Retrato de João Mendes

Fala o Luís Lavoura de taxas nas máquinas de Multibanco.

Discordo completamente com a crítica que é feita à DECO. A posição da DECO não tem nada a ver com obscurantismo católico, "lucros justos", ou escolástica medieval. Tem a ver, isso sim, com as enormes economias de escala que existem por causa da rede Multibanco, e que beneficiam os bancos. É disso que a DECO fala, e considera que criação de taxas não ia ser benéfica para os consumidores (principalmente nos moldes em que foram introduzidas na Áustria) porque deixariam de ter acesso a uma rede ATM independentemente do banco em que tivessem conta.

A introdução de taxas serviria para que os ganhos de eficiência da existência da rede Multibanco fossem menos repercutidos ao nível dos consumidores. Sendo a DECO uma organização de defesa dos interesses do consumidor, parece-me perfeitamente legítimo que diga isto com clareza, e os argumentos que apresenta são argumentos económicos com base na teoria económica moderna. A nível de direito da concorrência na União Europeia, a rede Multibanco enquadra-se perfeitamente na lógica do art. 81(3), que fala de práticas anti-concorrenciais que se justificam pelos ganhos em eficiência que trazem e pelo facto desses ganhos se repercutirem a nível do consumidor final.

Falar aqui de "obscurantismo" e "escolástica medieval", como faz Luís Lavoura, está perfeitamente deslocado. A opção pela introdução de taxas na rede Multibanco pode ser defendida por quem a queira defender, a posição da DECO pode ser criticada por quem a queira criticar. Mas este género de crítica descaracteriza a posição da DECO, não toma em atenção os efeitos da introdução de taxas nas caixas multibanco, e não me parece fazer que o debate progrida nem recue: anda simplesmente para o lado.

Retrato de João Cardiga

Não-alternativas

João Cardiga on Terça, 20/10/2009 - 13:08

"O facto de o Multibanco ser lucrativo para os bancos não os impede de cobrar taxas pelo seu uso, desde que verifiquem que (a maioria d)os clientes pagam essas taxas de bom grado."

Excluindo a parte do bom grado (que é uma enorme facada a toda uma teoria económica), utilizar este argumento (julgo que está implicito a alternativa do consumidor para não usufruir deste bem) é como argumentar que o Estado tem toda a legitimidade para aumentar os impostos porque os seus cidadãos poderão optar por emigrar...

Num monópolio parece-me que a questão dos custos tem todo o cabimento pois estamos a falar de um monopólio...

Se dentro da SIBS, apenas os

Jorge Coimbra on Sexta, 23/10/2009 - 17:49

Se dentro da SIBS, apenas os banco que quisessem cobrassem a taxa multibanco, já talvez não estivessemos perante monopólio. Concorreriam entre si. Se todos cobrassem estariamos perante uma negociação entre eles formando um cartel.

Retrato de Luís Lavoura

Repito

Luís Lavoura on Terça, 20/10/2009 - 09:10

É claro que a DECO tem por obrigação defender os consumidores.

É claro que a rede Multibanco tem economias de escala, que convem preservar.

É claro que o Multibanco é um monopólio, que convem regular - impedir de abusar dessa posição.

Com tudo isto eu concordo.

O que eu disse, e repito, é que não tem cabimento o argumento específico utilizado naquela frase por um representante da DECO. (Outros argumentos podem ser válidos, aquele não é.) A formação do preço de mercado não tem a ver somente com os custos. O facto de o Multibanco ser lucrativo para os bancos não os impede de cobrar taxas pelo seu uso, desde que verifiquem que (a maioria d)os clientes pagam essas taxas de bom grado.

Luís Lavoura

Retrato de João Mendes

Resposta

João Mendes on Terça, 20/10/2009 - 11:44

Não é sequer uma questão da maioria estar disposta a pagar, que isto não é uma democracia, é uma questão de cobrar uma taxa (com certo valor) até deixar de ser lucrativo, independentemente do número de pessoas que a estejam dispostas a pagar. Tendo em conta que isto é um monopólio com contrato standard, para além disso, nem sequer se pode falar aqui em negociação - lá porque as pessoas podem, em tese, não usar ATMs não quer dizer que estejam a negociar o que quer que seja. (E lá porque uma pessoa paga uma taxa não quer dizer que a pague "de bom grado".)

Mas independentemente disso, o representante da DECO dizer que "não é tolerável" que os bancos passem a cobrar por um serviço "que só lhes traz ganhos" continua a não ter nada de medieval, de escolástico ou de obscurantismo católico. E dizer que tem não ata nem desata. Esta afirmação do representante da DECO tem subjacente os argumentos que referi (e outros), e a DECO pode bem dizer que considera que aproveitamentos que alguns bancos tentam fazer do poder de mercado do Multibanco não deve ser tolerada. Espero, aliás, que o faça, que é para isso (entre outras coisas) que existe.

Nem mais. Boa resposta.

André Escórcio ... on Terça, 20/10/2009 - 08:06

Nem mais.

Boa resposta.

Subscrevo

Rui Almeida on Segunda, 19/10/2009 - 19:41

por inteiro este post.

Bem visto, João.

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