Retrato de David Cruz

António Bagão Félix, João César das Neves e Pedro Quartim Graça são alguns dos principais signatários de uma petição pública à Assembleia da República, designada «Defender o Futuro», que pretende contestar as leis do casamento entre pessoas do mesmo sexo, aborto, divórcio, procriação medicamente assistida, entre outras. O presente artigo não pretende discutir as leis em questão, mas assinalar uma incoerência grave que se encontra nos princípios da petição.

Segundo os autores, a legislação que regula a procriação medicamente assistida, onde se incluem as técnicas de inseminação artificial e de fertilização in vitro, enquadra-se num conjunto de leis que “têm vindo a corroer o tecido social do país”. Na mesma página da petição, defende-se “uma política de responsabilidade e solidariedade expressa em leis que (…) protejam e promovam a natalidade”. Na verdade, a demonstração de reservas quanto à aplicação das técnicas de procriação medicamente assistida não é, de todo, congruente com o interesse de incrementar o número de nascimentos.

Para além da diminuição da descendência média, a maternidade tardia constitui uma das principais tendências reprodutivas que se têm vindo a acentuar, nos últimos anos, em Portugal. Neste âmbito, os dados estatísticos são elucidativos: se no início da década de 1980 a idade média da mãe da mãe ao nascimento do primeiro filho se encontrava nos 23 anos, na actualidade aproxima-se dos 30 anos; e se em 1995 os nascimentos de mães com 35 e mais anos representavam apenas 10% do total de nados vivos, em 2011 representaram cerca de 24%. É plausível que quer a idade média da mãe ao nascimento ao primeiro, quer a percentagem de nascimentos de mães com 35 e mais anos, continuem, substancialmente, a aumentar.

No entanto, a afirmação da maternidade tardia é incompatível com a deterioração da capacidade humana reprodutiva que tende a acentuar-se com a idade. Verifica-se, no caso das mulheres, um agravamento substancial na transição da casa dos trinta para os quarenta anos. Deste modo, é expectável que se assista, nas próximas décadas, a um incremento significativo dos diagnósticos de infertilidade. É precisamente neste campo que a procriação medicamente assistida pode desempenhar um papel crucial, através do prolongamento na idade dos limites biológicos para a reprodução. Em suma, estas técnicas potenciam a conciliação de duas tendências inicialmente opostas: uma de natureza biológica, outra de carácter sociocultural.

Publicado no Nove por Dez

Retrato de Luís Lavoura

Um ponto de vista muito realista e bem fundamentado, o de Ricardo Cabral, aqui transcrito.

Retrato de Luís Lavoura

Vi ontem num noticiário televisivo que a presidente da Câmara Municipal de Caminha se deslocou ao Brasil com vista a promover junto dos brasileiros (e dos emigrantes portugueses no Brasil, e dos seus descendentes) a compra de apartamentos no concelho de Caminha. Mostraram na reportagem televisiva os ditos apartamentos, um bloco de prédios novinhos em folha quase junto ao mar e que, segundo se afirmava na reportagem, se situam bastante perto do centro de Caminha.
Perante esta reportagem, eu questiono-me se a presidente da Câmara de Caminha é uma promotora imobiliária, ou uma agência de venda de imobiliário, e se aqueles prédios que foram exibidos na televisão, em particular, pertencem à Câmara, ou se a Câmara foi angariada pelo seu proprietário para promover a sua venda, e quanto receberá por esse trabalho.
É que, que eu saiba, o trabalho de angariação de compradores para uma qualquer propriedade imobiliária só pode ser exercido por agências creditadas para o efeito, e esse trabalho é pago a essas agências. Será que a Câmara Municipal de Caminha é uma agência de venda de imobiliário? E quem lhe paga para isso?

Retrato de Luís Lavoura

Usualmente, em Portugal, o debate público sobre o sistema de financiamento das pensões de reforma é restringido a duas opções: o sistema atual, ou então um sistema de capitalização baseado nas poupanças individuais de cada um.

É por isso muito instrutivo ler um artigo (em inglês) na edição desta semana do Economist, que mostra que há um outro sistema, que mistura elementos dos dois anteriores, que parece ser tão sustentável quanto possível, para o qual se pode transitar imediatamente (ou de forma gradual), que de facto já é aplicado em diversos países europeus (Suécia, Itália, Polónia, Letónia), e que recebe aplausos da parte do Banco Mundial.

O mundo afinal não é só a preto e branco.

Retrato de Luís Lavoura

Com a remodelação governamental de hoje, Portugal passa a ter como secretário de Estado do Turismo um homem com pergaminhos liberais bem documentados.

Veremos agora o que ele faz na prática. Pode ajudar o turismo de uma de duas formas: ou apoiando-o, direta ou indiretamente, com dinheiros do Estado (*), ou eliminando restrições burocráticas, fiscais, ou de outra natureza, que de alguma forma entravem a atividade turística. Se utilizar a primeira forma será mau, se utilizar a segunda será bom. Terá que ter o cuidado, porém, de não eliminar restrições de caráter ambiental que são eminentemente razoáveis.

(*) Uma forma indireta de o Estado o fazer é financiar programas de turismo para a Terceira Idade que, na prática, se destinam efetivamente a sustentar hoteis durante a Época Baixa.

Retrato de Luís Lavoura

Há dois anos, o amigo ocidental deu uma generosa ajuda ao povo da Cirenaica na sua rebelião contra o poder de Kadhafi instalado em Trípoli. Mas parece que o povo da Cirenaica não está agora tão grato assim: a cidade de Benghazi é atualmente considerada demasiado perigosa para um europeu.
Além de que a Líbia, dantes um país seguro e confiável, se transformou num vespeiro de grupos (bem) armados e de livre tráfico de armas, com consequências gravosas para os países próximos, por exemplo o Mali.

