Retrato de Luís Lavoura

Estou agora a ler o livro "Quando a China mudar o mundo", de Erik Izraelevicz (tradução do francês), que foi há pouco editado entre nós. Parece-me um livro excelente, que recomendo a todos os liberais.

O autor salienta que os salários numa província industrial chinesa não se alteraram (isto é, não subiram) nos últimos 10 anos, e que os industriais dessa região afirmam não esperar ter necessidade de subi-los durante 10 anos mais. Explicação: o enorme "mercado de reserva" de trabalho existente. Há na China um enorme desemprego (e emprego fictício), que impede e impedirá, durante muito tempo ainda, os salários de subir.

Durante esse tempo, a China poderá ir subindo na escala da tecnologia, ao mesmo tempo que manterá, graças à mão-de-obra barata, o domínio nos bens de baixa tecnologia.

No entanto, diz o autor, há um limite temporal para isto, que ele estima em 15 anos. De facto, devido à política do filho único, a demografia chinesa entrará em contração daqui a 15 anos, mais ou menos. A partir dessa altura, o trabalho tornar-se-á progressivamente escasso, e portanto caro, na China.

É interessante pensar que, segundo o autor, aquilo que ditará o final da "invasão" chinesa do Ocidente não será um efeito económico, mas sim um efeito demográfico.

A ler, em qualquer caso.

Retrato de Luís Lavoura

O ministro do ensino superior, José Mariano Gago, tomou ontem, na sua entrevista televisiva na 2:, hoje publicada por escrito no jornal Público, uma posição muito determinada contra as "praxes académicas". É de saudar esta posição clara e inequívoca, que contrasta com tibiezas que já levam dezenas de anos.

No entanto, para que esta posição pessoal do ministro se traduza na prática, é preciso que ela se reflita na atuação concreta das autoridades do ensino superior, nomeadamente das direções das diversas escolas e universidades. E essa atuação está bloqueada pela dependência que essas autoridades têm, na generalidade, do voto do "corpo" dos estudantes para a sua manutenção no cargo.

As praxes só acabarão quando acabar a importância descabida que o "corpo" dos estudantes tem na eleição das autoridades académicas. É desejável, não só que essa importância descabida diminua, mas que de facto seja extinto todo o sistema corporativo no qual a governação das universidades está baseada.

A democracia não pode, neste como noutros casos, ser confundida com o corporativismo.

Retrato de Luís Lavoura

O mercado da habitação tem caraterísticas peculiares que fazem com que tenha que ser bem compreendido, e tratado com grande cuidado.

O que se passa é que a habitação, se é por um lado um bem de primeira necessidade para toda a população, é também, simultâneamente, para todos aqueles que possuem uma casa ou apartamento, um produto de aforro, isto é, de poupança.

Como consequência, a habitação tem dois valores económicos diferentes: o seu valor de uso, e o seu valor como poupança. E esses valores divergem fortemente.

Com a queda da taxa de juro e as convulsões no mercado acionista, cada vez mais pessoas, em todo o mundo, se viram para a habitação como forma de aplicação das suas poupanças. As pessoas compram casas na esperança de que elas se valorizem sempre; de facto, poucas pessoas aceitam vender uma casa por um valor inferior àquele pelo qual a compraram. Esta atitude é totalmente diferente daquela que as pessoas assumem quando comercializam um qualquer outro bem - um automóvel, por exemplo. As pessoas assumem a postura de que as casas se valorizam sempre - que elas têm obrigatoriamente que se valorizar e, de facto, devem valorizar-se a uma taxa bastante superior à da inflação.

Ora, o valor de uso de uma casa, pelo contrário, mantem-se constante ou, por vezes, até diminui. A casa deteriora-se, e por vezes o bairro também se deteriora. A casa passa então a ter menos utilidade para ser habitada. Ou seja, o seu preço deveria descer.

Mas não desce, precisamente porque, além do valor de uso, a casa tem um valor de aforro, o qual lhe é muito superior.

A divergência ente o valor de aforro e o valor de uso é um enorme problema. Porque as casas são, de facto, um bem de primeira necessidade. As pessoas precisam de facto delas para morar. Não podem admitir que uma coisa que é útil, que é de facto um bem indispensável para qualquer um, seja tratado por quem o possui como sendo um objeto de especulação.

