Dizia Jose Manuel Fernandes que e' mais facil encontrar um mendigo nos Estados Unidos (EUA), pais liberal por natureza, do que em Franca. Mas nos EUA a taxa de desemprego e' menor do que em Franca.

Eu acrescentaria que seria muito mais dificil integrar imigrantes nos EUA do que em Franca. Essencialmente, por duas razoes: o pais e' vasto, muito maior do que Franca, logo seria, penso, mais facil haver falta de controlo; e, em termos absolutos, ha' mais imigrantes e de proveniencias diferentes do que em Franca.

Dando o devido desconto (estas coisas sao bem mais complexas do que dois paragrafos conseguem sumarizar), e' preciso reconhecer que os EUA sao um caso de absoluto sucesso no que concerne 'a integracao de minorias. O que a Franca nao conseguiu com politicas de um Estado omnipresente e "generoso", os EUA, com uma certa lei da selva liberal conseguiu-o.

Ha' claramente duas linhas de accao em confronto: uma accao social centralizada no Estado -e- um liberalismo que pode criar casos pontuais de inadaptados mas que, na esmagadora proporcao gera qualidade de vida, realizacao pessoal e motivacao.

Se juntarmos a isto um bocadinho de Estado para compensar quem nao consegue apanhar o comboio liberal (por azar, por infelicidades, por inaptidao, por historia pessoal, por milhoes de razoes)..... apetece dizer que e' uma formula que funciona mesmo bem.

E' preciso e' saber dosear o "bocadinho de Estado". A ideia nunca e' proteger empregos ou bens, e' dar as mesmas condicoes 'a partida para todos. Mas tb nao e' reduzir as potencialidades de quem, por alguma razao, tem vantagem na corrida pela realizacao pessoal e social, nuam especie de desprezo por quem vai 'a frente.

as 3 regras de ouro que me parecem aplicar-se aqui:
- Igualdade de oportunidades e nao de resultados.
- Estado vigilante mas nao paternalista.
- Promocao da realizacao pessoal e individual e nao social ou nacional.

O desenvolvimento vem por acrescimo.

incluo novamente a declaracao de Teixeira Lopes

O BE, pela voz de Teixeira Lopes (TL), sendo de uma esquerda algo radical, tem naturalmente uma visao complacente do que se passa em Paris. Cito (Publico, 9nov05), "Em Portugal, o caldo cultural e' substancialmente diferente e os niveis de imigracao menores. [Mas] os bairros franceses nao tem nada a ver com o grau de degradacao a que chegaram vairos bairros de Portugal para alem dos apoios sociais serem muito maiores la".

2. o papel e eficiencia dos apoios sociais.

Ha' uma especie de dado adquirido: a de que qto maiores forem os apoios sociais, menos marginalidade ha'. Apoios sociais nao e' meramente subsidios de desemprego, mas parece estar implicito nas palavras de TL.

Desconfio muito, e nao sou mais assertivo pq estou no dominio da opiniao. Alias, tenho a sensacao de que qto mais altos sao os "apoios sociais" em numerario (chamemos-lhe assim), pior se faz: apenas se financia a criminalidade e a acomodacao.

Parece que a estrategia e' delegar tudo na magica Economia que e' uma especie de fenomeno meteorologico. Assim como a chuva, vamos esperar que passe. Ou seja, vamos esperar que a Economia comece a crescer e enquanto isso, damos uns trocos para tabaco e cafe'.

Convem nao esquecer que a Economia somos nos.

Uma coisa e' entregar dinheiro a quem o ganhou ou nao pode ganhar (reformados, invalidos, acidentados, etc.). E' solidariedade.

Outra e' pagar para que alguem nao faca nada pq, simplesmente, e' uma vitima social e os verdadeiros criminosos estao noutro lado qq.

Tentando resumir, ate' que ponto mais apoios sociais tem os resultados que se desejam?

A resposta e' e ha'-de ser sempre a mesma: apoios sociais inteligentes. Dou um exemplo: todas as pessoas tem talentos. E' necessario dar sentido pratico a esses talentos. E nao duvido que os jovens imigrantes de Paris nao tenham talentos.

