Retrato de Miguel Duarte

O país inteiro (e a Europa) está em negação, considerando injusta e descabida a avaliação pela Moody's das obrigações emitidas pela República Portuguesa como Ba2 (anteriormente Baa1). Pergunto-me se alguma dessas pessoas estaria disponível no momento para adquirir dívida portuguesa e se não consideraria que qualquer aquisição no momento da mesma dívida não seria especulativa?

É que segundo a grelha da Moody's:

  • Baa1, Baa2, Baa3: Moody judges obligations rated Baa to be "moderate credit risk". They are considered medium-grade and as such "protective elements may be lacking or may be characteristically unreliable";
  • Ba1, Ba2, Ba3: Moody judges obligations rated Ba to have "questionable credit quality."

Ora, tendo em conta esta grelha e conhendo o a situação atual do país, claramente não estamos na categoria do "Baa". A probabilidade de o país não pagar parte da sua dívida é muitíssimo elevada, há muito ultrapassámos o risco "moderado", sendo que tal como afirmado no comunicado da Moody's, já foi assumido pela União Europeia, no caso grego, que não pagar parte da dívida pode ser uma solução. Acresce a isto que todas as propostas da Troika para resolver a crise, são propostas essencialmente de adiamento do problema. Aliás, analisando em detalhe o comunicado da Moody's só consigo afirmar que o mesmo é benévolo face à realidade do país. Pois vejamos:

The first driver informing today's downgrade of Portugal's sovereign rating is the increasing probability that Portugal will not be able to borrow at sustainable rates in the capital markets in the second half of 2013 and for some time thereafter. Such a scenario would necessitate further rounds of official financing, and this may require the participation of existing investors in proportion to the size of their holdings of debt that will become due.

Pela minha parte, tenho quase a certeza que em 2013 Portugal não vai conseguir ir aos mercados de capitais (mesmo que o défice fique abaixo dos 3%), sendo que a conseguência será, evidentemente, convencer ou obrigar os investidores privados a esquecer parte da dívida, ou/e a aceitar o seu pagamento posterior (isto já foi afirmado por muitos economistas nacionais e estrangeiros). A única forma de inverter esta situação seria aumentar o crescimento económico, mas, com as medidas que estão a ser tomadas, a nossa economia vai continuar a contrair. Com a economia em contração, qualquer tipo de défice implica que temos que ir ao mercado pedir sempre mais dinheiro emprestado, ano após ano.

Although Portugal's Ba2 rating indicates a much lower risk of restructuring than Greece's Caa1 rating, the EU's evolving approach to providing official support is an important factor for Portugal because it implies a rising risk that private sector participation could become a precondition for additional rounds of official lending to Portugal in the future as well. This development is significant not only because it increases the economic risks facing current investors, but also because it may discourage new private sector lending going forward and reduce the likelihood that Portugal will soon be able to regain market access on sustainable terms.

Não é evidente? Se a UE para a Grécia já está a tender para o caminho do chamado "haircut", é evidente que se a situação em Portugal se deteriorar, o mesmo caminho irá ser aconselhado a Portugal.

The second driver of today's rating action is Moody's concern that Portugal will not achieve the deficit reduction target -- to 3% by 2013 from 9.1% last year as projected in the EU-IMF programme -- due to the formidable challenges the country is facing in reducing spending, increasing tax compliance, achieving economic growth and supporting the banking system. As a result, the country may be unable to stabilise its debt/GDP ratio by 2013. Specifically, Moody's is concerned about the following sources of risk to the budget deficit projections:

1) The government's plans to restrain its spending may prove difficult to implement in full in sectors such as healthcare, state-owned enterprises and regional and local governments.

2) The government's plans to improve tax compliance (and, hence, generate the projected additional revenues) within the timeframe of the loan programme and, in combination with the factor above, may hinder the authorities' ability to reduce the budget deficit as targeted.

3) Economic growth may turn out to be weaker than expected, which would compromise the government's deficit reduction targets. Moreover, the anticipated fiscal consolidation and bank deleveraging would further exacerbate this. Consensus growth forecasts for the country have been revised downwards following the EU/IMF loan agreement. Even after these downward revisions, Moody's believes the risks to economic growth remain skewed to the downside.

4) There is a non-negligible possibility that Portugal's banking sector will require support beyond what is currently envisaged in the EU/IMF loan agreement. Any capital infusion into the banking system from the government would add additional debt to its balance sheet.

Palavras sábias. Então no que toca ao 1) todos nós, que vivemos neste país, sabemos que a tarefa a que o governo se propõe é extremamente ambiciosa.

No que toca ao upgrade do rating a Moody's também nos dá uma resposta:

Developments that could stabilise the outlook or lead to an upgrade would be a reduction in the likelihood that private sector participation might be required as precondition for future rounds of official support or evidence that Portugal is likely to achieve or exceed its deficit reduction targets.

A further downgrade could be triggered by a significant slippage in the execution of the government's fiscal consolidation programme, a further downward revision of the country's economic growth prospects or an increased risk that further support requires private sector participation.