(Quando digo especulação, não uso o termo em sentido pejorativo. Todos nós "especulamos" quando vendemos uma casa. Todos tentamos obter por ela um valor superior àquele que por ela pagámos no passado.)

Por hoje, fico-me por aqui.

Sócrates considerou "absolutamente demagógica e fantasista" a proposta da CGTP de fazer subir o salário mínimo nacional para 500 euros até 2010.
Não conheço pormenores dessa proposta, mas acredito que tenha sido devidamente fundamentada e que merecesse, pelo menos, alguma atenção por parte do primeiro-ministro.

Porém, José Sócrates optou por descartar a proposta em três tempos, alegando que "uma tão súbita variação nos salários só traria mais desemprego e aumento da inflação". Será assim tão claro que uma coisa seja consequência da outra? Será que o efeito psicológico desse aumento do salário mínimo não dinamizaria o consumo interno, ajudando assim à recuperação da economia e, eventualmente, à criação de emprego?

Já se viu perfeitamente que não foram as medidas de contenção aplicadas pelos três últimos governos que evitaram o aumento do desemprego e a subida da inflação. Aliás, a única coisa que aumentou durante este tempo foram os escândalos públicos relacionados com as elevadas reformas e subvenções estatais de alguns (ex-)responsáveis políticos.
Se tal antes não suscitara falatório público não era porque não existisse, mas porque o fosso entre ricos e pobres era menor, o que dava um dramatismo menos mediatizável à questão.

Assim sendo, é preciso inverter o sentido deste fosso - fazê-lo diminuir em vez de aumentar. É preciso contrariar a actual política de salários baixos que vigora em Portugal e que, como já se viu, só gera miséria em grandes camadas da população. É que, com miséria não há liberdade.

Retrato de Miguel Duarte

Um governo PS tem destas coisas. Uma empresa de sucesso e privada, acaba de ser adquirida pela CGD e pela Sumolis, tendo nesta parceria a CGD 80% e a Sumolis apenas 20%

A justificação dada pela CGD para a presença em tão grande percentagem no negócio (nada teria contra se fosse uma posição minoritária), foi “manter a empresa em mãos portuguesas” e considerar esta acção um investimento financeiro.

Relativamente a “manter a empresa em mãos portuguesas”, às custas do dinheiro público, é uma vergonha, até porque havia outras empresas nacionais na corrida à empresa. Mesmo que uma empresa internacional ganhasse o negócio, é duvidoso que fosse destruir o investimento realizado. O mais provável é que a aquisição da Compal por uma empresa estrangeira a ajudasse a ganhar novos mercados para os seus produtos. Algo benéfico para um dos objectivos já assumidos pelo governo.

Quanto ao investimento financeiro, é algo muito duvidoso. A Caixa pagou pela Compal mais de 20% a 30% que a concorrência. A Sumolis, se bem que opere na mesma área e apresente algumas sinergias com a Compal, dificilmente poderá gabar-se de ter capacidade de gestão na área (em 2004, a Sumolis perdeu 2,4 milhões de Euros e a Compal teve um lucro de 10,8 milhões de Euros). Ou seja, a CGD fez provavelmente um investimento em que irá perder dinheiro, e pior, pode vir a prejudicar gravemente o desenvolvimento da Compal.

O meu único desejo é que a CGD se abstenha de se envolver na gestão da Compal, deixando essa tarefa para a equipa que lá está e que tem apresentado excelentes resultados e que a Sumolis não passe eventuais más práticas para a Compal.

Quem ficou a perder?

Os contribuintes, dado a CGD ser um banco público.

A economia portuguesa, por mais uma distorção de mercado, onde uma empresa mal gerida (com prejuízos) e um banco estatal, ganharam o controlo de uma empresa bem gerida.

Quem ganhou com tudo isto?

A Sumolis, pois graças a este investimento, para o próximo ano, mesmo que o seu negócio continue a correr mal, vai poder apresentar lucros, graças aos bons resultados que a Compal tem tido.

A Nutrinveste, que ganhou mais 20% a 30% com a venda da Compal do que poderia ter ganho se o Estando não se tivesse metido ao barulho.

A historia resumida ate' agora. Cavaco Silva menciona que nao e' um politico profissional, sugerindo que Mario Soares o e'. Mario Soares desafia Cavaco Silva a explicar o que e' uma politico profissional e a provar que tb nao e' um, ja' que possui rendimentos devidos 'a actividade politica. Cavaco Silva recusa-se a responder e argumenta que toda a sua vida e' bem conhecida e que todos os seus rendimentos foram publicados numa edicao de Setembro do Publico.

