. Mostrava-se duas mesas, cada uma com alguns sólidos geométricos sobre ela. Numa mesa estava um cubo, um paralelepípedo e uma pirâmide; na outra estava um cone, uma bola e um cilindro. Mostrava-se em seguida um prisma triangular e perguntava-se aos alunos sobre qual mesa ele deveria ser colocado. Ora, mais uma vez, esta pergunta não tem resposta no âmbito da matemática. Os alunos são livres de colocar o prisma triangular sobre a mesa que quiserem, uma vez que não é fornecida qualquer regra que indique por que critério se colocam os sólidos numa ou noutra mesa. (A inferência que se pretendia que os alunos fizessem é que numa das mesas estavam sólidos com todas as faces planas, na outra estavam sólidos com pelo menos uma superfície curva. Porém, a inferência não tem lugar na matemática!)
Fiquei muito, terrivelmente apreensivo com esse teste. O teste está mal feito e não é rigoroso. Aquilo que se está a avaliar nas crianças não são conhecimentos objetivos de matemática, mas sim a capacidade de efetuar raciocínios ardilosos e não rigorosos. Isto não é matemática e isto não é teste que se faça - muito menos a crianças de oito anos, que têm o direito de ser tratadas de forma honesta e sem truques.














educação
Aires Ferreira (não verificado) on Sábado, 30/06/2012 - 16:48Caro Luís,
Estou algo impressionado com a surpresa que revela pelo estado do ensino da matemática em portugal. Foi uma das conquistas do eduquês: convencer que os meninos nāo podem ser sujeitos a esforço intelectual demasiado. A solução encontrada foi a de retirar o nível de abstracção e focar em exemplos mais prácticos e "terra-a-terra". Ora a matemática é abstracta por natureza e, por isso, essa pedagogia resulta no que você denuncia: engano e má preparação. Coisas similares ocorrem noutras disciplinas. Por ex., na física, substituiu-se um estudo mais aprofundado e rigoroso em poucas matérias, por um estudo mais alargado e mais difuso, com o resultado que os meninos sabem o que é um quark (ou melhor, conhecem o nome), mas já nāo lhes é exigido saber a fórmula de atracção universal, por ex. Basta saberem vagamente. Os meus colegas americanos contam-me que a experiência foi testada nos EUA nos anos 50 e logo abolida pelos resultados desastrosos que originou. Em portugal continuamos a baixar o nível e o aluno médio jà acha difícil aprender integrais, uma vez no superior, quando antes o aluno médio aprendia calculo ainda no secundário. É tudo uma questão de ondo pomos o nível. E em portugal o nível está muito baixo. E depois ainda há a questão da formação de professores que é tão triste que não a vou recordar aqui.
Desculpe a brevidade, mas encontro me num transporte público.
Cump.,
AF
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