Será imoral o valor que António Mexia ganhou no ultimo ano?
Para ser honesto tenho muita dificuldade a responder a esta questão. O tema da moralidade é algo para o qual eu não tenho uma especial propensão e honestamente não conheço os fundamentos de tal palavra para me sentir muito confortável neste tema. Assim moralidade, imoralidade ou amoralidade são temas que fujo como o diabo da cruz, principalmente quando, como neste caso, apontam para uma moralidade colectiva algo que ainda me faz mais confusão e traz-me à memória homens com capuzes brancos, cruzes, e outros adereços...
No entanto como sou um gajo racional (por vezes pouco) e já agora emocional (por vezes muito), parece-me que é um tema no qual posso discorrer. Isto é, se ainda não vivermos numa sociedade em que existe censura aos pensamentos e onde existem dogmas que não podem ser confrontados. E enquanto individuo devo dizer que me faz muita confusão. É mesmo isso, confusão. Passo a explicar: uma das grandes inovações do capitalismo foi dar valor ao que fazemos, isto é passou a existir um tradutor para quanto uma hora do nosso trabalho vale, ou é valorizado pela sociedade. E é por isso mesmo, pela comparabilidade que o capitalismo permite, que me faz confusão.
O que é que leva a que uma vida valha muito mais que outra? Não estou a falar de um pouco mais, estou a falar de muito, mas mesmo muito mais? Por exemplo, neste caso concreto do António Mexia (que julgo que recebeu 3.000.000), o que é que ele tem de especial que comparativamente a um amigo meu que ganha 500 Eur, o António Mexia valha 6.000 vezes mais que o meu amigo? Honestamente não sei o que é que faz alguém ter tal valorização, e por isso fico confuso. Fico confuso quando numa sociedade uma pessoa tem de trabalhar 428,57 anos para ter o mesmo valor que o que outro individuo faz num ano. Tal numero deixa-me confuso e faz-me desejar que o meu amigo acredite piamente na reencarnação, para não desmoralizar por completo...
E também me faz confusão que isto não faça confusão a outras pessoas, pois para ser honesto este tema, não é um tema recente. É um tema tão antigo como a própria humanidade. Este tipo de desigualdade - desigualdade que condiciona a liberdade dos outros - sempre existiu e foi tendo fundamentações diferentes. Começou pela força, passou pela genética e atualmente é a força do mercado que dita essa desigualdade. Ou seja mudou-se a forma, manteve-se o conteúdo.
Se a memória não me falha, existiu um movimento, em tempos idos que agarrou esta problemática, desculpem a expressão, pelos "cornos". Que ousou dizer que nenhum homem deve ser superior a outro homem, que todos nascemos iguais. Salvo erro chamava-se, deixa cá ver, ah já sei Liberalismo.
Hoje, quando esta desigualdade põem materialmente em perigo essa noção, faz-me confusão que o debate no meio dessa corrente ideológica esteja tão adormecido, encontrando-se no meio do liberais doutrinários que defendem situações que fazem com que ainda, tal como na sociedade feudal, vivamos em mundos distantes.*
*(Nota final: este artigo não serve para defender o igualitarismo de pay-out como defendido pela corrente socialista. Tal noção acaba de ter o mesmo problema que esta desigualdade tem, isto é, cria desigualdade de uma forma que me faz muita confusão. No entanto, não posso ficar imune a situações que materialmente criam desigualdades entre seres humanos sem qualquer tipo de justificação. Por exemplo, se ambas as pessoas perderem um pé por má prática médica receberão indemnizações completamente diferentes em valor, fazendo com que materialmente o valor da vida de duas pessoas seja diferente. Por outro lado ainda vivemos numa sociedade em que não conseguimos escolher e valorizar outras práticas de criacção de desigualdade de pay outs, pelo que é uma desigualdade imposta à sociedade e não escolhida livremente pela própria...)














Obrigado pelas palavras
João Cardiga on Segunda, 12/04/2010 - 09:25Obrigado pelas palavras Artur. E desculpa o atraso na resposta.
Concordo perfeitamente com a questão das emoções que julgo têm sido bastante "negligenciadas" no final do Sec. XX e ainda na actualidade.
"Sendo assim, que racional existe para se pagar bonus a um Gestor que não precisa de assumir riscos ou que tem os mesmos profundamente reduzidos pelo Estado?"
Muito pouco. No entanto poder-se-á pensar numa moldura no qual este gestor tenham uma parte variável, mas pela qualidade dos produtos e na redução de custos na mesma. Dado que como afirmas o mesmo está em quasi-monopolio, o seu desempenho pode ser medido não só pelo valor que entrega ao accionista (parte que directamente tem mais capacidade de executar) mas também, e principalmente, pelo valor que entrega aos seus clientes...
Excelente texto, João. Quando
artur baptista on Terça, 06/04/2010 - 16:30Excelente texto, João. Quando se coloca alguma emoção nas nossas racionalizações, e já que estamos a discutir Ciencias Sociais, as ideias ficam bastante mais claras.
Quanto ao assunto, ainda mais problemática é a questão de se tratar de uma empresa Monopolista, em que a formação do preço e logo a facturação e resultados são mais a ahver com uma forma quase "administrativa" e menos com mercado e concorrencia.
Sendo assim, que racional existe para se pagar bonus a um Gestor que não precisa de assumir riscos ou que tem os mesmos profundamente reduzidos pelo Estado?
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