Retrato de Luís Lavoura

A socialista Ana Gomes aplaude enfaticamente a intervenção armada da França no Mali.

Ana Gomes não nos explica, porém, de todo, quatro coisas.

(1) Como tem ela a certeza de que os rebeldes que combatem o governo do Mali são islamitas associados à Al Qaeda? Sabe-se que boa parte das forças rebeldes são tuaregues que apenas lutam por motivos nacionalistas (querem ter um Estado próprio). E sabe-se que há também islamitas. Mas não parece certo que os islamitas tenham mais importância ou mais poder que os tuaregues. Pelo contrário, sabe-se que já entraram em conflito, os islamitas com os tuaregues. Nem parece certo que os islamitas estejam necessariamente afiliados com a Al Qaeda - há muitos islamitas neste mundo que querem um poder islâmico mas não praticam terrorismo internacional.

(2) Se se quer combater os islamitas, porque se combate também os tuaregues? Não seria muito mais lógico apoiar os tuaregues na sua luta pela independência, e ajudá-los a dominar os islamitas que com eles se aliaram oportunisticamente? Porque se pretende manter um Estado maliano unitário que não tem qualquer coerência interna, que junta árabes no norte com negros no sul, que junta nómadas no norte com sedentários no sul, que não passa de uma consequência do colonialismo?

(3) Por que é que é nosso dever ir ajudar os malianos supostamente oprimidos pelo poder islamita? Há muitos povos por este mundo fora oprimidos por forças tirânicas, mas nós não invadimos os países deles para os ir libertar. Por que deveremos atuar diferentemente no caso do Mali? Em que é que o poder islamita no Mali é mais perverso e mais opressor do que tantos outros regimes que há por esse mundo fora? Que temos nós que nos irmos imiscuir nos problemas de uma população estrangeira alegadamente oprimida? Se há um povo oprimido, compete a esse povo manifestar a vontade de se libertar do opressor e, eventualmente, fazê-lo - não nos compete a nós.

(4) Em que é que um Estado islamita no Mali nos prejudicaria e colocaria a nossa segurança em risco? O Mali fica a muitos milhares de quilómetros da Europa. É um país muito pobre. Em que é que nos poderia pôr em risco? Não há medidas a tomar, aqui na Europa, que podem, de forma muito mais barata, impedir eventuais ameaças terroristas?

Retrato de David Cruz

Não há consenso quanto ao fluxo de saídas da população residente em Portugal. Recentemente, o Instituto Nacional de Estatística (INE) revelou que, em 2011, emigraram 44 mil pessoas. O Governo acredita que o fenómeno foi mais intenso. O Secretário de Estado das Comunidades, José Cesário, desvalorizou as estimativas do INE ao afirmar que, nos últimos anos, têm saído anualmente cerca de 100/120 mil nacionais. Ou seja, valores comparáveis à vaga emigratória ocorrida durante a década de 1960.

Na verdade, nenhuma das fontes é fidedigna. Não é possível mensurar a emigração, pois este fenómeno não é sujeito a qualquer registo. Actualmente, um indivíduo que deixe o país não precisa de declarar às autoridades a sua saída, nem é alvo de qualquer tipo de inquérito. Na melhor das hipóteses, os migrantes poderão ser identificados nos países de destino através dos vistos e autorizações de residência. As dificuldades de registo aumentam caso o país de destino pertença à União Europeia, no qual vigora a livre circulação de pessoas. Como tal, os números dos movimentos emigratórios divulgados pelo INE constituem apenas uma estimativa.

Outra explicação para os números distintos pode estar no próprio conceito de emigrante. Segundo o INE, um “Emigrante permanente” é uma “pessoa (nacional ou estrangeira) que, no período de referência, tendo permanecido no país por um período contínuo de pelo menos um ano, o deixou com a intenção de residir noutro país por um período contínuo igual ou superior a um ano”. É provável que a Secretaria de Estado não tenha considerado o critério de duração da permanência no país de destino. De acordo com INE, não é considerado um caso de emigração, por exemplo, uma saída temporária para Angola com a duração de 10 meses.

A realidade socioeconómica nacional sugere que os dados do INE estejam subestimados. No entanto, o “palpite” do Secretário de Estado é exagerado. Não estamos perante tal sangria populacional, pois isso manifestar-se-ia noutros indicadores demográficos sujeitos a registo.

Publicado no blogue Nove por Dez

Retrato de Luís Lavoura

Convem também saber que, tal como foi feito notar por Ricardo Arroja, o lançamento com sucesso de nova dívida portuguesa nos mercados foi executado numa altura em que estes estão bull em obrigações de alto rendimento e alto risco, obrigações que dantes eram chamadas junk bonds (obrigações lixo) e hoje são eufemisticamente chamadas "não investment grade". Ou seja, o sucesso do governo português na colocação das suas junk bonds tem pelo menos tanto a ver com o estado dos mercados como com as finanças portuguesas propriamente ditas.

Retrato de Luís Lavoura

Para mim, não há qualquer dúvida de que o homem do ano 2012 é Mario Draghi, governador do Banco Central Europeu, o qual proferiu a frase do ano 2012:

                                                   "and believe me, it will be enough".

Foi essa frase, foi esse homem, foi essa instituição, que resolveram, ou estão a resolver, a crise do euro. E o resto é conversa.