Um subsidio chorudo (no contexto) ao fim do mes so' serve para que eles apliquem esses talentos onde nao devem.

(esta linha de pensamento prossegue em "Para que serve um subsidio de desemprego?")

O BE, pela voz de Teixeira Lopes, sendo de uma esquerda algo radical, tem naturalmente uma visao complacente do que se passa em Paris. Cito (Publico, 9nov05), "Em Portugal, o caldo cultural e' substancialmente diferente e os niveis de imigracao menores. [Mas] os bairros franceses nao tem nada a ver com o grau de degradacao a que chegaram vairos bairros de Portugal para alem dos apoios sociais serem muito maiores la".

Ha' aqui dois elementos que me causam uma certa reaccao visceral.

1. atribuicao exclusiva das responsabilidades ao Estado e 'a sociedade.
Havera' sempre a discussao: sao os 'mal-feitores' criminosos (no sentido de responsabilidade individual) ou meras vitimas sociais? A Esquerda tipicamente desculpa eternamente as pessoas, atribuindo as culpas ao Estado. Nao me parece correcto.

Mas tb e' preciso ter cuidado ao culpar exclusivamente as proprias pessoas. Eu acredito que ninguem quer ser criminoso. Claro que "criminoso" depende do contexto. Parece-me que estes jovens que queimam carros alheios nao se sentem como tal. Com efeito, no grupo social onde se inserem, eles NAO sao criminosos -- ate' sao lutadores pela liberdade....

Ha' aqui claramente uma forca social que impele os jovens a entrar em comportamentos marginais; mas ha' tb um q.b. de responsabilidade individual. Queimar carros e matar idosos (como ja' aconteceu) toca nos limites de uma certa moral objectiva. Nao ha' qualquer justificacao. Qdo muito, as forcas sociais a que estao sujeitos fornece uma atenuante.

(2) ...a continuar...

Retrato de Luís Lavoura

Finalmente, dois anos e meio após a invasão, foram encontradas armas de destruição maciça no Iraque.

Mais concretamente, descobriu-se que as forças armadas norte-americanas utilizaram fósforo branco, uma arma química, aquando do seu ataque à cidade de Faludja, há uns meses atrás.

Foram encontrados em Faludja diversos corpos, entre os quais de mulheres, crianças e idosos - não-combatentes - cujas partes expostas se encontravam completamente queimadas por um agente que se supõe ser fósforo branco, hipótese que é confirmada por pelo menos um soldado norte-americano que participou no ataque a Faludja.

Sabemos agora que, tal como o exército iraquiano bombardeou nos anos 80 a cidade de Halabja com químicos, para matar, de forma bárbara, a sua população civil, o exército norte-americano fez o mesmo, em 2004, na cidade de Faludja.

Muito instrutivo.

Retrato de Luís Lavoura

A economia liberal obriga à resolução de alguns problemas difíceis.

Ao que julgo saber, a prevista barragem do Baixo Sabor está parada à espera que o Estado decida que compensação está disposto a pagar à EDP pela criação de uma "reserva estatégica de água". Acontece que a barragem não é rentável em termos apenas da produção de energia elétrica. Por outro lado, tem a alegada vantagem de criar uma "reserva estratégica de água" totalmente portuguesa (uma vez que o rio Sabor, embora nascendo em Espanha, o faz mesmo junto à fronteira, logo toda a sua água é portuguesa). (A barragem teria também, alegadamente, o valor de controlar cheias no rio Douro.) Resta saber qual o valor monetário dessa reserva estratégica de água. Dependendo do valor que o Estado português esteja disposto a pagar à EDP para ter tal reserva, assim poderá ser, ou não, rentável a construção da barragem.

É claro que, em tempos idos e menos liberais que os atuais, o Estado teria construído a barragem sem fazer muitas contas.

Outra questão interessante é a central nuclear que Patrick Monteiro de Barros quer construir em Portugal. Ele diz que é rentável produzir eletricidade a partir de energia nuclear! Muito bem, diria eu, então produza-a... invista o seu dinheiro, construa a central nuclear... se tiver sucesso, se conseguir vender a eletricidade produzida e ganhar dinheiro, tanto melhor para si! Mas a questão não parece ser assim tão simples. Que quererá Monteiro de Barros do Estado para construir a central nuclear?