Ou seja, "basta" à UE abandonar a ideia de vir a envolver privados em "haircuts" e afins (neste momento muito prováveis), para que o rating podesse subir, ou então, o atual governo fazer um trabalho brilhante, que supere todas as expectativas (realistas) e que demonstre que as probabilidades de o nosso país pagar o que deve e dar a volta por cima são afinal realistas.

Eu compreendo que para os políticos este tipo de relatórios é um "murro no estômago" e que inclusivamente são também uma "profecia auto-realizável". Até se pode dizer que o momento não é o mais adequado. Contudo a missão da Moody's não é agradar a políticos, mas sim ajudar os investidores a tomar decisões informadas, muitos dos quais compram dívida pública para clientes. Eu, como investidor no mercado, por via de fundos de investimento, espero sinceramente que os gestores dos ditos tenham em conta este relatório, pois não podia concordar mais que investir em dívida pública da República Portuguesa é neste momento especulação, devendo apenas investir neste tipo de obrigações quem esteja disponível para assumir riscos elevados. Dado que a componente de dívida pública é geralmente considerada "segura" num portfólio de investimentos e que a dívida portuguesa neste momento é tudo menos "segura", diria que para a generalidade dos investidores, que preze a segurança, o melhor conselho é precisamente desfazer-te da dívida pública dos PIGS.

Como português, que já paga demasiados impostos, obviamente este não foi um relatório simpático, mas como investidor que espera receber parte da sua pensão no futuro derivado desses mesmos investimentos, fico contente que a Moody's esteja a fazer o seu trabalho.

Retrato de João Cardiga

Respostas...

João Cardiga on Sexta, 08/07/2011 - 21:16

"Pergunto-me se alguma dessas pessoas estaria disponível no momento para adquirir dívida portuguesa e se não consideraria que qualquer aquisição no momento da mesma dívida não seria especulativa?"

 

Se eu tivesse dinheiro disponível que não precisasse nos próximos 15 a 20 anos eu estaria disponível. É difícil encontrar no mercado um produto com tão baixo risco a tão elevada taxa de rendibilidade. Se fores ver o risco que a própria Moody's diz existir não é o de não pagamento mas sim o de pagamento mais tardio. Por isso, incorporando esse facto e tendo disponibilidade obvio que investiria (até por taxas mais baixas).

 

 "...claramente não estamos na categoria do "Baa""
Não estamos? O que é que aconteceu em Portugal nos ultimos 3 meses para deixarmos de estar?

 

" tenho quase a certeza que em 2013 Portugal não vai conseguir ir aos mercados de capitais (mesmo que o défice fique abaixo dos 3%), "

Mas se isso acontecer o problema estará no mercado e esse risco tem de ser incorporado por todos os países e não apenas por Portugal.

 

"Não é evidente? Se a UE para a Grécia já está a tender para o caminho do chamado "haircut", é evidente que se a situação em Portugal se deteriorar..."

Uma vez mais pergunto: o que aconteceu nestes 3 meses em Portugal para que o risco de deteriorar se tenha agravado?

 

"Contudo a missão da Moody's não é agradar a políticos, mas sim ajudar os investidores a tomar decisões informadas, muitos dos quais compram dívida pública para clientes."

 

Mas ajuda-se informando e não desinformando. O relatório o que diz é que existe agora uma maior probabilidade de não cumprir o que não corresponde à realidade. Aliás o que o teu gestor faz se sair deste mercado é incorporar perdas (pois o preço desvalorizou) e substituir por um investimento que tendo o mesmo risco terá menos rendibilidade que este.

 

" Dado que a componente de dívida pública é geralmente considerada "segura" num portfólio de investimentos e que a dívida portuguesa neste momento é tudo menos "segura", diria que para a generalidade dos investidores, que preze a segurança, o melhor conselho é precisamente desfazer-te da dívida pública dos PIGS."

 

Mas esses já sairam há muito tempo, pois há muito tempo que elas não estão seguras. Quem está no mercado neste momento já assumiu que não são seguras, portanto o problema agora é que se alguém se desfizer destas obrigações apenas estará a deitar dinheiro fora...

À nora?

Luís dos Santos (não verificado) on Sexta, 08/07/2011 - 19:05

Sempre é bom ver alguém discutir este assunto sem ser como quem discutia a Maitê Proença e o orgulho nacional ferido. Este assunto tomou dimensões grotescas: as pessoas estão mais importadas que a Moody's nos chame lixo (que, até posso estar enganado, mas não é epiteto que eles mesmo usem para as Ba) e que as agências de rating não sejam idóneas porque privilegiam a economia dos EUA do que propriamente tentar perceber se isto tem lógica alguma.
Só é pena não seguirem as escaladas dos juros da dívida dos últimos meses com tanta paixão. Os irados deste país de repente devem ter deixado de achar que a nossa dívida afinal não é pagável (até a queriam reestruturar) e que temos muita credibilidade para a conseguir pagar a tempo e horas, como aliás se tem visto.