O comportamento de Cavaco Silva parece-me correcto e adequado por varias razoes. Acima de tudo, nao entra em politiquices. Apesar de ter sido ele a iniciar a discussao, qdo o ouvi nao tive duvidas do que ele queria dizer: politico profissional e' a pessoa cuja principal actividade e', e sempre foi, a politica. Inclui, embora acabe por ser uma questao menor, rendimentos. Politico profissional e' aquele cujos rendimentos sao, na sua maior parte, derivados, directa ou indirectamente, da actividade politica.

Foi assim que entendi e nao percebo qual a discussao. Cavaco Silva e', e situa-se como tal, professor e economista e os seus rendimentos sao essencialmente devido a essas actividades. Mario Soares nunca fez mais nada (ao que sei) senao ser politico.

E dai? Onde esta' o problema? Se o proprio Mario Soares acha ofensivo ser chamado de politico profissional, o que e' que isto significa...?

De um ponto de vista pessoal, tb nao gostava de ser chamado de politico profissional. Mas isso sou eu...

Seja como for, acho bem que Cavaco Silva nao entre neste tipo de discussoes. Ha' coisas bem mais importantes para discutir do que o estatuto de politico profissional.

Hoje nas cartas ao director d'O Público, vem um artigo assinado pelo Prof. (jubilado) do IST António Brotas sobre Ota, TGV e o papel do futuro PR no diálogo com o governo nestas matérias. O artigo pode ser lido aqui.

Basicamente põe o dedo, e bem, nas feridas do costume (ausência de estudos, portela não vai esgotar assim tão cedo, bitola europeia, etc...) mas lança o repto aos candidatos a presidente, para que, no enquadramento das suas funções e poderes, exijam do governo as mais cabais explicações sobre um projecto (ou dois, com o TGV que também carece de explicações, bom senso e pragmatismo) que marcará "a geografia do país durante um século". E di-lo, não reclamando uma intervenção na esfera governativa, ou sequer ameaçando com a bomba atómica da dissolução, mas antes, sugerindo ao futuro PR que sirva de mediador privilegiado entre a população e o governo, com autoridade para exigir o que é exigível. Aí concordo em absoluto, que os poderes "soft" do PR podem fazer a diferença.

Ou um governo que endivida gerações ao fazer obras megalómanas de necessidade contestável, sem esclarecer os devidos propósitos e ao arrepio da vontade popular, e (mais importante?) dos estudos científicos e das opiniões abalizadas dos peritos da área, é ou não um "irregular funcionamento das instituições democráticas"?

Eu acho que é.

Retrato de Luís Lavoura

Segundo notícia do Correio da Manhã, hoje re-noticiada pelo Público, o Estado vai, já em 2006, reformular o imposto municipal de circulação, vulgo selo do carro. As alterações previstas parecem-me muito positivas.

1) Em vez de o proprietário do veículo ter que se lembrar, todos os meses de Maio, de comprar o selo, preenchendo para isso uns formulários supérfluos, o Estado passará a enviar para casa do cidadão a "fatura" daquilo que ele tem a pagar. Assim é que se faz em qualquer país civilizado. O cidadão tem menos trabalho e não perde tempo. Paga por Multibanco, da mesma forma que a contribuição autárquica, por exemplo.

2) O imposto passará a ter que ser pago mesmo que o veículo não circule. Isto é muito positivo, porque obriga os proprietários a abater os veículos de que não necessitam, em vez de os deixar abandonados na rua, como é costume muitos fazerem. A reciclagem dos veículos sai estimulada, uma vez que o proprietário de um carro, se quiser deixar de pagar imposto por ele, será obrigado a entregá-lo a um sucateiro. A posse de veículos com pouca utilização, mas que ocupam lugar na via pública, é desincentivada. A revenda dos veículos a quem deles necessita é estimulada. O Estado passa a saber exatamente quantos veículos efetivamente existem, e pode programar as suas políticas em função deles.

Até que enfim que o Estado se decide a fazer esta pequena mas útil reforma.

Achei sensacional esta cronica do Pulido Valente. Para ser honesto, nao sei se gosto ou nao ou se concordo ou nao.

Mas dado que escrevi um texto de apoio a Cavaco Silva, achei que este serve perfeitamente como contrapeso.