É claro que, no passado, nunca centrais nucleares foram construídas sem uma importante cobertura do risco, se não mesmo do investimento, por parte do Estado... presumo que Monteiro de Barros esteja a negociar com o Estado alguma forma de tal cobertura.

Nao sou frances, ate' compreendo a medida mas assusta-me.

Acho que e' bater no fundo pq falamos da Franca, plena Europa, o velho continente. Estou muito preocupado pq claramente nao vai ser um fenomeno local nem a Paris nem a Franca.E' a Europa que bateu no fundo.

Preocupa-me que, antes de tudo, seja um sinal dos tempos, uma especie de inevitabilidade. As politicas sociais europeias das ultimas decadas falharam.

Em parte tem de acontecer, e aqui coloco-me na pele do profeta da desgraca. E' preciso uma certa renovacao. Mais medidas concretas e menos ideologias que nao levam a lado nenhum. A unica licao positiva que se pode tirar e' de que os sistemas politicos tem de ser repensados.

De um ponto de vista liberal, apetece-me dizer que a Franca, com uma certa tradicao socialista, e' o caso de que nao pode ser por aqui que estes problemas se resolvem. Tudo sao instrumentos mas no final e' as pessoas que queremos beneficiar. E' que as pessoas somos nos. E se foi exactamente nas pessoas que as politicas fracassaram, a politica falhou redondamente.

O que esta' por detras, como foi dito noutro blog do MLS, e' a frustracao. Nao ha' empregos, nao ha' fugas para a auto-realizacao e auto-determinacao. Cada pessoa sente-se incrivelmente frustrada. E' uma especie de cativeiro.

E por isso e' uma questao de liberdade. No sec XXI, liberdade ja' nao e' andar na rua ou dizer o que se pensa. Liberdade e' realizacao pessoal, e' ter poder para definir a sua vida. Um Estado que mede tudo pela mesma bitola, que tenta controlar as vontades individuais, que tenta centralizar o incentralizavel (!), nao pode continuar a existir.

Estamos numa especie de ditadura da personalidade. Em Franca, queimar carros e' dizer que faco o que me apetece pq nao ganho nada em fazer o que me dizem enquanto me dao uns trocos para o bolso.

fica o desabafo.

Era uma vez uma familia de 7 irmaos pequeninos cujos pais tinham rendimentos muito baixos. Mesmo assim, os pais preocupavam-se em dar a cada filho uma mesada que, embora curta, permitia a cada filho ter uma certa autonomia, naturalmente dimensionada 'as respectivas idades.

Um dia, os irmaos reuniram-se e decidiram pedir mais mesada. Os pais tiveram uma conversa com eles e tentaram explicar que nao e' possivel e que, caso aumentassem as mesadas, teriam de cortar noutras despesas bem mais importantes como a qualidade das refeicoes.

Os irmaos, criancas que sao, nao compreenderam bem isso e instalou-se uma especie de revolta entre todos. Acharam que os pais estavam simplesmente a ser severos e que nao queriam era aumentar as mesadas para terem mais dinheiro para eles proprios.

Decidiram voltar a falar com os pais mas, agora, usando outra estrategia: o irmao mais velho iria tentar convencer os pais das vantagens que seria aumentar as mesadas dos irmaos. Para isso, reuniram-se e tentaram encontrar bons argumentos que o irmao mais velho pudesse expor aos pais.

No dia seguinte, o irmao mais velho apresentou aos pais uma serie de argumentos:
- que seriam mais felizes
- que com dinheiro ate' poderiam ter liberdade para arranjar um emprego e, assim, contribuir para o orcamento da casa
- que teriam mais meios para se formarem com qualidade
- que, inclusivamente, com a sua propria mesada, poderiam gastar em artigos para a casa
- etc.

Os pais voltaram a dizer que o dinheiro nao chega e que nao e' possivel aumentar a mesada a todos.

