Retrato de Luís Lavoura

O caso do navio turco assaltado por um comando israelita em alto mar é essencialmente um caso de relações públicas que foi tratado de forma bruta, talvez propositadamente, por Israel.

Este caso faz lembrar o do Exodus em 1947. As autoridades coloniais inglesas tinham imposto um bloqueio à imigração judaica para a Palestina. Os sionistas desejavam furar esse bloqueio e, para isso, planearam uma operação de relações públicas: encheram um navio (que batizaram de Exodus) de refugiados do Holocausto e puseram-no a caminho da Palestina; os ingleses mandaram o navio parar; o navio desobedeceu; os ingleses assaltaram o navio, aprisionaram e recambiaram todos os seus passageiros de volta para o porto de origem. Tudo isto recebeu ampla cobertura (habilmente orquestrada pelos sionistas) mediática, que muito contribuiu para a causa sionista e para desacreditar o mandato colonial inglês na Palestina.

Atualmente temos um caso semelhante. Os ativistas pró-palestinianos desejavam furar o bloqueio imposto a Gaza e, sobretudo, criar um efeito mediático para desacreditar Israel. Encheram um navio de ajuda humanitária e puseram-no a caminho de Gaza. As autoridades israelitas mandaram o navio parar e quando este, como planeado pelos pró-palestinianos, desobedeceu, assaltaram-no. Os ativistas pró-palestinianos, de forma planeada ou não, e de qualquer forma com o intuito de aumentar o efeito mediático, e talvez convencidos de que o martírio lhes ganharia o paraíso, ofereceram resistência (legítima) ao assalto (ao contrário dos refugiados judeus no caso do Exodus); os soldados israelitas, estupidamente ou talvez de forma planeada, responderam a essa resistência de forma desproporcionada, causando um banho de sangue e consequente efeito mediático amplificado.

Resta saber por que motivos as forças israelitas reagiram desta forma, quando era evidente que estavam perante um desafio essencialmente de relações públicas e destinado primariamente a causar efeito mediático. Os israelitas poderiam ter-se esquivado a este jogo de diversas formas (sabotando o navio antes da sua partida, sabotando-lhe os motores em alto mar, deixando-o ir até Gaza e depois supervisionando o descarregamento da mercadoria, etc). Poderiam ter assaltado o navio mas evitando violência grosseira (com balas de borracha ou gás lacrimogéneo lançado a partir dos helicópteros, etc). Parece-me claro que as forças israelitas desejaram, ou pelo menos de forma nenhuma tentaram evitar, tal e qual como os ativistas pró-palestinianos, aquilo que acabou por acontecer. Israel desejou talvez adoptar uma posição de força, ou de provocação, e aumentar o nível do conflito, em particular com a Turquia. Há que ver que, se boa parte da opinião pública israelita deseja essencialmente a paz e a cooperação com os povos vizinhos, uma outra parte é militantemente sionista e deseja, estrategicamente, aumentar o nível de confronto com o fim de justificar atitudes posteriores cada vez mais duras.

Pelas reacções nalguns

Celso (não verificado) on Terça, 01/06/2010 - 19:40

Pelas reacções nalguns jornais Israelitas o militares não estavam a espera de ser recebidos daquela maneira (ver http://www.youtube.com/watch?v=6B8_2DBuQRg) até porque noutros 5 barcos as coisas tinham corrido bem.
Como alguns comentadores já disseram, as forças Israelitas foram demasiado ingénuas ou mesmo estúpidas para permitir que aquilo acontecesse, com 10 mortos dos manifestantes e 6 soldados feridos. Não percebo até que ponto um incidente destes pode favorecer Israel.

Retrato de Luís Lavoura

resposta

Luís Lavoura on Quarta, 02/06/2010 - 09:47

"os militares não estavam à espera de ser recebidos daquela maneira"

 

Nisso você tem provavelmente muita razão, até porque, segundo li hoje mesmo, parece que ao longo dos últimos anos tem havido diferentes tentativas análogas a esta de furar o bloqueio marítimo a Gaza, e em todos esses casos Israel tem procedido da mesma forma, aprisionando os navios que tentam furar o bloqueio, sem que nunca da parte dos tripulantes destes tenha havido qualquer tentativa de resistência.

 

Ou seja, Israel terá, com base na experiência que adquiriu ao longo dos anos, procedido à abordagem dos navios "invasores" contando que os seus soldados não enfrentariam resistência e, portanto, sem se ter preparado seriamente para essa resistência.

 

Postos perante a resistência dos tripulantes dos navios, os soldados israelitas, poucos (é difícil colocar simultâneamente, a partir de helicópteros, muitos homens na ponte de um navio) e intimidados, e que são basicamente crianças de 20 anos, utilizaram instintivamente a solução mais fácil - dar ao gatilho.

 

É claro que isto não pode servir de justifcação para as mortes. Um exército profissional, supostamente dos melhores do mundo, não pode proceder a um ato de guerra, como seja a abordagem de um navio para fazer cumprir um bloqueio marítimo que, reconhecidamente, é imposto como forma de guerra, sem se preparar para uma resistência séria.

 

Enfim, mais um exemplo, a somar à invasão do Líbano em 2006, da degradação do exército israelita, que agora já só é capaz de bater em mortos.

"As autoridades israelitas

Anónimo (não verificado) on Terça, 01/06/2010 - 13:26

"As autoridades israelitas mandaram o navio parar e quando este, como planeado pelos pró-palestinianos, desobedeceu, assaltaram-no."

Este é o ponto mais sensível do seu post. A desobediência pressupõe uma certa autoridade, coisa que o exército israelita não tem em águas internacionais.

"Parece-me claro que as forças israelitas desejaram, ou pelo menos de forma nenhuma tentaram evitar, tal e qual como os ativistas pró-palestinianos, aquilo que acabou por acontecer."

Custa-me a crer que os pró-palestinianos pensassem realmente que houvesse possibilidade de morrer. De resto, fez uma análise mais ponderada e mais lúcida que a ala liberal insurgente, sempre pronta em alinhar com a carnificina israelita a qualquer custo.

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