Retrato de Luís Lavoura

Suponhamos que, num dia de nevoeiro, ocorre um choque em cadeia numa autoestrada. Depois do choque, na confusão, ainda algumas pessoas são atropeladas ao saírem dos seus carros. Ademais, umas tantas pessoas morrem ainda nas ambulâncias ou nos hospitais.

É evidente que, para as pessoas individualmente envolvidas neste desastre e para os seus familiares, interessa muito se elas morreram ou não. Porém, para a sociedade em geral, não interessa nada se neste choque em cadeia morreram exatamente 15 ou 20 ou 25 pessoas. Só interessa que foi um desastre muito grave e que se gostaria de evitar que voltasse a acontecer. Interessa também, estatisticamente, saber se este tipo de desastre é muito frequente ou se não passa de uma infeliz raridade.

Aquilo que se diz para um choque em cadeia numa autoestrada também é verdade para um incêndio florestal. À sociedade interessa pouco qual o número exato de mortes num determinado incêndio florestal. Apenas interessa saber se é ou não muito frequente que morram pessoas em incêndios florestais, e que medidas podem ser tomadas para que não voltem a morrer pessoas em incêndios florestais.

Retrato de Luís Lavoura

Há 40 anos que em Portugal há centenas de incêndios florestais pequenos, médios, grandes e enormes.

Nessas centenas todas de incêndios florestais, praticamente nunca houve vítimas civis. Quando muito, em casos esporádicos houve uma ou duas vítimas civis (isto é, excluindo os bombeiros).

Mesmo no incêndio de Pedrógão Grande, que foi enorme e durou três dias, as muitas vítimas civis ocorreram todas apenas num curto período de tempo, talvez de uma hora ou duas, a meio do incêndio, isto é, cinco horas depois de ele se ter iniciado.

Estes dois factos - a excecionalidade da ocorrência de vítimas civis no incêndio de Pedrógão Grande, e o facto de essas vítimas terem ocorrido apenas numa pequena parte desse incêndio - apontam claramente para uma qualquer circunstância muitíssimo excecional que ocorreu durante um curto período de tempo nesse incêndio, e que causou todas essas vítimas.

Ou seja, baseado apenas nestes dois factos, eu deduzo que as vítimas civis em Pedrógão Grande não foram causadas por qualquer falha humana, mas sim por uma circunstância, climática ou outra, muito exceceional que fez com que este incêndio, num local e numa hora determinados, tivesse tido um comportamento imprevisivelmente agressivo.

Retrato de Luís Lavoura

O Chefe do Estado-Maior do Exército demitiu cinco oficiais dos cargos de chefia que ocupavam. Menos de um mês depois, voltou a empossar esses mesmos cinco oficiais em exatamente os mesmos postos de chefia (que durante o interregno tinham permanceido vagos).

Isto é uma anedota. É um disparate. É uma loucura. Demite-se pessoas para um mês depois se voltar a pô-las no lugar. Então, para que foram demitidas?

O Chefe do Estado-Maior do Exército deve estar louco. Só pode.

Retrato de Luís Lavoura

O dr Gentil Martins é um homem de 86 anos que, com toda a naturalidade, tem opiniões (sobre a homossexualidade e sobre as "barrigas de aluguer") próprias dessa idade. E deve ter a liberdade de exprimir essas opiniões. Nem nos devemos preocupar muito com tais opiniões, pois elas morrerão com a morte das idosas pessoas que ainda as perfilham. Deixemos pois o dr Gentil Martins morrer em paz e levar com ele as suas opiniões para a cova. Enquanto fôr vivo, deve ter a liberdade de as continuar a exprimir. Inocuamente.

Retrato de Luís Lavoura

Há poucos meses, quando as tropas sírias atacaram e reconquistaram Alepo, com a ajuda dos seus aliados russos, houve na Europa enorme escarcéu sobre as alegadas atrocidades que estariam a ser cometidas sobre a população civil da cidade e sobre o horrível sofrimento desta.

Agora que as tropas iraquianas atacaram e reconquistaram Mossul, com a ajuda dos seus aliados americanos, ninguém na Europa parece interessado nas atrocidades que foram cometidas sobre a população civil da cidade e com o horrível sofrimento desta. Somente agora, que a reconquista já terminou e que já nada se pode fazer, se diz algo sobre as consequências. Um general americano (citado no The Economist) diz que Mossul ficou "como Dresden [após o bombardeamento no final da Segunda Guerra Mundial]". Um médico português (ontem, no telejornal) diz que em toda a sua longa experiência humanitária nunca viu nada tão horrível como Mossul.