Este país e União estão mesmo à nora.

Não sejas sério com quem não é

Pedro Lerias (não verificado) on Quinta, 07/07/2011 - 19:20

Miguel, é uma decisão política. Porquê a descida de repente e no momento em que se aposta em resolver os problemas? E porque é que os EUA não têm o mesmo julgamento.

Foi uma decisão com uma função: tornar mais baratas as privatizações em Portugal. Queres discutir com seriedade uma organização que não é séria. É a mesma agência que dava excelentes ratings às dívidas colaterais de bancos que depois levaram à desgraça que levaram.

Queres analisar com seriedade uma instituição que nada tem de sério.

Retrato de Miguel Duarte

Política e EUA

Miguel Duarte on Sexta, 08/07/2011 - 10:41

Pedro,

Quanto aos EUA eu também não lhes dava o rating que têm e aí assumo que existam questões políticas envolvidas. Agora no que toca a Portugal, como aqui disse, a nota que foi atribuídas é perfeitamente justa, por isso, neste caso pelo menos, é irrelevante se houve por trás outros objetivos.

No que toca aos bancos, muito sinceramente, ninguém deve esperar que as agências de rating sejam infalíveis, Uma agência de rating meramente emite uma opinião que se espera informada.

Piorar antes

perusio (não verificado) on Quinta, 07/07/2011 - 18:12

A questão é que isto vai ter de piorar antes de poder melhorar. Ainda ninguém acordou para a realidade da completa falência do estado social. A sagrada aliança entre as democracias ditas "liberais" que praticam um socialismo tépido com o "capitalismo" corporativista não tem mais futuro. Está gasto. O socialismo falhou. Faltam novos moralistas para arrumar de vez com o desvio do moralismo humanista cuja lógica final está aí.

Palavras sabias. Infelizmente

Bruno Santos (não verificado) on Quinta, 07/07/2011 - 14:11

Palavras sabias. Infelizmente nenhum dos nossos governos me convenceu que tem solucoes para o estagnatismo da economia Portuguesa. Mais, eu diria mesmo que o plano e precisamente esse, continuar a descapitalizar os contribuintes, diminuir a classe media e operaria e aumentar o numero de milionarios. Isto e, a Europa da, uns poucos aproveitam-se desses mesmos capitais e a divida e para todos. A Historia recente diz-nos que o mesmo vai acontecer com a nova remessa de capitais. Em vez de andarmos as turras com os Fins por causa de capital o que deveriamos era ter pedido fabricas da Nokia em Portugal, maior cotas nos sectores primarios, etc, etc. Lutar contra a corrupcao (requer reforma no sistema judicial). Portugal nao vai melhorar se apenas se fizerem cortes. Em tempos de crise o papel do governo deveria de ser de incentivar o consumo, o empreendorismo, etc de forma a criar confianca tanto no consumidor como no empreendedor. Em tempos de euforia, deveria de arrecadar e precaver-se para o futuro. Portugal nunca entendeu isto desde os finais da decada de 80. Nao estou ha espera que desta vez seja diferente. Precisamos de novas ideias, nao de cortes aos contribuintes. Cortes no governo, claro que sim. O governo deve de ser sempre o primeiro a dar o exemplo.

Retrato de Luís Lavoura

e os EUA?

Luís Lavoura on Quinta, 07/07/2011 - 13:59

Eu também acho justo que a Moody's classifique as obrigações da República Portuguesa como lixo.

Por exemplo, aquilo que a União Europeia quer obrigar aqueles que compraram obrigações do Estado grego a aceitar - que eles, em vez de receberem o seu dinheiro de volta na data devida, tenham que comprar novas obrigações gregas - não é mais do que uma forma suave de fazer default. Eu, pelo menos, não aceitaria emprestar o meu dinheiro pelo prazo de dois anos, se soubesse que no fim desses dois anos poderia ser obrigado a protelar o empréstimo por mais cinco ou dez.

Ora, aquilo que a União Europeia está agora a pedir aos investidores no caso grego, é aquilo que lhes irá pedir mais tarde no caso português.

Por isso, eu considero o julgamento da Moody's acertado.

Mas pergunto: e os EUA? Com que julgamento é que a Moody's continua a classificar as obrigações federais dos EUA com nota máxima? Não há aqui dois pesos e duas medidas?

A divida dos EUA por

Bruno Santos (não verificado) on Quinta, 07/07/2011 - 14:17

A divida dos EUA por contribuinte e incluso um pouco mais alta do que a do contribuinte Grego. Se nao se fizerem as reformas necessariaso EUA tambem acabara por ter um sabor amargo. De momento, o que o EUA tem que os Gregos ou os Portugueses nao tem e o Dollar. Tipicamente, o EUA simolesmente emprime mais $$$ para sair da crise e, enquanto a moedando mundo for o Dollar, quase que garantido e o facto que as crises lhe vao passar um pouco ao lado quando comparados com outros paises. A ver vamos como e que o factor China vai atordoar esta tendencia.

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