*THE END*

As vezes parece que os sindicatos sao os 7 irmaozinhos: nao percebem o que estao a pedir, desconfiam arbitrariamente das intencoes do Estado, usam todo o tipo de argumentos para pedir aumentos e nunca fazem propostas crediveis para tentar obter o que pretendem.

Debate sobre o novo aeroporto. Sobre se é um projecto que faça sentido, ou pelo contrário, uma elefante branco criado pelo governo PS.

Retrato de Miguel Duarte

Os distúrbios em França nos últimos 11 dias têm-me dado muito que pensar, mas, tenho que admitir que até hoje não tinha uma opinião formada sobre os mesmos.

São actos criminosos, sem dúvida, e ao contrário de muita opinião pública francesa não considero que este tipo de violência seja justificável, como forma de protesto, numa sociedade democrática.

Agora, obviamente, existe questões muito mais profundas a debater. Principalmente o que leva as coisas a chegarem a este ponto e quais as soluções para evitar que isto aconteça no futuro, em França ou em outros países.

Num ponto concordo com a esquerda francesa, aquilo que está a acontecer é devido aos 30 anos de exclusão e esquecimento a que foram votados os emigrantes em França, originários de países onde a integração numa sociedade ocidental é mais complicada.

Aquilo que se vê agora não é a revolta da 1ª geração, que vive hoje em França, apesar de tudo, muito melhor que nos seus países de origem, mas de umas 2ª e 3ª gerações que devido a vários factores não são capazes de satisfazer as ambições que têm.

E não é preciso ir muito longe para ver o que está a acontecer em França. Basta olhar para os nossos próprios guetos. As novas gerações não conseguem ter o aproveitamente escolar que lhes daria acesso a uma vida melhor, ou muitas vezes não o valorizam, mas, desejam obter os bens de consumo que a sociedade de consumo lhes apresenta.

A própria sociedade, em França e em Portugal, não permitiu a construção de modelos positivos, que pudessem guiar as novas gerações.

Li algures na net, por um americano de esquerda, que a Europa deveria como lá, adoptar a discriminação positiva. No entanto, qualquer tipo de discriminação é algo que me repugna. Seja ela positiva ou negativa, pela sua injustiça inerente.

No entanto, há algo que não me repugna que é dar ferramentas às pessoas para serem bem sucedidas. E se necessário usar mesmo algumas cenouras.

Considero que a chave está na educação. E em criar condições para que essa educação aconteça. Infelizmente, como é possível observar em Portugal, não basta que a escolaridade seja obrigatória e o ensino gratuito para que a educação floresça. É preciso muito mais. É necessário um ambiente familiar minimamente estável, é necessário apoio escolar (que o meio familiar não consegue nestes tipo de imigração dar), são necessários modelos que cativem a ambição dos jovens num bom sentido, são necessários espaços para estudar, é necessário um rendimento mínimo para os estudantes e muito mais.

No fundo, é necessário garantir a todos um verdadeiro acesso à educação, como ferramenta essencial para um sucesso futuro na vida adulta.

Mas numa sociedade onde existe discriminação, ter-se uma educação muitas vezes não chega. Por mais educação que se tenha, por vezes, o simples facto de termos uma determinada cor de pele pode ser uma barreira a encontrar-se emprego.

Por isso, é também fundamental criarem-se formas de promover e apoiar o empreendedorismo entre estas primeiras gerações de emigrantes. Mostrar-lhes que podem pelos seus próprios meios subir na vida e alcançar aquilo que sonham. Alguns serão bem sucedidos, outros não, é certo. Mas criando-se uma comunidade forte, esta irá ajudar os seus e toda a comunidade acabará por se integrar na sociedade onde está inserida.

Estes apoios podem consistir em coisas tão simples como o micro-crédito, a construção de pequenas oficinas e escritórios, nós próprios bairros, alugados nos primeiros anos a preços acessíveis e a criação de gabinetes de apoio, também nos próprios bairros, à actividade empresarial. No fundo, criar em cada bairro social pequenas incubadoras de empresas, que possam dar às pessoas algo a que se agarrar e criar casos de sucesso que possam ser seguidos por quem procura um rumo para a sua vida.