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A privatização da EDP consistiu, pelos vistos, num imposto disfarçado sobre os consumidores. Atribuíram-se à EDP "rendas" (em jargão de economista) por forma a que ela ficasse mais apetecível para os potenciais imvestidores. Essas "rendas" repercutem-se num preço mais alto da eletricidade. Ou seja, no balanço final, os portugueses pagam mais pela eletricidade para que o Estado possa encaixar um preço mais elevado na venda da EDP. É um imposto encapotado: os portugueses pagam e o Estado recebe.

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Em tempos, derrubar aviões era um dos principais objetivos de grupos terroristas. Mas pôr uma bomba num avião é muito complicado. Hoje em dia há uma forma mais fácil e barata de derrubar aviões: fazer um drone entrar pelo motor do avião adentro em pleno vôo.

As autoridades portuguesas continuam a prestar muita atenção à possibilidade de alguém levar uma bomba para dentro de um avião. Mas desconsideram a possibilidade do drone. Um dia destes um avião cai quando vai aterrar em Portugal. O dano que isso fará ao turismo português será maior do que o de um qualquer atentado terrorista na Tunísia ou na Turquia.

Retrato de Luís Lavoura

É mais que sabido que um dos grandes problemas com os incêndios florestais em Portugal é a existência desordenada de aldeias e, mesmo, de casas isoladas no meio da floresta. Invariavelmente, os bombeiros desistem de combater os fogos no meio da floresta, postam-se junto às aldeias ou casas isoladas e procuram protegê-las apenas a elas. A floresta é deixada arder.

Perante esta realidade, seria desejável que o Estado tivesse algumas políticas, tímidas que fossem, no sentido de incentivar as pessoas a abandonar as aldeias e irem viver para as vilas.

O fogo que recentemente queimou o "pinhal interior", e que destruiu bastantes casas e aldeias, poderia constituir uma oportunidade para implementar tal política. O Estado poderia decidir ajudar as pessoas a reconstruírem a sua casa, mas com a condição de só o fazer se a casa fosse construída na vila. (Quem dá dinheiro tem o direito de impôr condições.)

Mas tudo se encaminha no sentido de que assim não será. O Estado vai ajudar as pessoas a reconstruírem a sua casa na sua aldeia. Aldeias com 10, 20 ou 30 habitantes vão portanto ser restauradas. Continuará a haver segundas habitações no meio do eucaliptal, segundas habitações essas que os bombeiros tentarão a todo o custo proteger, em detrimento da floresta. Pessoas continuarão a viver isoladas no meio das árvores, com todos os custos que isso implica, porque não prescindem de estar perto das suas hortas.

O erro vai-se repetir. O Estado não deveria continuar a ajudar as pessoas a morar onde muito bem lhes apeteça.

Retrato de Luís Lavoura

É claro que o mundo está cheio de boas intenções, e eu tenho sérias dúvidas que esta se materialize: numa entrevista, o novo ministro francês do Ambiente diz que a França fará uma reforma profunda dos seus impostos no sentido de que o preço ao público do gasóleo passe a ser idêntico ao da gasolina (tal como é à saída da refinaria).

Oxalá houvesse na Europa mais ministros do Ambiente que fossem capazes de, ao menos, ter tão boas intenções.

Retrato de Luís Lavoura

A oposição e os jornalistas querem "sangue", demissões no governo. Agora gostariam que a ministra da Administração Interna se demitisse.

Devemos lembrar-nos que, há poucos meses, a oposição e os jornalistas estavam ávidos da, em seu entender inevitável, demissão do ministro das Finanças. Hoje em dia já ninguém pede a demissão desse ministro que, pelo contrário, é amplamente considerado como um dos melhores do governo.

Porque é que a ministra da Administração Interna se deveria demitir? Em minha opinião, ela nada fez de mal. Houve um grande incêndio, mais ou menos idêntico a muitos outros grandes incêndios que ao longo das anos tem havido. (No ano passado houve um incêndio maior na serra do Caramulo.) Este grande incêndio era previsível, tal e qual como a generalidade dos outros também o eram. Houve muitos mortos neste incêndio, o que não é felizmente costume, mas isso não é culpa da ministra.